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Introdução

 

 

            Tendo me aposentado em 2007 resolvi utilizar o tempo que me restava para me dedicar a tarefas para as quais eu, durante a minha vida profissional, não tinha tido oportunidade, seja porque requeriam maior dedicação e porque na ativa eu era excessivamente absorvido por tarefas de curto prazo, seja por medo de me expor demais. Fiz uma longa lista de trabalhos que me interessavam, que iriam me proporcionar prazer e para os quais eu achava que tinha aptidão. Entre estas tarefas não havia nada que lembrasse, nem de longe, uma autobiografia.

É comum, ao atingir-se certa idade, surgir o interesse em escrever suas memórias. Finda a etapa da vida em que a atividade profissional ocupa o centro, filhos já criados, vida amorosa estabilizada, é normal que o interesse, ou, a libido, ou melhor, o que resta dela, voltem-se para fazer uma retrospectiva, um balanço da vida que passou. Procura-se com as memórias chegar a uma síntese, fazer um resumo do que se fez.

Devo dizer que isto não passou pela minha cabeça. Não que eu não tenha vivido uma vida plena de episódios de interesse, mas, em minha opinião, foram tão somente episódios, ou seja, coisas pontuais. A minha vida como um todo foi uma vida normal e comum. Fui um homem comum, e, dentro de certa ótica que não é a minha, fui um homem medíocre. Nada de feitos retumbantes, jamais recebi prêmio algum, nenhuma carreira meteórica, nenhum grande reconhecimento, nenhuma grande obra e as alegrias que tive, muitas, foram as do dia-a-dia.

Para pessoas com certo nível de auto-estima, e me considero pertencente a este seleto grupo, deve ser triste chegar à conclusão que a sua vida não vale a estima que se tem por ela. Deve baixar a auto-estima, diria até que deve acabar com ela. No meu caso, o que me salvou, foi ter chegado à conclusão que, se, de fato, a minha vida não valia a pena ser relatada, havia algo sim da minha vida que o valia.

Passei por dificuldades, crises existenciais, dor e sofrimento, como todo homem normal, como todo ser humano comum. O que ocasionou este sofrimento não vale muito a pena ser contado, a menos que seja para ilustrar, para tornar concreto e palpável o sentimento. Foram frustrações profissionais, uma briga com um amigo, desilusões amorosas, um rompimento com um parente, uma morte ou acidente, do tipo que acomete a maioria dos homens normais e dos seres humanos comuns. A dor do sofrimento, no entanto, não guarda relação nenhuma com o normal e o comum, ou seja, não é pelo fato do agente imediato causador do sofrimento ser normal e comum, que a dor é maior ou menor. Dor é dor, não importa se o motivo que a causou é bobo, leviano ou, até mesmo, ridículo.

Se o fato imediato que originou o sofrimento não vale a pena ser relatado, a menos que seja a título de ilustração, o que, em minha opinião, vale sim ser relatado, é o método que usei para lidar com o sofrimento. Face às dificuldades encontradas, o que eu fazia era pegar lápis ou caneta, colocando no papel tudo o que me vinha à cabeça, sem grande sistematização, nem elaboração ou reflexão. A maior parte deste material são garranchos, quase ininteligíveis e o primeiro destes manuscritos disponível, data de 1976. Certamente existem escritos anteriores, mas estão perdidos entre a minha papelada, no meio dos diários, cartas para amigos e parentes.

De uma maneira muito sintética e muito superficial, condizente com esta introdução, a finalidade desta, chamemo-la auto-análise, era dupla. De um lado visava ajudar a desconstruir fantasmas. Chamo de fantasmas todos aqueles medos aparentemente sem sentido, sem razão e sem fundamento, pelos quais, frequentemente somos assaltados. Na medida em que se põe o medo no papel, cria-se um distanciamento. Ele sai do sujeito e vira objeto: o papel. Além disso, a própria confrontação com a luz da realidade e da racionalidade, ajuda a desconstruir aquilo que vive e se alimenta de trevas e fantasias.

A segunda finalidade da análise é a ordenação das idéias, inseri-las em um contexto e dar-lhes forma. Talvez isto me seja particular, talvez seja estranho à maioria das pessoas, mas tenho pavor de desorganização [1]. A ordem permite prever e planejar, preparar-se para o inesperado e elaborar uma reação para os fatos que ocorrem, tranqüilizando e reconfortando. Por outro lado, a necessidade de prever e planejar sinaliza insegurança, e, ordem, costuma se opor a movimento e transformação. Como resolver este impasse? Como veremos, a saída foi desordenar a ordenação através da dialética.

Mas, vamos por partes! Estou me antecipando. O livro do qual estou aqui escrevendo a introdução trata de todos estes temas. Nele examino porque o entendimento pode ajudar a minorar dor e sofrimento. Além disso, procuro verificar o seu significado e a sua essência, da qual certamente fazem parte a dialética, a transformação e o movimento.

Voltando novamente para o breve histórico das origens deste livro, o que eu dizia era que face às dificuldades encontradas, seja no campo profissional, seja no campo emocional ou afetivo, o método por mim utilizado para tentar superar medos, angústias e preocupações, consistia em fazer uma auto-análise escrita. Isto me acalmava e me levava a reconhecer que muitos medos ou preocupações estavam recebendo uma dimensão exagerada. Permitia também ordenar os pensamentos e colocá-los dentro de um contexto. Além disso, tornava possível separar aquilo que é possível mudar, daquilo que a gente simplesmente tem que aceitar [2]. Sempre oscilei entre estes dois pólos, de um lado, o ativismo e a laboriosidade ocidentais, do outro lado, uma atitude mais contemplativa, mais oriental, que tenta aceitar o mundo do jeito que ele é [3].

Como resultado de todos estes anos de auto-análise, colocando as coisas no papel, tentando ordenar os pensamentos e enquadrá-los dentro de um fluxo, não digo normal, mas, ao menos, viável, o fluxo ganhou corpo, materializou-se. Como resultado de análise e reflexão, cristalizou-se uma via, um caminho que inclui e dá sentido à minha vida. O pensamento deu corpo a uma visão de mundo (cosmovisão ou Weltanschauung) que também será aqui apresentada [4].

Já deve ter ficado claro pelos parágrafos anteriores, que, dentro da minha visão, terapia e cosmovisão andam de mãos dadas [5]. Através do entendimento do problema e da sua inserção em um contexto mais amplo, dá-se um primeiro passo na redução de angústia e dor. Quanto mais amplo o entendimento e mais completa a inserção, maior é a redução da dor. Uma fundamentação mais sólida para esta afirmação será dada mais adiante.

A temática central do presente livro é, portanto, terapia e cosmovisão, ou seja, trata-se de expor uma cosmovisão terapêutica, onde dor e sofrimento tenham o seu lugar e se expliquem, ou melhor, sejam explicados, de forma a se ordenar dentro de um fluxo coerente, harmônico e equilibrado [6]. Feita esta afirmação cabem algumas ressalvas. Evidentemente a visão aqui exposta pode servir de terapia para pessoas assoladas por pequenos medos, preocupações e dúvidas. Dificilmente, no entanto, terá alguma serventia para o doente grave, em crise existencial.

Uma segunda ressalva diz respeito à identificação entre terapia e cosmovisão. Na verdade, a terapia aqui proposta é mais do que só cosmovisão. O caminho sugerido inclui também uma etapa de aprendizado. Explico melhor esta questão nos parágrafos que se seguem.

O hábito, aqui normalmente referenciado como padrão comportamental, ocupa um papel fundamental no presente trabalho. O que entendo por hábito é um comportamento, um padrão, um gesto ou até mesmo um pensamento, um sentimento, uma fantasia ou percepção que é repetida durante algum tempo. Padrões são incutidos na nossa vida em função da intensidade da experiência que os originou e em função da repetição, ou seja, do número de vezes em que o padrão é repetido. Assim, a repetição é uma dimensão essencial na formação de um hábito. O hábito representa a componente inercial da nossa vida, dando-lhe estabilidade e constância. Ele é uma ferramenta fundamental na consolidação da nossa personalidade. Nós somos aquilo que os nossos padrões de comportamento, nossa forma de pensar, vestir e agir, os gestos e a postura, definem que nós somos. Se é o hábito que define a nossa personalidade ou se, pelo contrário, é a nossa personalidade que define o hábito, isto é uma discussão inteiramente estéril do tipo que discute a precedência do ovo ou da galinha. Ovo e galinha, hábito e personalidade estão de tal forma e tão intimamente imbricados, que qualquer separação mais rígida como aquela definida pela relação de precedência é artificial.

Terapia no presente trabalho, portanto, não é, portanto, somente entendimento, isto é, a inserção do problema dentro de uma cosmovisão, mas é também aprendizado. Qualquer insight promovido pelo entendimento dificilmente será suficiente para alterar um padrão considerado indesejável, caso este já tenha sido incorporado à nossa personalidade através de uma repetição frequente e por um tempo considerável. É preciso aprendizado, ou seja, é preciso aprender novos padrões de comportamento. Evidentemente que no âmbito deste trabalho não existe espaço para transmissão de noções de aprendizado específico a determinado problema particular. O que será dado aqui são algumas noções gerais sobre princípios que regem o aprendizado. Por exemplo, muito espaço será dedicado ao querer. O querer mudar é fundamental em qualquer tentativa de mudança de um padrão comportamental. E, no entanto, o querer é um dos seus maiores entraves. No decorrer do presente trabalho será explicado que o querer bloqueia a mudança porque ele implica em cisão e fracionamento entre a parte do eu que quer e a parte do eu que não quer, isto é, que resiste ao processo de mudança. Vinculado ao querer está também a tensão que dificulta o processo de aprendizado.

Nos parágrafos que se seguem pretendo dar uma idéia muito resumida da minha cosmovisão. Ao mesmo tempo, pretendo esboçar um pouco das suas origens, isto é, quais foram as principais influências que sofri.

Em primeiro lugar cabe ressaltar a racionalidade, o que, no entanto, não significa o reconhecimento do poder absoluto da razão, ou seja, não significa achar que com puro raciocínio, seja lá o que isto for, se consiga chegar ao conhecimento. Raciocínio ou racionalidade trazem sempre implícitos uma realidade, apercebida através dos sentidos. Razão e percepção caminham sempre juntas. A realidade forma a racionalidade, ao mesmo tempo em que é por ela formada, ou seja, racionalidade e realidade são entidades inseparáveis [7]. O fato da realidade implicar em racionalidade significa que a realidade é racional não podendo ser compreendida e apercebida fora do contexto da racionalidade. O fato de racionalidade implicar em realidade significa que o nosso pensamento está ancorado na realidade [8]. Tudo aquilo que a racionalidade produz é realidade e afirmações da racionalidade são sempre afirmações sobre a realidade [9]. Se pensar é existir, então o racional é real [10].

Das idéias acima já fica clara a perspectiva materialista deste trabalho [11]. Embora realidade pudesse, em princípio, incluir a metafísica aqui se identifica realidade com matéria. Nada existe no mundo fora da matéria [12]. O pensamento é um impulso elétrico que atravessa o cérebro, o mesmo acontecendo com sentimentos e sensações. Sonhos são baseados em acontecimentos reais e nenhuma imaginação existe que não seja baseada em vivências reais, sejam interiores ou exteriores [13].

Eu disse acima que ao mesmo tempo em que pretendo dar uma breve idéia da minha cosmovisão, pretendo também fazer conexões com possíveis influências que sofri. Evidentemente falo aqui tão somente daquilo que me é consciente. Muitas outras influências inconscientes existirão. Como o leitor notará ao longo do trabalho, faço poucas referências bibliográficas, o que não quer dizer, de forma alguma, que a maioria das idéias aqui apresentadas é nova. Pelo contrário, a maioria do material aqui apresentado é velho, velhíssimo. Só que está tudo de tal forma misturado, inclusive misturado com idéias minhas, que achei que não valia a pena o trabalho de cirurgião, de destrinchar as diversas linhas de pensamento, identificar as várias vertentes das idéias apresentadas, mesmo porque isto não tem a menor importância. O essencial é a compreensão do pensamento. As influências que atuam sobre nós, se relevantes, misturam-se de uma tal forma com o nosso sangue e a nossa mente, que a posterior separação e identificação é artificial e acaba tão somente a serviço da propriedade intelectual que tanto mal tem feito à nossa cultura. Aqui simplesmente identificarei algumas grandes linhas de pensamentos que me influenciaram, sem entrar em detalhes.

Visando fazer a ponte entre a cosmovisão e passagens da minha vida, devo dizer que desde a juventude, filosofia e psicologia me fascinam. Se decidi fazer engenharia o foi por pressão familiar o que não lamento, porque me deu uma base lógica que, como se verá, me é muito cara. No entanto, o objeto de estudo das engenharias, isto é, máquinas e geringonças, apesar do fascínio da lógica e da estrutura nelas embutida, nunca me pareceram, por si só, valerem maior esforço e dedicação.

Foi por esta razão que, após o término do curso de engenharia, decidi estudar filosofia na Alemanha. O plano, acalentado com carinho e cuidado, consistia em me candidatar a um doutorado em exatas, ganhar uma bolsa de estudos, e depois, uma vez lá, me transferir para a filosofia. O projeto, como muitos, não funcionou, por inúmeras razões. Entre elas eu diria que faltou coragem para uma mudança mais radical da minha vida.

Mas existe outra razão que vale a pena ser contada para o fracasso dos meus planos. Ela joga alguma luz sobre os meus interesses, e dá também detalhes sobre as influências que sofri. Na hora da matrícula no curso de filosofia na Alemanha que, na época, deixava o estudante totalmente livre, ou seja, perdido na escolha das disciplinas, era comum o aluno procurar conselho de colegas mais velhos que ficavam reunidos numa sala, dando orientação a quem pedisse [14]. Foi o que fiz. Quando perguntaram pelas minhas preferências eu disse que queria algo prático, que queria estudar algo que me ajudasse a compreender melhor o sentido da vida, os comos e os porquês. Os meus colegas se entreolharam, esboçaram sorrisos irônicos, desnorteados pela ingenuidade e imaturidade da proposta. Fez-se um longo e embaraçoso silêncio e depois de alguma hesitação, consultas e cochichos, mandaram-me estudar marxismo.

Não fiz nenhum curso de marxismo na Alemanha, mesmo porque acho que, se havia, era dado por antimarxistas. O que acabei fazendo foi um curso sobre Hegel que eu pouco aproveitei, porque na época eu não tinha maturidade suficiente para estudar sua filosofia. Quem, no entanto, me ensinou dialética, e aí, sim, de forma prática, lidando com questões palpáveis e concretas do dia a dia, foi Bertolt Brecht. Foi com ele que aprendi que tudo muda, tudo está em constante transformação e que realidade é movimento. Foi com ele que aprendi que qualquer separação rígida em categorias é pura metafísica, porque a realidade é dinâmica e está de tal forma interligada que nada se deixa separar. Assim, por exemplo, não existe fronteira clara entre teoria e prática, a boa teoria visa a prática e boa prática não é possível sem teoria. Foram estes fatos que me levaram a uma noção bastante radical da dialética. Exagerando um pouco eu diria que ao se fazer uma afirmação sobre a realidade, é preciso, imediatamente, olhá-la pela perspectiva oposta. Isto não é só por conta da intensa dinâmica como também pelo fato da afirmação mudar a realidade, ao menos a percepção desta, e aquilo que era verdade, pode, pelo seu reconhecimento, não o ser mais.

Visando complementar a minha cosmovisão, cabe mencionar um elemento que até agora não recebeu o destaque merecido. Trata-se do todo que ocupa um lugar central dentro da visão de mundo aqui apresentada. O todo é simplesmente a soma de tudo aquilo que existe. Como tudo o que existe é real e material então o todo também é real e material [15].

Dentro da minha ótica o todo é paz e isto talvez possa ser explicado pelo fato do todo ser ausência de movimento. Se ele inclui tudo, ele inclui também todas as possíveis mudanças e transformações. Parece então razoável supor que o todo, ele próprio, seja imutável [16]. Ora, mudança e movimento representam transitoriedade, portanto, morte e finitude, portanto, sofrimento e dor. Como o todo é ausência de movimento, ele é paz [17] [18]. Cabe ressaltar que, apesar de tudo que foi dito acima, o todo não é uma mera abstração. Ele é uma experiência concreta e real de paz. Isto será esclarecido nos parágrafos que seguem.

O todo ou o nada podem ser vistos como consequência dos movimentos, respectivamente, de união e cisão. No seu extremo o todo resulta da união de tudo. Por outro lado, a cisão levada às últimas consequências, resulta em morte e fim, ou seja, no nada. Ambos são paz [19].

Para ver isto mais claramente basta considerar o Ioga ou o Zen-Budismo e as tentativas de imersão completa no tudo / nada através da meditação / zazen (posição de lótus). A imersão completa em si mesmo, em particular, no seu corpo, equivale à supressão da identidade, em particular, da mente. A mente ou o pensamento é justamente aquilo que discrimina. Discriminar implica em separar sujeito de objeto, ou seja, trata-se de um movimento de cisão [20]. Ao eliminar a raiz da cisão, a meditação tenta abolir as fronteiras entre sujeito e objeto e atua no sentido da união. A imersão completa em si mesmo, equivale à imersão no mundo e no todo. Ou seja, a supressão da identidade, o nada, equivale ao todo. Ambos representam paz.

A idéia do todo como paz também está presente no Gênesis onde o sofrimento do homem começa com o rompimento de uma unidade que havia no paraíso. O movimento de cisão é representado pelo surgimento do saber, símbolo de liberdade e independência [21].

Não somente o início de tudo como também o fim de tudo costuma estar associado à idéia de paz. Algumas religiões colocam a paz como meta final. O judaísmo, por exemplo, considera que o fim do sofrimento, ou seja, a paz, virá com a vinda do Messias. Visão messiânica semelhante foi apresentada por Marx com a sua meta final de uma sociedade sem estado e sem classes.

Assim, o todo é a origem primeira e o destino último para o qual tendem ambas as forças de união e cisão. Esta afirmativa considera tão somente situações extremas. Na prática, no dia a dia, alternamos movimentos de união e cisão e, frequentemente, em um mesmo ato, as duas tendências encontram-se presentes. No caso de adultério, por exemplo, existe um movimento de união em relação à nova conquista, mas existe um movimento de cisão em relação ao relacionamento antigo. Aos movimentos de união e cisão estão respectivamente associados sentimentos de prazer e dor. No cômputo geral, o que vai prevalecer depende fundamentalmente das dimensões espaço e tempo dentro das quais tudo se situa, ou seja, espaço e tempo é que vão determinar quão intensos e extensos serão os sentimentos de prazer e dor, e o que prevalecerá não somente em termos individuais, como também em termos de grupo ou sociedade. Ou seja, entre união / cisão, paz / dor, o que vai prevalecer em uma determinada circunstância, tem que considerar as dimensões espaço / tempo, isto é, quantos serão afetados, em que intensidade e por quanto tempo. A visão integradora faz parte da perspectiva de todo. Uma visão parcial representa sempre um movimento de cisão ao qual está associado dor e sofrimento.

Outro exemplo de alternância entre união e cisão pode ser dado pelo ventre materno. Como ele é abrigo e refúgio, costuma estar associado à idéia de paz. Lá todos os problemas se resolvem, não há frio nem calor, nem fome nem sede. Ele é símbolo de união, na medida em que mãe e filho/a estão unidos em perfeita sintonia e harmonia. E, no entanto, a experiência do ventre materno culmina no parto e este nada mais é do que o resultado de uma crise que resulta em cisão. A mãe e o rebento lutam e disputam o espaço vital.

A vida, num sentido extremamente amplo, talvez nada mais seja do que uma tentativa de voltar à paz original do ventre materno e talvez isto seja possível através de um movimento de união que se sobreponha à cisão originada pelo parto [22]. O todo talvez nada mais seja do que um grande ventre materno onde tudo cabe, e a nossa tentativa de ligação e integração com o mundo, talvez façam parte deste esforço de superar o vínculo perdido com a mãe [23]. A própria morte pode ser vista como uma volta ao ventre da mãe-terra. Num sentido ainda mais amplo esta idéia também pode se repetir para a vida de uma forma geral. O aperfeiçoamento que resulta da evolução das espécies, nada mais é do que uma tentativa de voltar à paz original do nada de onde tudo surgiu. Ou seja, a evolução das espécies tende a gerar um equilíbrio semelhante àquele do qual tudo se originou.

Poder-se-ia ainda fazer a associação das forças de união e cisão com os conceitos Freudianos da pulsão / impulso de vida (Eros) e da pulsão / impulso de morte (Tânatos), mas aqui estes conceitos terão maior abrangência.

Ao invés da visão ampla dada nos parágrafos acima talvez seja melhor restringir-se a aspectos mais concretos. Sentimentos de prazer e dor, união e cisão, se alternam. Frequentemente um momento de prazer é a origem da dor que segue. Não existe montanha sem vale e quanto mais alta a montanha, mais profundo costuma ser o vale, ou seja, prazeres intensos podem e costumam vir acompanhados de momentos de grande dor e sofrimento. Este fato, no entanto, não deve dar origem a sentimentos niilistas, pois está em nosso poder aplainar estas diferenças e o resultado não necessariamente tem que ser um deserto estéril e inóspito ou uma planície monótona, mas pode também ser o esplendor de um altiplano. No entanto, para propiciar uma paz suave e duradoura, talvez, de fato, alguns dos prazeres mais intensos e fugazes tenham que ser excluídos.

No que diz respeito às forças de união e cisão, devo dizer que nos capítulos que se seguem, poucas vezes estas idéias serão usadas de uma forma tão geral e abstrata como aqui. Na maioria das vezes o seu uso se dará dentro de um contexto específico. Imagino que este fato ajude a precisar e esclarecer melhor o seu significado. Por exemplo, frequentemente será mencionada a cisão interna do ser em cabeça (ou mente) e corpo. Esta cisão interna será identificada como uma das principais fontes de dor e sofrimento. Ela reflete também uma cisão externa, pois mente costuma estar associado ao humano enquanto que o corpo costuma caracterizar o nosso vínculo com a natureza [24].

Mencionadas as principais idéias e conceitos que serão utilizados neste livro quero fazer conexões e associações visando identificar algumas influências que sofri. Também isto faz parte da visão holística que orienta o presente trabalho [25]. Em primeiro lugar quero reconhecer a influência do judaísmo que com o monoteísmo traz embutida a visão holística. Partindo da idéia de que Deus é o espelho que reflete o homem [26], ou seja, que a visão que se tem de Deus, reflete a visão que se tem do mundo, há que reconhecer que a criação de um único Deus muito contribuiu para um monismo, isto é para uma visão unificada do mundo. Atrás da visão do todo está a idéia de que existe uma base comum que é justamente o que vai permitir a união de tudo [27]. Ou seja, o monismo, de certa forma está por trás da idéia do todo.

Dentro da tradição judaica temos o filósofo Baruch Spinoza cujo panteísmo certamente tem elementos comuns com a visão que orienta o presente trabalho. Em comum com Spinoza temos também o racionalismo bem como certa preocupação com o lado prático da filosofia (Spinoza dedicou boa parte da sua vida à formulação de uma Ética). A filosofia de Spinoza, no entanto, está por demais impregnada de metafísica.

Spinoza é um homem do século XVII o que explica e justifica um pouco as suas idéias. Mais perto do nosso tempo está Erich Fromm. Devo em grande parte a ele a ênfase no conceito de  união. Seu livro Psicanálise da Sociedade Contemporânea foi um marco na minha formação intelectual. Lembro-me até hoje do impacto causado pela sua crítica à sociedade atual, o consumismo, a coisificação (reificação) e a alienação. O que achei mais fraco no livro foi a parte propositiva, excessivamente idealizada, vaga e indefinida. De certa forma, neste trabalho tento complementar esta deficiência.

Finalmente existe a influência oriental. A idéia de paz não como abstração, mas como uma experiência física, concreta e real, certamente é fruto desta influência, assim como a idéia de união e equilíbrio interno de corpo e mente, bem como equilíbrio externo do homem e natureza. A origem da influência oriental remonta possivelmente ao início dos anos setenta quando eu me encontrava fazendo o doutorado na Alemanha. Uma crise existencial fruto da solidão, do inverno e das agruras dos estudos, me conduziu ao Ioga, disciplina da qual eu nunca mais me afastei. Mas talvez o primeiro contato que tive com a vida oriental tenha sido o livro Momento em Pequim de Lin Yutang, no início da minha adolescência. O livro me marcou muito. Apresentava um mundo onde a busca de um equilibro pessoal era peça essencial. Eu continuo acreditando que a procura de uma harmonia interna dentro do eu, é tão importante quanto a procura da harmonia externa do eu com a sociedade e com o meio ambiente. Ambos os equilíbrios se complementam e não pode haver um sem o outro, ou melhor, a ausência de um equilíbrio acaba se refletindo na ausência do outro [28].

Eu não tenho certeza, mas acho que é de Lin Yutang a frase que ficou marcada na minha memória, como delimitadora das diferenças entre a mentalidade oriental e ocidental [29]: o ocidental casa a mulher que ama e o oriental ama a mulher que casa. Na época em que li o livro, a questão não me ocorreu, mas hoje, já mais maduro, eu tenderia a perguntar se não seria possível juntar as duas alternativas, isto é, casar com a mulher (homem) que se ama e, posteriormente, amar a mulher (homem) com a qual se casa. Talvez a proposta deste livro seja responder afirmativamente a esta pergunta, ou seja, mostrar que é possível trilhar ambas as vias, não com respeito ao casamento, que aqui ocupa um lugar secundário, mas com respeito aos caminhos ocidental e oriental.

Tendo dado uma idéia da minha cosmovisão e de algumas influências que sofri, passo a relatar o processo utilizado para a elaboração deste livro, na certeza de que fins e meios não se deixam separar [30]. Ou seja, o processo utilizado para a elaboração do livro certamente influenciou os seus resultados, merecendo, portanto, ser relatado.

Como já disse no início desta introdução, as minhas primeiras análises escritas datam de 1976, mas certamente existem outras anotações anteriores, perdidas no meio da minha papelada. Este material é todo manuscrito e o nível de elaboração e aprofundamento é muito ruim. A partir da minha aposentadoria em 2007 e já com a idéia de escrever o livro, resolvi fazer estas auto-análises de forma mais apurada, redigir textos no computador, fazer releituras, revisões e reflexões mais cuidadosas.

Ao tentar começar a redação do livro o sentimento que me veio foi de completo desnorteio. Eu estava completamente perdido, sem saber por onde começar. Tinha a mais absoluta certeza do que queria dizer e, no entanto, não o conseguia. As coisas estavam na minha cabeça, (e também no meu corpo, quer dizer, eu sentia o que queria dizer) mas eu não conseguia botar para fora, dar forma aos pensamentos. Faltava a ponte entre o dentro e o fora, faltava construir uma ligação entre a mente e o papel.

O todo e a parte guardam uma relação dialética que é fundamental no processo criativo [31]. Nunca fui escultor, mas imagino que para esculpir a mão de uma escultura o artista tenha que ter a noção do todo, ou seja, da figura completa à qual a mão pertence [32]. Surge um paradoxo: por onde começar? Ao mesmo tempo em que é a parte, ou melhor, a soma das partes, que vai definir o todo, sem a noção do todo não é possível trabalhar na parte. Para resolver este impasse o método utilizado costuma ser aquilo que podemos chamar de aproximações sucessivas [33] [34]. O artista primeiramente faz um esboço rudimentar da figura completa que ele quer representar, criando assim algum tipo de intimidade com o todo. Segue-se a tentativa de esboçar detalhes, normalmente, mãos, pés e rosto. Depois, vem novo desenho, já mais detalhado, da figura completa, numa versão mais elaborada, segue-se novo detalhamento e assim sucessivamente.

Foi mais ou menos este o método que utilizei. Comecei tentando dar uma idéia geral da minha cosmovisão, mas depois achei melhor trabalhar em cima de problemas específicos. De vez em quando voltava para a visão geral, alternando-a com a análise de questões mais concretas. Foi assim que consegui juntar uma quantidade grande de material ao qual, no entanto, faltava dar acabamento, homogeneidade, maior clareza, organizar, eliminar redundâncias, detalhar aqui e resumir acolá. A partir de 2014 resolvi trabalhar nesta síntese e sistematização.

O livro reflete um pouco esta estrutura. A primeira parte, constituída de três capítulos, dá uma idéia da minha cosmovisão. O primeiro capítulo é sobre holismo e explica o conceito do todo que nela ocupa um lugar central. O segundo capítulo versa sobre racionalidade, realidade e matéria e o terceiro aborda a dialética. Segue-se a segunda parte do livro, constituída dos oito capítulos centrados na proposta terapêutica (terapia). Apesar dos muitos exemplos, as idéias são ainda apresentadas de uma forma bastante geral. O capítulo quatro mostra como o entendimento e a análise podem ajudar a resolver os problemas. O capítulo cinco aborda padrões de comportamento e mostra como hábitos e costumes moldam a nossa personalidade. O capítulo seis aborda o querer e a repressão e o capítulo sete é sobre medos e preocupações. O capítulo oito é uma espécie de ponte entre o sete e o nove. Através de sexo, são feitas conexões entre medos e fantasias. O capítulo nove é sobre abertura, fechamento, realidade e fantasia e o capítulo dez aborda uma importante ferramenta terapêutica: a auto-sugestão. O capítulo onze visa fazer uma ponte entre a segunda e a terceira parte do livro. Analisando gula e obesidade, ele apresenta um exemplo completo do processo terapêutico. Finalmente a terceira parte do livro ilustra a proposta terapêutica analisando alguns problemas específicos. O capítulo doze aborda problemas posturais, o capítulo treze tensão e hipertensão e o último capítulo joga o foco sobre velhice, morte e fim. Por postura entendo a maneira de manter o corpo, ou seja, a forma de posicionar-se fisicamente. Através da análise de tensão e hipertensão tenta-se mostrar como problemas físicos e psíquicos podem estar interligados. Velhice e morte fala do fim da vida, ou melhor, da continuidade desta. Gostaria de ressaltar que os temas da última parte do livro visam meramente ilustrar o método proposto, ou seja, eles não foram escolhidos pela relevância que têm, mas tão somente pelo fato de me interessarem particularmente e serem temas de abrangência suficiente para, imagino eu, interessarem a uma gama mais ampla de pessoas.

Na verdade, como não poderia deixar de ser, em virtude da perspectiva holística, existe superposição entre tudo o que será apresentado, ou seja, tudo se inter-relaciona, todos os capítulos do livro têm partes comuns e a divisão em partes e capítulos, representa meramente um artifício de exposição que tenta (mas não consegue) abordar uma realidade una e complexa.

A título de aviso e advertência, devo acrescentar que o texto aqui apresentado não é um trabalho acadêmico. Trata-se de uma síntese pessoal das experiências que fiz. Isto significa que na maioria das vezes abro mão de um maior rigor científico.

A proposta aqui é prática, é mostrar um caminho, o caminho que eu segui. Deixo bem claro que não se trata de uma opção fácil. O todo, central para a compreensão do método proposto, não é algo aonde se chega, mas é algo do qual se aproxima. A cosmovisão que proponho, assim como a visão do todo que a orienta, é como o Norte de uma bússola, servindo de orientação, mas de difícil concretização ou realização [35]. Assim, de certa forma, entre a materialidade do todo e a dificuldade da sua materialização, estar-se-ia aqui tentando uma síntese, aparentemente impossível, entre materialismo e idealismo.

 



[1] Lembro-me que um dos pesadelos mais terríveis e recorrentes da minha infância era o do quarto desarrumado. Eu me encontrava em meu quarto, os brinquedos espalhados pelo chão, jogos, livros, tudo desalinhado, solto e embaralhado. Eu me desesperava, perdido no caos.

[2] Existe uma máxima que traduz bem esta idéia e que muito me tem orientado na vida: “É preciso coragem para mudar o possível, serenidade para aceitar o impossível e sabedoria para distinguir entre os dois” A autoria desta frase (inserindo Deus, o que me parece desnecessário) é atribuída a Reinhold Niebuhr, teólogo americano.

[3] Estes dois pólos, como se verá, aparecerão também em outros níveis. De um lado, ênfase na racionalidade, do outro, uma crença na união e na totalidade.

[4] A expressão “o pensamento deu corpo” funde, sintetiza e deixa clara a simbiose entre dois conceitos, cabeça e corpo que frequentemente serão aqui usados como pólos opostos. Temos aqui um bom exemplo da dialética: da oposição de duas idéias resulta a síntese.

[5] Neste contexto vale à pena consultar Viktor Frankl (1905-1997), neurologista e psiquiatra austríaco, criador da Logoterapia (logos = significado) onde a busca de um significado para a vida desempenha um papel fundamental.

[6] O termo terapia está sendo usado aqui de forma bem geral como uma maneira de resolução de problemas psicológicos e não no sentido de psicanálise.

[7] O racional é real e o real é racional (Hegel, Filosofia do Direito).

[8] Existem inúmeras experiências comprovando que a ausência de estímulos sensoriais por um tempo prolongado afeta seriamente as características psíquicas do indivíduo, inclusive a inteligência (veja palavras chave como sensory deprivation, perceptual isolation, isolation tank, etc.)

[9] Como será visto mais adiante aqui parte-se do princípio de que tudo é real e material.

[10] Veja o penso, logo existo de Descartes.

[11] A identificação de realidade e racionalidade tem a matéria por base. É o monismo que permite esta visão unificada do mundo.

[12] Após Einstein, o conceito de matéria passa a incluir também o conceito de energia (onda).

[13] Apesar do que foi dito acima o termo metafísica será aqui usado, porém mais como uma espécie de vicio de linguagem, para denotar algo etéreo, aparentemente irreal e imaterial, ou seja, metafísica será usado de forma metafórica.

[14] Estes veteranos pertenciam, em sua maioria, ao diretório acadêmico, e utilizavam o aconselhamento para fins políticos.

[15] Evidentemente que estas noções dão origem a uma série de paradoxos conhecidos. Por exemplo, se o todo é o conjunto de todas as coisas reais e se ele também é real (cabe lembrar que tudo é real), então ele ao mesmo tempo se contém e é por ele contido. Ou seja, ao mesmo tempo ele é estritamente maior e menor do que ele mesmo. A título de explicação para este paradoxo e para os paradoxos de forma geral, eu diria, que eles não valem o tempo que se perde com eles. Eles simplesmente apontam limitações do modelo lógico tradicional na compreensão do mundo e da realidade. Somente se surpreende com paradoxos quem acredita que o modelo lógico é capaz desta compreensão. Não é que o fenômeno estudado apresenta limitações apontadas pela lógica, é que, pelo contrário, o fenômeno estudado apresenta as limitações da lógica.

[16] Como já vimos (veja nota acima) a noção do todo está imersa em paradoxos o que torna questionável uma argumentação excessivamente fundada na lógica.

[17] Com o intuito de fazer conexões com outros pensamentos de base comum, veja-se escola eleática, Parmênides, Xenófanes e Zenão de Eléia.

[18] É a conexão da realidade com o todo que dá sentido à nossa vida, permitindo superar a imensa dor da morte e da finitude. E encontrar o sentido da vida é equivalente a encontrar a paz. Este é um argumento ex-post (prova pela consequência) que permite a identificação do todo com a idéia da paz. Adicionalmente cabe acrescentar que a conexão da realidade com o todo é feita através da racionalidade. Assim, faz-se a ligação entre realidade, racionalidade, o todo  e a paz.

[19] Todo e nada são conceitos que se confundem já que não é possível imaginar um sem o outro.

[20] Se eu vejo alguma coisa então este ato separa o eu da coisa. Se eu me vejo, então, passa a existir o eu que vê e o eu que é visto. Mesmo uma afirmação como eu vejo implica na existência de alguém que faz a afirmação e alguém que é objeto da afirmação que é feita. O fato de ambos serem a mesma pessoa é apenas um detalhe que mostra a possibilidade do eu se dividir em um eu que afirma e um eu que é o objeto da afirmação.

[21] A maçã pode ser tomada como símbolo do saber. Ora, saber é discernimento, ou seja, é separar o que é certo daquilo que é errado (no Gênesis fala-se da árvore da ciência do bem e do mal). É a cisão inerente ao saber (incluindo-se aqui evidentemente a racionalidade) que provoca a cisão com o todo e é esta última que dá origem ao sofrimento.

[22] Talvez este movimento amplo de união seja aquilo que Freud denominou de libido.

[23] Deste movimento de união pode fazer parte a obra que se deixa, os filhos e as contribuições que se faz. Tudo isto representam elos e ligações com o mundo. O próprio amor pode ser visto dentro deste contexto. O amor de um homem por uma mulher nada mais é do que a tentativa de repor o vínculo perdido com a mãe. Neste sentido talvez se explique a importância dada por Freud ao mito de Édipo.

[24] O fato de a cisão interna refletir a cisão externa e vice-versa é mais um argumento favorável à perspectiva holística que orienta o presente trabalho. Tudo está inter-relacionado, através do todo que tudo relaciona. O que quero dizer é que a ponte entre tudo é o todo ao qual tudo pertence.

[25] O meta-holismo, ou seja, a tentativa de inserção do holismo dentro de uma visão holística, é também uma característica do presente trabalho. Tudo se passa em diversos níveis e estes possuem semelhanças estruturais. Trata-se aqui da espiral dialética em que processos semelhantes ocorrem em níveis diferentes da realidade.

[26] Acho que foi Ludwig Feuerbach que disse que o homem criou Deus à sua imagem.

[27] O materialismo, ou seja, a concepção de que tudo é matéria, favorece esta visão unificadora.

[28] Dito de uma forma sintética, trata-se de fazer a síntese de Freud e Marx (veja também Escola de Frankfurt). A redução da busca de equilíbrio ao equilíbrio externo é tão equivocada como é a redução da busca de equilíbrio externo à busca de equilíbrio interno. Ambos são necessários, ambos se complementam, um não é possível sem o outro e não existe relação de precedência ou prioridade entre eles. A relação é dialética, ou seja, existe uma dinâmica na busca destes dois equilíbrios, que vai, nos moldes de uma espiral, melhorando-os até que equilíbrio interno e externo se fundam em um só equilíbrio.

[29] Trata-se de uma afirmação particularmente importante para um adolescente a fazer as primeiras experiências da sexualidade.

[30] Também isto é dialética, pois os fins são o resultado de um processo onde os meios desempenham um papel essencial.

[31] Neste contexto vale a pena citar uma parte do belíssimo poema de Gregório de Matos (1636-1696):

                O todo sem a parte não é todo,

                A parte sem o todo não é parte,

                Mas se a parte o faz todo, sendo parte,

                Não se diga, que é parte, sendo todo.

[32] Neste contexto vale a pena fazer conexões com a psicologia da Gestalt.

[33] Este nome corresponde a um método matemático, que pode, por exemplo, ser utilizado para determinar a raiz quadrada de um número.

[34] Atrás da idéia das aproximações sucessivas está a idéia do movimento que justamente vai resolver a aparente contradição entre o todo e a parte, ou seja, vai tornar possível o que é aparentemente impossível, isto é, ter o conhecimento do todo sem o conhecimento da parte e vice-versa. Temos aqui um excelente exemplo de como atua a dialética, isto é, de como o movimento consegue resolver aparentes contradições. A dinâmica e o movimento dissolvem as fronteiras e os limites e o que antes era incomunicável acaba se comunicando.

[35] Neste contexto, veja também a noção matemática de assíntota.

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