Racionalidade: uma tentativa de definição
Racionalidade é um conceito tão vasto e tão básico que a sua definição se torna difícil. Definir um conceito desconhecido, normalmente consiste em descrevê-lo ou explicá-lo em função de conceitos conhecidos. Quando, no entanto, o conceito está na base, esta tarefa não é fácil.
Usando o conceito de todo que foi examinado no capítulo anterior, eu diria que racionalidade é a inserção da parte no todo [1]. A atividade racional como meio consiste em juntar fatos, estruturá-los, inseri-los em um contexto, estabelecendo conexões. A atividade racional como fim tem exatamente estas mesmas características, ou seja, estabelecer elos e ligações, permitir a compreensão e o entendimento. Assim, da mesma maneira que no caso do todo (veja final do capítulo anterior), temos aqui a identidade entre fins e meios reforçando a ideia totalizadora.
Neste texto racionalidade e entendimento serão utilizados de forma equivalente, ou seja, os dois conceitos têm o mesmo significado apesar das sutis variações [2]. O que é entendimento? Entender é ligar fatos, ordená-los, por exemplo, através da causalidade[3]. Juntando-se fatos semelhantes é possível a sua generalização o que permite a construção de teorias. O papel aglutinador do entendimento pode também ser verificado lembrando que é através do entendimento que se estabelecem pontes entre pessoas, povos e culturas. Diferenças culturais que costumam afastar, podem ser superadas através da discussão, do debate e da compreensão.
A inserção da parte no todo é um limite, assinalando uma tendência assintótica. Na prática contentamo-nos com um objetivo muito mais modesto, ficando, no entanto, o limite como uma meta pela qual podemos julgar o quanto nos estamos aproximando do objetivo proposto. Tanto maior é o entendimento quanto maior for o conjunto de fenômenos que ele explica, ou seja, quanto maior o subconjunto do real que ele permite que se relacione através da explicação. Parece-me que esta ideia faz parte do senso comum em ciência.
Entendimento frequentemente envolve análise e síntese, ou seja, implica em decompor o todo em partes e, num movimento contrário, a partir das partes, criar o todo. Significa também a inserção do problema na dimensão tempo, relacionando-o com o passado bem como examinando a sua evolução futura, formando assim um fluxo temporal que faz parte da visão totalizadora.
Outra forma de tentar definir entendimento e racionalidade é vincular estes conceitos à ideia de estrutura [4]. O que é uma estrutura? Trata-se de uma construção que estabelece elos entre partes integrando-os dentro de um todo.
Entendimento não se restringe à lógica ao menos não à lógica clássica. Esta lógica, com a sua dificuldade em lidar com a contradição, permite tão somente a compreensão de uma parte muito pequena da realidade [5]. Na medida em que cada ser e cada entidade, através do movimento e da transformação, traz dentro de si o gérmen do não-ser, ou seja, ser e não-ser estão indissoluvelmente ligados, a contradição é parte imanente do real. A exclusão da contradição implica em uma simplificação. No capítulo dedicado à dialética examinaremos com mais detalhes as relações entre entendimento, racionalidade, realidade e contradição.
O entendimento está profundamente relacionado à linguagem. Aqui temos um magnífico exemplo de como fins e meios, causa e efeito, interagem, formando uma trama indissolúvel. De um lado é o pensamento que condiciona a linguagem, na medida em que esta última visa possibilitar a expressão de pensamentos. Do outro lado, é a linguagem que condiciona o pensamento, pois somente pensamentos passíveis de serem expressos pela linguagem podem ser formulados.
Aqui, quando falamos de linguagem não nos limitamos à linguagem oral ou escrita, apesar desta ser a forma mais comum de comunicação entre humanos. Mas eu não gostaria de excluir o dançarino que tem na sua arte uma forma de conexão com o todo, nem o passarinho que faz a mesma coisa com o seu canto. Existem ideias que só podem ser transmitidas visualmente ou auditivamente e um quadro, uma figura ou uma melodia podem traduzir ideias impossíveis de serem expressas através do verbo. Existem linguagens que não conseguem traduzir certos sentimentos ou estados d’alma que outras linguagens conseguem. Por exemplo, em sânscrito existem expressões para alegria (joy) que inexistem na maioria das linguagens ocidentais.
A racionalidade como inserção da parte no todo pode ser mais bem compreendida se considerarmos que à medida que tentamos melhorar o entendimento de alguma coisa, maior é o conjunto de questões que passam a ser englobadas. Vemos, portanto, que o entendimento traz implícito o todo, ou seja, a visão integradora e totalizadora. Passo a ilustrar estas ideias tomando como base o conceito de violência. O que será verificado é que à medida que tentamos melhorar o entendimento do significado de violência, mais abrangente se torna a análise e maior é o conjunto de questões envolvidas.
O primeiro pensamento que se coloca no caso do parágrafo acima é se este enfoque não estaria inviabilizando o lado prático da questão. Uma análise totalizadora, uma visão integradora implica em ampliar o ponto de vista de tal maneira que pode acabar por inviabilizar a ação. No caso da violência, salvo casos patológicos, trata-se de um meio para atingir determinado fim. Através de uma discussão excessivamente ampla da necessidade ou não da violência, estaríamos nos concentrando por demais nos meios, acabando por esquecer os fins. Estaríamos esquecendo dos objetivos em função de um maior cuidado com os meios utilizados para alcançá-los. Vemos aqui surgir a questão temporal, ou seja, a maior ou menor urgência na obtenção de resultados. A opção pela rapidez que está implícita na crítica a uma discussão excessivamente ampla é tão somente uma entre as várias possíveis alternativas à nossa disposição. Na verdade, a própria violência denota pressa em atingir resultados. Assumir a priori a necessidade de rapidez, além de impedir uma discussão mais ampla da questão, traz implícita a opção pela violência, podendo levar a erros graves e difíceis de corrigir.
No parágrafo acima eu disse que a violência é tão somente um meio para se atingir determinado fim. Será que isto é verdade? Ou será que meios e fins estão de tal forma inter-relacionados que uma separação é impossível? Esta é uma questão adicional a ser incluída na discussão. Em minha opinião, o uso da violência para perseguir determinado fim, acaba também afetando este último. Dentro de uma visão dinâmica em que movimento e transformação desempenham papel fundamental, é inaceitável a ideia de que um fim permaneça estático sem ser influenciado pelas atitudes tomadas para alcançá-lo. Tomado um caminho para um determinado destino, o próprio caminho pode nos levar à decisão de mudar o destino. De fato, frequentemente desistimos de um determinado objetivo porque ele é difícil demais. Aqui vemos claramente como fins e meios se inter-relacionam [6].
Para facilitar a discussão sobre a violência coloco uma situação concreta. Aqui surge uma questão adicional: a discussão da violência é possível de ser feita para o caso geral, ou será que cada caso é um caso? A segunda alternativa parece ser mais razoável e, no entanto, ela dificulta a teoria. Se cada caso é um caso, corre-se o risco de ficar constantemente repetindo raciocínios já feitos, recomeçando a discussão da estaca zero a cada nova situação. Além disso, sem uma teoria para fornecer uma orientação geral, corre-se o risco da inconsistência, ou seja, existe o perigo de se adotar uma postura diferente em cada caso.
Passemos ao caso concreto. Suponhamos que alguém ao perseguir um objetivo importante depara-se subitamente com uma pessoa que se interpõe dificultando o alcance da meta. Usando uma metáfora é como se no curso de um caminho nos deparássemos com um galho de árvore atravessando a via. O que fazer? Quebrar o galho ou passar por baixo? Aparentemente a solução mais simples e mais correta parece ser a segunda. No entanto, isto vai depender de uma série de questões. É possível passar por baixo, é possível circundar o galho ou, até mesmo, a árvore que nos atrapalha? Quanto esforço isto significa? O galho é pequeno e fácil de remover ou, pelo contrário, a remoção implica em uma operação difícil e demorada? A árvore cujo galho nos atrapalha pertence a uma espécie que se quer preservar ou pertence a uma espécie daninha? O que significa exatamente o termo daninho, em que sentido, quando, por quanto tempo e para quem algo é daninho? Muitas outras questões podem ser formuladas. A gente pode tentar abrir uma nova picada que evita o obstáculo ou até mesmo desistir do caminho, procurando outro que chegue ao mesmo lugar. Dependendo do grau de dificuldade, podemos até mudar o destino. Cada uma destas soluções envolve uma série de prós e contras.
A questão da violência, no entanto, não está somente ligada a fins e meios. Ela envolve também sentimentos e frequentemente aparece ligada a ódio e vingança. Isto nos leva a uma série de outras questões. Por exemplo, faz sentido ter ódio de um galho de árvore porque ele atrapalha o nosso caminho? Antes de tentar responder esta pergunta talvez seja necessário formular outra. Faz sentido perguntar se o ódio faz sentido? Será que não é tudo uma questão de se aceitar, de aceitar o mundo dos sentimentos assim como ele se nos apresenta, ao invés de sempre tudo questionar? Odeia-se porque se odeia e ponto final. Ou será que, pelo contrário, cabe questionar aonde nos leva o caminho do ódio e da vingança, aonde nos conduz a aceitação cega dos nossos sentimentos. Vemos aqui claramente como racionalidade e entendimento envolvem a consideração de sentimentos e sensações.
Faz também parte da visão totalizadora considerar as motivações dos agentes envolvidos na questão. O sujeito que atrapalha o nosso caminho, o faz meramente para nos prejudicar ou será que o faz por uma questão de sobrevivência? Se a motivação é a primeira, o que o levou a agir desta forma? Existem fatos concretos que explicam a sua reação? A resposta a estas perguntas pode inclusive mudar a nossa decisão porque, de repente, o outro tem razões mais fortes para tentar alcançar o objetivo. Entender significa sempre estabelecer uma ligação com o passado, com a história, situações sociais, familiares, o meio ambiente, a moral, os usos e costumes.
Outras questões podem ainda estar envolvidas na discussão da violência. Pode-se ser contra a violência como princípio, ou seja, pode-se ter esta atitude como norma ampla e geral de conduta de vida. No entanto, não usar de violência pode ser um ato de violência. Não acertar um soco em quem ameaça uma criança, significa o que? A própria lei criou a figura da legítima defesa para justificar a violência permitida. De maneira geral, tendo a ser favorável à ideia da violência mínima, ao invés, da ideia da não-violência. Ou seja, se é possível passar por baixo do galho, para que quebrá-lo? Se é possível quebrar o galho, para que derrubar a árvore? Mas sou obrigado a concordar que em certas situações a violência mínima pode prolongar indefinidamente uma luta, e uma solução rápida significa frequentemente menor sofrimento para todos. A realidade é cheia de contradições e viver a realidade significa saber resolver estas contradições [7].
O objetivo da análise acima não foi, de forma alguma, esgotar a discussão em torno da questão da violência que é muito complexa demais para ser examinada de forma breve e sucinta. O objetivo aqui foi tão somente usar a violência para mostrar o que significam entendimento e racionalidade. O objetivo principal foi mostrar que estes conceitos implicam em uma consideração a mais ampla possível de todos os fatores pertinentes à questão, e é exatamente isto que significa a inserção no todo. É importante que decisões sejam pensadas e repensadas, que se dê um tempo, que as ideias amadureçam, que se envolva a maior quantidade possível de pessoas na decisão, que se escute outras opiniões, que se argumente, se discuta e se examine a questão de todos os ângulos, considerando todos os aspectos envolvidos. Aqui vemos diversos aspectos das dimensões espaço / que tem que ser consideradas. A perspectiva ampla diz justamente respeito a estas dimensões. É isto que significa inserção no todo de forma prática e concreta.
Qualquer restrição a este procedimento significa uma simplificação, podendo levar e erros e falhas. Evidentemente que o lado prático impõe uma solução de compromisso entre realidade e exequibilidade. Quanto mais complexa a análise, mais possibilidades existem de se abarcar a realidade em toda a sua plenitude, mas mais difícil fica a sua concretização. Como já dissemos, a questão temporal, a maior ou menor urgência na tomada de decisões são parte fundamental da discussão. Nada pode ser apreciado fora do marco de uma simplificação. Ao mesmo tempo em que a simplificação é essencial para qualquer análise da realidade, ela a esconde e a oculta, dificultando o seu entendimento. Vemos aqui mais um exemplo da visão dialética.
O real é racional e o racional é real
A frase do título é de Hegel e já foi mencionada na introdução. O que se pretende aqui é estabelecer a identidade entre racionalidade e realidade, isto é, mostrar que toda realidade é racional e que a racionalidade só faz sentido e só pode existir dentro do marco da realidade.
Examinemos a primeira parte, isto é, que o real é racional. Na medida em que realidade é sempre parte e que esta é sempre parte de um todo, não é possível apreender a parte sem o todo [8]. Como vimos na primeira seção é a racionalidade que faz a conexão entre a parte e o todo. Portanto, realidade não faz sentido fora do contexto da racionalidade.
Tomemos, por exemplo, as duas dimensões básicas da realidade: espaço e tempo. Nada pode ser entendido fora do contexto destas duas dimensões. Uma realidade não pode ser entendida se pinçarmos um instante ou lugar sem situá-los dentro do seu contexto. No caso da dimensão tempo este contexto é chamado de perspectiva histórica e no caso da dimensão espaço falamos frequentemente de situar ou localizar o evento. Por exemplo, a revolução francesa não pode ser entendida sem o conhecimento do significado da monarquia absoluta e esta, por sua vez, não pode ser entendida sem que conheçamos o feudalismo ou a idade média. Tampouco a revolução francesa pode ser entendida fora do contexto da França, pois foi lá que a monarquia absoluta teve o seu maior desenvolvimento. Esta contextualização pode ser ainda mais estendida, porque qualquer episódio da história humana só pode ser apreciado em toda a sua plenitude, se o situarmos dentro da evolução do homem, esta, por sua vez, tem que ser situada dentro da evolução das espécies e a evolução da vida só pode ser compreendida levando em conta a evolução do universo [9]. Ou seja, tudo está sempre ligado com tudo e é a racionalidade que estabelece esta ligação. Evidentemente que por uma questão de praticidade todo e qualquer estudo sempre acaba sendo limitado nas dimensões espaço e tempo. Trata-se, no entanto de uma simplificação e como tal deve ser considerada.
A afirmação de que o real é racional pode esbarrar em objeções que levam em conta um mundo fora da racionalidade, por exemplo, o mundo dos animais, vegetais e minerais. Tratar-se-ia aqui de um mundo irreal porque irracional? Esta é uma questão importante que vai também ser abordada mais adiante quando examinarmos a questão da unidade entre sujeito e objeto. Fazemos, a seguir, uma breve apresentação das principais ideias envolvidas.
Dentro da visão integradora e totalizadora que norteia o presente trabalho, parte-se aqui da identidade entre essência e aparência, da coisa em si e da coisa para nós. Esta identidade é fruto da inexistência de limites rígidos entre sujeito e objeto. Se eu vejo uma coisa então é porque neste ato de ver estão envolvidos o eu e a coisa. Tivesse sido outro o eu, teria sido outra a visão, inclusive talvez ela tivesse inexistido. Por exemplo, um cachorro pode não ver, quer dizer, pode não se aperceber, de uma folha de papel que jaz em uma pilha de documentos, simplesmente porque esta é uma realidade que a ele, cachorro, não interessa. Da mesma maneira nós, humanos, não nos apercebemos de uma série de cheiros e ruídos que para o cachorro são da maior importância. Isto se dá não só porque o nosso olfato e nossa audição não são suficientemente apurados, mas também porque estas informações não nos interessam, ou será que não nos interessam pelo fato de não termos os sentidos suficientemente apurados [10]? Seja como for, o importante aqui é verificar que a percepção da realidade envolve sempre o sujeito da percepção.
No presente caso, quando falamos de realidade, falamos sempre da realidade dos humanos e esta, como vimos, é racional [11]. Como seria a realidade para seres aparentemente desprovidos de racionalidade como, por exemplo, para os vegetais [12]? A resposta a esta pergunta consiste em negar a pergunta pois esta última é desprovida de sentido. Trata-se de uma questão totalmente absurda, porque a resposta teria que ser dada dentro do âmbito da linguagem, ou seja, envolveria racionalidade. A realidade para uma planta simplesmente é e não se deixa descrever por palavras. O nosso contexto é sempre o da racionalidade mesmo que estejamos lidando com entidades ditas irracionais.
Para nós, seres humanos, a realidade é sempre racional porque a nossa percepção é racional. O fato de o mundo incluir entidades ditas irracionais não impede que a nossa percepção delas seja racional, mesmo porque não existe outra maneira do nosso conhecimento acontecer. A pedra que cai envolve tão somente entidades irracionais e, no entanto, é um fenômeno plenamente explicado pela razão. Existe uma racionalidade por trás de tudo, até mesmo por trás das entidades ditas irracionais. O fato de se dizer que determinado ser é irracional, implica em empregarmos o termo racionalidade em um sentido mais estrito. É claro que, como tudo no mundo, também o ser irracional segue uma racionalidade.
Voltando para a busca da equivalência entre racionalidade e realidade, cabe examinar a segunda parte da afirmação de Hegel, ou seja, o fato de o racional ser real. Esta afirmação está implícita no penso, logo existo, de Descartes. Pois, se o ato de pensar, ou seja, o racional, dá origem ao real, então tudo aquilo que a racionalidade produz é realidade, ou seja, não é possível pensar nada que não seja real [13]. Se pensar é existir, então o racional é real.
Talvez seja mais fácil entender esta afirmação através da dupla negação. Se o racional é real então o irreal é irracional. Se nada que é irreal pode ser racional, ou seja, pode surgir do pensamento, então é porque o pensamento está ancorado na realidade [14]. De fato, o pensamento nada mais é do que um fluxo elétrico que tem lugar no nosso cérebro, ou seja, já na sua constituição física, o pensamento é realidade. Além disso, o pensamento surge de estímulos sensoriais e tudo o que pensamos é, de alguma maneira, baseado em situações vividas ou imaginadas [15]. Até mesmo a imaginação se baseia em experiências reais, sejam exteriores ou interiores.
Inúmeras experiências comprovam que a ausência de estímulos sensoriais durante um tempo prolongado conduz à loucura e à alucinação. Salomon et al. (1957) mostraram que a ausência de estímulos sensoriais por algumas horas em pessoas saudáveis leva a alucinações [16]. Em Fuchs (1993) são relatadas paranoias em pessoas surdas e soldados vivendo em condições de impossibilidade de comunicação [17]. No entanto, talvez as experiências mais interessantes sejam aquelas relatadas por Perry e Pollard (1997) examinando crianças carentes, criadas em um ambiente pobre de estímulos sensoriais [18]. Foi examinado o desenvolvimento neurológico do cérebro das crianças, constatando-se sérias deficiências.
A conclusão a que se chega é, portanto, que a ausência de realidade impede o desenvolvimento da racionalidade, ou seja, que esta última implica necessariamente em realidade. Com a comprovação desta última parte da tese de Hegel temos estabelecida a identidade entre realidade e racionalidade.
Matéria e materialismo
No final da última seção mencionei Descartes e o seu penso, logo existo. Se a realidade é fruto do pensamento, então corre-se o risco de achar que realidade nada mais é do que ideia, o que nos levaria ao idealismo. A menos que existisse no pensamento algo concreto, algo chão que fizesse com que o produto das ideias permanecesse no chão e não se dissipasse com fumaça sob ação do vento. Pois seria muito frustrante se a realidade não passasse de vento e fumaça. Isto retiraria da realidade a sua base real. Nada valeria a pena, pois que tudo seria etéreo e volátil o que acabaria nos levando ao ceticismo.
Felizmente existe este chão. O chão é a terra e terra foi provavelmente o primeiro símbolo usado pelos antigos para aquilo que hoje chamamos de matéria [19]. É a matéria que fornece a base comum, o elo de ligação entre pensamento e realidade e é por isto que ela permite que pensamentos surjam de realidade e realidade surja de pensamentos.
Tudo é matéria, inclusive o pensamento [20]. Na seção anterior mencionamos que o pensamento nada mais é do que um fluxo elétrico passando pelos neurônios e ramificações nervosas do cérebro. Impulsos elétricos estimulam glândulas que promovem a secreção de substâncias que alteram a pressão arterial, modificam batimentos cardíacos, movimentam músculos e realizam trabalho, produzindo coisas.
Realidade, racionalidade e matéria são conceitos que se confundem e traçar fronteiras rígidas entre eles é tarefa estéril e sem sentido. Realidade é matéria e, como vimos na seção anterior, é racionalidade. Se realidade é matéria e esta última é constituída de prótons, nêutrons e elétrons (estes, por sua vez, de quarks e léptons) e suas forças de atração e repulsão, e se tudo isto é objeto de estudo da física com seu ferramental lógico-matemático, temos aqui mais um argumento favorável à identificação entre realidade e racionalidade.
Tudo é físico. A metafísica não existe, ou melhor, trata-se aqui de um pensamento como qualquer outro. Como o pensamento é matéria, a metafísica não é meta, mas sim, física. O que é físico pode ser vivenciado e experimentado. Aqui usamos o termo vivenciar em um sentido amplo, incluindo também pensamentos, sentimentos, sonhos e pesadelos.
Se tudo tem a mesma base comum, se as mesmas partículas e as mesmas forças formam tudo, temos aqui um fortíssimo argumento na defesa da ideia do todo. Pois esta base comum constitui-se em um amálgama, um elo de ligação que tudo junta no todo. Aliás, a busca, desde os primórdios da civilização, desta base comum, deste elemento básico do qual tudo seria feito, pode ser entendida com a busca de uma ligação de tudo, o que reforça a ideia do todo.
É a base comum que permite que a realidade seja apercebida de forma objetiva. É claro que o sujeito faz parte da percepção, mas é a existência de uma base comum que faz com que a percepção de um mesmo objeto por sujeitos diferentes tenha elementos em comum. É o fato de o objeto assim como o sujeito serem constituídos de matéria, que garante que o primeiro seja percebido de forma semelhante por sujeitos diferentes e é isto que se entende normalmente por realidade objetiva.
Analisemos com um pouco mais de detalhe esta questão do subjetivo e do objetivo. Como já vimos, realidade é sempre a sua percepção, na medida em que essência e aparência, o objeto-em-si e o objeto-para-nós, são a mesma coisa [21]. Da realidade, ou melhor, da sua percepção, fazem sempre parte indissolúvel, o sujeito e o objeto [22]. O objeto é aquilo que dele é percebido e para ser percebido é necessário alguém que o perceba. Se sujeito e objeto são parte indissociável da percepção da realidade, a rigor, não faz sentido dizer que uma realidade é subjetiva ou objetiva. Quando se diz que uma realidade é subjetiva, o que se está fazendo é, na verdade, dissociar o sujeito da realidade para, a seguir, criar uma nova entidade que reúne realidade e sujeito, chamando-a de realidade subjetiva. Por outro lado, realidade objetiva, a rigor, é a realidade sem o sujeito da sua percepção, o que é absurdo. Uma realidade é sempre, ao mesmo tempo, subjetiva e objetiva. Subjetivo e objetivo convivem lado a lado, da mesma forma que o sujeito e o objeto.
Ilustremos estas ideias através de um exemplo. Se alguém acha um prato de comida bom e outro acha o mesmo prato ruim, então o que costumamos dizer é que estas afirmações envolvem aspectos subjetivos, ou seja, a qualidade do prato é uma realidade subjetiva. Na verdade, trata-se de uma simplificação, na medida em que, na caracterização da qualidade do prato, deixamos de fora todos aqueles elementos que fazem com que o sujeito da afirmação ache o prato bom ou ruim. Ou seja, deixamos de fora a carga genética, o lastro cultural, a formação, gostos, preferências, fatores ambientais e experiências anteriores. Se eu incluir tudo isto, o que pode ser feito sinteticamente na figura de uma determinada pessoa que possua estas características, e se eu disser que fulano acha o prato de comida bom esta afirmação passa a ser objetiva. A realidade só era subjetiva porque, eu não estava considerando o sujeito da sua percepção, o que, a rigor, é um absurdo. Na medida em que realidade é sempre equivalente à sua percepção e percepção não faz sentido sem o seu sujeito, este último necessariamente é parte desta. O exemplo acima mostra que ao incluirmos na consideração da realidade o objeto e o sujeito da sua percepção o que fizemos foi adotar a perspectiva do todo.
Apesar de tudo aquilo que foi dito nos parágrafos acima, vamos nos referir frequentemente à realidade como sendo objetiva ou subjetiva. Como vimos, as palavras objetivo e subjetivo contêm imprecisões que foram aqui apontadas, de forma que, a rigor, deveríamos renunciar ao seu uso. Acontece que se trata de palavras de uso corrente, por demais importantes para que delas possamos abrir mão. Vamos, portanto, usá-las, mas em um sentido ligeiramente diferente daquele apontado acima. Nos parágrafos seguintes procuro tornar claro estas diferenças.
Apesar de sujeito e objeto sempre fazerem parte da percepção de uma realidade, quando falamos de realidade objetiva, o que estamos querendo dizer é que nesta percepção o objeto tem maior peso. Isto significa dizer que o processo de percepção está centrado no objeto e as características do sujeito pouco interferem. Por exemplo, se o objeto é uma mesa e se trata meramente de identificá-la como tal, características e atributos do sujeito da percepção pouco peso tem. Caso, no entanto, se queira categorizar a altura desta mesa classificando-a em baixa, média ou alta, a altura do sujeito, o tamanho de seus braços e suas pernas é fundamental. Neste último caso, verificamos que o processo de percepção não está centrado tão somente no objeto, porque uma série de atributos do sujeito são fundamentais. Dizemos então que a categorização da altura da mesa faz parte de uma realidade mais subjetiva. Um sonho do qual participa uma mesa voadora passa a ser ainda mais subjetivo, na medida em que agora temos que incluir elementos do passado, fatos e ocorrências diversas, bagagem cultural, formação, educação, etc. Dizemos que uma realidade é subjetiva quando nela entram aspectos mais pessoais, mais particulares e mais individuais relativos ao sujeito da percepção. Em contraposição uma realidade é mais objetiva quando nela entram questões mais amplas, gerais e comuns à maioria das pessoas.
O caráter subjetivo da realidade, ou seja, o individual e o particular, tem o seu valor, pois ele ajuda a definir e caracterizar o sujeito da percepção. O subjetivo, no entanto, traz em seu bojo um elemento desagregador, na medida em que diferenças de percepção e conhecimento podem levar a cisão e fragmentação, significando, sofrimento e dor. Não é que o subjetivo necessariamente leve a sofrimento e dor, mas pode levar, isto é, ele contém em si um gérmen desagregador que pode ter este desdobramento. Evidentemente que sonhos, fantasias ou delírios podem também ser coletivos e existem muitos exemplos em que um sonho, comunicado e divulgado apropriadamente, torna-se algo que une, agrupa e sedimenta.
Na medida em que um projeto, mesmo sendo um sonho, um delírio ou uma fantasia, esteja ancorado em uma realidade mais objetiva ele tem uma forte chance de fazer parte de um projeto coletivo [23]. Em contraposição, algo muito pessoal e excludente tem grande probabilidade de levar a cisão e fragmentação e, portanto, a sofrimento e dor [24].
A realidade existe porque existe a matéria fornecendo uma base comum que junta e consolida. Somos parte da realidade e não é possível ser feliz negando-a. Negá-la significa a parte negando o todo. O mundo não é o campo virtual de todos os experimentos. O mundo tem leis e regras [25]. Existe uma direção para o movimento do mundo, mesmo que esta seja do nada para o nada, ou do tudo para o tudo, o que, aliás, é equivalente já que tudo e nada são opostos que se equivalem. Seja como for, a verdade é que o mundo tem uma direção e se a realidade é regida pela dialética, isto tão somente significa que existe movimento, e não que existe qualquer tipo de movimento. A matéria existe e é isto que dá substância aos pensamentos, de forma que não é qualquer um que decola. O que eu quero dizer é que no voo dos pensamentos, a realidade e, portanto, a matéria funciona como uma espécie de bússola a orientar a direção e a separar aqueles que decolam daqueles que jamais conseguem decolar [26].
É a matéria que estabelece uma base comum para a realidade possibilitando o projeto social e coletivo. Se a matéria é negada, desaparece o projeto social porque a realidade passa a ser algo profundamente relativo e relativismo costuma levar a ceticismo. Se tudo é relativo, a realidade, a rigor, não existe. Nega-se com isto a existência e, se nada existe, também nada vale à pena existir [27].
Não necessariamente as coisas são iguais para todos. Uma pessoa pode achar determinada mesa alta e outro pode achar a mesma mesa baixa. Mas todos, ou melhor, quase todos, acharão que aquele objeto é uma mesa. Ou seja, na mesa existe algo que a caracteriza como tal, ao menos naquele momento. O que caracteriza a mesa como tal é justamente a matéria, é o fato de ela ser feita de uma determinada substância, ter determinada forma, ser concreta, palpável, ter consistência física. Lembremo-nos que forma só é possível de ser definida se assumirmos a existência de matéria, pois forma é o aspecto espacial assumido pela matéria. É a matéria que torna a mesa real. E se a mesa existe, então também vale a pena colocar alguma coisa em cima dela.
O fato de se reconhecer que o objeto é uma mesa, possivelmente nos leva a concluir que não se trata do melhor objeto para com ele voar. Talvez nos leve a considerar a possibilidade de colocar alguma coisa em cima, mas certamente não define o que é que devemos colocar. Isto deve ser resultado de uma longa discussão, ampla em termos de espaço e tempo, isto é, envolvendo um grande número de pessoas por um tempo prolongado.
Não se trata de negar as discrepâncias, ou seja, de negar que diferenças possam existir. Trata-se de negar que toda e qualquer diferença possa existir. Pois se tudo é possível então nada existe. Não é tudo, ou qualquer coisa que pode acontecer. Acontece aquilo que a realidade permite que aconteça. Por exemplo, não pode alguém negar o corpo e isto não ter consequências. É o corpo que em nós está mais associado à ideia de matéria [28].
Sintetizando as três primeiras seções deste capítulo cabe ressaltar que os três elementos básicos, realidade, racionalidade e matéria compõem o fundamento não só da presente cosmovisão, mas também da terapia que será aqui exposta. É a existência de uma realidade racional e material que fornece uma direção para nortear a nossa vida.
Nas seis seções que se seguem abordaremos aspectos que já foram mencionados, mas que merecem um pouco mais de detalhamento. Na primeira seção delimitamos racionalidade de lógica, na segunda faremos a conexão entre racionalidade, sentimentos e sensações, na terceira seção procuramos fazer a distinção entre racionalidade e racionalização, na quarta é enfatizado o aspecto terapêutico do entendimento e na quinta seção traçamos alguns paralelos entre união/cisão, Eros/Tânatos e racionalidade/realidade. Para finalizar, segue uma conclusão e síntese do capítulo.
Racionalidade e Lógica
A ideia da presente seção é fazer uma delimitação entre racionalidade e lógica, principalmente da maneira em que a lógica é usada pelos positivistas e neopositivistas. Estes propõem o modelo das ciências exatas como paradigma do procedimento científico, condenando a dubiedade inerente à linguagem. O que aqui se defende é que o modelo lógico-matemático é uma simplificação, que não dá conta de entender e explicar fenômenos mais complexos, em particular, aqueles envolvendo seres humanos e seus relacionamentos.
Em minha opinião, entendimento e racionalidade implicam em uma visão dialética. Parte-se aqui da premissa de que a realidade é movida pela contradição. As coisas são e não são simultaneamente e é deste embate que surge a transformação. Entender a realidade é entender esta dinâmica. Mais detalhes sobre esta visão serão dados no próximo capítulo.
Racionalidade não é lógica. Lógica é um conceito limitado que se aplica a um mundo também limitado. Ela trabalha com o conceito de verdadeiro / falso e o que é verdadeiro não pode ser falso e vice-versa [29]. No caso do exemplo dado na primeira seção deste capítulo, vimos que quebrar o galho da árvore para desobstruir o caminho pode ser uma boa ou má solução dependendo das circunstâncias e da perspectiva. Tudo está em incessante movimento e isto impede a fixação de quaisquer valores, inclusive o verdadeiro / falso. Não existem regras fixas, leis imutáveis ou princípios invioláveis.
Estes fatos não necessariamente têm que levar ao ceticismo, conformismo ou imobilismo. Pelo contrário, se a única maneira de ser ativo é poder tomar medidas definitivas, se a única condição para uma visão positiva e otimista do mundo são as certezas e se o processo de engajamento precisa da garantia da eternidade, então algo vai mal. A vida humana nada mais é do que um breve lapso de tempo dentro da existência do universo. Então, que sentido tem falar de eternidade? Se tudo está em constante movimento e transformação que sentido podem ter certezas e medidas definitivas?
O objetivo é justamente fazer a coisa, tomar uma decisão e se engajar sabendo, de antemão, que possivelmente existe um lado do problema que desconhecemos, existe algum fato novo que vai ocorrer, algum aspecto não foi considerado, faltam informações, dados estão incorretos e uma perspectiva, talvez a mais importante, foi esquecida. Tomamos um rumo na certeza de que mais adiante correções vão ser necessárias, uma vez que aspectos importantes foram deixados de lado ou considerados de forma errada. O único eterno é o eternamente provisório, a única constância é a constante mutabilidade. Nem por isto cabe o desânimo. Pelo contrário, é o provisório e a mutabilidade que demandam de nós ação e engajamento [30].
Na verdade, a defesa da necessidade de certezas e verdades imutáveis assemelha-se à afirmação de que para sobreviver em águas revoltas há que se ter um esteio, uma escora ou outro objeto fixo no qual se segurar. Ora, qualquer nadador sabe que o oposto é verdadeiro. Quanto mais revolto o mar e mais forte a correnteza, mais importante é não se opor ao movimento das águas. Todo mundo sabe que para sair de uma correnteza cabe acompanhá-la e não nadar contra. Não se trata de evitar a interferência, de não opor resistência. Trata-se de aproveitar as forças da natureza interferindo tão somente para direcioná-la no sentido do nosso interesse.
Vivemos em um mar de incertezas e a necessidade de certezas vai frontalmente de encontro à tendência que as coisas têm de mudarem e se transformarem. Como já foi dito, a existência de incertezas não necessariamente nos obriga a ficar parados ou se deixar levar pelo fluxo dos acontecimentos. Ela nos obriga, sim, a caminhar cautelosamente, tateando devagar, sondando as diversas opções, com os sentidos ligados e atentos, questionando a cada momento o passo anterior, e verificando se não teria sido melhor a direção oposta. É exatamente isto que se faz quando se está perdido na floresta, sem orientação, ou quando se está no escuro. A vida equivale a uma imensa floresta com muitos caminhos e muitas saídas ou, em outra metáfora, a um imenso quarto escuro.
Caminhar não implica necessariamente em caminhar em linha reta, nem tampouco a linha reta implica no caminho mais rápido, porque, podem surgir obstáculos que obriguem a um desvio. Além disso, se a direção estiver errada, ou se houver necessidade de correção de rumo, melhor do que o avanço rápido teria sido o caminho sinuoso. Este possivelmente teria dado tempo para a gente se aperceber do erro, e as voltas e os meandros do caminho sinuoso teriam permitindo um melhor conhecimento do terreno.
Para mostrar a importância de se considerar diversas óticas e perspectivas, volto novamente ao exemplo dado na primeira seção deste capítulo. Se o galho atravessa o meu caminho e impede a minha passagem isto reflete simplesmente o fato de que tanto eu como ele queremos existir. Chamar isto de competição das espécies, como o fez Darwin, é uma visão míope. Também o calor gerado dentro do cilindro de um motor a combustão trabalha contra o sistema de refrigeração do carro e nem por isto dizemos que a queima do combustível compete com a refrigeração. Cilindro e radiador fazem parte de um todo que chamamos de motor e ambos colaboram para que este funcione [31]. Tudo se passa sempre em diversos níveis e o que é competição em um nível é colaboração em um nível superior [32]. Competição ou colaboração dependem, portanto, do nível, ou melhor, da perspectiva que estamos considerando.
No caso do galho de árvore, a visão darwinista da competição é a visão de um ser humano que se sente tão somente ser humano, esquecendo que fazemos parte do mundo num sentido mais amplo. Dentro desta visão restrita, o galho de árvore compete com o ser humano por espaço vital. Trata-se de uma visão fracionada e particionada que pode inclusive ser considerada como irracional se levarmos em conta que a permanência do ser humano sobre a terra é mais limitada do que a permanência dos vegetais e se considerarmos que o ser humano precisa dos vegetais para sobreviver. Mas mesmo que defendamos a visão antropocêntrica, cabe ter em mente que esta é tão somente uma das possíveis óticas, existindo muitas outras formas de se ver as coisas [33]. Fica, portanto claro que óticas ou perspectivas diferentes levam a formas diferentes de posicionamento, levando a lógicas distintas e a distintos conceitos de verdade.
A questão das diversas óticas que permeia o conceito de racionalidade pode também ser ilustrada de outra maneira, levando em conta a identidade de realidade e racionalidade. Cabe lembrar que se existe esta identidade então toda realidade é racionalidade e diferentes óticas implicam em um reconhecimento de diferentes realidades e, portanto, diferentes racionalidades. Vale a pena exemplificar estas ideias levando em conta duas afirmações que, à primeira vista, parecem ser contraditórias: a terra é plana e a terra é redonda. Aparentemente somente a segunda afirmação está correta. No entanto, qualquer engenheiro ao construir uma casa parte do princípio que a terra, ou seja, a superfície na qual ele vai levantar a construção, é plana. Também, para os antigos, dentro do horizonte no qual eles costumavam se mover, o conceito de terra plana atendia perfeitamente às exigências e se prestava perfeitamente para o planejamento das suas viagens. Assim, o que se verifica é que a afirmação a terra é plana não está errada, mas sim, parte de conceitos de terra e plana mais restritos e mais limitados. Caso se entenda por terra um entorno próximo de onde se está e caso plano seja um conceito definido sem grande precisão, então, para todos os efeitos, a terra é plana. Duas afirmações aparentemente contraditórias passam então a ser equivalentes, uma deixando-se reduzir à outra. Dizer que a afirmação a terra é plana é falsa e que a afirmação a terra é redonda é verdadeira é uma enorme simplificação. Vemos através deste exemplo que os conceitos de falso e verdadeiro que estão na base da lógica tradicional, não levam em conta todas as condicionantes envolvidas na questão.
Racionalidade, sentimentos e sensações
Como vimos racionalidade envolve a idéia do todo. O todo é paz. Paz é um sentimento, uma sensação. Por esta breve análise já fica claro que é impossível dissociar racionalidade de sentimentos e sensações.
É impossível dissociar racionalidade de realidade e a realidade é feita de sentimentos e sensações. Na linguagem corriqueira, no entanto, costuma-se separar a cabeça, onde estaria sediado o intelecto, do corpo, onde estariam concentrados os sentimentos e as sensações [34]. Em alemão frequentemente usa-se Geist para denominar a atividade intelectual e Seele para se referir aos estados afetivos.
A associação de cabeça à racionalidade e corpo a aspectos emocionais e sensitivos não me parece adequada pois a cabeça é também a sede de uma série de emoções. Por exemplo, a maioria das pessoas concordaria em dizer que a saudade é essencialmente centrada na cabeça. Aqui, neste livro, com cabeça estaremos considerando os aspectos mais associados a cultura e civilização e com corpo os aspectos mais associados à natureza, ou seja, àquilo que diz respeito aos instintos, impulsos (pulsões) vitais e intuição, herdados dos nossos ancestrais remotos. Evidentemente nenhum destes conceitos pode ser delimitado de forma rígida e a separação cabeça/corpo é, de certa forma, artificial e visa organizar a exposição de ideias. A própria visão dialética que norteia o presente texto garante que não existe uma separação precisa entre estes conceitos O homem é natura e cultura, cabeça e corpo e os instintos e impulsos vitais são filtrados e trabalhados pela cabeça. Sentimentos e emoções estão distribuídos tanto por cabeça e corpo. Uma paisagem ou uma árvore despertam sentimentos que têm a sua raiz na natureza, mas que podem também ser resultado de um processo cultural que realça a importância do meio ambiente. Também o desejo por determinada pessoa tem a sua origem em uma atração sexual que vem da natureza, mas este sentimento é modificado pelos padrões estéticos que são um claro produto do processo cultural.
Como na fase infantil prevalecem os chamados instintos naturais, dizemos que o eu-criança é essencialmente corpo. Por outro lado, à medida em que o ser humano se desenvolve, a cabeça vai adquirindo maior peso (tanto no sentido lato como no sentido estrito).
A noção de corpo aqui utilizada está, de certa forma associada à noção do id freudiano, mas em Freud o termo está por demais vinculado a desordem e desregramento [35]. Aqui, pelo contrário, corpo é natureza e esta última é ordem e racionalidade.
Aparentemente a racionalidade está centrada na cabeça, mas, como é impossível dissociar racionalidade de realidade, e como da percepção da realidade participam os sentimentos e sensações e, portanto, o corpo, a rigor, isto não se aplica. No fundo, racionalidade e sentimentos caminham sempre juntos da mesma forma que cabeça e corpo. Usando uma imagem da computação é como se a gente quisesse discriminar processamento de informação. Cabe lembrar que em computação processamento é sempre processamento da informação e não existe processamento sem informação.
Na parte final da seção o real é racional e o racional é real ressaltamos que o pensamento surge de estímulos sensoriais e que tudo o que pensamos é, de alguma maneira, baseado em situações vividas ou imaginadas. Demos algumas referências de experiências em que a ausência de estímulos sensoriais conduz à loucura e à alienação. É a visão, a audição, o tato e demais sentidos que permitem que a gente se aperceba da realidade e mesmo na experiência conceitual do brain in a vat existe um input que corresponde à informação que é colhida pelos sentidos [36].
Entender é sempre entender a realidade e a realidade não é tão somente aquilo que é pensado, mas também aquilo que é vivido e, portanto, sentido. Dentro da visão do todo que aqui é defendida, corpo e mente andam sempre juntos, teoria não existe sem a prática e racionalidade é sempre em cima de uma realidade. Como é possível se apropriar da realidade senão através da percepção, da sensação e dos sentidos? Como tomar contato com a realidade senão através de tato, visão, audição, olfato e paladar?
Quando encontramos um problema, fazemos a sua análise e propomos uma solução deparamo-nos sempre com a questão da verificabilidade, ou seja, verificar se a análise e a solução estão ou não corretas. Quando o problema é psíquico, a verificabilidade envolve sensibilidade interior, ou seja, é preciso perscrutar o seu interior para ver como é que a análise ou a solução batem. Soluções e análises existem muitas e inúmeras possibilidades existem de se explicar um fato. Na sua validação existe sempre um exercício de introspecção que envolve sensibilidade.
O erro, o pensamento errado frequentemente representa uma visão parcial, fracionada da realidade. Uma teoria está errada quando ela não consegue explicar ou vai de encontro a uma parte da realidade. Ora, dentro da visão aqui defendida, o fracionamento e a visão parcial estão sempre associados a sofrimento e dor, de forma que a sensibilidade por trás da identificação destes sentimentos desempenha papel importante na validação do pensamento.
Claro que ao se considerar a paz ou a dor, há que considerar também as duas dimensões básicas que regem o mundo: espaço e tempo. O que é bom em um determinado instante pode fazer mal no instante seguinte. Se como um doce, naquele momento sinto prazer que, no entanto, pode acarretar mal-estar e desconforto mais adiante. Além disso, a visão de todo requer que o sentimento prazeroso provocado em mim por determinada ação, leve em conta, possível dor que a mesma ação ocasiona em outras pessoas. Se sou parte do todo, o que afeta o todo, afeta a parte e, portanto, me afeta [37]. Vemos, portanto, que o que aparentemente é simples, ou seja, deixar a paz e o sentimento prazeroso guiar os nossos passos, é questão da maior complexidade. Somente uma sensibilidade sintonizada com o todo, nas duas dimensões básicas, espaço e tempo, ou seja, no sentido de englobar outras pessoas e outras partes do mundo e considerar situações futuras e passadas, pode nos guiar na direção correta. A reeducação da sensibilidade no sentido de possibilitar esta abrangência é uma das finalidades do presente livro.
Nos parágrafos acima examinei a importância de se considerar sentimentos e sensações na validação da racionalidade. Para ilustrar estas ideias vejamos um caso concreto: a insônia. Suponhamos que alguém para solucionar este problema faça uma análise e procure soluções. Em princípio, se a análise é correta e se a solução é encontrada, é de se esperar que se produza um alívio, que a pessoa reencontre a paz e volte a dormir. Por exemplo, se a causa da perturbação é uma dificuldade e se é possível solucioná-la, ou então, convencer-se que é possível conviver com ela, então, é provável que a tranquilidade volte. Claro, que isto se aplica a uma insônia leve e ocasional. O problema de uma insônia crônica é bem mais complicado e será examinado em outro capítulo. De qualquer maneira, é importante considerar que são sentimentos e sensações que validam a análise.
O entendimento jamais é um processo envolvendo tão somente a mente. Raciocínios são sempre desenvolvidos a partir de certas premissas ou suposições. Se estas últimas forem falhas, também as elaborações são falhas. As premissas e suposições são feitas considerando a realidade. Ao tentar entender a realidade é necessário observá-la, inclusive observar como a realidade reage ao nosso entendimento. O entendimento muda a realidade. Por exemplo, se eu não consigo dormir e se eu procuro entender porque isto se dá, e se eu descubro que a causa da insônia são inquietações, fruto de fantasias e medos imaginários, então possivelmente esta mera descoberta já vai melhorar a qualidade do sono. Se descubro problemas reais por trás da inquietação, se procuro resolvê-los, ou então, no caso disto não ser possível, se procuro aceitá-los, provavelmente o sono voltará. Tudo isto se refere ao caso do entendimento ter sido acertado. No caso do entendimento ter sido falho, ou seja, não corresponder à realidade, ou então ter deixado um aspecto importante de fora, então provavelmente eu continuarei com insônia [38] [39]. Resumindo, o entendimento, nunca é pura atividade cerebral, porque sempre implica em observar, sentir e perceber a realidade, e isto envolve corpo, sentimentos e sensações [40].
No parágrafo acima eu disse que o entendimento muda a realidade. Eu gostaria de ilustrar esta ideia com uma questão que aparece frequentemente em arte (veja por exemplo o filme The Square, do diretor sueco Ruben Östlund, 2017): o que faz de um objeto uma obra de arte? De uma maneira mais sintética e mais radical poderíamos formular a questão de outra forma. O fato de eu colocar um objeto ou um recorte, do nosso cotidiano, dentro de uma moldura, faz dele uma obra de arte? Aqui moldura representa um destaque que pode ser uma sala de um museu, um pedestal, uma tela, etc. A mesma questão pode ser expressa também de uma forma mais ampla: como distinguir entre realidade e arte?
É claro que dentro do contexto do presente trabalho arte é realidade. No entanto, nem toda realidade é arte. Como fazer a distinção? Evidentemente esta questão é por demais complexa para ser aqui tratada de forma ampla e completa. Quero tão somente abordar um aspecto e, para ficar no concreto, tomo como exemplo a escultura Supermarket Lady de Duane Hanson. Trata-se da representação de uma senhora, de aproximadamente 40 anos, cabelos com rolinhos escondidos debaixo de um pano de cabeça, empurrando um carrinho de supermercado cheio de enlatados. Na boca uma guimba de cigarro, rosto e corpo flácido e disforme, olhar perdido ao longe. A escultura é em tamanho natural, feita de fibra de vidro e poliéster pintados. A mulher é extraída do nosso cotidiano, ou seja, é possível encontrá-la no supermercado que frequentamos, e, no entanto, o fato de colocá-la em um museu ou em uma sala de exposições, joga sobre ela uma luz que a transforma em arte. O olhar crítico, a visão questionadora, denunciam um certo tipo de entendimento que modifica a realidade [41]. Perspectiva e entendimento são imbuídos de sentimentos e sensações, levando à fusão de racionalidade, realidade, sentimentos e sensações.
Para terminar esta seção quero fazer uma síntese. O entendimento nunca é uma atividade meramente mental, na medida em que entender implica em entrar em contato com a realidade e esta requer ser sentida e vivida. Ou seja, não se trata tão somente de colocar a cabeça para pensar, mas sim de colocar a cabeça para pensar aquilo que o corpo sente. O processo é igual ao do poeta que bota no papel o verbo, portanto linguagem, portanto estrutura e racionalidade, mas esta representa sentimento, aquilo que ele vive e vivencia.
Racionalidade ou racionalização?
Apesar de tudo o que foi dito até agora, caberia a seguinte pergunta: todo raciocínio desenvolvido no presente texto não representaria mera racionalização, isto é, procuraria dar uma ordem, uma lógica e um sentido a coisas que na verdade não a têm?
Se realmente viver é tão somente viver e se a vida deveria ser vivida de forma espontânea, natural, intuitiva (onde na verdade estes termos requerem maior definição e explicação), ou seja, se vida é aquilo que é vivido e não aquilo que é pensado, refletido, então racionalidade é racionalização, ou seja, é algo forçado e artificial que procura justificar aquilo que, na verdade, não precisa desta justificação.
Aqui, no entanto, parte-se do princípio que realidade é racionalidade, a vida é pensamento e viver é entender. A vida é racional e viver é racionalidade.
Dentro deste contexto o que seria racionalização? Para esclarecer, vejamos um exemplo que guarda paralelos com a questão já vista da realidade objetiva/subjetiva. Suponhamos que X através de um longo argumento racional diz que as coisas são A. Focalizando a atenção em X, verificamos que são características B, que fazem com que X diga que as coisas são A. Se as características B não forem encontradas em outras pessoas, forem inválidas ou fazem X sofrer, a gente poderia discordar de X e dizer que a afirmativa de X é mera racionalização. Ou seja, a afirmação as coisas são A seria uma racionalidade menor, porque não levaria em conta uma série de outros fatores. A racionalidade maior seria dizer as características B de X fazem com que B afirme que as coisas são A.
Na verdade, a questão racionalidade ou racionalização não faz sentido dentro do presente trabalho, na medida em que com racionalização se está querendo caracterizar uma pseudo-racionalidade, um tipo de racionalidade falsa ou errada e aqui parte-se do princípio que isto não existe. Como já foi dito (veja o exemplo de a terra é plana na seção Realidade e Lógica) a racionalidade é sempre certa. Ao mesmo tempo que ela sempre é certa, também ela sempre é parcial, ou seja, explica tão somente uma parte da realidade. Na medida em que ela explica uma parte maior ou menor da realidade ela é uma racionalidade maior ou menor. Racionalização seria, neste caso, o nome dado a uma racionalidade menor. Dentro desta perspectiva, a rigor, toda racionalidade seria racionalização, reservando-se o termo racionalidade tão somente para a assíntota, ou seja, o limite máximo de abrangência, que surge ao se fazer a conexão com o todo [42].
Entendimento e terapia
Na introdução foi mencionado Viktor Frankl (1905-1997) e a Logoterapia, onde a busca de um significado para a vida desempenha um papel fundamental. Mas esta nada mais é do que a inserção no todo que, neste caso, passa a assumir um papel terapêutico.
Quero dar um segundo exemplo de como a busca de um significado para a vida, ou seja, a inserção no todo pode funcionar como terapia. Para isto apelo para a religião. Faz parte do senso comum a ideia de que a fé funciona como um esteio que nos dá respaldo nos momentos difíceis. Ora, o que é a fé senão a crença em uma ordem ou estrutura que nos abriga e nos oferece um lugar para ficar, um papel a desempenhar? Na religião, a ordem é regida por Deus, figura máxima à qual tudo se subordina. Deus nada mais é do que o todo e a inserção em uma ordem divina nada mais é do que a inserção no todo. Onisciência, onipresença, onipotência, tudo isto são palavras para exprimir a ideia de todo [43].
O problema da religião é a metafísica. Na medida em que a religião não é baseada na matéria, a ordem e a estrutura por ela estabelecida ressente-se de uma base e um fundamento. O resultado é um castelo no ar que permite todo tipo de ocupação e acaba servindo a todo tipo de propósito.
Na medida em que o todo é realidade, isto é, passa a ser a realidade toda, e na medida em que esta realidade é matéria, a base passa a ser sólida e fé transforma-se em racionalidade. O que continua, e por causa disto o paralelo com a religião, é o fator terapêutico. Este provém da definição de uma estrutura.
É o fato da realidade ser matéria que lhe confere caráter objetivo e isto tem importantes consequências terapêuticas. O fato de existir uma base comum, faz com que não seja válida toda e qualquer fantasia, não seja possível refugiar-se em todo e qualquer sonho ou ilusão. A fuga da realidade significa a sua negação, levando a cisão e fracionamento e, portanto, a sofrimento e dor. Aqui temos forçosamente que considerar as dimensões espaço e tempo. No que diz respeito à dimensão espaço, a fuga para o reino das fantasias pode ser algo muito individual a nos separar dos nossos semelhantes. Na dimensão tempo pode ser algo inviável a longo prazo. Por exemplo, o sonho consumista tem as duas vertentes. De um lado, é impossível todos consumirem igualmente, ou seja, para alguns consumirem, outros têm que deixar de consumir. Do outro lado, levando em conta a dimensão tempo, o consumo exaure o planeta porque exaure os recursos naturais. Trata-se, portanto, de uma cisão do homem com o homem e do homem com o meio ambiente que, a longo prazo, não é sustentável, resultando em sofrimento e dor.
Na medida em que realidade é estrutura e racionalidade, torna-se possível a desconstrução da “irracionalidade” de sonhos e fantasias Porque se realidade implica em racionalidade, então “irracionalidade” implica em irrealidade. Provando a “irracionalidade” de medos e fantasias estaríamos ajudando a desconstruí-los [44].
Na verdade, os medos, mesmo aqueles que não passam de fantasias, não são irracionais. Mesmo quando os perigos são imaginários, existe uma base real que pode ser uma experiência traumática ou a associação com um fato real. Medos e fantasias frequentemente baseiam-se em experiências da infância, ou seja, eles têm uma racionalidade mesmo que remota.
Racionalidade é um movimento para fora. É um movimento de união que, como vimos, representa paz [45]. A racionalidade permite fazer a conexão de um eu partido e juntar o eu com o mundo. Contrapõe-se ao medo que é um movimento para dentro. Medo é curvar-se, refugiar-se, buscar abrigo. Racionalidade é crescimento, é a evolução que caracteriza o ser adulto. Medo é a volta à infância, ao ventre materno de onde fomos expulsos e onde provavelmente, pela primeira vez, tivemos medo [46]. Racionalidade é luz e medo é trevas [47]. Faz, portanto, sentido contrapor a racionalidade ao medo, desconstruindo-o. Examinar os medos à luz da razão significa desfazer as sombras, os fantasmas, dissipar a névoa e a fumaça. O mundo é uma belíssima construção e para revelar esta beleza há que iluminá-la. Veremos mais adiante, com mais detalhe, o papel do entendimento na desconstrução dos medos.
A infância, está associada a ruptura e fracionamento, e, neste sentido, está associada a dor e sofrimento [48]. Basta pensar no parto ou no fim do aleitamento materno, ambas experiências de separação da criança da mãe. Podemos também considerar a evolução do ser humano como um grande parto no qual se dá o rompimento com a mãe natureza.
Se crescimento e evolução significam rompimento e cisão, significam também um movimento no sentido contrário. Cabe lembrar que crescimento significa o amadurecimento da racionalidade e do entendimento e estes significam o fortalecimento da capacidade de união. Por exemplo, a racionalidade tem condições de criar uma sociedade harmônica, integrada com a natureza e adaptada ao meio ambiente. O crescimento e o desenvolvimento da criança e o consequente reforço da racionalidade levam ao estudo e ao engajamento na vida profissional, possibilitando uma melhor inserção na sociedade. Tudo isto implica em um potencial movimento de união. Vemos, portanto, que no desenvolvimento da criança, a cisão e a união desenvolvem-se paralelamente. A espiral dialética tem condição de promover a recomposição de uma unidade perdida em certo nível por uma outra unidade em um nível superior. A mesma coisa se verifica para a dualidade cabeça/corpo. A ruptura da unidade corporal com a mãe, representada pelo parto e pelo fim do aleitamento, passa a poder ser recomposta, em um nível superior, pelo amadurecimento sexual, a criação de uma nova família e o fortalecimento dos vínculos com a sociedade.
Indubitavelmente a infância é a época onde a parte física e corporal tem maior peso. Por isto é comum associarmos o corpo ao nosso eu-criança. Já a atividade cerebral costuma ser associada à fase adulta. Se o peso que estava centrado no corpo desloca-se para a cabeça, isto, no entanto, não pode significar o abandono completo dos aspectos corporais. Existe fome e sede, existe frio e sono e existe sexo. Felicidade e paz consistem na coexistência, lado a lado, de forma equilibrada, do eu-criança com o eu-adulto [49]. O que se verifica, no entanto, é que ao tentar resolver os problemas do dia a dia, na tomada de decisões, nos relacionamentos, nas escolhas profissionais e afetivas, surgem conflitos.
Examinemos algumas destas situações e vejamos como o entendimento e a racionalidade podem ajudar na sua superação. Suponhamos que alguém tem que tomar uma decisão importante envolvendo riscos. A primeira reação costuma ser a do medo. Este sentimento reflete o eu infantil, pois na criança o medo seve para ativar os instrumentos de defesa: choro e fuga. A reação adulta mais apropriada é enfrentar o problema. Para isto, no entanto, há que primeiramente combater o medo. Medo imobiliza. Acontece que, o que o adulto frequentemente faz, é negar o medo, reprimindo-o. Isto significa negar e reprimir a criança dentro de nós, o que só reforça o medo, pois a ameaça ainda mais. Além disso, negar e reprimir uma parte do nosso eu, provoca cisão e fragmentação e, portanto, sofrimento e dor [50] [51].
Através do entendimento é possível integrar as diversos partes do eu. Por exemplo, se eu reconhecer que, ao invés de negar e reprimir, é melhor tentar entender as origens do medo, reconhecendo que as suas causas jazem no passado e nada mais têm a ver com a situação presente, e, se eu trabalhar em cima destas ideias, possivelmente os medos irão embora. Ou talvez não. Talvez, pela via do entendimento, eu tenha que reconhecer que a situação do passado, que originou o sentimento de medo, guarda semelhanças com a situação atual e que, de fato, existe perigo. Neste último caso, o medo funciona como um sinal de alerta, e a aceitação do sentimento pode me levar a recuar. De qualquer maneira, nos dois casos, foi o entendimento que possibilitou a superação do conflito interno. Ao invés de negação e rejeição do eu-criança houve respeito, atenção, e, em parte, aceitação. É como se o eu-adulto tomasse a mão da criança e iluminasse os cantos escuros da mente com a luz da razão e do entendimento. A luz espanta as trevas e medos e fantasmas, ou melhor, os fantasmas do medo vivem das trevas.
Também conflitos externos podem ser resolvidos com ajuda do entendimento. Suponhamos, por exemplo, que alguém decide escolher uma companheira não é aceita na sociedade que ele frequenta. O sofrimento resultante é consequência da cisão entre uma parte do eu ligada à pessoa amada e outra parte do eu ligada ao meio frequentado. O entendimento e a racionalidade, ao analisar a situação, podem diminuir os efeitos da cisão. Muitas soluções são possíveis. Nos extremos, estão a rejeição da companheira e a rejeição da sociedade. Mas pode haver também uma solução de compromisso, como, por exemplo, a reconciliação da companheira com a sociedade ou a opção por relacionar-se tão somente com elementos da sociedade onde a reconciliação é possível. Pode, até mesmo, haver a tentativa de modificar a sociedade, ou modificar a companheira, de forma que ela seja aceita. Aqui não se trata de discutir qual a melhor solução, mas sim, mostrar que pela via da racionalidade e do entendimento, procurando fazer elos e ligações, examinando todas as perspectivas, todos os aspectos envolvidos, é possível, não eliminar o conflito, mas diminuir os seus efeitos.
Em primeiro lugar há que se analisar o que se quer. Há que examinar a vida sentimental e afetiva, até que ponto se ama a companheira e até que ponto ela é imprescindível. Fatores morais e religiosos podem ter influência. As consequências do rompimento dos vínculos com a pessoa amada ou com a sociedade têm que ser consideradas. Será que o rompimento pode afetar o equilíbrio físico e psíquico? Pode ter consequências econômicas? Pode afetar a vida profissional? As reações da sociedade têm que ser examinadas bem como as suas causas e motivações. É tudo preconceito ou existe uma base real? Os preconceitos são arraigados ou trata-se de frutos de um mal-entendido que pode ser esclarecido? Se existe uma base real, até que ponto o tempo pode modificá-los? Até que ponto a sociedade é passível de transformação?
O caso pode inclusive ser investigado à luz da cisão cabeça/corpo, já que o problema é resultante da opção entre o amor e questões mais cabeça como relacionamentos, emprego, reputação, dinheiro, etc.
Se cisão e fracionamento são sinônimos de dor e sofrimento, a solução parece consistir em um movimento na direção contrária. Entendimento é união. Ao examinar causas e consequências, ao se ponderar sobre desejos e motivações, constrói-se uma ponte entre as diversas partes do eu e entre o eu e a sociedade. Ao analisar o presente, o passado e o futuro, estabelecem-se vínculos temporais. Ao considerar as diversas pessoas envolvidas, suas características e suas motivações, estabelecem-se vínculos espaciais. Espaço e tempo são as dimensões básicas da realidade.
Claro que nada disto é imediato. Claro que a curto prazo pode resultar ainda mais cisão. A pessoa mencionada pode romper com a companheira e, ainda por cima, romper com a sociedade. Ou então, o que é o mesmo, o resultado pode ser tão somente o ódio contra tudo e contra todos.
A resposta do ódio tão somente mostra que o processo não tem fim, ou melhor, que este não é o fim do processo. Se a resposta é ódio, a pessoa vai ter que aprender a conviver com este sentimento e vai colher os frutos. Se ele continuar com o processo de análise e entendimento, vai verificar que os frutos do ódio são amargos.
Foi ilustrado nos parágrafos acima que à medida que se examina a questão, é possível se estabelecer vínculos e ligações e que estes ajudam a reconquistar a paz. Claro que também é possível romper os vínculos. Entendimento é inserção no todo. Mas pode-se também ir no sentido oposto e o resultado é sofrimento e dor.
Mencionamos acima conflitos internos e externos. Na verdade, trata-se de duas faces da mesma moeda. Conflitos dentro do indivíduo frequentemente refletem conflitos mais amplos dentro da sociedade. Por outro lado, conflitos na sociedade, comumente, são resultados de questões existenciais mal resolvidas.
A racionalidade visa possibilitar a integração do indivíduo, da sociedade e do indivíduo na sociedade. Se o corpo puxa para um lado e a cabeça para o outro, temos como resultado cisão e dor. Talvez, no entanto, com auxílio da razão, seja possível definir uma direção intermediária que reconcilie cabeça e corpo. Talvez seja possível convencer o corpo que o melhor caminho é aquele indicado pela cabeça, ou então, trata-se do contrário. É claro que nada cai do céu. À medida que se analisa a questão, se verificam prós e contras, à medida em que se aprofunda em presente, passado e futuro, se examinam indivíduos, elos, ligações, fundamentos e características, vai se construindo a trama da qual se compõe o todo. O todo nada mais é do que isto: prós e contras, presente, passado e futuro, indivíduos, elos, ligações, fundamentos e características. O todo não é dado, o todo se constrói. Possibilitar esta construção, este é o papel da racionalidade.
Vejamos mais um exemplo de como isto pode ser feito, examinando um dos problemas principais da vida: a morte. A maioria das pessoas há de concordar que não existe dor maior do que a da morte. Morte é fim, é o nada, é reduzir-se ao nada. Mas morte só é fim dentro de uma determinada visão. Dentro de uma visão um pouco mais ampla, um pouco mais perto da visão do todo defendida neste trabalho, morte também é começo. Por exemplo, na África ocidental o hábito de reservar um aposento para os mortos permite uma continuidade que faz parte desta visão de todo. Na medida em que o morto continua a habitar a mesma casa, que se fazem oferendas e que os seus objetos preferidos estão presentes, o morto continua a viver, e a ruptura entre morte e vida torna-se mais suave. A reencarnação do hinduísmo representa a mesma tendência. Na medida em que a alma, após a morte, passa a viver em outro corpo, suaviza-se a ruptura entre vida e morte e esta perde a sua dramaticidade, deixa de significar o fim.
O sacrifício, mais perto de uma visão ocidental e cristã, tem o mesmo sentido. Na medida em que alguém se sacrifica por um outro, por uma causa ou um povo, ele liga o seu destino ao da entidade pela qual ele se sacrifica e desta forma supera a sua finitude. Se o sacrifício é a morte, ele, na verdade, a supera na vida daquele ou daquilo por qual ele se sacrifica. Neste sentido, o sacrifício por uma entidade imortal como Deus seria a mais ambiciosa das metas.
O trabalho, a obra feita, seja uma casa, uma árvore ou um filho, podem ser interpretados de forma semelhante. Tudo são tentativas de superação da morte, de permanecer vivendo, continuar presente através da obra deixada. A fotografia, a lembrança, a memória tudo são símbolos de permanência a se contrapor à finitude.
Vida e morte são extremos que se tocam, que se interpenetram e é atribuição da racionalidade propiciar este entendimento. Entendimento é integrar a parte no todo e o papel do entendimento é o de propiciar a união. No que diz respeito à cisão interna, trata-se de integrar as diversas partes do eu. No que diz respeito à cisão externa, trata-se de integrar o eu no mundo, em particular, na sociedade. Cabe lembrar que fracionamento é sofrimento e dor e a inserção no todo faz parte de um movimento de união que vai permitir a paz.
Racionalidade/realidade, união/cisão e Eros/Tânatos
De certa forma está implícita a idéia de união na definição de racionalidade como um movimento de inserção no todo. Já mencionamos anteriormente em uma nota de rodapé que, a rigor, a definição de inserção no todo é um contrassenso, na medida em o todo já contém tudo, de forma que nada nele pode ser inserido. Mas o todo, no caso da definição, é uma assíntota, ou seja, é utilizado como uma tendência e o que se tenta, na verdade, é fazer conexões que acabam tendendo ao todo. Seja como for, mesmo se eu me abstrair da ideia de inserção no todo e definir racionalidade como conexão e ligação das coisas, fica implícita a associação entre racionalidade e união. E aí, como realidade é racionalidade, fica implícita uma tendência da realidade à união.
Eu acho que alguma coisa disto é verdade. Visto de uma forma bem ampla e geral o universo encontra-se em expansão e existem duas conjeturas. A primeira diz que ele continuaria se expandindo indefinidamente. Neste caso ele acabaria diluído no nada. Nada ou infinito seria o estado ao qual tudo se reduziria e isto pode ser visto como um movimento de união. Tratar-se-ia da união de tudo no nada ou no infinito. A diluição total no infinito, a dissolução total e infinita pode ser vista como um movimento de integração. A segunda conjetura diz que, após certo nível de expansão, haveria reversão e o universo voltaria a se contrair até que tudo se reduzisse a um núcleo central. Este teria uma concentração de massa/energia tal que possivelmente voltaríamos ao big bang, ou seja, voltaríamos a um movimento de expansão. A redução de tudo ao núcleo central é claramente um movimento de união. Diluição no infinito ou concentração em um núcleo central caracterizam um estado de homogeneidade da matéria/energia representativa da ideia de união.
Voltemos para o ser humano que é o foco do presente trabalho. Se partirmos do princípio de que a motivação básica do ser humano é a busca da felicidade e se considerarmos que felicidade é paz e que esta última é resultado de um movimento de união, então, esta seria a força predominante a nos impulsionar. É claro que na medida em que a gente se une a alguma coisa, a gente se afasta de uma terceira, ou seja, movimentos de união e cisão ocorrem sempre conjuntamente. A força que nos motiva e que nos impulsiona, no entanto, é a tentativa de união. É isto que caracterizaria racionalidade [52].
Evidentemente nada garante que o resultado desta busca seja, de fato, paz e felicidade porque, como já vimos, o movimento de união vem sempre acoplado a um movimento de cisão e a resultante destas duas forças pode agir no sentido de aumentar a dor e o sofrimento. Ilustro estas idéias com alguns exemplos. Utilizo as duas forças básicas Eros e Tânatos, o impulso (pulsão) de vida e o impulso (pulsão) de morte como representativos de movimentos de união e cisão. Existem, no entanto, diferenças que serão esclarecidas mais adiante.
Tomo inicialmente como base o livro de Truman Capote, A sangue frio, que narra o assassinato da família Clutter por dois criminosos Perry Smith e Richard Hickock. O livro baseia-se em um fato real ocorrido em 1959 no Kansas, nos EUA. Evito entrar nos detalhes que não interessam e tento generalizar as ideias. Capote traça um perfil bastante detalhado de Perry Smith e de suas possíveis motivações. A primeira motivação era o roubo. Os Clutter eram fazendeiros ricos e Perry e Richard tramaram o crime para se apoderar do dinheiro deles. Isto, no entanto, não explica a violência do crime. Perry Smith, o mais violento dos dois, vez por outra era tomado por um ódio terrível e avassalador.
Ódio e destruição aparentemente são um caso de Tânatos, o impulso de morte, e refletem cisão e fracionamento. Matar alguém é se colocar em contraposição à vítima, é rejeitar um ser da espécie à qual pertencemos. Mas se a motivação é o roubo, pode existir, paralelamente à cisão, uma outra motivação, atuando em sentido contrário. Talvez o roubo tenha sido feito para dar conforto à família do criminoso, talvez seja no sentido de recuperar uma auto-estima perdida em uma sociedade que valoriza os bens materiais, ou talvez o roubo vise simplesmente preservar a subsistência física do criminoso. Tudo isto são movimentos de união: união com a família, união com o eu. A mente que concebe um roubo para aplacar a fome, tenta se unir ao corpo, e no mundo animal o ato de matar faz parte do instinto de sobrevivência.
Examinemos a segunda motivação, o ódio mortal de Perry Smith. Talvez o criminoso ao assassinar tenha visto na vítima o pai que sempre o maltratou. Matando-o ele momentaneamente encontra a paz porque ele se reconcilia com a sua infância destruída pela influência do pai. O eu-adulto pratica um ato que o eu-criança não tinha condição de praticar. Eu-adulto e eu-criança se unem e, ao menos momentaneamente, existe a tentativa de reconciliação com um mundo do qual a figura do pai os afastou. Ou seja, trata-se também de um movimento de união.
O sujeito que, assolado por terrível angústia, se suicida, é guiado em seu ato pelo impulso de morte (Tânatos). Ele se afasta da vida e dos seus semelhantes em um movimento claro de cisão e fracionamento. No entanto, ao se matar, ele retorna ao ventre da mãe-terra na qual vai encontrar a paz que a vida não lhe deu.
Dou mais um exemplo retirado da seção Entendimento e terapia. Lá menciono o caso de uma pessoa que decide escolher para sua companheira alguém que não é aceito na sociedade à qual ele pertence e menciono diversas alternativas para resolver o impasse. Aqui escolho a mais radical delas, justamente porque ela apresenta mais dificuldades para se ver que movimentos de união e cisão estão sempre presentes em tudo o que a gente faz. Suponhamos que em função do problema, a pessoa resolva romper com a companheira e, ainda por cima, romper com a sociedade. Na verdade, o que a pessoa está fazendo, neste caso, é romper consigo mesmo, já que tanto a companheira como a sociedade são parte da sua vida. O rompimento consigo mesmo é talvez o ato mais extremado de cisão. O resultado costuma ser uma crise existencial que pode levar desde angústia até morte ou loucura. Morte nós já examinamos no parágrafo acima. Loucura significa a busca de uma nova dimensão, uma vez que a dimensão presente é por demais dolorosa para nela se continuar vivendo. A busca, ou melhor, a entrada em uma nova dimensão pode ser entendida como um movimento de união. A imersão em um novo mundo, numa tentativa de reconquistar a auto-estima perdida, é uma tentativa de reconciliar-se consigo mesmo, de juntar os cacos [53]. Evidentemente seria muito leviano de minha parte dizer que o resultado é paz. Poucos loucos conseguem paz dentro da sua nova dimensão, mesmo porque a loucura alterna momentos de ausência com momentos de lucidez e, estes últimos costumam vir carregados de angústia. Seja como for, trata-se da busca de uma reconciliação consigo mesmo, e isto caracteriza um movimento de união.
O resultado da crise existencial pode, no entanto, não ser nem morte nem loucura. Pode ser tão somente uma terrível angústia que persiste por anos a fio. O que dizer neste caso? Onde fica o movimento de união? O máximo que eu consigo dizer é que a crise existencial é uma busca. Se a gente está insatisfeito consigo mesmo há que procurar criar algo novo, da mesma forma que para construir um prédio há que primeiro demolir o antigo. Demolir o antigo é o que eu chamo de cisão. Construir o prédio novo é o que eu chamo de união. A demolição do prédio antigo, no entanto, faz parte da tarefa de construção do prédio novo. Cisão faz parte de união [54]. Ou seja, a dor não necessariamente é um mal. A dor é um sinal de alerta de que alguma coisa vai mal e é ela que frequentemente alavanca um movimento que permite a obtenção de paz.
Apesar de eu ter feito paralelos entre união/cisão e Eros/Tânatos existem importantes diferenças que cabe esclarecer. Eros é o impulso de vida e Tânatos é o impulso de morte e, neste sentido, representam conceitos mais precisos do que união/cisão. Por exemplo, o suicídio mencionado acima é claramente Tânatos, mas é uma cisão da pessoa que se suicida com a sociedade na qual ela vive e uma volta ao ventre materno, ou seja, é também um movimento de união. Como ilustramos acima onde há união costuma haver cisão, ou seja, ao mesmo tempo que uma coisa se junta a uma outra ela se separa de uma terceira. O parto é a separação da mãe, mas é o início de uma tentativa de integração na sociedade.
Ligando os pontos (parágrafos)
Definida a ideia do todo no capítulo anterior, neste capítulo definimos alguns conceitos adicionais para a cosmovisão/terapia que se pretende apresentar. O todo é estruturado e chamamos esta estrutura de racionalidade. Como o todo nada mais é do que a realidade toda, também a realidade é estruturada. Realidade é estrutura e estrutura só é apercebida no contexto da realidade. Realidade e estrutura, portanto, são uma coisa só.
Realidade é matéria. Dito assim, matéria nada mais é do que uma palavra. Na verdade, ao dizer que realidade é matéria estamos querendo afirmar que a realidade existe. Esta prova é impossível porque para provar que a realidade existe teríamos que partir da sua existência. Ou seja, existe uma circularidade intrínseca na base, o que poderia também ser interpretado como prova da sua impossibilidade [55]. A possibilidade de se estabelecer uma base seria a possibilidade de algo fixo e imutável, o que contradiria a lei da constante mudança e movimento, ou seja, da dialética. Como vimos no capítulo anterior, fixo e imutável tão somente o todo porque ele inclui a sua própria modificação.
Claro que podemos falar de prótons, nêutrons e elétrons, mas, a rigor tudo isto pode ser questionado. No fundo, o que a matéria faz é estabelecer algo comum em tudo e em todos (não necessariamente imutável). O todo fica mais fácil de ser construído se sabemos que existe algo comum em tudo.
Da mesma forma que a matéria faz a ponte de tudo, o objeto faz a ponte entre os sujeitos, ou seja, a ligação entre os sujeitos torna-se mais fácil através da ligação comum entre sujeito e objeto. Se objetivo e subjetivo, essência e aparência, são a mesma coisa, fica mais fácil juntar as pessoas neste amálgama que denominamos mundo.
Na sequência, tentamos mostrar que estrutura ou racionalidade não está restrito à lógica. Lógica tem a ver com racionalidade, mas racionalidade é muito mais do que lógica. Racionalidade tem a ver com realidade e a realidade raras vezes segue as leis da lógica.
Racionalidade costuma ser associada à cabeça, mas esta associação não nos parece correta. Se racionalidade é realidade e se esta, para ser apercebida, requer ser sentida, também o corpo participa desta experiência. Deixamos claro que usaremos os conceitos cabeça/corpo para diferenciar no homem aquilo que resulta do processo civilizatório, daquilo que é mais característico da natureza. Evidentemente não existem limites rígidos entre estes conceitos porque natureza e civilização tem elementos em comum. Adicionalmente aos conceitos de cabeça/corpo definimos os conceitos de eu-criança e eu-adulto caracterizando a fase em que se é essencialmente corpo da fase em que o peso principal está na cabeça.
Finalmente nas duas últimas seções tentamos mostrar como todas estas ideias tem consequências terapêuticas. O objetivo principal é a paz porque paz é felicidade. O prazer é um momento, assim como a dor. A paz não quer excluir os momentos, nem os de prazer nem os de dor, mas a paz não é um momento. Paz é permanência, é algo de longo prazo por um prazo longo. Paz é o somatório dos momentos de dor e prazer, ou melhor, é a garantia de que este somatório é algo positivo e bom.
Paz é inserção no todo porque o todo é paz. Racionalidade também é inserção no todo. Por isto é que a paz pode ser obtida através da racionalidade. É através da nossa inserção na realidade, fazendo pontes e ligações, unindo passado, presente e futuro que a gente dilui a nossa dor dentro deste todo que se chama mundo.
[1] A rigor esta definição é um contrassenso porque se o todo é tudo, não há como inserir alguma coisa dentro dele. Aqui usaremos a definição de inserção no todo como uma espécie de abuso de linguagem. Como já dissemos, o todo marca uma assíntota, uma tendência. Na verdade, o que procuramos é fazer conexões com as coisas que nos rodeiam, ficando o todo como meta final.
[2] Na linguagem comum racionalidade e entendimento são conceitos distintos, em parte porque no último entram também os sentimentos e as emoções. Como veremos mais adiante, neste texto racionalidade é realidade e esta envolve sempre sentimentos e sensações.
[3] A causalidade é o entendimento visto dentro de uma dimensão temporal, já que a discussão de causas e efeitos implica em uma ordenação dos fatos no tempo.
[4] Veja também estruturalismo, uma corrente em filosofia e em linguística.
[5] A noção de realidade está profundamente relacionada à noção de racionalidade e será examinada na próxima seção.
[6] Um exemplo adicional da inter-relação entre fins e meios pode ser dado examinando o parágrafo anterior, pois a pressa na obtenção de resultados, significa resultados obtidos com pressa, que provavelmente são bem diferentes de resultados obtidos com calma e ponderação. Assim a própria maneira de chegar ao resultado constitui elemento fundamental na sua caracterização.
[7] O positivismo que é a visão dominante no nosso mundo científico, ao rejeitar a contradição opta por uma visão reduzida (veja reducionismo) e simplificada da vida. Esta visão traz também implícita a redução dos questionamentos consolidando o status quo.
[8] Neste sentido recomendo ler mais uma vez o poema de Gregório de Matos mencionado em nota da introdução deste livro.
[9] Por exemplo, será que na apreciação do papel da revolução francesa não é importante considerar a finitude da vida humana sobre o planeta Terra? Muitas visões de mundo negam a importância da política de uma forma geral, baseadas no caráter efêmero da existência da espécie humana.
[10] Aqui aparece mais uma vez a questão causa/efeito. Os eventos constituem uma cadeia interminável, causas tornam-se efeitos e vice-versa, de forma que, a rigor, a pergunta formulada não faz sentido.
[11] Levado ao extremo poder-se ia dizer que cada indivíduo tem a sua realidade. Felizmente, no entanto, constatamos que, na prática, a percepção da realidade para a grande maioria dos seres humanos tem muitos elementos em comum. Uma mesa é uma mesa e não uma cadeira para a quase totalidade dos humanos. Assim, temos o estabelecimento de uma base comum que nos permite falar da realidade de uma forma objetiva e comum à maioria dos humanos. Esta base comum será examinada na próxima seção.
[12] Dentro de uma visão de racionalidade como inserção da parte no todo, pode ser contestado o fato de vegetais serem irracionais porque a percepção de realidade que uma planta tem, certamente leva em conta o todo dentro do qual ela está inserida.
[13] Estas posições não têm nada de idealismo, primeiro porque, como vimos, aqui o pensamento está sempre ancorado na realidade e, em segundo lugar, porque como veremos na próxima seção, partimos de uma concepção materialista de realidade e racionalidade. Utilizamos a afirmação de Descartes, mas não a concepção idealista que Descartes tinha do pensamento. Aqui pensamento é matéria, é realidade.
[14] Aqui parte-se do princípio que qualquer delírio, qualquer alucinação, sonho ou fantasia tem uma base real, ou seja, estão ancorados em traumas e problemas reais. O sonho, por mais absurdo que seja, a fantasia mais incrível baseia-se em experiências e vivências reais. Estes fatos podem ser facilmente apercebidos examinando-se os entes criados por filmes de terror. Estes sempre se baseiam em criaturas existentes, sejam insetos, sejam figuras do passado ou imagens associadas à morte, dor ou sofrimento. O que não existe não nos pode causar medo porque o medo é um sentimento real e é fruto da realidade.
[15] Aqui é interessante levar em conta afirmação de Freud no segundo capítulo de Das Ich und das Es (O Eu e o Id). Freud diz que todo o saber se origina em percepções externas, deixando claro que o conhecimento é fruto da nossa interação com o mundo.
[16] Veja Solomon, P., Leiderman, P., Mendelson, J e Wexler, D Sensory deprivation: A review, Amer. J. Psychiat., 114-357, 1957
[17] Veja Fuchs, T., Wahnsyndrome bei sensorischer Beeinträchtigung – Überblick und Modellvorstellung, Fortsch. Neurol. Psychiat. 61, 257-266, 1993.
[18] Veja Perry, B.D. e Pollard, D. , Altered brain development following global neglect in early childhood, Proceedings from the Annual Meeting of the Society for Neuroscience, New Orleans, 1997.
[19] A palavra matéria deriva de mater (mãe), apontando, portanto para a ideia de origem. Também é interessante considerar que, segundo a bíblia, foi do barro, ou seja, da terra, que Deus fez o ser humano, ou seja, a ideia da origem é associada à terra.
[20] Conforme já mencionamos na introdução, aqui, neste livro, o conceito de matéria inclui também o conceito de energia (onda).
[21] Dentro da visão aqui exposta, a rigor não existe essência, ou seja, o objeto-em-si não existe. Como será visto, o sujeito sempre faz parte da percepção do objeto e nada existe além desta percepção, ou seja, a única coisa que existe do objeto é a sua aparência.
[22] Veja Schopenhauer.
[23] Veja-se as semelhanças destas ideias com o imperativo categórico de Kant, visto no capítulo anterior.
[24] Evidentemente que o fato de estar ancorado em uma realidade objetiva não necessariamente significa que tenha que estar ancorado no presente. Um determinado projeto pode significar cisão e fracionamento em certo tempo e união em um tempo seguinte, ou seja, em certo momento da história ele pode representar dissenso, isto é, quebra dos padrões e dos costumes vigentes, e num momento seguinte ele pode levar ao consenso.
[25] O mundo tem leis, tem direção que pode ser de expansão ou de retração, mas existe um movimento, não é possível pará-lo. Darwin, no campo biológico, definiu este movimento como o aprimoramento das espécies. Mesmo se questionarmos este fato para as espécies de uma forma ampla e geral com base no “do nada vieste ao nada retornarás”, ou seja, mesmo se considerarmos que possivelmente tudo retornará ao nada, não há como negar uma direção neste movimento. Nada e tudo se tocam e o nada pode ser o tudo. Se tudo se reduz ao nada temos o tudo no nada. O movimento do e para o nada seria, neste caso, uma forma de união. Nos extremos teríamos a união de tudo no nada resultando em paz.
[26] Aqui vale mais uma vez a dialética que permite dizer que é a matéria, ou seja, o peso para baixo, que possibilita o movimento para cima, isto é o pensamento de alçar voo.
[27] O fato de se ressaltar a importância de um projeto social não implica que este necessariamente tem que ser estreito e fechado. Pelo contrário, a premissa da não violência, já comentada anteriormente neste capítulo, torna o projeto social o mais amplo possível, levando-o a aproximar-se de uma base consensual. Aqui violência não inclui tão somente violência física, mas também repressão e imposição, ou seja, o projeto social deve ser obtido através de uma discussão a mais ampla e abrangente possível.
[28] Inclusive os termos corpo e matéria costumam ser confundidos e associados.
[29] Evidentemente existem lógicas alternativas que não trabalham com a lei do terceiro excluído (tertium non datur). Elas admitem a incerteza, mas tentam amarrá-la colocando a dinâmica da transformação dentro de certos parâmetros. Usando um paralelo com a mecânica é como se insatisfeitos com um modelo que estabelecesse velocidade constante para certo corpo, admitíssemos alguns valores para a aceleração. Acontece que nós aqui não queremos amarrar a velocidade, nem mesmo amarrar a forma em que esta velocidade pode variar (aceleração). Nós queremos permitir toda e qualquer forma de velocidade, o que não quer dizer que a velocidade pode variar de toda e qualquer maneira. Imaginem-se os seguintes tipos de modelos: (a) Negar a possibilidade de mudança; (b) Admitir mudança, mas fixar as leis segundo as quais ela ocorre; (c) Admitir mudança, admitir inclusive mudança das leis segundo as quais ela ocorre, mas admitir a existência de leis; (d) Admitir mudanças fora de quaisquer leis, ou seja, negar que as leis existem. De uma forma esquemática, as lógicas alternativas equivalem ao tipo (b), enquanto que o que aqui defendemos é o tipo (c). O tipo (d) equivaleria a uma proposta idealista, negando matéria e realidade, ou, o que seria o mesmo, colocando as leis nas mãos de Deus, o destino ou outra entidade metafísica, que por ser metafísica, estaria além de qualquer lei física. Como já vimos, as leis são aquelas que regem a matéria e a sua transformação. Negando a matéria, estamos também negando as leis que a regem.
[30] O argumento com o qual a certeza costuma ser defendida é circular. Defende-se a necessidade de certezas porque somente a sua existência torna possível defendê-las. É claro que o argumento oposto também é circular, mas aqui defendemos a incerteza não porque é a incerteza que se deixa defender, mas porque a realidade é incerta.
[31] De uma forma mais precisa podemos dizer que no caso do motor, combustão e refrigeração refletem a segunda lei da termodinâmica que diz que é impossível transformar todo o calor gerado pela combustão em trabalho porque nenhuma máquina térmica pode ter 100% de eficiência (veja também http://www.if.ufrgs.br/~leila/maquina.htm).
[32] Evidentemente a recíproca também é verdadeira.
[33] Inclusive pode ser defendida a ideia de que esta visão antropocêntrica é que tem levado à degradação do nosso meio ambiente acabando, a médio e longo prazo, por prejudicar o ser humano e destruir a sua qualidade de vida. Assim, vemos mais uma vez a importância da visão dialética. Um pouco menos de antropocentrismo pode acabar por beneficiar o ser humano, ou seja, pode resultar em mais antropocentrismo. É o menos que leva ao mais.
[34] Por exemplo, na linguagem corriqueira o centro dos sentimentos é o coração que é claramente o centro do corpo.
[35] Uma segunda razão para não usar o id freudiano é que, dentro da visão totalizadora que caracteriza este trabalho, preferimos usar uma terminologia mais consolidada pelo tempo. As noções de cabeça e corpo para distinguir aquilo que é tipicamente humano daquilo que é instintivo vem sendo usada há muitas centenas de anos. Na nossa opinião, poucos filtros são mais eficazes que o tempo para separar o que se aplica do que não se aplica.
[36] Para uma descrição do brain in a vat (cérebro em uma cuba) veja http://www.iep.utm.edu/brainvat/. Esta experiência conceitual consiste em submergir o cérebro em uma solução de nutrientes e estimular os seus neurônios por impulsos elétricos, por exemplo, através de um computador. Mesmo que o brain in a vat seja frequentemente usado para contestar o realismo, ou seja, para defender uma posição idealista semelhante à caverna de Platão, partimos aqui do princípio que não faz muito sentido separar a realidade do input que ela gera, ou seja, separar a realidade dos estímulos por ela gerados. Se estes estímulos são gerados pela realidade ou se são produto de uma realidade virtual, como por exemplo, um computador, isto é irrelevante. Radicalizando a experiência do brain in a vat a gente sempre poderia partir de uma posição solipsista, ou seja, que tudo que existe é o eu e que todo o resto, mundo, pessoas, seriam meramente impressões, memória ou um arquivo. Na verdade, a imagem do cérebro imerso em uma cuba é uma imagem infantil, pois, para negar a realidade não há a necessidade de cérebro e muito menos dos nutrientes e da cuba. O fato de se utilizar o cérebro, a cuba e os nutrientes já mostra a necessidade de se admitir a realidade. Discutir se a negação da realidade faz ou não sentido, nos parece um despropósito, porque a argumentação forçosamente é circular, ou seja, para provar que a realidade existe teremos que partir da sua existência. Se a priori negamos a existência do mundo real então nos faltam instrumentos para provar a realidade do mundo pois todo e qualquer instrumento para provar a realidade é real, ou seja, é parte da realidade.
[37] Alguma semelhança existe entre esta ideia e o imperativo categórico de Kant, já mencionado anteriormente em Holismo e o todo.
[38] Mesmo no caso do entendimento ter sido falho, a realidade não mais é a mesma porque à insônia que permanece é acrescido um entendimento falho o que inclusive pode piorar o problema da falta de sono já que agora eu tenho um problema a mais para resolver.
[39] A rigor não existe entendimento falho ou errado já que todo entendimento reflete certa realidade. O que frequentemente acontece é que esta realidade é muito parcial ou restrita e neste sentido o entendimento também o é, ou seja, tem a sua validade limitada a uma situação por demais particular e específica. Se eu digo 1+1=3 isto pode ser válido para o caso em que um galo e uma galinha terem dado origem a um pintinho, mas trata-se de uma aplicação do modelo matemático da soma a uma realidade muito especial.
[40] Como já visto a própria separação cabeça / corpo é algo artificial. Na realidade cabeça e corpo estão de tal forma interligados que chegar ao corpo pela cabeça e à cabeça pelo corpo, nada têm de paradoxal.
[41] Mostra-se também, mais uma vez, que é impossível dissociar sujeito de objeto.
[42] Existe um certo paralelismo entre a ideia de racionalização e razão instrumental. Este último termo foi utilizado pela Escola de Frankfurt para designar um tipo de racionalidade que visa justificar certa realidade econômica ou política, certa estrutura de poder concentrando-se nos seus meios e não nos seus fins. Da mesma forma que racionalização, trata-se de uma racionalidade menor.
[43] Omnis em latim é o todo. Omnia é tudo. Veja também Baruch Spinoza e o Panteísmo.
[44] Ao leitor apressado eu gostaria de pedir um pouco de paciência pois mencionarei, mais adiante, que boa parte dos medos é produto da infância, ou seja, fazem parte de uma racionalidade, embora remota. É por este motivo que eu uso aspas ao falar de irracionalidade.
[45] Na introdução já foi mencionado Erich Fromm e a importância que este autor deu à ideia da união.
[46] Veja Otto Rank. Das Trauma der Geburt (O trauma do nascimento), Psichosozial Verlag, 2007.
[47] É interessante considerar a associação da escuridão ao ventre materno de onde fomos expulsos. Com referência à associação entre racionalidade e luz, veja também a associação das ideias de iluminismo e a idade da razão.
[48] Veja Otto Rank, Das Trauma der Geburt, mencionado acima.
[49] Existe um certo paralelismo entre criança dentro de nós, eu-infantil ou eu-criança, e o id Freudiano, já que o comportamento da criança é basicamente ditado pelos instintos. Eu prefiro, no entanto, usar o primeiro termo, porque o localiza melhor no tempo. Mais sobre o tema, mais adiante.
[50] No capítulo anterior mostramos que cisão e fragmentação estão sempre associadas a dor e sofrimento.
[51] Estas ideias serão retomadas, com mais detalhe, no capítulo 4.
[52] Eu acho que a ideia que melhor sintetiza a aparente contradição que existe entre a atuação conjunta das forças de união/cisão e uma tendência da realidade à união é a espiral dialética. Movimentos de cisão/união se alternam em níveis cada vez mais elevados, tendendo, em um estágio final ao todo. O que seria este todo senão a união de tudo?
[53] Não é à toa que neste novo mundo o louco costuma assumir um papel central e importante como rei ou herói.
[54] À cisão pode estar associada uma estrutura antiga que nos prejudica, como por exemplo, padrões adquiridos na infância. Assim, o rompimento com o passado facilitaria a obtenção de paz e felicidade no presente e no futuro.
[55] A rigor, neste raciocínio estamos pressupondo uma lógica que condena a circularidade, ou seja, invalida a tautologia, o que, na verdade, não é bem o caminho adotado neste trabalho. Utilizamos e respeitamos a lógica, mas não partimos da sua infalibilidade, ou da sua validade de forma absoluta e definitiva. A lógica é parte da racionalidade e como tal deve ser usada, mas a lógica não é a racionalidade toda.
Comentários
Postar um comentário