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Capítulo 6 – Querer e repressão

 

 

Introdução

 

            A dificuldade deste capítulo é que, na verdade, tudo é querer. O querer inclui desde os desejos, instintos e impulsos (Triebe ou pulsões, segundo Freud) até a repressão. Um desejo sexual é sem dúvida nenhuma um querer. É um querer em direção à satisfação sexual. Mas, a repressão ao sexo também é um querer. Trata-se de querer reprimir alguma coisa que perturba, incomoda ou pressiona. Assim, sexo e anti-sexo, ambos são querer, e da matemática a gente aprende que se uma coisa e o seu contrário, ambas têm a mesma propriedade, então é porque esta propriedade se aplica a tudo [1]. Se tudo é querer, como discutir e analisar algo tão amplo? Porque chamar de querer coisas tão díspares e desconexas? Não seria melhor uma discriminação mais precisa e menos abrangente?

O enfoque aqui é dialético, ou seja, há que mostrar que coisas díspares e desconexas frequentemente aparecem juntas. Há que aprender a conviver com os contrários e distingui-los apesar da proximidade. Há que saber lidar com a contradição.

Além disso, como veremos nas próximas seções, mantendo a abrangência, conseguimos abordar desde questões aparentemente simples, como a tentativa de obtenção de equilíbrio, até problemas complexos como questões sexuais.

Na verdade, existe uma outra razão, muito mais prosaica para fazer o capítulo desta maneira. A razão é mostrar que as coisas se movem na fronteira entre o ser e o não-ser. Tudo é e não é ao mesmo tempo. Ou seja, um certo querer pode ser alguma coisa boa, positiva e útil, e logo mais adiante, por algum fator aparentemente irrelevante, se tornar em algo ruim e negativo. Assim é a vida, e se afastar desta perspectiva é se afastar da vida.

            Uma outra dificuldade deste capítulo nasce da divisão cabeça/corpo, quando, na verdade, cabeça e corpo dificilmente se deixam separar. Por exemplo, ao se dizer que o querer nasce na cabeça e visa reprimir ou submeter o corpo, o que se está querendo dizer é que um desejo corporal, um impulso ou instinto, está sendo reprimido através da cabeça (superego). Aqui, novamente, dois quereres entram em conflito. De um lado existe o querer que traduz um desejo corporal. Do outro lado, existe o querer que traduz a repressão da cabeça. Apesar dos dois quereres estarem presentes eu, neste capítulo, frequentemente menciono tão somente o querer que nasce na cabeça. Na verdade, da mesma forma, eu poderia ter dito que o querer nasce no corpo e que a repressão é tão somente uma reação ao desejo corporal.

            Colocando a ênfase no querer que nasce na cabeça eu estou colocando a ênfase no querer e na cabeça. Como a reunião destes dois conceitos costuma estar associada à repressão e como repressão significa cisão, visa-se com isto colocar o foco na repressão e na cisão. De fato, estes são os principais problemas associados ao querer.

            A rigor não importa qual o querer que é determinante. Não importa se a ênfase é na ação ou na reação. Não importa onde colocamos o foco, se é na cabeça ou se é no corpo, se é no desejo ou na repressão a este. Na verdade, o problema ocorre como resultado de um desencontro entre desejo e repressão, cabeça e corpo.

            Resumindo, neste capítulo frequentemente colocaremos o foco na repressão, ou seja, no querer que nasce da cabeça. Mas isto é tão somente uma simplificação. Existe um outro querer que nasce do corpo e que carrega igual responsabilidade pelo problema.

            O importante é reconhecer que, quaisquer que sejam os quereres, cabeça ou corpo, desejo ou repressão, se eles estiverem associados à cisão, o resultado é sofrimento e dor. Ou seja, não importa muito onde nasce o querer, já que tudo é querer. O que importa é tentar reconhecer se este querer, ou melhor, este conjunto de quereres, está associado à cisão, ou se, pelo contrário, trata-se de um querer unido, trata-se de um ser unido em torno de um querer. Veremos ao longo das próximas seções, que o entendimento desempenha um papel determinante neste último caminho.

            O querer que é unido tende a desaparecer [2]. Ele não mais é repressão [3]. Ao ser interiorizado, o querer que nasce da cabeça se funde com o corpo, tornando-se, cabeça e corpo, uma só coisa. Ele deixa de ser problema, para ser solução.

Sobra tão somente o querer que é cisão. É este o foco da nossa terapia e é por causa disto que ele é ressaltado neste capítulo.

 

 

O querer

 

Boa parte das ações e reações do nosso dia a dia depende do querer [4]. A gente não muda uma cadeira do lugar sem que esta ação tenha antes passado pelo crivo do querer, ou seja, a gente só muda a cadeira de lugar se a gente quer mudar. Por vezes a gente é forçado a tomar esta decisão, mas isto não muda em nada a afirmação acima. Houve uma decisão, e, por mais artificial ou forçada que ela tenha sido, houve a interferência do querer. Para os nossos músculos agirem, mudando a cadeira de lugar, é necessária uma ordem dada do cérebro e isto não é possível sem a vontade ou o querer [5].

            O querer é, portanto, fundamental para a concretização das ações do nosso cotidiano. E, no entanto, o querer também pode impedi-las ou, ao menos, prejudicá-las, na medida, em que ele introduz uma tensão que pode retardar, ou mesmo, bloquear a mudança e a transformação. Vejamos algumas situações onde isto se aplica.

Frequentemente a cabeça é utilizada para subjugar o corpo e é comum um querer estar associado à esta submissão. O resultado é violência e, como já vimos, a violência mais atrapalha do que ajuda. Temos cisão e o resultado é sofrimento e dor.

Costuma-se dizer que querer é poder. Esta expressão frequentemente é usada no contexto de alguém que quer largar um vício ou um hábito ruim. O sujeito é alcoólatra e quer parar de beber, mas não consegue. Um amigo lhe diz: querer é poder! De uma maneira muito simplificada o que o amigo está querendo dizer, é que se a cabeça quer parar, o corpo tem que se submeter.

Em primeiro lugar, que cabeça é esta? De quem? É a cabeça do alcoólatra, é a cabeça do amigo ou é a cabeça do amigo querendo fazer a cabeça do alcoólatra? Em segundo lugar, não necessariamente a cabeça do alcoólatra quer parar. Existe esta cabeça unida em torno de um único querer? Ou será que não é muito mais realista assumir que o alcoólatra está dividido? Tem uma parte dele que quer parar, e existe outra parte que não quer parar de beber. Além disso, mesmo que existisse uma cabeça unida no querer, o que garante a submissão do corpo? A cabeça quer parar, mas o corpo pede o álcool. O corpo pede álcool não somente por causa da dependência física, mas porque, entre outras coisas, o corpo quer se livrar da cabeça. É na cabeça que residem os problemas, e o corpo quer afogar a cabeça no álcool. É o álcool que desliga o corpo da cabeça. Na medida em que o querer implica uma submissão do corpo à cabeça, com o querer se está justamente andando no sentido contrário. Ao invés de ajudar o corpo a se livrar da cabeça, ou melhor, ao invés de se trabalhar para uma melhor integração entre cabeça e corpo, se está, através da submissão do querer, reforçando a cisão. É de se esperar uma reação do corpo, igual, mas em sentido contrário. Ou seja, possivelmente mais álcool vai ser necessário para neutralizar a ação da cabeça e tornar a vida suportável. Reforça-se a dependência e o vício.

            Algo semelhante acontece no adultério. O homem trai a esposa com outra. A cabeça sabe que isto não está correto e que isto não pode terminar bem, mas o corpo quer o prazer que a outra relação proporciona. Neste caso, resolve querer, ou melhor, que querer é este que resolve?

            Nos exemplos acima vimos algumas situações em que querer não é poder. Mas isto não precisa acontecer sempre. Se o querer for um querer uno, do ser unido no querer, se o querer for uma certeza, for um querer sereno e em paz, então sim, querer é poder. A paz, no entanto, não deve ser tão somente interna.

A paz interna, ou melhor, a paz consigo mesmo, não somente traduz uma cabeça unida, como também traduz cabeça e corpo unidos no querer. Mas, paz interna não é suficiente. Também é preciso um querer em consonância com o mundo externo [6]. Por exemplo, querer voar batendo os braços significa afrontar a lei da gravidade. Neste caso, querer não significa poder.

Querer dominar o mundo, significa, afrontar outros homens. Existem aqueles que não querem ser dominados e existem aqueles que também querem dominar. Seja como for, nenhum dos dois grupos quer ser dominado e, a vontade de dominar certamente afronta a ambos. Assim, querer dominar o mundo é um querer que cinde.

À cisão provocada pelo querer se contrapõe o entendimento. Como já vimos, entendimento é união. É através do entendimento do querer, ou seja, procurando entender o que está por trás do querer, que vamos conseguir neutralizar os seus efeitos negativos. Por exemplo, no caso da cabeça querer subjugar o corpo, cabe tentar entender porque isto se dá, quais as razões e as motivações para esta forma de comportamento.

Procuremos esclarecer esta questão examinando um caso concreto. Tomemos, por exemplo, a busca de equilíbrio sobre uma perna só, a outra perna dobrada, apoiada na parte interna da coxa da primeira [7]. Suponhamos que a pessoa não consiga o equilíbrio. Porque? Uma quantidade muito grande de motivos pode estar na raiz do problema. Pode ser simplesmente falta de aptidão, falta de treino, falta de costume ou pode ser um problema fisiológico como labirintite. Pode ser medo e insegurança. A raiz desta insegurança pode estar na infância, ou então, ser coisa mais recente. Deixemos, primeiramente, as razões de lado, e coloquemos o foco no querer.

A pessoa quer o equilíbrio, e, no entanto, quanto mais ela quer, menos ela consegue. Porque? Novamente podem existir diversas razões, mas, agora sim, vamos examiná-las com detalhe. Uma primeira razão é a tensão introduzida pelo querer, quando, equilíbrio é, antes de mais nada, a tentativa de obtenção de paz.

Uma segunda razão é que o querer significa a cabeça tentando subjugar o corpo. Trata-se de uma vontade que tem a sua origem na cabeça. Mas equilíbrio é natureza, é algo eminentemente corporal. A natureza está constantemente à busca de equilíbrio. Uma espécie que se propaga de forma exagerada, logo esbarra em algum tipo de dificuldade que pode ser o esgotamento dos recursos naturais, pode ser uma questão ambiental, ou então, o aumento do número de predadores [8]. A postura dos animais e até mesmo dos vegetais envolve sempre a busca de equilíbrio. O macaco se equilibra sobre o galho de uma árvore, a garça fica apoiada sobre uma perna só e a baleia consegue o equilíbrio tanto para nadar na superfície da água, como em profundidade.

Na medida em que eu quero o equilíbrio, eu estou transferindo para a cabeça uma iniciativa que deveria caber ao corpo [9]. Ou seja, ao invés de simplesmente conseguir o equilíbrio dobrando uma perna e apoiando-a na outra, eu agora estou fazendo o sucesso depender do querer e da vontade [10]. De certa maneira, eu estou negando a possibilidade do meu corpo, por si só, obter o equilíbrio. Um ato que deveria ser intuitivo, espontâneo e natural, passa a ser um ato cerebral [11]. Tal falta de confiança no seu próprio corpo, não pode ficar sem consequências. Não é de se estranhar que não se consiga o equilíbrio.

Além disso, na medida em que o equilíbrio não é conseguido porque alguma coisa a ele se opõe, temos uma cisão dentro do próprio querer. A cabeça quer o equilíbrio, mas o corpo tem medo e não quer. Cria-se uma cisão entre um querer que busca e um querer que tem medo do equilíbrio.

Existem muitas outras questões envolvidas na busca de equilíbrio. Aqui focalizamos tão somente o querer. Existe uma disputa e uma cisão e elas são em grande parte responsáveis pelas dificuldades encontradas.

No exemplo acima vimos que o querer, apesar de necessário, pode ser um empecilho para o sucesso da ação. Esta dupla função do querer fornece um belo exemplo do funcionamento da espiral dialética. Dois movimentos em sentido contrário, um ir e um vir, não somente não se anulam, como, pelo contrário, fazem parte de um mesmo direcionamento. De fato, frequentemente, no momento em que nasce o querer, que, como vimos, é absolutamente necessário, é preciso atuar no sentido contrário, desconstruindo-o.

É de se esperar que do embate do querer com o não querer surja uma síntese que possivelmente se assemelha àquilo que permite Philippe Petit obter o equilíbrio sobre a corda bamba [12] [13]. Da mesma maneira que o equilibrista, também o equilíbrio sobre uma perna, implica não em buscar o equilíbrio, mas, muito mais em encontrá-lo. Ou seja, o equilíbrio a gente não busca, é o equilíbrio que busca a gente. Dito de uma maneira mais simples, trata-se de um longo treinamento em que o corpo obtém o equilíbrio sem a necessidade do querer, ou seja, sem a necessidade de uma vontade explícita e consciente. A busca externa ao corpo é interiorizada. A procura cerebral é corporificada. A vontade consciente é tornada inconsciente. Aqui atua-se na direção oposta a Freud. Não se trata de abrir espaço para o ego e o consciente. Trata-se de abrir espaço para o id e para o inconsciente [14].

Evidentemente todo este processo não é coisa fácil, nem é de se esperar que surja como num passe de mágica. Possivelmente é obra de uma vida toda, possivelmente jamais será atingida em toda a sua plenitude. Se antes não era possível ficar em uma perna só nem um minuto, talvez, depois de muito praticar, se consiga ficar dois minutos.

Seja como for, este me parece ser o caminho. Não é um caminho fácil, mas é o que é possível. Todo este processo é obra do entendimento. Há que entender como o querer surge, qual a sua função, quais os problemas que ele ocasiona e como fazer para minorá-los. Entender aquilo que está por trás do querer, ajuda a gente a se livrar dele [15].

Diga-se, de passagem, que o exemplo escolhido para esta apresentação, a busca do equilíbrio sobre uma perna só, é um exemplo bastante radical na ilustração dos conflitos causados pelo querer. A etapa de entendimento que é crucial na metodologia aqui desenvolvida quase que se restringe às vantagens e desvantagens envolvidas no querer. Digo quase, porque, propositalmente, eu silenciei sobre toda uma gama de fatores responsáveis pela obtenção do equilíbrio. Eu o fiz, de propósito, para jogar o foco em cima daquele ponto que é central neste capítulo: o querer [16].

 

 

Querer, medo e violência

 

            Na seção anterior abordei a tentativa de obtenção de equilíbrio em uma perna só e mencionei a questão do medo. Em um primeiro momento este medo parece ser “irracional”, mas, como já vimos, nada é irracional. O que, na verdade acontece é que o medo está ligado a uma racionalidade passada e, na medida em que ela não é mais atual, ela parece irracional. Examinemos esta questão com um pouco mais de detalhe.

            Aparentemente não existe risco nenhum em ficar em pé sobre uma perna só, e conta-se nos dedos de uma mão, os acidentes fatais ocorridos nesta situação. O risco, no entanto, pode ser psicológico, ou seja, uma série de expectativas e inseguranças pode estar contribuindo para o medo. Isto pode acontecer mesmo que a postura esteja sendo realizada sozinho, entre quatro paredes, porque, neste caso, temos a auto expectativa, ou seja, teme-se não corresponder à sua própria expectativa.

Uma parte do eu quer obter o equilíbrio e a outra parte tem medo. A parte do eu que tem medo é o eu-criança. Como já vimos, o medo é um sentimento predominantemente infantil, fruto da incapacidade de lidar com os problemas que aparecem. Alguma coisa nova, um desafio, uma dificuldade, despertam automaticamente o sentimento de medo, independentemente deste ser racional ou irracional. A racionalidade é uma característica do eu-adulto [17].

Abro aqui um parêntesis para falar de uma questão que será analisada com mais detalhe no próximo capítulo. Pode ser contestada a afirmação feita no parágrafo anterior que o medo deve ser atribuído ao eu-criança. Pode ser argumentado que o medo é algo natural e que acomete indistintamente criança e adulto. No caso da busca de equilíbrio, existe o risco de algum tipo de acidente, que mesmo em não sendo fatal, pode despertar o medo. Este medo independeria da idade da pessoa. Pelo contrário, para uma pessoa de idade mais avançada, ele seria até mais normal.

Realmente o medo tem alta dose de subjetividade. Alguns sentem medo em situações especiais, outros sentem medo em qualquer situação. Apesar disto, neste trabalho, vincularemos sempre o medo ao eu-criança. O medo é a criança dentro de nós, por definição. O fato do adulto sentir medo será aqui explicado através do legado infantil, ou seja, ao fato da criança continuar presente dentro do adulto e as forças da natureza, as reações aprendidas na infância, continuarem atuando.

Resumindo, o que eu faço aqui é criar dois extremos. O eu-criança é o produto das experiências e do aprendizado feito na infância, carregando todo o lastro que recebemos dos antepassados e da natureza. O eu-adulto é resultado da racionalidade e da civilização. Somos, a qualquer momento da vida, uma mistura destes dois extremos.

            Aqui fecho o parêntesis voltando a falar da tentativa de obtenção de equilíbrio. Temos o embate de dois quereres [18]. Ao tentar obter o equilíbrio sobre uma perna só, a parte do eu que quer está forçando, ou seja, está utilizando violência contra aparte do eu que não quer.

            A causa dos medos do eu-criança pode ser diversa. Aqui não pretendemos nos aprofundar nesta questão, porque para a análise que se segue isto é irrelevante. Pode ser fruto de inseguranças, pode ser resultado de experiências passadas ou pode ser simplesmente resultado do trauma do nascimento. No capítulo 5 vimos que a experiência da interrupção da paz e do conforto no ventre materno é um acontecimento que vai nos acompanhar durante toda a vida. Gera-se um medo de que isso possa voltar a se repetir. Cabe lembrar que a tentativa de obtenção de equilíbrio sobre uma perna só também representa uma busca de paz, e é compreensível que desperte os velhos medos.

O entendimento do papel do querer na sua confrontação com o medo, bem como o entendimento das razões deste último, pode se contrapor à violência. Como vimos, querer frequentemente está associado a violência. A ele se contrapõe o entender. Entendendo porque o eu-criança não quer ficar em pé sobre uma perna só, entendendo os seus medos, entendendo porque o medo do medo gera a repressão exercida pelo querer, bem como a tentativa de dominação de uma parte sobre a outra parte do eu e, numa etapa mais avançada, entendendo que os medos do eu-criança pertencem ao passado, não somente estamos desconstruindo os medos, como também estamos desconstruindo o  querer. Além disso, estamos fazendo uma ponte entre o eu-criança e o eu-adulto [19] [20]. Como consequência, cessa a necessidade do querer, ou seja, cessa a necessidade de dominação do eu-criança pelo eu-adulto o que, por remover uma razão adicional dos medos, acaba contribuindo para a o seu enfraquecimento [21] [22]. Através do entendimento estamos ajudando a desconstruir o querer [23].

            Algo semelhante acontece com a cisão cabeça/corpo vista na seção precedente. Ao jogar a luz do entendimento sobre o querer, este deixa de ser um instrumento de dominação do corpo pela cabeça para que surja, em seu lugar, a convicção de que somente corpo e cabeça unidos conseguirão superar a dor e o sofrimento da cisão. Como vimos, entendimento é união.

            A tentativa de obtenção de equilíbrio sobre uma perna só é um exemplo polêmico. Pode ser argumentado que equilíbrio é uma questão que envolve principalmente aptidão, genética, treino, aprendizado e constituição física e que pouco tem a ver com medo ou querer. Neste exemplo, a etapa de entendimento se resume a entender o medo e o querer, sendo que neste último caso trata-se principalmente de entender o embate entre cabeça e corpo, eu-adulto e eu-criança, racionalidade e medo. Estas questões são complicadas e de difícil discernimento.

Apresento, a seguir um exemplo bem mais simples e menos polêmico. Suponhamos que alguém, por alguma desavença ou aborrecimento decida não mais cumprimentar uma determinada pessoa que o magoou ou o traiu. Suponhamos que esta pessoa, durante muito tempo, fez parte do seu círculo de conhecidos. Trocavam ideias e amabilidades e apesar de jamais ter havido amizade ou intimidade, havia ligação e interação.

A decisão de não cumprimentar pode ser difícil de implementar. Existe uma parte do eu que se agarra ao padrão de comportamento passado. Cada vez que o conhecido aparece esta parte quer sorrir e saudar. A outra parte quer virar a cabeça. Não somente o costume, hábito ou inércia são responsáveis pela manutenção do padrão passado, mas também o medo. Tem-se medo de mudar um padrão estabelecido, porque ele pode trazer consequências desastrosas: o conhecido pode ser poderoso, pode ter influências e fazer represálias.

Possivelmente muitas semanas se passarão, antes de se conseguir mudar o padrão de comportamento. Caso se continue cumprimentando a pessoa, apesar de decisão em contrário, isto possivelmente jamais será conseguido. Aqui, um novo padrão de comportamento, a ser construído, se confronta com um padrão velho a ser desconstruído. Ambos os movimentos fazem parte da mesma ação. Não é possível construir sem destruir, porque a construção surge sempre no lugar de outra coisa que ela destrói. Construir e destruir, caminham juntos.

No caso examinado existe cisão e o embate de quereres. Uma parte do eu não quer cumprimentar, mas a outra, por medo ou inércia, não quer se submeter à decisão da primeira. O embate dos quereres costuma estar associado a violência. Uma parte do ser querer submeter a outra. Somente o entendimento é capaz de se contrapor à cisão resultante deste embate. Possivelmente boa parte das razões que embasam as atitudes das duas partes do eu, são inconscientes. Para que possam ser trabalhadas é preciso, antes de mais nada, torná-las conscientes. O segundo passo é contrapor as razões, analisar a sua fundamentação, verificar a sua consistência, pesar os prós e contras, eliminar aquilo que não tem base ou não se verifica. O conjunto de ideias que sobra pode, no entanto, ser irreconciliável, ou seja, uma vez eliminadas as ideias inconsistentes ou equivocadas, pode ser impossível juntar as ideias que sobram. Segue então o terceiro passo que é a busca de uma solução de compromisso.

A racionalidade junta, na medida em que junta a racionalidade velha, ligada ao padrão de comportamento antigo, com a racionalidade nova, relacionada com o padrão novo. A racionalidade junta porque mostra que atrás do velho e do novo existe um só ser que se, no passado, tinha razões para agir de certa maneira, hoje, tem fortes razões para agir de forma distinta. O ser é único e este é o argumento fundamental para unificar diferentes racionalidades [24]. No processo desta união dilui-se a dor da cisão.

O caminho é tortuoso e difícil e não se espere mágica porque esta normalmente é embuste. Tentar mudar um padrão de comportamento significa esbarrar em incertezas do futuro e resistências do passado. Trabalha-se com o entendimento e a racionalidade para desconstrui-los. Mas, nem por isto desaparecem as incertezas e a resistência. Tenta-se mudar um padrão de comportamento, mas isto envolve violência a qual tem que ser desconstruída através da racionalidade. À medida que o novo hábito vai sendo introduzido, menos violência é necessária, menor é o papel do querer, até que chega um momento em que o novo padrão de comportamento flui de forma quase inconsciente, quase automática, sem a atuação da vontade, do tentar e do querer.

            Comparando os dois exemplos apresentados nesta seção eu diria que no primeiro caso o querer é algo intangível como a obtenção do equilíbrio, enquanto no segundo caso trata-se da mudança de um padrão de comportamento concreto e bem definido. No primeiro caso procurava-se entender a atuação de forças vagas e indefinidas como medos e inseguranças e o embate de entidades difusas como o eu-criança e o eu-adulto. No segundo caso, apesar do eu-criança e o medo também estarem envolvidos, trata-se de um embate com contornos mais bem definidos. Se eu não quero cumprimentar é porque o sujeito me feriu e me magoou. Se eu quero cumprimentar é porque além do medo, eu sou tolerante e conciliador, ou então, acho que o desgaste não vale a pena e o assunto não tem tanta importância. Aqui o entendimento gira em um entorno bem mais preciso e definido como amizade, relacionamentos, tolerância e os seus limites.

            O próximo exemplo é algo intermediário entre os dois primeiros, ou seja, não tem os contornos bem definidos do segundo caso, mas também não lida com questões tão vagas e intangíveis como as do primeiro caso. Suponhamos um sujeito B, solitário e introvertido. B não chega a ser um autista, mas a sua companhia preferida é ele mesmo. Vive encerrado na sua cabeça em seus pensamentos e sua imaginação. Vive em um mundo idealizado, ou seja, as idéias que defende são por demais abstratas, vagas e indefinidas. Suas fantasias e os seus relacionamentos são eivadas por sonhos e idealização. Na medida em que o relacionamento avança e se aprofunda, rompe-se a bolha de sabão, desfaz-se a ilusão e o resultado é frustração. Ao longo dos anos, como consequência de sucessivas desilusões, reforça-se o ensimesmamento.

            Suponhamos que as razões para o padrão descrito acima encontrem-se na infância e adolescência. B foi vítima de rejeição por parte dos pais, que não tinham tempo ou interesse por ele. Mais tarde, na escola sofre com o bullying. Os colegas o vêem como corpo estranho e o rejeitam. Com os irmãos ele não se entende porque se julga superior. Aliás, superioridade é uma característica que certamente não contribui em nada para a qualidade dos seus relacionamentos. Como defesa da rejeição ele cria uma auto-imagem que lhe serve de carapaça para os ataques externos. A auto-estima é cultivada com carinho, mas ela é uma faca de dois gumes. Se, de um lado, contribui para a sua sanidade mental, do outro lado, entra em conflito com a sua imagem externa. Aprofunda-se o isolamento e a cisão [25].

            Tipos como B frequentemente são acometidos de crises. Na medida em que rejeitam o mundo, o mundo os rejeita. E poucas coisas são mais dolorosas do que a rejeição. Os revezes que B sofre em função da rejeição, deixam a sua marca. Acabam baixando a auto-estima, e a cisão daí resultante significa sofrimento e dor [26].

            Como eu já disse, os casos aqui relatados não são patológicos. A terapia da palavra, dentro da qual se enquadra a metodologia aqui apresentada, não é apropriada para a patologia, ao menos não para a patologia grave.

            Suponhamos que a crise pela qual B passa, o leve a reconhecer os fatos apontados acima e suponhamos que ele resolva mudar. B sabe que a mudança é um processo difícil e demorado e se dará aos poucos. Ele sabe perfeitamente que a mudança não pode ser radical e que, ao mesmo tempo em que cabe mudar, cabe também se aceitar [27].

            A decisão de mudança do padrão de comportamento tem reflexos internos. Reforça-se a cisão interna. Uma parte do eu quer mudar, mas a outra parte tem medo da mudança. Para esta última, o mundo externo é o inimigo. Agora, procura-se reconciliação? O que resultará desta tentativa de aproximação? Como se juntar com quem sempre nos rejeitou?

De um lado existe o querer mudar. Ele reflete o eu-adulto que é movido pelo desejo de abertura. Na medida em que se faz ligações e amizades, a gente se integra com o que está à nossa volta e isto traz satisfação. Do outro lado, existe o eu-criança que se apega a experiências feitas na infância e na adolescência. Ele tem medo do processo de abertura, porque, no passado, estas tentativas fracassaram, trazendo dor e sofrimento. E, realmente, nada garante que isto não possa voltar a acontecer. Para o eu-criança a paz está associada a fechamento, ao voltar-se para dentro, ao encerrar-se na redoma, na cabeça, nos pensamentos e nas fantasias. Este é o mundo seguro, o refúgio [28]. Assim, o querer mudar significa a tentativa de submissão do eu-criança pelo eu-adulto e é óbvia a reação do primeiro, bloqueando o processo de abertura.

            O embate do querer mudar com o medo da mudança significa violência, porque querer é violência [29]. A ele se contrapõe o entender. É necessário um longo e paciente trabalho de análise, procurando entender os diversos pontos de vista, as suas causas e origens. Ao longo de todo este processo acaba surgindo uma solução de compromisso que envolve o que foi dito no capítulo cinco [30].

            A solução de compromisso não é algo apriorístico, não é um objetivo em direção ao qual se caminha. Tampouco surge a posteriori como resultado de um processo. A solução de compromisso vai sendo construída passo a passo, ela resulta da união das partes, ela é o resultado da união do eu, ou melhor, ele é a própria união.

O processo é dinâmico. Mudam os pontos de vista, muda o eu-do-querer, muda o eu-do-medo e, como consequência, muda o querer e muda o medo. Provavelmente ambos, querer e medo vão diminuir de intensidade ao longo do processo, dando origem a um círculo virtuoso em que cada vez menos querer se associa a cada vez menos medo.

            Ao mesmo tempo em que o querer é fundamental para possibilitar um processo de mudança ele o pode bloquear. A tensão do querer enrijece o processo de mudança e o que se requer, pelo contrário, é flexibilidade e maleabilidade [31] [32] [33].

No exemplo a seguir será ilustrada ainda mais claramente a dupla função do querer. Todo mundo conhece o embaraço associado ao ato de se desnudar em público. Frequentemente, para o homem, o ato de urinar em um banheiro coletivo representa um problema. Expor as suas intimidades, com os inevitáveis julgamentos e comparações, pode ser embaraçoso.

            O ato de urinar bem como o ato de reter a urina somente em parte está sob controle voluntário. Diversas funções involuntárias, resultantes de inibições e estímulos de todo tipo, participam do procedimento. Alguns músculos são contraídos, outros são relaxados (por exemplo, o esfíncter uretral). Aqui não nos interessa o detalhamento da parte fisiológica, mas tão somente analisar os mecanismos conscientes que participam do ato de urinar.

            Evidentemente aqui temos, mais uma vez, um caso de cisão. Uma parte do eu quer urinar e a outra parte tem medo. Na medida em que a primeira tenta forçar a realização do ato, temos violência.

            O sujeito quer urinar, mas não consegue por causa da inibição. Como reação ele intensifica o querer, mas o resultado é uma tensão que só aumenta o bloqueio [34]. Cria-se um círculo vicioso em que mais querer, gera mais tensão e, consequentemente, mais bloqueio. O que se requer, pelo contrário, é relaxamento. Em particular, se requer o relaxamento do esfíncter uretral para permitir a passagem da urina pela uretra.

            No caso do sujeito que se dirige ao mictório coletivo uma série de inibições pode estar atuando. O problema pode ser resultado de experiências da infância, por exemplo, alguma chacota em um vestiário de um clube, com comentários desdenhosos sobre o tamanho ou formato do pênis. Pode ser o resultado de antecedentes socioculturais ou influências familiares em que a genitália é vista como algo sujo ou indecente que deve ser escondido e não exposto. A exata origem do problema pode ser tão ampla, tão variada e tão difícil de determinar, que uma análise aprofundada das causas do fenômeno é de pouca utilidade.

Exemplo semelhante, mas no sentido oposto pode ser dado para o caso de alguém que quer segurar a urina. No último caso, o querer, ao mesmo tempo em que ajuda a manter cerrado o esfíncter uretral, gera uma tensão que comprime a urina, aumentando ainda mais a vontade de urinar. O que é necessário é intercalar o querer com o não querer. A maioria dos atos do nosso cotidiano é uma sucessão alternada de instâncias de tensão e relaxamento, contração e distensão [35] [36].

            Como se trata aqui de um problema menor, também a etapa de análise e entendimento tem que ser reduzida. O caminho consiste normalmente em uma alternância de estados de querer e não querer, tensão e relaxamento [37]. A tensão do querer deve vir acompanhada de um relaxamento obtido através de um movimento de desconstrução deste querer.

 

 

Repressão

 

            Querer na maioria dos casos é repressão, na medida em que se tenta submeter uma parte do eu que não quer. Como este processo não costuma funcionar de forma pacífica, como ele envolve luta e resistência, repressão significa violência.

            Faz parte da visão holística o ceticismo em relação à violência. Violência é inevitável, ela está em cada passada que se dá, ao se esmagar o talo de grama sob os nossos pés. A violência está na aranha comendo a mosca e no sapo comendo a aranha. A cadeia alimentar, base da vida e da natureza, é, em sua essência, violência.

            E, no entanto, se tudo é parte, se a parte compõe o todo, então cada parte reflete o todo e o todo nela tem parte. Dito de outra maneira, se o todo é constituído de partes, o todo está na parte e a rejeição da parte é rejeição do todo.

            Existe um dito africano que diz que cada homem que morre é uma biblioteca que se incendeia. Aqui não importa se o homem é bom ou mau, se a sua vida foi útil ou inútil. Não há a preocupação moral do julgamento. Se o homem viveu, então ele acumulou conhecimentos e experiências que passam a fazer parte do mundo. Se o homem morre, morrem com ele as experiências e os conhecimentos, e o mundo empobrece. Todo conhecimento, toda experiência é boa e útil, ou melhor, pode vir a ser boa e útil. A gente não sabe hoje, aquilo que pode vir a ser bom e útil amanhã.

            Se a violência é inevitável, ela, ao mesmo tempo, é deplorável [38]. Da mesma maneira que a morte, a violência empobrece. O mundo é um conjunto de estruturas. Nem todas convivem harmonicamente umas com as outras. Nem todas estão entrelaçadas e interconectadas. Pelo contrário, o que mais existe é colisão, fricção e entrechoque. Mas, o objetivo é entrelaçar e interconectar. De uma maneira prática, e tentando simplificar as ideias, eu diria que, ao mesmo tempo que a violência é inevitável, a gente deve usá-la com parcimônia.

            Todas estas ideias são particularmente válidas para a violência dentro do nosso próprio eu. O eu é constituído das partes e as partes do eu constituem o eu todo. Reprimida uma parte, reprime-se o todo [39]. As partes do eu são aquilo que compõe o eu, e é preciso entrelaçá-las e interconectá-las.

Se existe uma parte do eu que quer e uma parte do eu que não quer, melhor que reprimir a parte do eu que não quer, é estimular a parte do eu que quer. Vimos no capítulo cinco o caso de A, que vive cindido entre fantasia e realidade. Melhor que reprimir a fantasia é estimular a realidade. Ao invés de reprimir a inconstância e a volubilidade, cabe procurar descobrir os prazeres da constância e da estabilidade. Ao invés de proibir a aventura, exercitar a entrega. Ao invés de fugir dos medos, sentir a paz. Ao invés de condenar o vazio das relações superficiais, aprofundar-se na relação, mesmo que seja vazia. Quem sabe, não é possível preenchê-la?

Reprimir uma parte do eu é reprimir a realidade. Por exemplo, reprimir o medo ou a fantasia é reprimir uma parte do eu que aprendeu que o medo e a fantasia são caminhos possíveis. Reprimi-los é reprimir o eu-infantil que tem medo e se refugia nas fantasias. Ora, este eu-infantil é parte do eu, é realidade. Reprimir, portanto, é negar a realidade, ao menos parte dela.

            A realidade pode ser transformada, mas não pode ser negada [40]. A realidade não deixa de existir simplesmente porque eu não quero que ela exista [41]. A modificação é algo positivo, é algo propositivo. A modificação é uma proposta e não uma negação.

Dentro da cosmovisão aqui descrita, qualquer negação da realidade é negação do próprio ser que nega, na medida em que o mundo externo é parte do ser. Um professor que reprime um aluno está negando a si mesmo, está negando o seu trabalho, na medida em que professor e aluno estão unidos no saber, ao menos, deveriam estar. Evidentemente, se a relação não é baseada no saber, se a um cabe o papel, não de fazer saber, mas de mostrar que sabe, e, ao outro, o papel de fingir que sabe, então não há que se esperar união, lá onde ela não tem condição de existir.

A negação da realidade é, portanto, a negação do ser que nega, na medida em que a realidade faz parte do ser. Ou seja, se eu nego a realidade eu estou negando a mim mesmo, na medida em que a realidade é parte de mim. Na medida em que é negado o ser que nega, temos afirmação ao invés de negação [42].

            Este fato pode ser visto de outra forma. Quem nega a existência de alguma coisa, acaba por admiti-la, porque se ela não existisse, ele não precisaria negá-la. A rejeição fortalece o objeto que se rejeita, na medida em que afirma a sua existência.

            Esta ideia pode ser melhor percebida tomando como base o fato, conhecido, de que a veemência com a qual se defende uma questão, está diretamente relacionada à intensidade com a qual ela nos atinge. Algo que não nos atinge, não precisa ser negado, porque passa desapercebido.

Na verdade, tanto faz tentar negar algo que se acaba afirmando ao negar, como negar o sujeito da negação [43]. Ambos os casos afirmam o objeto da negação e é justamente por isto que a repressão não funciona.

            Por exemplo, se eu reprimo as fantasias eu estou reprimindo o eu-criança que aprendeu a se refugiar nas fantasias. Mas o eu-criança é parte do eu, e com a sua negação eu estou negando este eu e, portanto, estou negando a sua negação [44]. Por outro lado, se eu estou negando o eu-criança e suas fantasias eu as estou reforçando, porque não se nega algo que não existe [45]. Resumindo, o que a repressão faz é reforçar as fantasias. O mesmo se aplica para o medo. A repressão ao medo tão somente o reforça.

Rejeitar, portanto, é afirmar. Cria-se uma contradição em que se tenta rejeitar algo que se acaba afirmando ao rejeitar [46]. Esta contradição pode ser resolvida, em um plano mais elevado, pela síntese propiciada pelo entendimento. Por exemplo, no caso de A e suas fantasias, a síntese pode ser conseguida colocando as fantasias no passado e colocando o padrão novo de entrega no presente. Dentro de uma perspectiva Piagetiana, não se eliminam nem fantasias, nem realidade, mas se cria uma estrutura em que ambas têm lugar.

            Repressão é enclausuramento, é fechamento. Na medida em que a gente reprime alguma coisa, a gente se nega a entendê-la, se nega a trabalhar em cima dela e analisá-la. A repressão, portanto, nega o entendimento, nega a racionalidade. Ora, racionalidade é realidade. O que se está fazendo, portanto, é negar a realidade e, como já vimos, isto não funciona [47].

            A ideia mencionada no parágrafo acima fica mais clara se tomarmos novamente as fantasias. Na medida em que alguém vive imerso em fantasias, ele constrói um mundo dentro de si mesmo. Trata-se indubitavelmente de fechamento, pois o que se está fazendo é abdicar do relacionamento com o mundo exterior. A repressão reforça este fechamento. Ao invés de tentar entender as fantasias, as suas origens e causas, atuar em cima delas, entender que as fantasias levam ao isolamento e, com isto, reconhecer a importância do relacionamento com o mundo exterior, ao reprimir as fantasias, se está, novamente, reduzindo o mundo a si mesmo, ou seja, reforçando o fechamento. A repressão implica em acreditar que a supressão das fantasias está dentro das suas atribuições e competências [48] [49]. Quando se sente necessidade, cria-se as fantasias e, quando, estas não mais convêm, se as suprime através da repressão. Ora, como fantasias também são realidade, o que se está tentando fazer é criar e suprimir realidade. Evidentemente que isto não funciona.

Temos aqui a questão da responsabilidade. O sujeito que procede desta maneira acredita ser responsável por tudo, por criar e por destruir, por fazer e desfazer. Ele acredita ser centro de tudo. Claro que isto é fechamento em si mesmo e é claro que isto não funciona [50].

            Uma última observação cabe à questão da meta-repressão, ou seja, a repressão à repressão [51]. Caracterizado o papel negativo desempenhado pela repressão pode haver uma tendência de reprimir a repressão. Quando eu digo não reprimir as fantasias eróticas, com o não estou reprimindo o ato de reprimir. Ora, se a repressão não funciona, muito menos funciona a repressão à repressão. A saída não é repressão, nem mesmo a repressão à repressão. A saída é sair da dimensão da negação para uma dimensão mais afirmativa e construtiva.

 

 

Querer e sexo

 

            O sexo oferece uma magnífica oportunidade de análise do querer. Nada está mais longe de sexo do que querer ter sexo e esta última atitude é o caminho certo do fracasso na relação sexual. Sexo é prazer e prazer se tem, mas não se quer ter. Sexo é entrega ao corpo e o querer frequentemente é uma vontade que reside na cabeça.

            E, no entanto, ....  Quanto de querer não existe no amor? A gente não se relaciona com alguém com o qual a gente não quer se relacionar. O relacionamento íntimo com uma pessoa está cheio de quereres. A gente quer a sua amizade, quer a sua confiança, quer a intimidade, cumplicidade, companheirismo e solidariedade. A gente quer o seu corpo e o que é o desejo senão um querer? A gente quer o seu saber, a sua cultura, a posição social e, às vezes, a gente até quer o seu dinheiro.

            O que vemos, portanto, é que a relação entre sexo e querer oferece uma magnífica oportunidade para examinar a relação dialética do embate de contrários. As páginas que se seguem visam jogar alguma luz sobre esta questão.

            Principalmente entre casais que já estão juntos durante muito tempo é comum a visão depreciativa de sexo como dever de casa. Recentemente peguei um taxi de um senhor beirando os sessenta anos que me disse com orgulho que fazia sexo com a sua mulher regularmente uma vez por semana. Depois, acrescentou: a contragosto. Que sexo é este, feito sem prazer?

            Trata-se de um dever, uma obrigação, provável uma obrigação social. Faz parte dos seus deveres, ter relação sexual com a sua esposa uma vez por semana. Ele possivelmente está inseguro e teme que ela fuja com outro. Ou então, ele quer ser um bom marido e acha que a relação sexual faz parte das suas atribuições.

            O fato do taxista ter transformado a relação sexual em dever e obrigação não necessariamente é a única, mas, possivelmente, é uma das razões para a ausência de prazer na relação. Sexo é prazer, sexo não é obrigação. No momento em que sexo vira obrigação, acaba o prazer. O que o sexo requer é entrega a sentimentos e sensações. Através do dever e da obrigação o taxista introduz uma tensão que desvia o foco do sentir. Ele substituiu o tesão do sentimento e da sensação pela tensão do dever e da obrigação.

            O que fazer em um caso destes? No caso do motorista de táxi não há nada a fazer. Ele me contou a coisa com orgulho, ou seja, ele estava satisfeito de ter trocado tesão por tensão. Como exatamente ele consegue isto, uma vez que para realizar o ato sexual ele, na verdade, precisa de um mínimo de tesão, isto ele não contou. A história do taxista tem um lado contável e outro lado de uma feiura tamanha que ele não teve coragem de contar.

Talvez a mulher dele também faça sexo como obrigação. Gera-se um absurdo que não deixaria de ser cômico, se não fosse trágico. Ele faz sexo para a satisfazer, e ela, por sua vez, somente faz sexo para o satisfazer, e nenhum dos dois se satisfazem.

Ou talvez, nem seja isto. Talvez eles façam sexo tão somente como uma espécie de hábito ou ritual, como o sacrifício de uma cabra no altar dos deuses. Que deuses são estes? São as regras, a moral, as convenções, os usos e costumes que comandam a nossa sociedade.

            Sabe-se lá o que acontece durante o ato sexual entre o taxista e a mulher. Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia [52]. Existem tantas variantes de sexo que, enumerá-las, seria tarefa ingrata. Pode ser tudo um faz-de-conta, ou então, pode ser mentira. O taxista pode ter uma amante, a esposa dele também, e os dois vão para a cama trazendo juntos as amantes. O mais provável, é que as/os amantes permaneçam escondidas na cabeça, na imaginação. Porém, existem muitas outras maneiras de se fazer sexo e aquilo que o taxista chama de ato sexual pode ser nada mais do que um simulacro.

            Como eu já disse, sexo é antes de mais nada entrega a sentimentos e sensações e estes são domínios do corpo. Querer, dever e obrigação, desviam o foco do corpo para a cabeça.

            Sexo é sentir, é deixar sentir. Jamais é querer sentir. Como fazer para deixar sentir [53] ? A única resposta que eu posso dar a esta pergunta é na direção da análise e do entendimento. Entendendo tudo o que se passa por trás do querer, estamos ajudando a desconstruí-lo. Evidentemente que exercícios de entrega também ajudam, mas há que tomar cuidado porque atrás dos exercícios pode também existir o querer. A esperança é que se trate de um querer mais fraco que o querer original e que, de querer em querer, se vá enfraquecendo os quereres.

            Problemas com sexo costumam estar associados a medos [54]: medo de falhar, medo de não corresponder às expectativas, medo do desempenho insatisfatório. Já comentamos bastante a respeito dos medos e não pretendo aqui me repetir [55].

            Na medida em que surge um problema, surge, junto com ele, o medo. O medo imobiliza e a consequência é o aumento da dimensão do problema. Gera-se um círculo vicioso: problema → medo → problema. Com o aumento da dimensão de medos e problemas surge o querer, em particular, o querer resolver o problema. Reforça-se o círculo vicioso na medida em que o querer resolver o problema costuma resultar em repressão, em particular, repressão aos medos [56]. Como já foi explicado por diversas vezes, a repressão ao medo somente o reforça, ou seja, dentro do primeiro, existe agora um segundo círculo vicioso: medo → repressão → medo.

A própria expectativa associada à resolução dos problemas sexuais representa uma dificuldade, porque desvia o foco do sentir. Tanto a derrota como a vitória são perigosos. A derrota puxa para baixo e a vitória puxa para cima. Ao invés de simplesmente sentir, passa-se a estar interessado no tentar superar a dificuldade, ou então, no querer provar o quanto se é capaz. Qualquer tentativa de tentar provar alguma coisa gera uma tensão que prejudica o sentir.

            O que fazer? A única solução que eu posso oferecer é a da análise e do entendimento. A finalidade principal da análise é desconstruir a repressão. Diminuindo a repressão, diminui o medo. Abre-se espaço para a resolução dos problemas. Não necessariamente o entendimento permite resolver todos os problemas, mas, possivelmente, consegue separar o que é possível de ser resolvido do que tem que ser aceito. Na medida em que isto acontece, o querer resolver o problema perde intensidade, diminuindo-se a tensão do querer. Diminuindo o querer, diminui a repressão e com ela diminui o medo. Abre-se espaço para o sentir que no caso do sexo é fundamental.

            Existe um dito popular, já citado anteriormente, atribuído ao teólogo americano Reinhold Niebuhr, mas possivelmente de origem bem anterior (existem referências a São Francisco de Assis), que dá uma orientação de como as fronteiras entre o aceitar e o modificar podem ser estabelecidas: é preciso coragem para mudar o possível, serenidade para aceitar o impossível e sabedoria para distinguir entre os dois. Ou seja, é preciso uma mistura de coragem, serenidade e sabedoria.

            Atrás do medo está o eu-criança, estão as inseguranças e as experiências do passado. Os medos têm a sua razão de ser na infância e é lá que eles cabem. Análise e entendimento vão permitir colocar passado no lugar do passado, presente no lugar do presente. Ao invés de reprimir o eu-criança, abre-se espaço para ele através da sua compreensão. Ao invés da negação, surge a afirmação. Assim, é de se esperar que os medos desapareçam.

Antigamente eu costumava dizer que medos são fantasmas. Como fantasmas gostam das trevas e como a razão costuma ser associada à luz, parece fazer sentido a afirmação de que a racionalidade espanta os fantasmas do medo.

Como fantasmas são seres irreais e como o medo é ancorado na realidade eu, mais tarde, corrigi a afirmação, passando a dizer que os medos são resultado do nosso passado, da nossa infância. Seja como for, fantasmas ou passado, ambos sinalizam o remoto e distante [57].

O entendimento não necessariamente espanta os fantasmas do medo, mas ajuda a colocá-los no seu devido lugar. Boa parte dos medos não tem lugar na vida de um adulto que tem outros recursos para lidar com os problemas. Crescer, tornar-se adulto é aprender a lidar com a realidade, distanciando-se dos medos [58].

            Voltando à questão do sexo existem fatores que tem que ser aceitos. Tomemos, por exemplo, a idade. O sexo de um velho de sessenta anos não é igual ao de um jovem de vinte. O mesmo se aplica para fatores genéticos, propensões, aptidões, inclinações e traços da nossa personalidade. Uma vivência, uma experiência aprofundada e consolidada por muitos anos não pode ser simplesmente apagada, mesmo que se consiga entendê-la. Ou melhor, entendê-la significa exatamente entender que que esta realidade tem que ser aceita.

            Faz parte da perspectiva de aceitação, a visão de não se é o único responsável por tudo aquilo que acontece. Nem tampouco se tem o poder de tudo mudar. Há forte interconexão entre o que ocorre dentro e o que ocorre fora de nós. Somos o reflexo do mundo exterior sobre o qual temos influência limitada. Cabe dividir com o mundo a responsabilidade das coisas que acontecem [59]. Estas ideias podem desconstruir a tensão do querer resolver o problema.

            Ao falar do taxista eu disse que existem muitas maneiras de se fazer sexo. O que foi dito no sentido de crítica e ironia, no entanto, tem um lado mais sério. Frequentemente os problemas com sexo decorrem de um apego excessivo a formas tradicionais de se fazer sexo. Cabe lembrar que as únicas regras no sexo são o prazer e o respeito. Se duas partes estão envolvidas, ambas têm que ter prazer, ambas têm que ser respeitadas. E não existe nenhuma forma melhor de se conseguir este objetivo que o entendimento. O entendimento não é somente do eu consigo mesmo, como também é o das partes envolvidas. Há que conversar, dialogar e chegar a um consenso. Há que buscar o denominador comum, apurar as sensibilidades e procurar a convergência dos sentimentos.

            Sexo não pode ser obrigação, e isto tem que ser levado tão longe que não pode nem mesmo haver a obrigação de se fazer sexo. Evidentemente sexo é uma fonte inesgotável de prazer. Sexo é o principal cimento de uma relação e ajuda a consolidá-la e fortalecê-la. E, no entanto ... existem muitas outras formas de se estabelecer vínculos e de se construir uma relação. Sexo é a principal forma de amar, mas nem todo sexo implica em amor e nem todo amor implica em sexo.

            Eu disse no início desta seção que o fundamental para se ter prazer no sexo é a entrega. E uma das principais razões para problemas sexuais é o medo da entrega. Muitas vezes o medo da entrega tem a sua origem em uma rejeição dos pais. Pode também ser fruto de bullying. Qualquer entrega, não necessariamente amorosa, que resulte em sofrimento e dor, reforça o medo. O desmame feito de forma precipitada, a rejeição do peito, a primeira namorada que termina abruptamente a relação, o professor idolatrado que dá uma nota baixa, o grande amigo que trai a confiança, o pai que abandona o lar, o patrão que despede depois de muitos anos de trabalho, tudo isto, se não for trabalhado satisfatoriamente, alimenta o medo da entrega.

            Evidentemente que é impossível evitar as frustrações do cotidiano, mas eu não estou dizendo que elas têm que ser evitadas, mas sim, que elas têm que ser trabalhadas. Através do entendimento há que deixar bem claro, que os problemas não se devem à entrega em si, mas sim, à relação e às circunstâncias particulares e concretas que se estabeleceram. Não é o mundo que ocasionou os problemas, pois isto implicaria na impossibilidade de com ele se relacionar. Eles se devem ao relacionamento equivocado que com ele se estabeleceu e às expectativas falsas criadas.

            Quero retomar o caso de A que foi visto com detalhes no capítulo 5. A vive imerso em fantasias sexuais, passa por uma situação de angústia, decide mudar de vida e tentar um relacionamento mais estável. No entanto, não consegue, porque fica dividido entre o prazer da aventura e o vazio das suas relações; a segurança da estabilidade e o medo da rotina e do massacre do cotidiano.

            Talvez a crise possa melhor ser caracterizada como uma crise do querer. O que é que A quer? Prefere a aventura ou a estabilidade? Necessita levar o prazer aos píncaros mais inacessíveis, ou prefere a paz que reina no planalto?

À primeira vista pode parecer uma contradição eu aqui defender a importância do querer, quando anteriormente ressaltei os riscos e os perigos a ele vinculados. Parece um contrassenso eu dizer que o principal problema é que A não sabe o que quer e, por outro lado, eu ressaltar que querer é repressão e violência.

Como eu disse no início desta seção a ideia aqui é destrinchar um pouco esta contradição, ou seja, mostrar um pouco o que está por trás da dialética do querer. A contradição não é sinônimo de absurdo ou vale-tudo, relativismo ou subjetividade, aleatoriedade ou falta de lógica. A contradição é sinônimo da extrema dinâmica com que as coisas se dão. Dialética é sinônimo de movimento, um movimento em que continuamente cada coisa transforma-se em seu contrário [60]. Não se trata do sim ter o mesmo significado do não, não é que sim e não signifiquem a mesma coisa. Trata-se de sim transformando-se em não e vice-versa. Dialética nada mais é do que a admissão do eixo dos tempos modificando continuamente as afirmações.

Vejamos o caso de A. O fato é que A não sabe o que quer. Está dividido. De um lado, ele tem medo da entrega; ele tem medo da extrema dor da separação que costuma seguir-se à entrega. Esta vivência tem a ver com a experiência da expulsão do ventre materno, mas não somente isto. Na vida de todo mortal existem experiências que associam dor à separação. Existem as brigas e desavenças com os pais e irmãos, com os amigos e, mais tarde, com o(a) companheiro(a) e com os filhos.

Do outro lado, existe o medo da solidão que costuma ser a consequência da recusa da entrega. No caso específico de A, as aventuras e fantasias significam recusa da realidade, e o refúgio em sonhos e ilusões costuma resultar em sofrimento e dor.

Para ajudar na escolha entre a aventura e a realidade, existe o entendimento. Este entendimento costuma estar associado ao querer. A quer encontrar uma saída para o impasse. Ele quer encontrar uma solução para o seu problema.

Existe, no entanto, um outro querer que representa violência e domínio da vontade. Em função de A não saber bem o que ele quer, em função de uma indefinição entre o medo e o desejo de entrega, ele resolve querer [61]. Para fugir da angústia da dúvida A resolve forçar uma escolha.

Suponhamos que entre o medo associado ao eu-criança e a opção pela entrega que caracteriza o eu-adulto, o entendimento tenha conduzido A ao caminho da entrega. Suponhamos que A tenha escolhido uma companheira para tentar consolidar esta opção. Tudo parece caminhar bem. Suponhamos, no entanto, que surja uma outra mulher na vida de A. Reavivam-se as dúvidas e incertezas, renascem as fantasias, o refúgio no sonho e na ilusão. O eu-adulto quer a entrega, mas o eu-criança quer fugir para as fantasias. Sentindo-se ameaçado, o eu-adulto força a escolha e para isto utiliza o querer. Reprime sonhos, aventuras e fantasias, reprimindo o eu-criança.

            Existem, portanto, dois quereres. O querer entender é sinônimo de entendimento. Na impossibilidade de resolver a questão através do entendimento surge um segundo querer, que nada mais é do que repressão e violência [62].

Repressão não adianta. Ela só reforça os medos e a fuga. O que tem que acontecer é o desinteresse, normal, natural e este é fruto do entendimento. No caso da nova mulher porque o súbito interesse ? Porque trocar a realidade pela fantasia se esta, a longo prazo, significa solidão, sofrimento, dor e desilusão?

Dentro do conflito entre eu-criança e eu-adulto, de um lado existem os medos, do outro lado existe a busca da realidade. É o entendimento que deve reconhecer qual o caminho a seguir. Se A chega à conclusão que a entrega deve prevalecer, então é de se esperar o lento e progressivo desinteresse e desengajamento das fantasias.

Evidentemente que tudo o que foi aqui analisado separadamente acontece, na prática, de forma misturada. A não sabe o que quer, oscila entre a infância e a idade adulta e na dor da incerteza apela para a repressão das fantasias. Mas no momento em que as reprime, percebe a inutilidade do gesto e procura se aprofundar no que está por trás da repressão. Adicionalmente reforça-se a consciência de que fuga da realidade resulta em sofrimento e dor. Ao mesmo tempo, A torna-se mais consciente da força dos hábitos e dos escapismos, e nota que a pura análise racional não funciona, se a prática a contesta. Reforça-se a opção pela realidade, mas logo surge nova fantasia, nova repressão à qual se segue a tentativa de desconstrução de fantasias, medos e repressão, nova entrega, nova fuga e assim por diante. A esperança é que ao longo de todo este processo, vá se consolidando um caminho.

Repressão e violência podem ser a única saída em uma situação de emergência, mas, a longo prazo, não resolvem o problema. Porque uma pessoa, em uma discussão, levanta a voz? Normalmente porque está insegura. O levantar a voz significa um ato de violência que normalmente é utilizado por quem não tem outro recurso, por exemplo, a argumentação. Assim, ele usa a violência para fazer prevalecer o seu ponto de vista. A violência pode significar que a pessoa tem receio de uma inferioridade em relação ao seu oponente, mas pode também significar que ela está dividida, ou seja, traz o oponente dentro de si mesma. Frequentemente as duas coisas acontecem simultaneamente, ou seja, a pessoa está dividida e por isto se sente inferiorizada. Como consequência, tenta se impor ao outro, levantando a voz.

Algo parecido acontece no caso da entrega. Existe uma cisão entre o eu-criança que tem medo da entrega e o eu-adulto que vê na entrega a saída dos problemas. Ao invés do eu-adulto argumentar com o eu-criança, ele tenta vencer no grito através da repressão e da violência do querer [63].

A submissão do eu-criança pelo eu-adulto não funciona porque o eu-criança faz parte do eu. A submissão tão somente reforça a cisão quando o caminho correto é exatamente o contrário. A solução é união.

Cabe esclarecer melhor a questão levantada no parágrafo anterior. Uma visão simplista poderia pensar que o eu é constituído de duas partes, uma boa e a outra má e que a solução seria a parte boa vencer a parte má. Esta é a visão da moral judaico-cristã. Dentro da visão holística a parte não é parte sem o todo e o todo inexiste sem a parte, de forma que é totalmente equivocado achar que uma parte do eu pode subjugar a outra. O eu-criança é parte integrante do eu. O que há que fazer é juntar as partes e o entendimento é a ponte que permite esta ligação. É a união das partes que vai permitir o surgimento de um único querer. Ao invés da briga dos quereres antagônicos e da inevitável violência que daí decorre, surge, como síntese, um único querer. Como o querer é único, ele é desnecessário [64].

Como se chega lá? O processo é lento e gradual e não existe fórmula mágica. Existe uma contradição entre o querer que junta porque esclarece e unifica e o querer que separa porque é domínio e repressão. Como em todo processo de aprendizado os dois lados estão presentes. A introdução de um novo padrão que pode propiciar melhor qualidade de vida vem normalmente acompanhada da repressão ao padrão antigo que se deseja superar. Esta contradição somente se supera com a prática. À medida que o novo padrão vai se impondo, diminui a necessidade de reprimir o padrão antigo.

 

 

Aceitar-se e modificar-se

 

            Na seção anterior mencionamos o dilema aceitar-se / modificar-se atribuído a Reinhold Niebuhr. Entre os dois extremos Niebuhr coloca a sabedoria.

Costuma-se dizer que a sabedoria é divina. Dentro da perspectiva materialista, ao invés da sabedoria, cabe melhor a prática. O próprio convívio com a realidade acaba determinando o que pode ser modificado e o que necessita ser aceito. Nos parágrafos que se seguem pretendo deixar isto mais claro.

A realidade é dialética, ou seja, convive com a contradição. Ao mesmo tempo em que aceitamos o mundo, o passado, os fatores externos, há que tentar modificá-los.

Aceitar frequentemente significa aceitar o seu passado, aceitar a criança que existe dentro de nós. Acontece que a criança é parte integrante do ser. Os padrões comportamentais oriundos da infância, encontram-se presentes no adulto, e muitas reações do adulto são baseadas em um aprendizado feito na infância. Portanto, ao mesmo tempo em que há que aceitar o passado, há que lembrar que o passado faz parte do presente e que este é possível de ser modificado. Nos parágrafos abaixo mostramos como isto pode ser conseguido.

            Tomemos, por exemplo, a fuga da realidade e o refúgio em fantasias e ilusões. Estas são reações típicas da criança. Quando a criança não consegue realizar seus desejos, quando ela é reprimida em seus anseios e vontades, ela foge para o sonho e a fantasia. Fuga é um produto do não e da repressão.

Suponhamos que a criança se torne adulto, mas a imersão nas fantasias continue. Suponhamos que isto atrapalhe, tornando necessária uma mudança. Ora, a busca de um padrão de comportamento novo, costuma vir junto com a repressão ao padrão antigo. Esta repressão representa um novo não ao eu-criança, despertando os velhos medos e reforçando as fantasias.

A alternativa é o entendimento. Na medida em que se analisa o padrão antigo, se abre espaço para o eu-criança. Ao invés do não, o que se oferece agora ao eu-criança é um sim. A aceitação do eu-criança faz com que este não mais se sinta acuado. Relaxado, ele se solta e talvez se solte do padrão antigo. Abre-se espaço para a introdução de um padrão novo.

Uma criança agarrada à sua chupeta (padrão estabelecido), se forçada (violência, repressão) a largá-la, grita e esperneia e dificilmente vai colaborar com a mudança do padrão. Se, no entanto, for aceito o padrão antigo (a chupeta) e a criança for convidada de maneira suave e amigável a uma atividade para a qual ela necessita a boca, como, por exemplo, falar, cantar ou contar uma história, ela possivelmente coloca a chupeta de lado, abrindo o caminho para a modificação do padrão original. Vemos, portanto, os caminhos da dialética: aceitar o padrão para modificá-lo.

            Atrás do dilema modificar-se / aceitar-se se encontra a discussão dos limites entre o querer e o poder. Até onde a gente pode modificar determinada situação? Onde estão os limites da nossa capacidade de modificação? Estes limites não são dados nem a priori nem tampouco estabelecidos a posteriori. Eles são dinâmicos, estão constantemente se modificando ao longo do processo. Ou seja, a atuação em cima da realidade tentando modificá-la é que vai estabelecer até onde isto é possível. Tenta-se modificar determinada realidade, esbarra-se em resistência, tenta-se superá-la, reforça-se a resistência e recua-se. Depois de algum tempo faz-se nova tentativa, nova resistência, novo recuo e assim por diante. O conhecimento que se forma ao longo deste processo é que vai determinar onde se encontram os limites. Eles são sempre provisórios e têm que ser relativizados dentro das dimensões espaço / tempo [65]. Ou seja, os limites são sempre relativos, e nada, absolutamente nada, garante que, em outro momento ou em uma outra situação, o nosso potencial de modificação seja o mesmo.

            Apesar da aparente oposição, aceitar-se e modificar-se, na verdade, se complementam. A vida é um incessante ir e vir, dois passos para frente e um passo para trás e, às vezes, dois passos para trás seguidos de um passo para frente. Avançamos apesar dos retrocessos, ou melhor, avançamos por causa dos retrocessos. Num movimento alternado de ir e vir, em que parte se aceita, parte se modifica e, frequentemente, se aceita para poder modificar, acaba-se possibilitando a convergência do eu, bem como do eu com o mundo.

 

 

Querer e paz

 

            A paz extingue o querer. Esta frase é por demais zen para ser entendida e aceita por um leitor ocidental. Nos parágrafos que se seguem procuro esclarecer o seu significado.

Antes, no entanto, quero dar uma explicação de como se atinge a paz através da meditação. Aqui eu incorro em contradição porque paz a gente sente e não explica. Dito isto, passo a explicar.

Num primeiro estágio da meditação o pensamento volta-se para dentro, desliga-se das tarefas e das preocupações. Concentra-se na observação do corpo e em sensações: a postura, a coluna, a posição das pernas e mãos, a temperatura da pele. Num segundo estágio, reduz-se ainda mais a atenção, que passa a estar concentrada, por exemplo, na respiração, na entrada e na saída do ar. A respiração passa a ser cada vez mais lenta e mais espaçada, mais regular e mais constante. A regularidade e a constância da respiração apagam a atenção, de forma que, em um derradeiro e último estágio, a atenção não está presa em nada. Não mais existe atenção porque não existe mais o eu que observa e o eu que é observado. Sujeito e objeto fundem-se em uma só coisa. Não existindo mais sujeito, nem objeto, não mais existe descriminação. Apaga-se a razão que descrimina. O que resta é união e paz. Nada mais existe, ou melhor, o que existe é tão somente o todo [66]. O eu se funde ao todo e como eu e todo passam a ser uma só coisa, nem mesmo existe a possibilidade de percebê-los.

            Nas seções anteriores, principalmente na seção Querer e sexo, procuramos deixar claro que existem dois quereres. O primeiro é sinônimo de entendimento, ou seja, à luz da racionalidade procura-se desconstruir barreiras e limites. Como a tarefa é difícil e como existe pressa e afobação, frequentemente apela-se para o segundo querer que é violência e repressão. Na impossibilidade de juntar, escolhe-se um lado e tenta-se apagar os outros. Nas seções precedentes deixamos bem claro que esta tentativa costuma fracassar, a menos a longo prazo. Aprofunda-se a cisão e com ela o sofrimento e a dor.

            Se união é paz, paz é união, ou seja, os dois conceitos se equivalem. A paz, portanto, funciona como excelente medida da união. O querer que resulta em união é um querer que nos faz sentir a paz [67]. Evidentemente não se trata aqui de querer a paz, mas sim de deixar que ela chegue.

A paz significa, portanto, a superação da cisão. Paz significa a superação, internamento, do dualismo cabeça/corpo e, externamente, do dualismo sujeito/objeto. Paz é sempre união em contraposição à tensão da cisão.

Paz é um sentimento. Não cabe entender a paz, mas sim, senti-la. Somente sentindo a paz é possível entender a união. É a paz que permite a superação da cisão e é a superação da cisão que permite a paz. Este é o círculo virtuoso da felicidade.

No caso específico do querer, a paz é um sinal de que foi superada a cisão entre as diversas partes do eu. Não existindo mais a submissão de uma parte pela outra, o querer deixa de existir, ou melhor, ele agora significa um caminhar juntos das diversas partes do eu.

 

 

Fecho

 

Como síntese deste capítulo apresento o poema O quereres de Caetano Veloso [68]:

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah, bruta flor do querer
Ah, bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero e não queres como sou
Não te quero e não queres como és

Ah, bruta flor do querer
Ah, bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a Lua, eu sou o Sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim

 

Ligando os pontos ( parágrafos)

 

            Neste capítulo procuramos mostrar os dilemas do querer. O querer surge com o primeiro grito do recém-nascido. O primeiro berro, ao sair do ventre materno significa: quero viver.

            Todo o resto da vida é um aprendizado de como superar este querer. Pois o querer viver traz consigo uma tensão e uma insatisfação que é preciso aprender a superar [69].



[1] Evidentemente isto é uma brincadeira matemática e não deve ser levada ao pé da letra.

[2] Aqui quando eu digo que o querer desaparece, eu estou dizendo que ele não mais representa um problema, ou seja, que ele assume um papel secundário, podendo até mesmo se tornar algo inconsciente, realizado de forma quase automática.

[3] A repressão volta-se sempre contra uma parte do eu, ou seja, ela é sempre sinal de cisão.

[4] Em particular, o sistema nervoso somático responde pelas ações ou reações sob controle consciente.

[5] Na verdade, até mesmo atividades sob controle do sistema nervoso autônomo podem ser influenciadas pelo querer. É conhecido o fato de que somente é possível curar um paciente acometido de uma doença se ele se quer curar.

[6] Aqui quero reforçar mais uma vez a ideia de que o interno e o externo se inter-relacionam, ou seja, a ausência de paz exterior costuma se refletir em uma ausência de paz interior.

[7] A busca de equilíbrio postural será examinada com mais detalhes em capítulo à parte.

[8] Veja modelo presa-predador (predator-prey equations).

[9] Conforme veremos mais adianta aqui com cabeça eu estou principalmente me referindo à vontade consciente, ao querer. O instintivo, intuitivo, eu chamo de corpo.

[10] Mais corretamente seria dizer do consciente, ou melhor, da vontade consciente.

[11] Veja Drawing on the right side of the brain: a course in enhancing creativity and artistic confidence, Betty Edwards, editora Tarcher, 1979. Betty Edwards defende a ideia de que o cérebro pode funcionar segundo o modo L (lado esquerdo) ou o modo R (lado direito). O primeiro modo é basicamente verbal, analítico e sequencial. O segundo modo é visual, global e baseado na percepção. Betty Edwards defende o modo R como sendo aquele mais ligado à criatividade.

[12] Veja seção Na corda bamba do capítulo 3.

[13] Há que lembrar que no meio de tudo isto ainda existe o querer não querer, ou seja, um querer que consiste em não querer. Mais sobre esta questão será dito adiante.

[14] Cabe lembrar que o id inclui os instintos, e ao tornar a busca de equilíbrio algo instintivo, estamos, de certa forma, incorporando-a ao id.

[15] Aqui eu queria voltar a insistir que livrar-se do querer não significa a ausência de todo e qualquer querer, mas significa tão somente livrar-se daquele querer que é cisão e violência.

[16] Medos e inseguranças já foram examinados com detalhe em outros capítulos anteriores e serão objeto de um capítulo à parte que será apresentado mais adiante.

[17] Na pg 491, palestra XXVII (A transferência) das Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse (Conferências Introdutórias sobre Psicanálise), obra já citada, Freud menciona que a repressão é uma consequência do medo de não saber lidar com o problema. Repressão e medo estão interligados e o medo de não saber lidar com o problema denota a falta de maturidade característica da infância.

[18] Não querer também é um querer.

[19] Por exemplo, o entendimento pode fazer com que se aperceba que a paz que resulta do equilíbrio sobre uma perna só é algo completamente diferente da paz do ventre materno. A primeira está muito mais sob o nosso controle e domínio e não apresenta os riscos e os imprevistos da situação do passado.

[20] Aqui é interessante observar que o medo do medo representa, de certa forma, o medo do eu-adulto em relação ao medo do eu-criança, ou seja, o eu-adulto tem medo de que o medo do eu-criança inviabilize a obtenção do equilíbrio. Na medida em que ambos, eu-adulto e eu-criança, têm medo, cria-se uma ponte que ajuda a união dos dois lados. Se o medo do medo é uma característica do eu-adulto, ou então, é um medo do eu-criança a meta-nível, isto é difícil de dizer, já que ambos fazem parte de uma mesma identidade. Aqui, no entanto, fica a observação.

[21] Outra questão que tem que ser entendida é a razão da tentativa de dominação do eu-criança pelo eu-adulto. Na raiz desta dominação está a competição por diversas alternativas de vida. No caso analisado, temos de um lado a busca e, do outro lado, o medo do equilíbrio.

[22] Não nos esqueçamos que a imposição do querer pelo eu-adulto reforça os medos do eu-criança.

[23] Evidentemente este movimento pode ser estendido indefinidamente, pois atrás do entender existe também um querer. Ou seja, se estamos querendo entender o querer, então atrás do entender existe também um querer. Segue-se um querer entender o querer. Este, por sua vez, requer ser entendido, ou seja, segue-se um entender o querer entender o querer, e assim por diante. Querer e entender representam forças opostas e é justamente do seu embate que surge o conhecimento. Na verdade, o entendimento atenua a violência do querer, e é de se esperar que, ao longo do processo querer e entender acabem convergindo para um todo mais harmônico. Trata-se da síntese.

[24] O mesmo procedimento é válido em um sentido mais geral. Existe um só mundo, estamos todos, passado, presente e futuro, minerais, vegetais e animais, em particular, todos os homens, países e raças dentro de um mesmo projeto. Esta perspectiva fornece o Norte da nossa bússola e, com a bússola na mão, somos capazes de encontrar um caminho.

[25] A cisão externa costuma também resultar em cisão interna. O mundo interior acaba por refletir aquilo que ocorre fora de nós. Não nos esqueçamos que o ser humano é um ser social, apesar de existirem casos isolados como, por exemplo, o eremita, que parecem contradizer este fato. O eremita, no entanto, costuma compensar a pobreza dos seus relacionamentos humanos com o relacionamento com a natureza.

[26] Não nos esqueçamos que a baixa da auto-estima significa a existência de um eu que observa e um outro eu que é observado.

[27] Mais adiante será dedicada uma seção ao dilema aceitar-se/modificar-se.

[28] Aqui é inevitável a associação com o ventre materno. A morte, o ventre da mãe-terra, é o último refúgio. Ao confrontar abertura com fechamento, confrontam-se Eros com Tânatos.

[29] Evidentemente trata-se do embate de dois quereres, o querer mudar e o querer manter o padrão antigo. Para simplificar a análise eu vou considerar o primeiro como querer mudar e o segundo como medo de mudança. Na verdade, atrás do querer mudar existe também um medo, qual seja, o medo de deixar as coisas como estão. Resumindo, querer e medo estão de tal forma imbricados que a separação, a rigor, é impossível. Aqui ela é feita tão somente para facilitar a denominação.

[30] No capítulo 5 procuramos mostrar que o eu e o padrão de comportamento estão intimamente relacionados. Aqui mostramos que o querer também faz parte desta relação, ou seja, ao longo do processo de mudança, muda o eu, muda o padrão de comportamento e muda o querer. É isto que vai propiciar a convergência dos três.

[31] Eu acho que a oposição entre tensão e mudança é uma herança do nosso passado animal. No reino animal a tensão ocorre em momentos de risco ou perigo e estes não são propícios à mudança. Dito de maneira mais simples, a crise não é o momento apropriado para se fazer experiências novas.

[32] Todo mundo conhece, por experiência própria, a tentativa de deformar, ou seja, modificar, um objeto muito rígido. O resultado, na maioria das vezes, é a quebra do objeto. Cabe lembrar que tensão enrijece.

[33] Existe uma oposição dialética entre um querer que constrói e um querer que destrói, um querer que possibilita e um querer que impede, um querer que impele e um querer que impede.

[34] Ao querer forçar o ato de urinar, o sujeito utiliza violência. Como já vimos, dificilmente a gente consegue as coisas através de violência. Se a gente não o consegue no nosso relacionamento com o mundo exterior, quanto mais no nosso relacionamento com o mundo interior.

[35] No caso do sujeito que quer reter a urina, ao mesmo tempo em que é necessário colocar tensão no esfíncter uretral mantendo-o cerrado é preciso relaxar a uretra e a bexiga para evitar a pressão da urina sobre o esfíncter. Este movimento duplo de tensão e relaxamento requer um aprendizado que não é nada trivial, e que surge em muitas outras ocasiões da nossa vida.

[36] Um exemplo muito bom para a importância do relaxamento é a gagueira. Evidentemente o sujeito que gagueja quer superar o problema. Mas o querer introduz uma tensão que é um dos principais responsáveis pela gagueira. Ao mesmo tempo que se quer é preciso superar a tensão do querer. Para mais detalhes veja https://www.stutteringhelp.org/sites/default/files/selftherapy_portuguese.pdf.

[37] O não querer também é um querer. Ele, portanto, também pode gerar tensão. Há que tomar cuidado e estar consciente do que pode estar por trás das diversas atitudes e atuar no sentido de contrabalançá-las.

[38] A contradição existente entre uma violência inevitável e uma violência deplorável fornece a base da vida e da existência. É equivalente à contradição existente entre o impulso de vida (Eros) e o impulso de morte (Tânatos). A vida nada mais é do que o resultado do embate destes contrários.

[39] A psicologia da Gestalt diz que o todo é mais do que a soma das partes. Se o todo é igual ou mais do que a soma das partes, nada disto afeta o fato de que a repressão da parte afeta o todo. É este o fato que aqui é relevante. Na verdade, a nossa perspectiva aqui é dialética, e não combina com a perspectiva da psicologia da Gestalt. A própria ligação das partes, que, em princípio, podia ser vista como transcendendo as partes, aqui é vista como fazendo parte desta. Parte e todo tem uma relação dialética que torna impossível a sua separação.

[40] A rigor, a transformação também nega aquilo que existe, na medida em que transforma ser em não ser. Existe, no entanto, uma diferença entre transformar a realidade e refutá-la, ou seja, negar a sua existência.

[41] Aqui vale o materialismo. Na medida em que realidade é matéria, ela existe independentemente de eu querer ou não.

[42] Aqui temos dupla negação. Como se sabe, dupla negação é afirmação.

[43] Ao mesmo tempo que a repressão afirma o objeto da sua negação ela nega o seu sujeito. Ambos têm efeito semelhante.

[44] Trata-se do eu negando-se a si mesmo. Ora, se eu estou negando o sujeito da negação eu estou anulando a negação. Consequentemente estou afirmando o eu-criança, seus medos e fantasias.

[45] Existe um terceiro argumento contrário à repressão. Se eu estou negando o eu-criança e suas fantasias eu o estou ameaçando, e é de se esperar que ele se defenda, reforçando as fantasias. Todos os três argumentos são semelhantes, ou seja, existe uma base comum que os une. Trata-se de três maneira de ver a mesma coisa.

[46] Algo semelhante ocorre em relação à violência. Violência é contradição na medida em que nega aquilo que, ao negar, afirma.

[47] A negação da realidade externa certamente é fechamento em si mesmo. Evidentemente existe a realidade interna que também pode estar sendo negada através da rejeição.

[48] A pessoa que procede desta maneira acredita-se com superpoderes e isto nada mais é do que nova fantasia. De um sujeito presunçoso costuma-se dizer que ele está acima do bem e do mal, ou seja, acima da realidade.

[49] Como já vimos, fantasias também são realidade, porque se baseiam na realidade. Tudo é realidade. Aqui estou usando a palavra realidade em sentido amplo (lato). Frequentemente uso o termo realidade em um sentido estrito, para me referir à realidade que existe fora de nós (realidade externa). Neste sentido realidade se contrapõe a fantasia. Espero que fique claro quando realidade é usado no sentido lato e quando é realidade externa.

[50] Trata-se de egocentrismo.

[51] Aqui, por exemplo se enquadra o querer não querer que nada mais é do que repressão à repressão. Neste caso, o que se está fazendo é simplesmente reprimir a parte do eu que quer.

[52] Baseado em fala da peça Hamlet de Shakespeare.

[53] A rigor, está pergunta já está nos direcionando em um sentido errado, pois não se trata de fazer, mas sim de deixar acontecer.

[54] Já mencionamos em nota passada que repressão e medos costumam estar associados. Mencionamos que Freud considera que a repressão é uma consequência do medo.

[55] Um capítulo inteiro será dedicado à questão dos medos.

[56] Como o problema está associado ao medo, é comum acreditar que o medo e a insegurança a ele associada são as causas do problema. Daí a repressão aos medos.

[57] Existe uma expressão, frequentemente usada, que fala em fantasmas do passado.

[58] Já mencionamos que partimos de dois extremos em que se atribui o medo ao eu-criança e a racionalidade ao eu-adulto. Evidentemente que, em qualquer momento da vida, somos uma mistura destes dois extremos.

[59] A ênfase na responsabilidade, mantendo tudo sob o domínio do querer e da vontade traduz insegurança, pois na medida em que a pessoa se sente responsável, ela quer dominar e controlar. A vontade de dominar e controlar traduz o medo de que as coisas escapem do domínio e do controle.

[60] Uma outra explicação para a dialética é que uma tese, ou seja, uma afirmação sobre alguma coisa, modifica a coisa. Consequentemente torna-se necessário uma nova tese que, por ser diferente da tese original, pode ser vista como a sua contradição. Do embate de tese e antítese surge a síntese que é uma nova tese sobre a coisa e, portanto, a modifica, e assim por diante. Resumindo, a afirmação sobre a coisa está sempre correndo atrás da coisa pois, na medida em que a afirmação modifica a coisa, ela está sempre atrasada, ou seja, está tentando atingi-la sem, no entanto, o conseguir. Por exemplo, se eu digo para alguém eu não acredito em você, pode ser que este alguém, em função da minha afirmação, se mostre arrependido, de forma que eu, também arrependido, tenha que consolá-lo com a afirmação, estou brincando, é claro que eu acredito em você.

[61] É interessante notar que este querer entra em conflito com o querer entender, ou seja, trata-se de um conflito entre dois quereres.

[62] Este processo ocorre em muitas outras situações, pois dificilmente o entendimento consegue resolver o problema de imediato. É de se esperar que, ao longo do processo, o entendimento se fortaleça e a violência do querer diminua em intensidade.

[63] Aqui argumentar significa análise e entendimento. Em O Ego e o Id Freud diz que a psicanálise é uma ferramenta que permite a conquista do id pelo ego.

[64] O querer implica na escolha de uma opção e lá onde o caminho é único e não apresenta bifurcação também não há necessidade de se fazer uma opção.

[65] Cabe considerar a dinâmica do mundo nas suas duas dimensões básicas: espaço e tempo. A adição da dimensão tempo permite reunir coisas originalmente separadas. Por exemplo, se adicionarmos o eixo dos tempos eu-criança e eu-adulto passam a se reunir no mesmo eu. Trata-se de são duas fases do mesmo eu, ou seja, são duas faces da mesma moeda. É revelador que a adição de dimensões seja integradora, ou seja, que quanto maior o número de dimensões consideradas, mais se contribua para uma visão unificada do mundo.

[66] É interessante observar a evolução da amplitude da atenção. A amplitude vai diminuindo até se concentrar num ponto: o nada. O todo está no nada.

[67] Para isto há que considerar a dimensão espaço-tempo, ou seja, a paz deve ser duradoura e deve se aplicar a diversas situações.

[68] O quereres de Caetano Veloso; copiado em 07/01/2021 de https://www.letras.mus.br/caetano-veloso/44758/.

[69] Aqui pode surgir a pergunta: que vida é esta em que se abdica do querer? Não seria equivalente à morte? A minha vontade é responder como Buda na Parábola de Buda e da casa incendiada de Bertolt Brecht: não há resposta a esta pergunta. E, no entanto, vou tentar responder. A extinção do querer é paz. Mas morte não é paz. Morte tampouco é extinção de querer, porque morte não é. Para que alguma coisa seja, é preciso vida. Além disso, como já foi dito diversas vezes, não se trata de abdicar completamente do querer. Trata-se de abdicar daquele querer que é cisão e repressão. Trata-se de abdicar daquele querer que é tensão, sofrimento e dor.

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