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Capítulo 7 - Medos e Preocupações

 

Introdução

 

            Muito já foi dito sobre o medo. Há necessidade de novo capítulo? Em primeiro lugar o medo é algo tão importante que mesmo que muito já tenha sido dito, vale a pena abrir novo espaço, nem que seja para estabelecer um marco. Em segundo lugar, se muito já foi dito sobre o medo, este muito está espalhado e disperso por todo o livro e cabe reuni-lo e organizá-lo em um mesmo lugar. É conveniente uma síntese. Em terceiro lugar, se, de fato, o medo já foi inúmeras vezes mencionado, não houve oportunidade para uma análise mais aprofundada, bem como a apresentação mais detalhada e completa de estudos de casos.

            Não se espere neste capítulo nenhuma revelação. Tudo o que de básico havia para ser dito sobre o medo, já o foi. Podem, no entanto, surgir fatos e ideias novas que, mesmo tendo importância secundária, enriquecem a análise.

            É uma característica deste livro que o seu corpo de ideias esteja sendo construído à medida em que o livro vai sendo feito. Ou seja, nada está pronto, bastando encontrar o melhor lugar onde colocar. Pelo contrário, como tudo está sendo construído, e como não há um plano pré-definido para esta construção, em determinado momento é possível o avanço por um lado, e, em um momento seguinte, o avanço se dar por um outro lado. O que eu quero dizer, é que em um processo deste tipo, é inevitável a superposição, ou seja, é inevitável as mesmas idéias surgirem diversas vezes em versões ligeiramente modificadas. Muitas vezes a mesma coisa é apresentada de um ângulo ligeiramente diferente e é importante apresentar estas pequenas diferenças, porque é da sua reunião que resulta o todo.

 

 

A importância do medo

 

            Eu diria que o medo é um dos principais problemas do homem moderno. Na nossa sociedade, a dominação tem um papel fundamental e os principais instrumentos de dominação são o medo, a ilusão e a cisão. Todos os três trabalham juntos e de forma tão imbricada que é difícil analisá-los separadamente. Cria-se o medo para oferecer a ilusão da segurança. Cria-se a ilusão para separar o homem da realidade e assim torná-lo mais suscetível ao medo. Cria-se o medo para possibilitar o seu isolamento e com isto facilitar a cisão.

            Dos três elementos apresentados acima, o medo é talvez a mais importante arma de dominação. Um homem com medo se submete porque o medo quebra a sua resistência. Como é possível em pleno século XXI, com os avanços tecnológicos permitindo vida confortável e segura para todos os habitantes da terra, estarmos passando por situações de penúria, miséria e provação que mais lembram a idade média?

            A miséria existe porque existe a riqueza. Riqueza e miséria andam sempre juntas. A riqueza está sempre associada a poder e  privilégio e estes são sempre poder e privilégio sobre alguém. Se existe aquele que quer dominar, existe também aquele que se deixa dominar. Para ambos o medo dá a explicação. Para o caso do sujeito que se deixa dominar a explicação é óbvia. Mas também o sujeito que domina tem medo de que o outro lhe faça concorrência. Estes fatos serão examinados com mais detalhe a seguir.

            A força da união é tão grande e a massa de desfavorecidos é tamanha que, por maior que seja a ignorância, ela não dá conta de explicar o paradoxo. O que eu quero dizer é que, se a quantidade de desfavorecidos é muito grande, e se eles, juntos, são capazes de se contrapor a esta situação e modificá-la, cria-se um paradoxo que a ignorância sozinha não é capaz de explicar [1]. Se existe a ignorância, então muitos não sabem porque não querem saber e não querem saber porque tem medo de saber [2]. Acham mais confortável ficar na passividade da ignorância do que ser obrigado a agir em função do saber [3]. Novamente o medo explica a opção. O medo imobiliza.

Existe uma segunda questão que é central no reconhecimento da importância do medo: o papel do passado. O medo está quase sempre vinculado à luta e disputa, e estes, no passado, ocuparam grande espaço na vida do ser humano. Mesmo que na natureza disputa e competição sejam intrínsecas, nada me convence que para o homem isto tenha que acontecer. O homem é homem justamente para poder fazer as coisas de forma diferente. Por exemplo, um dos papeis da tecnologia deveria ser o de criar recursos suficientes para uma convivência harmônica e pacífica entre seres humanos.

            Ao invés de uma longa argumentação para respaldar as ideias acima eu prefiro dar um exemplo concreto. Tomo um episódio do livro Das Siebte Kreuz (A sétima cruz) de Anna Seghers [4]. O livro narra a fuga de um prisioneiro político de um campo de concentração nazista. O fugitivo passa por todo tipo de peripécias através das quais a autora pretende mostrar quão densa era a malha de terror na Alemanha nazista.

            No livro existe um diálogo (pg. 158 segs.) entre um comissário da Gestapo (polícia secreta nazista) e um tenente da SS (organização paramilitar ligada ao partido nazista) em que o comissário, para justificar as atrocidades diz (tradução minha): Querido amigo, este mundo do jeito que ele é, nos oferece poucas possibilidades. Ou a gente mantém certo tipo de pessoa atrás do arame farpado e presta bastante atenção, bem mais atenção do que a gente tem prestado, para que eles fiquem lá, ou nós é que vamos ocupar o lugar, e eles vão nos vigiar. E porque a primeira situação é mais razoável, temos às vezes que tomar medidas desagradáveis.

            O que vemos aqui não é um monstro. É um sujeito razoável que expressa um discurso bastante equilibrado: ou nós, ou eles. E porque é mais razoável que sejam eles, então temos às vezes que tomar atitudes desagradáveis. O que está por trás desta afirmação? Em primeiro lugar a cisão em nós e eles, que é assumida como inevitável. Em segundo lugar, o perigo associado ao eles. Ou seja, existe um medo de que eles procedam exatamente da mesma maneira que nós. Temos aqui um círculo vicioso em que o medo realimenta a cisão e esta, por sua vez, reforça o medo. O fato importante é que o medo tem um papel determinante na percepção conflituosa do mundo e na consolidação desta visão [5].

            Não necessariamente a visão conflituosa do mundo é consequência exclusiva do medo. As diferenças que existem entre as pessoas também contribuem para os conflitos. O marxismo costuma reduzir o problema da desigualdade à luta de classes, ou seja, costuma reduzir o problema à luta entre ricos e pobres, privilegiados e desfavorecidos. Segundo esta concepção, uma vez eliminada a divisão em classes, estaria resolvido o problema da desigualdade.

            Os descaminhos do socialismo real parecem mostrar que a divisão em classes sozinha não é suficiente para explicar a desigualdade. Ela fornece parte da explicação, mas é preciso avançar mais além. Eliminada a propriedade privada dos meios de produção os erros voltam a se repetir, isto é, continuam surgindo grupos sequiosos de privilégios. Seria a desigualdade, ou seja, a disputa pelo poder, intrínseca ao ser humano? A resposta que eu daria a esta pergunta é não. Nada é intrínseco ao ser humano, ou seja, nada existe no ser humano que não possa ser modificado.

Na verdade, o marxismo colocou como meta final o comunismo. Lá, uma sociedade sem classes aboliria os privilégios. Só que ele não mostrou como isto seria possível. Como se gera o homem novo sem o qual o comunismo não é possível?

            Como já mostramos, a divisão entre dominadores e dominados está intimamente relacionada ao medo. Em grande parte, é o medo de ser dominado que nos faz querer dominar. É uma certa insegurança que nos faz buscar posições de mando e poder. Que isto é uma mera ilusão que não costuma funcionar por muito tempo, pode talvez explicar os malogros destas empreitadas ao longo da história. É insuficiente, no entanto, para garantir que tais situações não voltem a se repetir.

O que o discurso do comissário da Gestapo parece querer dizer é que somente existem duas possibilidades: dominar ou ser dominado. E porque se tem medo de ser dominado, porque esta alternativa está associada a dor e sofrimento, então a alternativa preferida é a de dominar. Evidentemente também a opção pelo ser dominado pode ser explicada pelo medo. Prefere-se ser dominado, porque a alternativa de dominar está associada a riscos e perigos.

            O que eu quero dizer é que na alimentação do sentimento de concorrência e competição, na busca pela diferenciação, privilégios, poder e riqueza, o medo pode não ser o único, mas certamente é um dos fatores determinantes. Na geração dos conflitos o medo tem um papel fundamental.

            Na luta pela supremacia, o outro é visto como ameaça. Se o medo é resultado da ameaça ou se, pelo contrário, a percepção do outro como ameaça é resultado do medo, me parece irrelevante, mesmo porque as relações causa/efeito, na maioria das vezes atuam nos dois sentidos. Possivelmente a natureza, ou seja, o nosso passado, atua no sentido da primeira opção, enquanto a civilização fortalece a segunda opção [6]. Como somos uma mistura de natureza e civilização, é compreensível que as relações causa/efeito se verifiquem nos dois sentidos.

Esta visão é reforçada se constatarmos que na defesa de concorrência e competição costuma-se considerar que o lobo é o lobo do homem [7]. O lobo neste caso simboliza a natureza e a equiparação do lobo com o homem é darwinismo social. Ora, o lobo representa uma ameaça e atrás da ameaça está o medo [8].

            Medo e cisão estão associados e é possível combater a cisão desconstruindo o medo [9]. Por outro lado, medo também é medo da mudança e medo de mudança, é uma das principais razões das coisas continuarem como estão. Claro, manipulação, ignorância são em grande parte responsáveis por esta situação, mas esta resposta somente provoca novas perguntas. Como é possível a manipulação grassar de forma tão livre e irrestrita?

O pior cego é aquele que não quer ver. Um pouco desta verdade encontra-se em toda deficiência, inclusive na ignorância. Às vezes o doente está doente porque tem medo de ficar são. No poema Die Krücken (as Muletas) Brecht ilustra muito bem esta situação. Uma pessoa com muletas passa sete anos sem andar direito. Um dia, ele consulta um médico famoso que lhe diz, com uma risada sarcástica, que ele não tem nada, lhe quebra as muletas nas costas e as joga no fogo, dizendo: o que não te deixa andar são justamente estas muletas. O poema termina com o paciente dizendo: estou curado; o que me curou foi um riso de escárnio. O sujeito tinha medo de andar, tinha medo de andar com as suas próprias pernas e por causa disto usava as muletas. As muletas lhe davam o pretexto para não precisar ousar a independência.

É claro que eu não sou favorável ao método usado pelo médico. Ele usou repressão e violência e aqui já mostramos que estes métodos raramente funcionam. Acreditar-se doente é parte da doença e a hipocondria é uma doença como qualquer outra e que requer tratamento e não escárnio. Brecht, no entanto, quis mostrar que, na doença, o medo tem um papel fundamental.

Aqui, andar com as suas próprias pernas é usado como metáfora, significando autoconfiança e acreditar em si. Significa caminhar de forma independente, utilizando os seus próprios recursos. Claro que a forma adotada no poema é anedótica e como tal deve ser considerada.

            Guardadas as devidas proporções e relativizando as afirmações acima, o que eu quero dizer é que, em parte, não se muda porque não se quer mudar. E não se quer mudar porque se tem medo da mudança. Este medo é totalmente irracional porque, como eu já disse, a grande maioria só tem a ganhar com a mudança. Mas, nada é irracional. É a racionalidade desta irracionalidade que eu pretendo examinar neste capítulo.

            Para encerrar esta seção quero ainda ilustrar o medo da mudança, com a Parábola do Buda e da Casa Incendiada (Gleichnis des Buddha vom brennendem Haus) também de Brecht. Eu simplifico bastante a história, trazendo tão somente os elementos que aqui me interessam.

Buda ia passando por uma estrada quando viu uma casa com o telhado em chamas. Como ainda tinha gente dentro da casa, Buda os alertou. Eles reagiram. Perguntaram como estava o tempo, se havia vento ou estava chovendo, se havia outra casa à disposição para poder fazer a mudança, etc. Buda então resolveu seguir o seu caminho concluindo que nada havia a fazer. Quem está em situação difícil, mas não pára de perguntar e de pedir informações, não merece resposta. As pessoas na casa tinham medo de mudança.

 

 

Recapitulando

 

            A ideia nesta seção é fazer uma síntese de tudo aquilo que foi visto até agora sobre o medo. Evidentemente à medida em que surgem idéias novas relacionadas a questões antigas, elas também serão incluídas.

            O medo é característico do eu-criança e reflete a nossa ancestralidade. Ele reflete uma racionalidade passada que não mais tem razão de existir. Contrapondo-se ao medo do eu-criança, temos o eu-adulto. Ele representa racionalidade e civilização. A cada momento da nossa vida nos movemos entre estes dois polos, ou seja, somos sempre uma mistura do eu-criança e do eu-adulto.

            A natureza fez do medo uma ferramenta importante para enfrentar a adversidade, e, nas suas origens, ele visa uma resposta do corpo ao perigo [10]. Neste sentido, perigo significa perigo em relação ao corpo, ou seja, perigo é aquilo que põe em risco a nossa integridade física. Como a sociedade moderna reduziu a participação do corpo em tudo aquilo que acontece, também o risco corporal diminuiu. Em função deste fato, o medo deveria ter perdido importância. Verifica-se, no entanto, exatamente o contrário. O ser humano moderno cada vez mais é dominado pelo medo [11]. Temos, portanto, um paradoxo em que uma reação cada vez mais inadequada para lidar com o perigo, é cada vez mais frequente.

            Como explicar este paradoxo? A explicação talvez possa ser dada no âmbito da filogênese. O medo se associa ao perigo, porque no passado isto funcionou. Mesmo que hoje não funcione mais, a associação de medo e perigo continua imperando.

            Somente um amplo processo de reeducação, no qual entendimento e racionalidade deveriam ter assumido papel fundamental, teria sido capaz de mudar este comportamento. As razões porque isto não se deu já foram indicadas na seção anterior. Medo e irracionalidade são estratégias de dominação [12].

Na idade da razão, em uma época em que o modelo é o homo oeconomicus, em que se apregoam atributos como produtividade e eficiência, ambas qualidades vinculadas à razão, continua, no entanto, valendo a irracionalidade [13] [14]. Esta irracionalidade pode ser explicada utilizando o conceito de razão instrumental cunhado por Max Horkheimer [15]. A razão instrumental é característica da sociedade moderna e está mais interessada nos meios do que nos fins. O seu foco é a tecnologia e o domínio da natureza, em contraste com a razão crítica que questiona de forma muito mais ampla os fundamentos da sociedade. Novamente o medo parece fornecer uma explicação para a visão míope [16]. Acabrunhado e atemorizado o homem, encurvado, olha para baixo e, sem levantar a vista, não consegue ver ao longe [17].

            Medo e irracionalidade, o medo da racionalidade e a irracionalidade do medo são constantes na nossa sociedade. Para reforçá-los temos ainda o círculo vicioso do medo que será examinado com detalhes na próxima seção. O círculo vicioso do medo inclui a repressão. A repressão ao medo ameaça o eu-criança que, como vimos, está atrás do medo. O eu-criança reage através de um comportamento que lhe é característico: o medo. Ou seja, através da repressão ao medo o que se faz é reforçar o medo. Medos que não mais têm razão de existir, passam a existir em função da repressão.

Outra maneira equivalente de ver esta questão é considerar que em se reprimindo se está, implicitamente, assumindo que a coisa que é reprimida, existe. Algo que poderia não existir, ou melhor, que poderia ser desconstruído, passa a existir na medida em que se reprime. Ao negar a coisa, a gente a afirma.

Uma terceira forma, também semelhante, de ver esta mesma questão, é considerar que repressão é negação de realidade, e a realidade se transforma, mas não se nega.

            O padrão do medo deve ser superado, superando a repressão. Por sua vez, o padrão de repressão deve ser superado, superando a repressão à repressão e assim por diante. A solução para o problema do medo é através do entendimento e não da repressão. A solução tem que ser propositiva [18].

            A melhor maneira de lidar com o medo é através do entendimento [19]. É como se pegássemos a criança pela mão, e lhe explicássemos que ela não precisa ter medo, porque existem inúmeras outras formas de lidar com o problema. O medo tem a sua justificativa, mas esta cabe lá onde o medo tem as suas raízes: na infância. Lá o medo se justifica, porque não existem outros recursos.

            O medo representa todas aquelas forças da irracionalidade que vem do nosso passado, da natureza. Este cavalo selvagem tem que ser domado através do entendimento, ou seja, do ego e da racionalidade [20] [21].

 

 

Origem dos medos, medo do medo e repressão

 

            O objetivo desta seção é apresentar as origens bem como o círculo vicioso do medo. Neste último caso, o medo do medo e a repressão ocupam uma posição central. Como veremos, o medo pode representar um perigo por si só. Como perigo está associado a medo, surge o medo do medo.

            As origens do medo normalmente estão na infância. Já por diversas vezes mencionei o trauma do nascimento [22]. Ele provavelmente representa a primeira experiência de medo. A expulsão do ventre materno, e o confronto com o novo e o desconhecido, despertam o medo.

            Outras experiências de rejeição costumam se seguir: a mãe e o peito, o peito-mãe ou a mãe-peito. Ambos, peito e mãe são entendidos pela criança com sendo dela, ou melhor, sendo ela. Nesta fase da vida, os limites entre o eu e o não-eu ainda não estão estabelecidos, e tudo é da criança, ou melhor, tudo é a criança. E, no entanto, não é. Este aprendizado tem que ser feito e todo aprendizado é doloroso. Aprendizado é mudança e mudança é alguma coisa deixar de ser aquilo que ela é. Neste processo existe o emprego de força, existe rompimento e transformação e é óbvio que isto resulta em dor. A dor desperta o medo, em particular, o medo da dor.

            Eu já mencionei a experiência do cercadinho, no qual minha mãe costumava me aprisionar [23]. Eu, de nenhuma forma, estou censurando minha mãe. Ela tinha seus afazeres, não acreditava em babá, porque babá não fazia parte do seu contexto cultural, mas, por outro lado, prezava muito a responsabilidade, porque, esta sim, fazia parte da sua formação. O resultado desta equação é o cercadinho.

            A rejeição foi ainda reforçada pelo desmame que provavelmente foi feito de forma inadequada. Eu imagino que o ato de mamar para minha mãe estivesse carregado de moralismo, porque ela se referia ao contato corporal com uma criança de sexo masculino, como algo indecoroso. Adicionalmente, minha mãe recusava a chupeta, de forma que o recurso que acabei utilizando foi chupar o dedo. Este hábito é muito mais difícil de desacostumar o que acaba gerando novo trauma (largar o dedo).

            Meus pais eram imigrantes, estavam desenraizados. Nada os ligava à terra estranha. Adicionalmente a nossa família era mínima. Além dos meus pais, havia ainda meus avós maternos que, no entanto, eram velhos demais para oferecer suporte, e o meu tio e tia paternos, ambos solteiros, ambos trabalhando para se sustentar.

            Meus pais levaram quase dez anos para ter filhos. A razão alegada é que a guerra tinha que acabar para colocar gente no mundo. Eu fui o primeiro filho, na verdade, a primeira criança da nossa pequena família. Ou seja, a minha chegada foi cheia de expectativas.

O ambiente era de fechamento e enclausuramento. Junte-se a expectativa, e temos um quadro bastante sombrio em que qualquer pequeno incidente assumia proporções muito maiores do que provavelmente merecia. Estes fatos, em minha opinião, explicam o sentimento de rejeição bem como o fechamento, ensimesmamento e introspecção que são uma constante na minha infância precoce.

            Não é difícil de imaginar que em função do ambiente claustrofóbico no qual eu fui criado eu tivesse problemas na escola. Filho de pais estrangeiros, criado em um ambiente fechado e com poucos contatos sociais, fui um estranho no ninho, e como tal fui tratado pelos colegas. Fui vítima de bullying durante muitos anos, o que somente acentuou o sentimento de rejeição.

            Rejeição é uma forma de cisão e, como vimos, cisão resulta em sofrimento e dor. A dor desperta o medo, em particular, o medo da dor. Assim, não é de se estranhar que o medo esteja fortemente associado à minha infância. A família do meu pai, em particular, meus tios, eram muito medrosos, o que também fornece uma explicação para o medo.

            Tive dois sonhos recorrentes durante a minha infância associados à questão do medo. Tratava-se de sonhos tão repetidos e frequentes que me lembro até hoje. O primeiro era o pesadelo do quarto desarrumado. Eu acordava transtornado porque o meu quarto estava uma bagunça. O segundo sonho era o do cachorro ferido e maltratado. Eu recolhia o cachorro, lhe dava agua e comida e tratava até que ele se recuperasse. Quando o cachorro estava bem, surgia um novo caso. Desarrumação e ferimentos estão associados a dor e esta por sua vez está associada ao medo.

            Para mim a interpretação dos dois sonhos é óbvia. O pesadelo do quarto desarrumado simboliza a minha vida, ou a relação com minha mãe que estava em desordem. O cachorro ferido sou eu naturalmente, é a minha vida afetiva que estava carente de amor e de cuidados.

            Com estes parágrafos quero ilustrar através de informações concretas, que o meu medo tem raízes e que estas encontram-se na infância. Nos casos ilustrados, a racionalidade dos medos gira em torno da minha mãe: o medo de ser abandonado, perdendo o carinho e o afeto.

            Os medos posteriores dos quais, nesta seção, apresentarei um exemplo, nascem de associações com situações vividas na infância. Um perigo novo deflagra uma reação que está associada a uma situação de perigo ou ameaça vivida na infância.

            O que o entendimento pode fazer é justamente desfazer o nó entre passado e presente, mostrando que o perigo atual ou não é perigo, ou então, pode ser resolvido sem apelo ao medo. O perigo passado deve ficar no passado e não interferir no presente. Através do entendimento cria-se uma estrutura em que tanto passado como presente têm vez, cada coisa no seu lugar.

            O ideal seria naturalmente resolver os problemas do passado. Mas isto frequentemente é impossível, porque os problemas, mesmo sendo conscientes, ou podendo ser trazidos para o consciente, nem sempre se deixam trabalhar. Como, por exemplo, trabalhar o medo associado ao trauma do nascimento?

Os medos podem estar tão enraizados e podem ter sido vivenciados durante tanto tempo que se tornam um padrão comportamental difícil de mudar. Costuma ser mais fácil associar um padrão novo a um perigo presente, do que mexer no padrão associado ao perigo passado.

            Para fazer a ligação com os medos da infância e para ilustrar o círculo vicioso do medo eu vou apresentar um caso que ocorreu comigo já na idade adulta. Eu nado bastante bem, sou capaz de ficar algumas horas nadando e jamais tive medo de água. Como, por natureza, sou um sujeito cauteloso, jamais fiz peripécias. Jamais atravessei um rio caudaloso, jamais enfrentei correntezas ou corredeiras, jamais nadei em mar aberto ou longe da costa. Mas uma vez atravessei a baia de Guanabara da Urca a Botafogo o que deve dar de um a dois quilômetros. Trata-se de mar calmo, abrigado e com pouca correnteza. Não me lembro de ter sentido medo.

            Quando eu era jovem eu gostava de pegar jacaré (body-surf). Eu acho que nunca me arrisquei muito, sempre evitei ficar em local que não desse pé, evitei sair para fora em dia de ressaca, mas frequentemente peguei ondas grandes. Uma vez, fui pego por uma sequência de ondas grandes e caí em uma zona de correnteza. Tentei voltar para a praia, mas a correnteza era muito forte e me puxava para fora. Insisti, tentei nadar contra a correnteza, mas não adiantava. Sentindo que eu não estava conseguindo voltar, me apavorei, perdi o fôlego e comecei a beber água, o que evidentemente só piorou a situação. Podia ter chamado por socorro, havia gente por perto. Talvez por medo de vexame ou então por falta de presença de espírito, não o fiz. Eu provavelmente teria morrido afogado se não fosse uma onda ter me jogado fora da correnteza e fora da zona de arrebentação.

            Depois deste incidente, para mim, nunca mais a água foi a mesma coisa. Eu continuo gostando de água, mas não me aventuro mais em passar da zona da arrebentação e só nado em águas profundas se o mar estiver muito calmo e sem correnteza. Mesmo em rio eu não me aventuro mais em nadar longe da margem. Algumas vezes eu tentei, mas o que ocorre é o medo do medo. Sim porque o grande vilão do incidente do quase afogamento foi o medo. Foi o medo que não me deixou enxergar alguma coisa óbvia: nunca se nada contra a correnteza. Esta noção pode ser estendida para a natureza de uma forma geral. A gente nunca deve enfrentar a natureza e se opor a ela. A gente sempre deve aproveitar as forças da natureza, canalizá-las, colocando-as a nosso serviço. No máximo o que se deve fazer é introduzir algumas pequenas correções de curso.

            Isto eu sabia. E porque eu não agi desta forma? Porque o medo não deixou. Eu sabia perfeitamente que no mar jamais se nada contra a correnteza. O que se faz é aproveitar a correnteza para sair fora da sua zona de atuação. Na arrebentação, a correnteza normalmente se limita a um canal onde a água corre da praia para o mar aberto (corrente de retorno). Se a gente por acaso cair neste canal, deve aproveitar a correnteza para sair fora dele, escapando pelas laterais. Uma vez fora da zona de correnteza, então sim, é possível tentar voltar. Isto eu sabia, já tinha conversado com salva-vidas e já tinha lido a respeito. Insisti em fazer a coisa errada, porque o medo paralisou a minha capacidade de reação.

            Neste incidente, o grande perigo não foram as ondas, nem a correnteza. O grande perigo foi o medo. Eu tinha perfeitas condições de me safar da dificuldade. Eu nado bem, tinha conhecimento da situação, sabia como escapar e, no entanto, o medo não deixou.

            Evidentemente o fato do medo ter assumido as proporções que assumiu, tem a ver com experiências de infância. Eu não me lembro de nenhum incidente na infância associado a afogamento e tampouco consigo me lembrar de experiência infantis associando perigo com água. Mas, como eu já mencionei, a minha infância está recheada de eventos representando risco, ameaça e perigo. A estes eventos a natureza associa o medo. Foi o que aconteceu.

            Pânico é um medo exacerbado. O medo exacerbado está, em minha opinião, associado ao círculo vicioso do medo. Como já mencionei, no caso do quase afogamento o grande perigo foi o medo. O fato do medo ser o grande vilão, leva ao medo do medo bem como à repressão ao medo. O primeiro sentimento é óbvio porque se o medo representa um perigo, é de se esperar que se tenha medo dele. A repressão é uma decorrência da tentativa de eliminar o perigo representado pelo medo. Sempre tentamos eliminar aquilo que é ruim ou representa dor.

            O círculo vicioso do medo pode ser visualizado através do seguinte esquema duplo:

Perigo → Medo → Perigo

 

Medo → Medo do Medo → Repressão → Medo

 

            O primeiro círculo vicioso diz que um certo perigo deflagra um sentimento de medo que tão somente reforça o perigo, já que o medo, ele próprio, representa perigo. O medo bloqueia e imobiliza e isto aumenta o perigo.

O segundo círculo vicioso também ajuda a potencializar o medo. Como o medo, por si só, representa perigo, surge o medo do medo e a repressão ao medo. Como já vimos, a repressão tão somente reforça do medo. O mesmo pode ser dito sobre o medo do medo. Consequentemente surge um medo ainda maior.

            Os dois círculos viciosos acima podem ser reunidos no seguinte círculo maior:

 

Perigo → Medo → Perigo → Medo do medo → Repressão →Medo → Perigo

 

            A maioria das situações de pânico, ou seja, de ocorrência de um medo exacerbado segue um esquema semelhante. Alguma situação de risco ou de perigo, deflagra o sentimento de medo, por associação a alguma experiência ancestral, localizada no passado ou na infância. O medo, por não ser capaz de lidar com a situação, mais atrapalha do que ajuda. Ele passa a significar um risco em si. Surge o medo do medo e a repressão ao medo que tão somente intensificam o medo, resultando em um círculo vicioso que pode resultar em pânico [24].

            O que fazer? O caminho aqui preconizado é uma mistura de entendimento + aprendizado. O entendimento visa acabar com a cisão entre passado e presente, eu-criança e eu-adulto, provocada pela repressão. Visa mostrar que se, no passado, existiram razões para o medo, este não mais representa uma reação adequada ao perigo. De uma forma sintética, eu frequentemente me referirei a este trabalho, como sendo o de mostrar ou revelar a irracionalidade dos medos [25].

            Ao invés da cisão provocada pela repressão, o entendimento, ao abrir em vez de fechar o espaço para o eu-criança, cria uma nova estrutura em que passado e presente, eu-criança e eu-adulto, têm lugar. Assim, o que o entendimento faz é promover integração. É da união promovida por esta integração que resulta a paz que levará ao desaparecimento do medo.

            No caso analisado do quase afogamento, o entendimento deve separar bem as coisas: passado no lugar de passado, presente no lugar de presente. Os medos do passado cabem lá de onde eles vieram. Os medos do presente surgem, em grande parte, por associação com situações vividas no passado [26].

            Cabe trabalhar bem o fato do sentimento de medo estar deslocado da situação de perigo que se apresenta no presente. Para o caso do quase afogamento eu tinha conhecimento da situação, tinha condições de me manter nadando durante algumas horas, podia ter pedido socorro e podia ter escapado da correnteza nadando pelas laterais, ou seja, tinha plena capacidade de resolver o problema. Através do entendimento haveria que mostrar que a dificuldade que eu enfrentei deve-se muito mais ao medo em si, do que à situação que de fato se apresentou.

            Complementando o entendimento existe o aprendizado. Se em face do perigo o que vigora é o padrão antigo do medo, é preciso mudar e aprender um padrão novo. A finalidade do aprendizado é justamente o de criar alternativas. No presente caso do quase afogamento, o aprendizado, idealmente, consistiria em capacitar-se a enfrentar uma situação de perigo igual àquela que se presentou, ou seja, sair para o mar em dia de correnteza, enfrentá-la e voltar para a praia são e salvo. Ao invés de nadar contra a correnteza, haveria que sair da zona do canal pelas laterais e voltar nadando ou pegando jacaré. Para isto, frequentemente é preciso nadar para fora, passar a zona da arrebentação e esperar a série de ondas grandes passar. Surgindo ondas menores, fica mais fácil voltar. É claro que, para garantir a tranquilidade, isto teria que ser feito com a assistência de uma pessoa mais experiente, um professor de natação ou um guarda-vidas. Teria que ser feito algumas vezes, talvez começando em um dia com mar mais tranquilo e ir, passo a passo, enfrentando situações cada vez mais difíceis.

            Evidentemente que eu não segui este caminho. Não o fiz, porque achei que o problema não era tão importante assim, e porque havia outras formas de contorná-lo, por exemplo, evitando situações de risco. É bom lembrar que o aprendizado é um processo lento e demorado e que frequentemente envolve dificuldades grandes. Ou seja, nem sempre é possível aprender o padrão mais adequado para lidar com a situação. É por causa disto que existe a solução de compromisso. Para o caso do quase afogamento ela será mencionada mais adiante.

            O método de aprendizado que eu de fato utilizei foi a auto-sugestão. Como será explicado em capítulo à parte, a sugestão funciona de forma semelhante ao aprendizado, só que em vez de trabalhar com a realidade propriamente dita, trabalha com a imaginação, simulação ou realidade virtual. Como já foi dito, o aprendizado exige repetição, pois somente assim o novo padrão é fixado. A repetição é um elemento fundamental no aprendizado. Na sugestão a repetição é muito mais fácil do que através da realidade propriamente dita. Evidentemente a imaginação, simulação ou realidade virtual não tem o mesmo poder de fixação que a realidade propriamente dita, ou seja, o padrão não é inculcado de uma forma tão intensa. Aqui entram em conflito duas características antagônicas: intensidade e frequência da experiência. Na sugestão a frequência pode ser maior, mas evidentemente a intensidade da experiência é menor do que a da realidade propriamente dita.

            Para o caso mencionado do quase afogamento a prática da auto-sugestão consiste em mentalizar paz e tranquilidade quando uma situação de risco se apresenta. Adicionalmente eu repito ideias que visam me tranquilizar, ou seja, tento incutir a ideia que eu nado bem e que eu não tenho que ter medo, porque eu tenho perfeitas condições de superar as dificuldades.

Conforme veremos mais adiante, é importante não confundir auto-sugestão com repressão. Não se trata de reprimir o medo, mas sim de desconstrui-lo. A fronteira entre as duas posições é tênue [27]. É fundamental que a auto-sugestão venha acompanhada de análise. Auto-sugestão sem análise é repressão. Mais sobre esta questão será visto em capítulo à parte.

            Resumindo, para a experiência de nadar em águas profundas com correnteza, eu passei pela etapa de entendimento, mas faltou completar a etapa de aprendizado. Acabei não me livrando completamente do medo, mas convivo bem com ele.

Há que lembrar também da importância da solução de compromisso já mencionada anteriormente [28]. Entre um padrão antigo e um padrão novo a ser aprendido, frequentemente é preciso conciliação. Por exemplo, atualmente eu estou praticando remo e vamos remar em mar aberto. Eu sempre mergulho, mas não me afasto muito do barco. Algumas vezes o barco virou, mas eu uso colete salva-vidas e não tive nenhum problema. Uma vez tive que nadar entre dois barcos com mar agitado e com correnteza, o remo em uma das mãos, mas eu estava com colete, apelei para a auto-sugestão e mantive o medo sob controle. Ou seja, mesmo que eu não tenha conseguido contornar completamente o problema, aprendi a conviver com ele.

 

 

Desconstruindo o medo através do entendimento

 

            No final da seção anterior mostramos como o entendimento pode ser usado para desconstruir os medos. O espaço lá dedicado foi pequeno, porque o foco era o medo, suas origens e o seu círculo vicioso. Além disso, o exemplo apresentado do quase afogamento não se presta muito bem para  uma apresentação mais detalhada da etapa de entendimento.

            Nesta e na próxima seção pretendo compensar estes problemas. Aqui pretendo mostrar, de uma forma geral, que o entendimento pode ajudar a superar os transtornos ocasionados pelo medo. Como muita coisa já foi dita, é inevitável a repetição. Cito, em particular, o capítulo 4 e a seção Entendimento e Terapia do capítulo 2.

            Entendimento é racionalidade. Se o real é racional então o irracional é irreal [29]. Mostrando a irracionalidade dos medos, estamos ajudando a desconstruí-los. Esta ideia, que já foi algumas vezes mencionada, pode também ser formulada de outra maneira. Tomando como base a recíproca da afirmação acima, temos que o racional é real. Através do entendimento e da racionalidade acabamos lidando com o real, ou seja, acabamos abandonando tudo aquilo que é irreal. Supondo que os medos não têm base real, ou melhor, não tem base atual, acabamos, neste caso, através do entendimento, deles nos afastando.

O calcanhar de Aquiles deste tipo de raciocínio é que os medos não são irracionais nem tampouco irreais. Eles tão somente se baseiam em uma racionalidade / realidade passada. Seja como for, o que se verifica, na prática, é que ao mostrar a “irracionalidade” dos medos, acabamos por enfraquecê-los. Ao mostrar que, na situação atual, o medo não tem mais lugar, porque existem outras formas de resolver o problema, estamos ajudando a desconstruí-lo. Mesmo quando o problema é insolúvel, melhor é se conformar e aprender a lidar com a situação, do que ficar remoendo / ruminando medos e preocupações.

            Cada coisa tem o seu lugar: passado no lugar de passado, presente no lugar de presente. Os medos têm a sua razão e a sua legitimidade, mas esta cabe no passado e na infância. No presente o medo não mais tem razão de existir.

Em suma, o que fazemos através do entendimento e da racionalidade é construir uma identidade em que ambos, passado / eu-criança e presente / eu-adulto), têm lugar. Trocamos uma identidade pequena, onde eu-criança e eu adulto brigavam por espaço, por uma identidade maior, onde ambos têm lugar [30] [31]. Desta forma nos afastamos da cisão causada pelo confronto entre passado e presente, eu-criança e eu-adulto, natureza e civilização.

Na prática este confronto é caracterizado pela repressão. Ao reprimir os medos, reprimimos o eu-criança, o que simplesmente fortalece e intensifica os medos. Além disso, sofrimento e dor surge como resultado da cisão entre o eu-adulto que reprime e o eu-criança que é reprimido.

            O entendimento tem um importante papel na desconstrução da repressão. Entendendo o círculo vicioso do medo e o papel que nele desempenha a repressão, estamos nos capacitando a rompê-lo. Ao invés de reprimir e negar espaço ao eu-criança, cabe, através do entendimento, abrir espaço para ele. Metaforicamente, o que se está fazendo neste caso, é pegar a mão da criança que tem medo, guiando-a pelo quarto, iluminando os cantos escuros e mostrando que aquele capote pendurado sobre a cadeira não é um monstro que espreita, mas é tão somente um capote pendurado numa cadeira. Como no filme 8 ½ do Fellini, cabe fazer a criança entrar na roda (da vida) [32].

            Outra finalidade do entendimento é construir alternativas para o problema. Cabe mostrar que o medo não funciona, porque existem outras maneiras, mais eficientes, de resolver a questão. Maiores detalhes serão apresentados na próxima seção em cima de um caso concreto (projeto de um livro).

            Tudo o que foi dito nos parágrafos anteriores equivale à construção de uma trama envolvendo o passado com seus medos e o presente com suas alternativas. A trama junta e une e daí resulta paz. A cisão produzida pela repressão tem que ser superada pelo entendimento e a sua trama. A trama junta, conecta e consolida [33].

            Voltando ao nível das metáforas, é possível dizer que a racionalidade é luz, é ser adulto [34]. Medo é infância, sombras, névoas, trevas e fantasmas. Examinar os medos à luz da razão significa desfazer as sombras e os fantasmas. O mundo é uma belíssima construção e para revelar esta beleza há que dissipar a sombra, a névoa e a fumaça.

            Racionalidade é um movimento para fora, é um movimento de ligação do eu com o mundo, é crescimento e evolução. Tudo isto contrapõe-se ao medo que é um movimento para dentro, é a volta à infância, ao ventre materno. Faz sentido, portanto, contrapor a racionalidade ao medo, desconstruir o medo com auxílio da racionalidade.

            Cabe ao entendimento unir as partes, conectar o eu-criança com o eu-adulto. Juntando as partes é que se forma o todo. Se realidade é racionalidade, também racionalidade é realidade. O que fazemos através da racionalidade é a inserção da parte no todo para assim formar a realidade toda.

            Através do entendimento e da análise a gente se afasta do medo porque a racionalidade parte sempre da dualidade sujeito / objeto. Ou seja, através da racionalidade, o sujeito-eu se distancia do objeto-medo. O medo que entranhava o eu separa-se, na medida em que se torna objeto da análise. Esta é uma das principais razões para o funcionamento prático da análise.

            Este fato pode ser facilmente percebido através da análise escrita. Colocando os medos no papel estamos nos distanciando deles e o alívio percebido provém justamente deste distanciamento [35]. Crítica, humor, razão são tudo formas da gente se afastar dos problemas.

            Resumindo, a desconstrução dos medos compõe-se de quatro etapas, das quais três estão no âmbito do entendimento: a) entender as origens e circunstâncias em que surge o medo; b) entender que elas pertencem ao passado; c) construir uma alternativa presente ao medo, ou uma solução de compromisso; d) aprendizado desta alternativa.

 

 

Um estudo de caso: o projeto de um livro e os seus contratempos

 

            Pretendo aqui descrever a construção da intrincada trama do entendimento através de um caso concreto. Quanto mais completa a trama, melhor o entendimento e mais fácil a superação do problema. Tudo, no entanto, tem dois lados. Se, de um lado, o problema fica mais fácil de ser resolvido através de uma trama mais densa e mais abrangente, por outro lado, a sua descrição fica mais complexa. Como sempre, cabe uma solução de compromisso.

            O problema que eu narro a seguir, me causou intensos medos, angústias, preocupações e insônia. Tudo começou com um trabalho feito com uma parente afastada. Ela tinha participado dos Kindertransporte, transporte de crianças judias evacuadas da Alemanha, Polônia, Áustria, etc. durante os anos 1938-39. O destino da maioria das crianças era o Reino Unido. A minha participação no projeto foi de redação, confecção de notas e esclarecimentos e a idéia era fazer um relato detalhado das experiências da parente.

            Infelizmente o trabalho não foi adiante e eu tive que largá-lo, o que significou grande frustração e decepção. Afinal, foram dois anos (2010-2012) perdidos.

            Havia, um episódio na vida desta parente que me interessava particularmente. Depois da chegada à Inglaterra, ela passou a viver em um internato, dirigido por professores alemães fugidos do nazismo. A orientação pedagógica de Bunce Court era baseada na Reformpädagogik (pedagogia reformista). O projeto, apoiado pelos Quakers, era o de uma escola antiautoritária, com fortes elementos de auto-gestão, em que as crianças assumiam direitos, deveres e responsabilidades. A Reformpädagogik tem alguma ligação com a Jugendbewegung (movimento juvenil germânico) que foi também um movimento antiautoritário, liderado principalmente pela juventude, na Alemanha no fim do século XIX [36].

            Para entender melhor o problema é preciso considerar um episódio em minha vida relacionado a uma escola alternativa. Entre 07 e 14 anos, em função de viagens dos meus pais à Europa, eu fiquei três vezes, cada vez por cerca de um mês, em uma colônia de férias antroposófica. Foi um período muito feliz. A escola Waldorf e a Reformpädagogik têm coisas em comum. Ambas se caracterizam por dar liberdade e responsabilidade às crianças. Ambas incentivam a criatividade e o pensamento independente. Outra característica da escola Waldorf e da Reformpädagogik é a valorização do corpo e das atividades ao ar livre.

            No sentido de mostrar que as experiências se conectam, formando uma extensa trama, cabe ainda levar em conta a estadia da minha mãe em uma escola judia de mulheres em Wolfratshausen na Baviera nos anos 1929-30. Minha mãe falava desta escola com muita saudade e, segundo ela, foi um dos períodos mais felizes da sua juventude. Fez amizades que ficaram para toda a vida. Eu acho que esta escola não adotava a Reformpädagogik, mas, pelo que minha mãe contava, tratava-se de uma escola liberal em que as jovens tinham bastante autonomia. Havia muito trabalho prático em que se valorizava a atividade física. As moças trabalhavam na horta, cuidavam dos animais, ajudavam na cozinha e na arrumação da casa.

            Tudo isto é para mostrar que o trabalho com a minha parente mexia com as minhas raízes, o que pode explicar melhor a sua importância e a decepção sofrida com a sua interrupção.

            Visando superar a decepção, resolvi aproveitar parte do trabalho feito. A proposta era escrever um livro com um amigo inglês sobre movimento comunitário. Bunce Court e a Jugendbewegung seriam um capítulo do livro [37]. O foco seriam sistemas descentralizados, não-hierárquicos e antiautoritários. O livro incluiria formas não-representativas de democracia, ou seja, democracia direta. O projeto, ressaltando a importância da comunidade, iria na contracorrente da globalização. Mostrar-se-ia que o conceito de comunidade (Gemeinschaft) satisfaz mais aos anseios do ser humano do que o conceito mais abstrato de sociedade (Gesellschaft). Na sociedade moderna o enfraquecimento dos laços afetivos e familiares resulta em frustações que tornam urgente novas estruturas sociais.

Na comunidade as conexões entre o indivíduo e o grupo são multidimensionais e se caracterizam por totalidade e integralidade. Os sentimentos e laços afetivos têm papel fundamental. Já na sociedade os laços são instrumentais, visando determinados objetivos. Os membros da comunidade são unidos apesar de eventuais conflitos. Já as relações dentro da sociedade são regidas por conflitos, apesar de eventuais conexões.

            Passei a depositar bastante expectativa neste trabalho. O problema principal era a publicação. Não fazia sentido um árduo trabalho sem perspectiva de publicação. Acontece que, o fato de se tratar de um trabalho especializado, com uma visão alternativa de sociedade, tornava o público bem restrito. Na opinião das editoras contatadas, o público alvo seria o acadêmico. Evidentemente que o livro teria que ser escrito em inglês.

            Eu, no entanto, não queria escrever um livro acadêmico, preso a esquemas e escolas. A minha idéia era fazer alguma coisa nova, livre de ideias preconcebidas, solta das bibliografias sacramentadas e das citações obrigatórias. Eu não queria escrever para uma paróquia, um clube ou um partido, não queria me sentir preso a determinado público, a modas e modismos. Eu tinha trabalhado trinta anos nesta base, e sabia perfeitamente as barreiras e limites do trabalho acadêmico. Eu agora estava aposentado, me encontrava em uma nova fase da vida, queria ousar e não tolerava o retrocesso. Um livro acadêmico, em inglês, sobre comunidades, teria que adotar a perspectiva endossada pela maioria dos cursos de sociologia dos EUA, e isto não me convinha.

            A solução óbvia era o e-book. Eu aceitava a ideia, mas agora quem se desinteressava era o inglês. Estávamos nesta sinuca e o projeto não deslanchava. O inglês sentindo as dificuldades, me cozinhava em banho maria.

O primeiro passo era fazer um plano de trabalho detalhado para apresentá-lo às editoras. Eu fiz e refiz o plano diversas vezes, com descrição detalhada de cada capítulo. O que faríamos seria a apresentação de diversas experiências comunitárias entre as quais incluíam-se experiências históricas como o Ejido (propriedade coletiva de terras no México), a Comuna de Paris, os Sovietes, Canudos, comunidades Menonitas, os Kibutzim, Robert Owen e New Harmony, os Hippies, Squatting (ocupação de terra e prédios / posseiros), e até mesmo experiências mais recentes como o Movimento dos Sem-Terra, o Occupy, etc. A idéia seria priorizar comunidades estruturadas. A estrutura não precisaria ser formal, podia até mesmo não ser explicitada, mas não havia interesse em ligações circunstanciais e fundadas tão somente no espontaneísmo.

O livro seria baseado na análise de casos reais. Priorizar-se-ia problemas concretos ao invés de teoria. Razões para o sucesso e fracasso das experiências seriam dados. A análise detalhada e aprofundada de alguns poucos casos teria prioridade sobre a análise superficial, cobrindo um largo espectro de situações. A ênfase seria em cima de novas formas de socialismo e democracia, valor-de-uso ao invés de valor-de-troca, humanismo ao invés de reificação (coisificação), coletivismo ao invés de individualismo. Importância especial teriam temas como autonomia, auto-gestão, solidariedade, integralidade e holismo.

            Para melhor compreensão do projeto devo acrescentar que a idéia não era o inglês e eu escrevermos todos os capítulos. Nós seriamos tão somente os editores, escrevendo um ou outro capítulo, a introdução e a conclusão. Os demais textos seriam escritos por pessoas convidadas. Já tínhamos uma lista bastante detalhada dos candidatos, mas estávamos esperando o aceite da editora para fazer os contatos finais. Evidentemente havia um grande trabalho administrativo por trás: contatar os colaboradores, dar orientação e tirar dúvidas, cobrar os prazos, fazer a revisão dos trabalhos, mandar e cobrar as correções, fazer a organização final, introdução e conclusão, etc.

            Sentindo que o projeto não andava, eu dei um xeque-mate no inglês e foi isto que deflagrou a crise. Sentindo-se acuado o inglês apelou. Sugeriu incluir uma terceira pessoa, inglês como ele, a ainda por cima sociólogo. Foi a gota d’água.

            Foi no início de uma noite do mês de outubro de 2014 que eu recebi dois e-mails do meu amigo inglês. Os e-mails tentavam justificar a necessidade de inclusão de mais uma pessoa. De acordo com as mensagens, o novo colaborador reescreveria o plano de trabalho, colocando-o dentro de um marco teórico (conceptual frame). A linguagem utilizada nas mensagens já sinalizava as mudanças que me esperavam. Agora imperava o sociologuês. Talvez não tivesse sido um ato falho, talvez tivesse sido proposital, pura provocação, mas o fato do inglês ter utilizado a expressão marco teórico, deixava claro o que me esperava.

            Para traduzir melhor o clima, reproduzo uma parte da auto-análise que eu escrevi naquela noite:

As idéias dançam na minha cabeça. Acontece que já é meia-noite e não é agora que eu vou decidir alguma coisa que certamente vai precisar de tempo e mexer com as minhas emoções. Aí eu reprimo os pensamentos, mas eles teimam em voltar, mais repressão, mais retorno, em um círculo vicioso em que só aumenta o medo e a angústia.

            O que fazer? O melhor é colocar os medos no papel, na certeza de que isto ajuda a desconstruí-los. Há também que analisar a sua fundamentação. Em primeiro lugar, não há razão para medos. Eu sempre posso dizer não ao projeto do livro, projeto este que, face à lentidão com que as coisas avançam, eu meio que já desisti.

            Não dependo do projeto em termos profissionais. Estou aposentado. Posso me dar ao luxo de fazer o que eu gosto de fazer. Não estou disposto a escrever nada dentro de um “marco teórico”. Há muito que eu estou me querendo ver livre da amizade com J, pois ela só me tem trazido transtornos.

            O mais importante, no entanto, é que nada ainda aconteceu para que eu me aflija. Se algo acontecer, vai ser nos próximos dias. Hoje tenho que dormir, para amanhã acordar bem disposto e decidir na calma. Vou colocar meus pontos de vista, objetivamente, de forma clara e límpida. Se J. aceitar, ótimo. Se não aceitar, livrei-me de algo que só vai me trazer problemas. Mas isto é amanhã. Hoje o importante é eu me tranquilizar e descansar.

            Primeiramente cabem alguns esclarecimentos. Na análise acima, quando eu falo da amizade com o inglês e dos seus transtornos, cabe esclarecer que a interrupção do trabalho com a minha parente foi, na verdade, causada pelo inglês. Visando facilitar a publicação, eu tinha convidado o inglês para participar, mas o tiro saiu pela culatra. Houve desentendimentos, que acabaram levando à ruptura.

            O que se verifica tanto no trabalho com a parente, como no trabalho sobre comunidades, é que o inglês estava sendo usado como muleta para possibilitar a publicação. Face aos seus conhecimentos e à sua reputação eu esperava que ele abrisse caminhos e propiciasse visibilidade. Dentro do nosso mundo, um trabalho bom não vale nada se não houver divulgação. E para isto é preciso poder, prestígio, conhecimentos e relações.

            O inglês para mim era um símbolo do meu passado acadêmico. Ele representava um destes laços instrumentais que juntam as pessoas no mundo do trabalho. Ele servia de meio para possibilitar determinado fim [38]. Só que eu agora estava aposentado, podia me dar ao luxo de romper com este tipo de relacionamento.

            Adicionalmente cabe dizer que na publicação do trabalho sobre comunidades, o inglês estava mais atrapalhando do que ajudando. Pelo que eu já disse acima, o livro que eu queria escrever só podia ser publicado como e-book e isto o inglês não admitia. O livro-papel que ele queria publicar, não era o livro que eu queria escrever.

            No texto acima, escrito na noite que se sucedeu ao recebimento dos e-mails do inglês, já são colocados os principais pontos das decisões posteriores. O medo não se justificava porque nada do que tinha acontecido colocava em risco a minha vida profissional. Era isto que importava. Eu não dependia profissionalmente deste trabalho. Ele deveria me trazer prazer, ele deveria significar algo de bom e útil e que somente seria bom e útil se fosse feito de certa maneira. Em caso contrário, o trabalho não faria sentido, e melhor seria que não fosse feito.

            O que se nota no parágrafo acima é um tipo de posicionamento. Ele me acompanha por toda a vida e faz parte da minha personalidade. Também isto há que considerar. Neste parágrafo eu digo, que o trabalho só vale a pena ser realizado, da maneira em que quero vê-lo realizado. Verifica-se uma certa rigidez, intolerância e inflexibilidade que vem da minha infância solitária e da correspondente introspecção e fechamento.

            Estas características poderiam e deveriam ser objeto de mudança e transformação, se eu assim o achasse conveniente e necessário. Acontece que eu acho positivo ter e manter posicionamentos. Quem sempre abre mão dos seus princípios, acaba por reduzir-se ao zero e ao nada, e se ele o faz para poder fazer alguma coisa, acaba é fazendo coisa nenhuma. Evidentemente tudo tem os seus limites, mas eu acho que eu não os ultrapasso. Prova deste fato é que na década de oitenta eu tinha feito um trabalho acadêmico com o inglês, no qual eu tive que fazer bastantes concessões. Tive que diluir os pontos de vista, enfraquecer as afirmações mais fortes, arredondar cantos e arestas e remover farpas e espinhos, para que saísse uma publicação conjunta. Mas não foi necessário mudar a perspectiva, o posicionamento básico.

            Na época o trabalho estava sendo feito pelo inglês e eu, ou seja, metade do poder de decisão estava na minha mão. Agora, no trabalho sobre comunidades, com a entrada de uma terceira pessoa eu só teria trinta por cento do poder de decisão. Além disso, tratava-se de pessoa desconhecida com a qual eu corria sérios riscos de desavenças não só pessoal como ideológica.

            Se, de um lado, eu não deveria abdicar dos meus posicionamentos básicos, do outro lado, havia que evitar a inflexibilidade, mostrando boa vontade em fazer algum tipo de concessão. Havia, portanto, que optar por uma solução de compromisso.

A maior dificuldade imediata que se apresentava, não era, no entanto, a continuidade do trabalho sobre comunidades. A maior dificuldade imediata era o medo, ou melhor, a irracionalidade dos medos. Medo e repressão já aparecem na análise acima, mas em um texto escrito dois dias depois, eu explico melhor esta questão:

            Identifico uma série de medos: medo de ser passado para trás; medo do sociólogo ser uma pessoa intratável; medo de me engajar em um trabalho que vai consumir meu tempo sem me satisfazer; medo de um enfarte, uma AVC, uma crise de hipertensão, etc.

            Meus medos formam um círculo vicioso. O suposto perigo desperta o medo e este faz com que eu me ocupe com o perigo o que somente aumenta a sua dimensão. Eu me preparo para enfrentar o perigo. No presente caso, preparo os argumentos, crio alternativas e preparo rotas de fuga. Mentalmente esboço a resposta ao e-mail que o inglês me enviou, faço prognósticos de futuro, imagino tudo o que pode acontecer, peso prós e contras. Repasso e repito este procedimento até a exaustão, e é claro que tudo isto me exaure, pois, preparar-se para o perigo é conviver com ele. Amplia-se a sua dimensão. Mais perigo, mais medo, tornam necessários mais preparativos, mais rotas de fuga em um círculo vicioso de crescente tensão que só é interrompido pela repressão. Aí inicia-se novo círculo vicioso, porque a repressão somente faz crescer ainda mais os medos.

            Meus medos são meus velhos conhecidos, são os medos infantis, entre os quais se inclui o medo de ser rejeitado. Primeiro foi a rejeição do ventre materno, depois foi a rejeição do aleitamento. Seguiu-se o "cercadinho" e mais tarde a rejeição dos meus colegas na escola [39].

            O importante é entender. O ser rejeitado vem sempre junto com o rejeitar. Se fui rejeitado na escola, é porque também eu rejeitei. Fui arrogante, tratei meus colegas com o menosprezo com que meus pais tratavam os moradores da terra que os acolheu. Para ser respeitado, há que respeitar.

            Algo semelhante acontece no presente caso. O livro que eu quero escrever não é o livro que o inglês e o seu amigo querem ver publicado. Eu estou usando o inglês para facilitar a publicação. É claro que ele também está me usando como força de trabalho barata. A longo prazo este tipo de relação não pode dar certo.

            Se existe rejeição por parte do inglês, então é porque eu também o ameaço. Eu o ameaço na medida em que eu quero obrigá-lo a fazer um livro que ele não quer fazer.

Se este tipo de relação não pode dar certo, então é melhore que acabe. Não há, no entanto, razão para medos.

            O importante é marcar algumas posições. Em primeiro lugar existe uma proposta de livro que foi em grande parte elaborada por mim com bastante detalhes. Em segundo lugar existem algumas ideias básicas que justificam o meu interesse no projeto. O melhor que eu faço é mandar este conjunto de ideias aos dois ingleses e dizer que existem coisas das quais eu não abro mão e ver a reação. Se eles aceitarem, vamos em frente. Se eles não aceitarem, então o projeto já não mais me diz respeito.

            No texto acima cabe uma primeira observação com respeito ao círculo vicioso do medo. Em seção anterior eu descrevi este círculo através do seguinte esquema, que eu reproduzo abaixo de uma forma mais simplificada:

Perigo → Medo → Medo do medo → Repressão →Medo → Perigo

No relato acima o círculo vicioso é quase o mesmo, só que ao invés do medo do medo, vem os preparativos para enfrentar o perigo. Estes têm uma íntima ligação como o remoer e ruminar preocupações que será analisado na próxima seção.

            É importante também ressaltar o papel das fantasias e da imaginação. Eles serão tratados mais adiante. A preparação para o perigo implica em se ocupar mentalmente com o perigo o que resulta em fantasias e a viver o perigo na imaginação. Isto pode não ser igual, mas é parecido com a experiência de enfrentar diretamente o perigo [40].

            No presente caso, o descarrego dos medos no papel, inclusive o reconhecimento do efeito danoso de uma preocupação excessiva, foi fundamental na limitação da dimensão do medo. Evidentemente os medos tem uma função. Foi graças aos medos e às preocupações que eu fui capaz de encontrar uma saída para o problema. Mas cabe limitá-los. A associação dos medos presentes aos medos infantis pode levá-los a assumir uma dimensão exagerada. Pode levar ao pânico, bloqueando todas as tentativas de solução.

            O desfecho desta história já está esboçado nas duas análises feitas. O trabalho sobre comunidades para mim não era uma necessidade. Deveria ser algo prazeroso, e só o seria, se fosse feito de acordo com o que eu tinha em mente. Eu sabia exatamente o que eu queria escrever, estava disposto a fazer concessões, mas não em questões essenciais.

Com o inglês eu me entendia. Eu conseguia que ele respeitasse os meus pontos de vista, em troca de trabalho pesado. Eu era o burro de carga e ele, em troca, tolerava alguns posicionamentos que não eram bem o que ele estava acostumado, nem o que ele gostaria de dizer. No passado tinha sido assim, e tudo fazia crer que continuaria sendo assim.

O sociólogo, no entanto, era uma incógnita. Para melhor avaliar o que me esperava, era fundamental eu sondar qual era o seu nível de flexibilidade e o seu jogo de cintura. Como os ingleses, de uma forma geral, não costumam ser muito sinceros na expressão das suas opiniões, cabia colocar a minha posição de maneira clara, direta e, até mesmo, um tanto radical, para ver qual seria a reação. Se ele aceitasse os meus posicionamentos eu prosseguia, senão era the end.

            Foi exatamente o que eu fiz e é aqui que entra a solução de compromisso mencionada anteriormente. Coloquei dois tipos de condicionantes. O primeiro tipo era inegociável, ou seja, teria que ser aceito da forma como eu coloquei. O segundo tipo de condicionante poderia ser objeto de negociação. No primeiro grupo, para mim o mais importante, eu disse que em se tratando de um projeto que não se baseava em relato de experiências próprias, era forçoso respaldar-se na literatura existente, mas que eu não admitia, em hipótese alguma, que a escolha desta literatura se desse segundo um marco teórico. A bibliografia teria que ser escolhida caso a caso, de acordo com os nossos propósitos, interesses e intenções. Apesar de vagas e gerais, visando facilitar a sua aceitação, as condições formuladas eram suficientemente duras e firmes na colocação de um ponto que para mim era fundamental: eu não aceitava ser colocado em uma caixinha.

            No segundo grupo de condicionantes eu dizia de forma detalhadas quais eram os meus propósitos, interesses e intenções. Em grandes linhas, ele continha a proposta do livro que eu tinha elaborado e uma relação das suas ideias principais.

            O primeiro tipo de condicionantes praticamente afetava a literatura a ser escolhida para escrever o livro. Para entender melhor a importância desta condicionante cabe considerar que na academia, um paper frequentemente é julgado pela sua bibliografia, que pode chegar a ter tanto ou até mais importância do que a contribuição propriamente dita. Por um erro de tática, o inglês, tinha mencionado uma conversa que ele tinha tido com o sociólogo, na qual a palavra marco teórico tinha ocupado uma posição central. A principal crítica que o sociólogo tinha feito em relação ao nosso projeto original era que ele achava que os experimentos comunitários que nós tínhamos selecionado eram excessivamente heterodoxos. Havia comunidades primitivas (como o Ejido), religiosas (Canudos), políticas (sovietes); experiências mais antigas (comuna de Paris) e mais modernas (MST); fortemente estruturadas (Kibutzim) e fracamente estruturadas (Hippies). Eu, através do meu primeiro tipo de condicionantes, defendia o enfoque heterodoxo, e associava a ortodoxia a um marco teórico [41]. Eu dizia explicitamente que eu era contra o marco teórico, porque eu não era limitado por marcos. Esta afirmativa ia frontalmente contra o enfoque sociológico.

            A resposta do inglês foi a esperada: o silêncio. Não está dentro do marco cultural de um inglês, discutir as coisas abertamente. Eu tinha colocado o meu posicionamento de forma direta e frontal, coisa que ele jamais teria feito. Ele jamais teria formulado condicionantes, e se as formulasse não utilizaria este termo. Determinado enfoque podia ser mais suitable, convenient, appropriate, desirable, proper, pertinent, sensible, advisable, practicable ou useful, mas jamais seria uma condicionante ainda por cima inegociável. Para ele, inglês, nada era inegociável. Muito menos ia ele discutir de forma franca e aberta com o seu amigo sociólogo, as minhas condicionantes, fossem elas negociáveis ou inegociáveis. Isto estava fora da sua dignidade e fora do seu marco social.

            Hoje passados muitos anos, eu acho que agi corretamente. A solução acertada foi a que eu tomei: saltei fora. Tratava-se de um projeto com altíssimo risco, implicando em muito trabalho e pouco retorno.

            No que concerne aos medos e preocupações, o mais importante foi traçar os limites entre os medos infantis e os medos presentes. Sem esta diferenciação havia o risco dos últimos se associarem aos primeiros, em uma onda que não teria deixado espaço para uma ação coordenada.

            Evidentemente a incorporação de uma terceira pessoa tinha sido um ato de rejeição. O inglês me rejeitava e me trocava por outro. Mas ele fazia isto porque eu não tinha aceito a forma dele trabalhar. E se eu não aceitava a forma dele trabalhar é porque eu não queria trabalhar desta forma. A rejeição de ambos os lados era natural e inevitável, e como tal tinha que ser aceita. Era consequência de duas formas diferentes de trabalhar. A compreensão deste fato, jogava também alguma luz sobre a rejeição sofrida na infância e, de certa maneira, resolvia esta rejeição, através de um evento presente.

            Outra questão importante é a compreensão do papel da repressão. Conforme podemos verificar pela análise acima, a repressão surge junto com os medos porque estes representam uma ameaça. Na medida em que os medos, eles próprios, representam um perigo, a gente os reprime.

A repressão, no entanto, somente reforça os medos. Contra os medos e as preocupações, contra o ruminar e remoer de pensamentos, planos e preparativos, nada pior do que a repressão. Negar o medo ao eu-criança significa negar-lhe a arma principal, e é claro que o eu-criança reage com a arma que lhe é negada, porque ela é a única que ele tem. O resultado é mais medo.

O medo tem a sua função. Foi o medo que me levou a saltar fora do projeto. Mas cabe manter o medo dentro de certa medida e evitar as associações que podem fazer com que os medos extrapolem os limites do razoável.

Contra os medos e a repressão o mais acertado foi o que eu fiz: descarregá-los no papel. Assumi-los e enfrentá-los. Analisando os medos a gente deles se distancia. Acaba-se reconhecendo o que é produto do passado e o que é produto do presente, o que é exagerado e o que é razoável. Acaba-se separando eu-criança de eu-adulto, e no que a gente os separa, a gente os une, porque ambos fazem parte do mesmo eu  [42]. Evidentemente este não é um caminho que se resolve de uma só vez, ou seja, não é de uma vez que os medos desaparecem quando se os coloca no papel. Aos poucos a razão vai permeando o ser, mas isto é um processo lento e gradual.

Nada do que foi dito aqui, elimina a imensa dor da perda, da frustração e da decepção. Somando o tempo do trabalho com a parente e o trabalho sobre comunidades foram, ao todo, cinco anos de trabalho. Também isto há que trabalhar. Há que se lembrar que todo trabalho tem um risco, e quem quer risco zero, não pode trabalhar. Quem ousa, pode não colher, mas quem não ousa, certamente não colhe.

Para mim o trabalho só tinha sentido se atendesse a um mínimo de condições. Eu não estava sendo intransigente. Eu somente tinha colocado um limite máximo para a transigência. Ultrapassado o limite, o trabalho para mim não tinha mais valor. E o melhor que eu fazia era desistir. Se eu insistisse em continuar, eu além dos cinco anos, ainda perderia os anos que se seguissem.

Hoje, passados muitos anos, acho que agi corretamente. Perdi os cinco anos, mas ganhei os que se seguiram. Este tempo eu resolvi investir no projeto deste livro que estou aqui escrevendo, sem marco teórico, sem ortodoxia, sem inglês, nem sociólogo, sem editor, nem editora. Na verdade, este livro nem chega a ser um e-book. Coloco o que eu escrevo em um blog e nada mais. Torno público o que eu escrevo, mas não me preocupo com a publicação [43]. O fato de eu ter aprendido a não mais me preocupar com a publicação já torna em ganho os cinco anos que eu perdi.

Temos aqui um exemplo prático da dialética. Na medida em que tendências opostas encontram-se presentes em uma mesma experiência, diferentes saídas são possíveis. Este fato que frequentemente é referenciado como a lei da compensação, ou como tudo tendo dois lados, é uma prova das potencialidades que a vida oferece e, portanto, uma prova da maravilha que é poder viver. No presente caso é do conflito que nasce um movimento oposto de criação que vai resultar no presente livro. É da impossibilidade de publicação do livro sobre comunidades, que nasce esta maravilhosa liberdade que eu sinto ao escrever o presente livro e poder dizer tudo aquilo que me dá na telha.

De certa maneira o presente livro é o desfecho de toda esta história. Ele visa compensar as decepções sofridas com o trabalho da parente e com o livro sobre comunidades. Ele é um grito de liberdade. Libertei-me do inglês e de suas publicações, do sociólogo e de seus marcos teóricos.

 

 

Preocupações

 

            Na seção anterior já foi ressaltada a importância das preocupações e a sua ligação com o medo. No caso do livro sobre comunidades, as preocupações fazem parte do círculo vicioso do medo. O constante remoer e ruminar de preocupações leva ao aumento da intensidade dos medos.

            Medo, no entanto, nem sempre resulta em preocupação. A preocupação é uma forma especial de elaboração do medo. Eu consigo imaginar situações em que o medo assume outras formas. Por exemplo, o medo pode resultar em desmaios, tremores, suores frios, dor-de-cabeça, empalidecimento, pânico, etc. Todas estas reações são reações mais centradas no corpo. Já a preocupação é uma reação mais centrada na cabeça.

A preocupação tem sido uma constante em minha vida, porque eu sou uma pessoa centrada na cabeça. As razões para este fato já foram analisadas e são em parte consequência da rejeição sofrida na infância. A rejeição na infância costuma ser uma rejeição do corpo e o resultado é a fuga para a cabeça [44] [45]. Razões adicionais serão fornecidas a seguir. Mesmo que estas razões sejam particulares e que para outras pessoas sejam outras as razões, permanece a importância da metodologia utilizada, e é justamente isto que eu quero aqui ressaltar. Ao entender as preocupações, estamos trabalhando para desconstruí-las.

Fazer análise significa construir uma trama onde cada coisa tem o seu lugar. Trata-se de abrir espaço para as coisas. A análise atua na contracorrente da repressão, que consiste justamente em fechar o espaço para as coisas.

Colocando as coisas no papel a gente se distancia delas [46]. Separa-se o joio do trigo, separa-se a preocupação que faz sentido, e que, portanto, terá que ser mais trabalhada, da preocupação que é pura manifestação do eu-criança, ou seja, remonta ao passado e, portanto, terá que ser desconstruída.

Fazer análise é como abrir uma torneira. Jorram fatos e ideias que muitas vezes não eram conscientes. Assim, a análise é uma oportunidade para o inconsciente se manifestar.

            No meu caso particular, a preocupação tem sido uma constante em minha vida, não somente em situações de medo, a menos que se queira caracterizar o medo como uma constante em minha vida, o que pode ter o seu fundo de verdade. Pensar e se preocupar estão em mim quase sempre associados. Quando eu penso, eu quase sempre penso em algo que me preocupa e quando eu me preocupo eu acabo transformando a preocupação em constante pensamento.

Fico constantemente planejando, principalmente na parte da manhã quando repasso tudo o que tenho que fazer e, à noite, quando repasso tudo o que eu fiz ou deixei de fazer. Na hora do café-da-manhã que deveria ser uma hora de entrega ao corpo, eu costumo fugir para a cabeça. Na hora da minha caminhada, novamente um momento que deveria ser de entrega ao corpo, a cabeça teima em buscar o centro das atenções.

O trabalho em cima das raízes e dos fundamentos da preocupação é importante, mas nem sempre é suficiente. Frequentemente é necessário aprendizado e reeducação. A dificuldade reside principalmente no fato de que se trata de um padrão mental onde o aprendizado é difícil. Se alguém é alcoólatra, para combater o alcoolismo é parar de beber [47]. Mas se alguém é viciado em pensamentos (preocupações), como é possível parar de pensar (e de se preocupar)?

Tenho procurado reverter este processo através da auto-sugestão, colocando o centro no corpo, na paz e no presente. A preocupação é um padrão como qualquer outro, ou seja, a gente cria o costume de se preocupar. A auto-sugestão (ou sugestão) é uma forma de a ela se contrapor. Trata-se de um procedimento mental que tem a mesma natureza da preocupação. Na medida em que a gente se concentra em paz, no presente ou na respiração, na medida em que se procura concentrar no momento que se vive, na beleza e no prazer a ele associados, é possível substituir a preocupação por paz.

Cuidado há que se tomar para que este método não se torne mera repressão. No momento em que eu forço o desaparecimento de um padrão antigo através da imposição de um padrão novo, eu utilizo repressão. A auto-sugestão deve ser, portanto, precedida de uma longa e detalhada análise que esclareça e torne possível a aceitação do padrão novo [48].

Feitas estas observações sobre auto-sugestão retorno às raízes da preocupação. No meu caso particular, a causa principal parece ser a minha grande resistência em me entregar ao corpo e ao presente  [49]. Atrás desta resistência está o medo, o medo da entrega. A tendência é sempre colocar a cabeça no centro, ocupando-me com o planejamento do futuro ou com a lembrança do passado. Quando estou fazendo uma atividade corporal como comer, beber, fazer ginástica, caminhada ou mesmo dormir, a cabeça teima em intervir. Surgem mil pensamentos a clamar por atenção.

A preocupação com as coisas a fazer, bem como a relembrança das coisas já feitas, traduz um sentimento de cobrança que está intimamente ligado à auto-imagem. Se no passado, esta cobrança era exercida por meus pais, hoje eu a incorporei através do superego. Censura virou autocensura. Cobrança, imagem e afirmação viraram auto cobrança, autoimagem e autoafirmação.

Somente quando estou fazendo trabalho mental a preocupação sossega. Ou seja, a ocupação com o corpo, com os sentidos é vista como algo menor e secundário que tem que ser compensada com uma atividade mental. Se ao fazer uma atividade mental a preocupação me deixa em paz, em contrapartida, agora é o corpo que perturba. Dificilmente encontro uma posição na qual eu esteja confortável. O que se verifica, portanto, é que corpo e cabeça estão em constante conflito. Quando a atividade é corporal a cabeça teima em intervir e clamar por atenção, e quando a atividade é mental o corpo teima em se fazer notar através da dor e do desconforto.

No passado a interferência das preocupações era mais marcante de madrugada. Eu era despertado por uma série de pensamentos sobre providências a tomar e o resultado é que eu não conseguia mais adormecer. Somente após um relaxamento demorado é que eu conseguia voltar a dormir. A auto-análise e a auto-sugestão conseguiram diminuir estes inconvenientes.

Na minha memória este último problema remonta à época do doutorado na Alemanha. As constantes preocupações com o andamento da tese acabaram criando este hábito. Eu tentava compensar o lento progresso do trabalho com a preocupação, ou seja, eu tentava me redimir da culpa, preocupando-me. Eu retomava um padrão da minha mãe que era pródiga em preocupações e via nelas grande virtude. Era sinal de responsabilidade e implicava em dedicação e apego ao problema. Trata-se de um típico padrão cultural judaico onde preocupações ocupam posição de destaque. A queixa, o lamento e a preocupação são recursos mais fáceis do que tentar resolver o problema [50]. Por trás está novamente o medo [51].

Eu não tenho minha mãe na melhor lembrança [52]. O pensamento que me vem à cabeça quando penso nela é de omissão. Ela foi bastante omissa na tentativa de me ajudar. Por exemplo, no caso do meu isolamento na escola, minha mãe pouco fez para aliviar os meus problemas de relacionamento. Eles poderiam ter sido contornados pela troca da escola tradicional que eu frequentava, por uma escola mais alternativa, na qual eu tivesse mais espaço [53]. Mas não. Minha mãe tentava compensar a falta de iniciativa com a preocupação [54].

Ela constantemente fazia críticas ao meu isolamento, o que só piorava a situação [55]. Para a yiddische momme (mãe judia) preocupação é sinal de amor e minha mãe substituía o amor pela preocupação. Na verdade, amor é entrega e preocupação é domínio, ao menos tentativa de domínio daquele que se preocupa com o objeto da preocupação. Amor é corpo, preocupação é cabeça. Trata-se de colocar a cabeça no lugar do corpo. Preocupação significa transformar (sublimar?) algo amplo e complexo como o amor, em questões prosaicas como relacionamento social, carreira, segurança, saúde, conforto, sucesso econômico, bem estar físico e material, etc. Trata-se de simplificação, e situa-se na linha da coisificação ou reificação. Um todo complexo, o ser humano, é decomposto em partes: a carreira, a saúde, o entrosamento social, etc. A parte depois é tomada no lugar do todo.

Minha mãe não queria ver que o meu problema era, na verdade, o problema dela. Éramos estrangeiros, criados em um ambiente estranho. Só que ela estava com a vida feita, casada e o sustento garantido. Eu estava com a vida por fazer. Ela reduzia tudo à afirmativa de que eu era associal, no que talvez estivesse certa, mas a afirmativa não ajudava em nada à superação do problema.

A preocupação é um sinal de medo e insegurança. Trata-se novamente de uma característica judia. Face às constantes perseguições e pogroms, os judeus viviam permanentemente com medo, e a preocupação servia para preparar-se para a emergência. Cabe também não esquecer que dentro da moral judaico-cristã a preocupação representa o sacrifício e a penitência necessários para que se atinja paz e felicidade.

Evidentemente não quero dizer que toda preocupação é reflexo de medos do passado. No caso da elaboração do livro sobre comunidades, visto na seção precedente, as preocupações acabaram sendo produtivas. Sem a preocupação eu jamais teria tido a iniciativa de me distanciar do inglês e do seu sociólogo, da academia e dos seus ritos.

            É necessário, no entanto, separar o joio do trigo. Separar as preocupações que são justificadas e racionais, daquelas que são mero reflexo de medos do passado. Há que preparar saídas para as primeiras e desconstruir e distanciar-se das segundas. Também isto é resultado de análise.

 

 

Medo e Insônia

 

            O objetivo desta seção é abordar a questão da insônia e vinculá-la ao medo [56]. Conforme veremos, a dificuldade imediata que deu origem ao problema da insônia é uma questão menor. Este fato ressalta a importância dos medos infantis que estão por trás. Foram eles que levaram o problema a assumir as dimensões que ele tomou [57].

            O caso se deu em uma viagem de férias nas montanhas, há alguns anos atrás. Em casa a minha cama de casal é larga e durmo de lado fazendo uso de um travesseiro comprido e grande para apoiar um ombro e um joelho. Na pousada em que ficamos a cama de casal era muito estreita e o colchão era deformado, afundado na parte central. Como eu tinha levado o travesseiro, na minha metade da cama, mal havia espaço para mim.

            A primeira noite foi péssima, devo ter dormido de duas a três horas. Em função disto resolvi fazer uma análise escrita. A análise tinha os seguintes propósitos: a) distanciar-se dos medos; b) desconstruir a repressão; c) desconstruir medos e fantasias; d) juntar fatos e idéias, reduzindo a cisão; e) encaminhar soluções práticas. Como eu já disse, a gente se distancia dos medos na medida que eles são colocados no papel. Além disso, na medida em que a análise assume os medos, ela desconstrói a repressão.

            Como resultado da análise três complexos de problemas foram identificados: i) medos; ii) condições desfavoráveis da cama; iii) dormir tempo demais de dia. Ao complexo (i) vai ser dedicada a maior parte da presente análise. Aos complexos (ii)  e (iii) cabem soluções práticas.

            Começo abordando o complexo (iii) onde cabem algumas explicações. A velhice foi reforçando um hábito que sempre tive. Jamais luto contra o sono, porque não adianta lutar contra a natureza. Quando o sono chega, eu me entrego a ele. Tiro um cochilo rápida, as vezes minutos, as vezes apenas segundos, e sou capaz de adormecer muito rapidamente  [58]. Às vezes, no entanto, durmo uma hora ou até mais, dependendo do conforto e da situação [59].

            Na pousada em que estávamos costumo ler bastante e, dependendo do tipo de leitura, o cansaço chega. É comum eu dormir três ou quatro vezes por dia, cerca de meia hora, o que evidentemente rouba o sono da noite. Para o caso narrado, diminuir o número de cochilos, ou então, diminuir o tempo dos cochilos era uma primeira medida de fácil implementação. Através de um melhor planejamento do dia, do tipo de leitura e das atividades feitas, da posição em que eu tiro o cochilo, espaçando mais os cochilos e tentando estender os intervalos entre eles, foi possível interferir significativamente no sono diurno, melhorando o sono da noite.

            Em contrapartida, pouco havia para ser feito em relação ao complexo (ii). A cama e o colchão da pousada eram aqueles e não havia outros para substituir, mesmo porque as outras camas já estavam ocupadas com outros hóspedes. Eu, no entanto, tentei compensar o desconforto com relaxamento e alongamento, como veremos mais adiante. Em uma outra estadia, meses depois, nesta mesma pousada, eu resolvi o problema pedindo para colocarem duas camas de solteiro no lugar da cama de casal e mandando comprar colchões novos, ortopédicos, para substituir os colchões deformados. Mas isto foi outra vez e nada tem a ver com o caso que está sendo examinado.

            Resumindo, o complexo (iii) foi fácil de resolver. Quanto ao complexo (ii) pouco havia a fazer. Ao complexo (i) será dedicado o restante desta seção. Para tornar as coisas mais palpáveis e concretas, eu coloco o próprio texto que escrevi na época.

            Na minha análise me restrinjo aos medos. Tomo os medos em um sentido suficientemente amplo para incluir, por exemplo, a ansiedade do querer dormir [60]. É o medo da insônia, ou seja, o medo das consequências que a insônia pode trazer (algumas delas meras fantasias), que produz uma ansiedade que me força a buscar o sono. Ora, eu sei perfeitamente que uma das principais causas da insônia é o tentar dormir porque ele gera uma tensão que justamente espanta o sono. Dormir é entrega. Para dormir é preciso paz e tranquilidade e a tensão e a expectativa resultantes da busca do sono, o dificultam.

            Antes de entrar mais a fundo na análise dos medos, cabe uma observação sobre a forma que eu encontrei para lidar com a insônia porque ela é fundamental para o entendimento dos medos. Tenho uma série de quatro a cinco exercícios, uma mistura de Ioga, alongamento e relaxamento, que me acalma e me leva a um estado de meditação quase tão repousante quanto o sono. Os exercícios podem levar uma, duas ou até mais horas, mas, como eu já disse, eles desempenham um papel semelhante ao sono. Na maioria das vezes após os exercícios eu volto para a cama e durmo um sono tranquilo, mas já aconteceu dos exercícios levarem tanto tempo que quando eu terminei já era hora de acordar. Neste caso eu costumo ter um dia semelhante aos dias normais, ou seja, eu não noto diferença significativa entre o sono propriamente dito e o estado meditativo [61].

            A grande diferença entre o sono propriamente dito e o estado meditativo é o domínio da vontade. A meditação está sob o domínio da vontade, eu determino a hora de começar e a hora de terminar, enquanto o sono está fora deste domínio. Eu consigo induzir o estado meditativo à hora que eu quiser, mas não consigo dormir quando quero.

            Qual a importância destes fatos? A importância é que eles fornecem argumentos decisivos na desconstrução dos medos associados à insônia. Pois se eu tenho um recurso, a serviço da minha vontade, que funciona quase tão bem quanto o sono, porque ficar com medo de não dormir [62]?

            Ficam os medos caracterizados como fantasmas, meras fantasias sem base real, quer dizer, a realidade que lhes dá base de sustentação, é uma realidade passada. Trata-se dos medos infantis.

            Antes de entrar mais a fundo nesta questão, cabe mencionar o medo do medo. Ele nada mais é do que o medo em outro nível. O mundo é como uma cebola, feita de diversas camadas e o que acontece em uma camada repercute também nas outras, ou, utilizando uma outra imagem, a vibração de um som gera também a vibração dos seus harmônicos. Assim, o medo do medo, e, evidentemente, o medo do medo do medo e assim por diante, são reflexos, ou reverberações do medo em outros níveis.

            O primeiro medo que surge é o medo da insônia, ou melhor, o medo de não conseguir dormir direito. Diversos outros medos estão a ele associados. Passa pela minha cabeça que se eu não dormir, ficarei louco, ou então, vou morrer, ter um infarto, sufocar, deixar de respirar. O que farei a noite toda sem dormir? Eu não conseguirei aproveitar a estadia, ficarei doente. Não vou conseguir voltar dirigindo, pois como vou guiar o carro, depois de uma noite sem dormir? Vou dormir no volante, sair da estrada, capotar e morrer.

            Paradoxalmente, este conjunto de medos, aos quais eu sinteticamente vou me referir como medo da insônia, é um dos principais motivos da insônia [63]. O medo de não dormir é o que não me deixa dormir. Como eu já disse acima, o medo de não conseguir dormir faz eu querer dormir, e querer dormir é uma das principais razões para não conseguir dormir. Além disso, o medo da insônia gera uma angustia e uma ansiedade que destrói a paz e a tranquilidade, condições essenciais para que se consiga dormir. Gera-se um círculo viciosos medo da insônia → insônia → medo da insônia que só agrava o problema.

            Se o medo da insônia é um dos principais motivos da insônia, nada mais natural que surja o medo do medo da insônia que passa a se inserir dentro do círculo vicioso mencionado acima.

            Passemos agora para a etapa de desconstrução dos medos através da análise. Por exemplo, ter um infarto é, de fato, uma possibilidade, mas é pouco provável que o infarto surja como consequência da insônia. Infarto pode-se também ter após uma noite bem dormida. Infarto pode ser o fim, ao menos eu espero que assim seja. O infarto fulminante é a Nossa Senhora da Boa Morte, é a paz eterna. Porque o medo?

            Quanto ao medo da insônia em função da viagem de volta, porque ter medo agora, quando acabei de chegar? A volta ainda está longe e muita coisa pode acontecer, inclusive a insônia pode não durar. Além disso, eu sempre posso pagar alguém que guie o carro até em casa.

            Mais importante do que tudo isto é a possibilidade de lidar com a insônia. Se depois de uma noite de duas a três horas de sono, eu, em função dos exercícios de relaxamento, ioga e meditação, consigo ter um dia perfeitamente normal, porque o medo da insônia? Se após uma noite destas, passo um dia normal, porque é que eu não seria capaz de dirigir [64]?

            A análise acima deixa claro que os medos são vagos, sem causa claramente definida. Trata-se de fantasmas e fantasias, produtos do eu-criança. Têm a sua origem na infância, época em que tudo é perigoso, porque a gente não sabe lidar com o perigo.

            O que fazer? Antes de mais nada cabe dizer que a repressão, ou seja, a negação dos medos, não adianta, porque ela simplesmente os reforça. O eu-criança é parte do eu, e negando-lhe o espaço, eu estou ativando as suas defesas, entre as quais está o medo.

            A análise, pelo contrário, ao enfocar os medos, os assume. Está, portanto, se contrapondo à repressão e à negação. Além disso, através do entendimento mostra-se que o eu-criança e o eu-adulto só tem a ganhar com o sono. O sono é bom. Surgindo problemas como cama estreita, colchão deformado ou dormir demais de dia, há que resolvê-los. O medo, no entanto, não resolve.

            Ao colocar os medos no papel eu também estou me distanciando deles. Ao mostrar que, em grande parte, eles são produtos da infância, do passado, e que hoje existem formas mais efetivas de lidar com a questão, eu estou ajudando a desconstruí-los. Como os medos são em grande parte responsáveis pela insônia, ao desconstruí-los eu estou criando condições para um sono tranquilo.

            Esta foi a primeira análise, feita após a noite passada em claro. Possivelmente, como resultado, a segunda noite foi muito melhor. Fui dormir cedo, para reservar bastante tempo para o relaxamento e a meditação e compensei os desconfortos da cama com exercícios de alongamento. Na medida em que eu intercalei sono com alongamento, eu consegui minorar os efeitos da cama e do colchão e o resultado foi uma noite tranquila [65]. Fui dormir às 21,30, acordei as 01,30, fiz Ioga, relaxamento e alongamento até as 3,00 e voltei a dormir até as 6,00. Ao todo tive sete horas de sono, uma hora a mais do que as seis horas que costumo dormir.

            Os medos que me assolaram na primeira noite, quase que inteiramente desapareceram. Ao mostrar que os medos são meros fantasmas, produtos do eu-criança, que a eles recorre sempre que aparecem dificuldades; ao mostrar que existem formas mais efetivas de lidar com as dificuldades, que isto já ocorreu inúmeras outras vezes e que sempre fui capaz de encontrar uma saída, eu ajudo a desconstruí-los. Após muitos e muitos anos de análise o meu eu-criança aprendeu a ser permeável à razão. Afinal, eu-adulto e eu-criança, somos um único eu, habitamos um único corpo e o que faz a felicidade de um, faz a felicidade do outro [66]. O papel da racionalidade é justamente fazer uma ponte, ligar e unir as diversas partes do eu, o eu e a sociedade, o eu e o mundo.

Se, no entanto, uma parte do eu apela para a violência (repressão) a outra parte responde na mesma medida. É como briga de família. Ao invés de violência e medo, cabe a racionalidade. Afinal, ambas as partes, eu-criança e eu-adulto, estão juntas no mesmo barco. Ambas têm o mesmo objetivo: a paz. Cabe juntar propostas, fazer compromissos, chegar a um denominador comum. No caso analisado da insônia, o medo não é uma solução razoável. Pelo contrário, o medo é, ele próprio, uma das causas do problema. Ao gerar tensão, ele não me deixa dormir. Na medida em que o eu-criança reconhece este fato, a tendência é o medo arrefecer. O eu-criança não é impermeável à razão. Afinal, razão e entendimento são ponte porque ligam e conectam eu-criança com eu-adulto.

            O caso que eu narrei dá testemunho do método que utilizo. Comecei com medo de morrer, passando quase uma noite toda em claro. Fiz uma auto-análise escrita e já na noite seguinte o problema estava quase resolvido. Claro, nem sempre tudo é tão simples assim. Existem medos mais difíceis de desconstruir. Existem problemas mais enraizados.

            Para encerrar, gostaria de mencionar dois pontos. Em primeiro lugar, tudo isto só funciona porque existe um impulso de união e paz a nos impelir nesta direção. No caso em questão, o sono é alguma coisa boa e existe uma tendência natural de a ele se entregar. O medo é uma barreira. O que existe a fazer é remover a barreira para que a tendência natural volte a ocupar o espaço [67].

Em segundo lugar cabe lembrar que os medos podem também ter um papel positivo, na medida em que ao gerar uma tensão, despertam a pessoa para o problema. No presente caso, no entanto, o medo mais atrapalha que ajuda. Levando em conta que o desejo último é a paz e que o sono dela faz parte, a análise, ao mostrar que é o medo que me rouba o sono, está trabalhando para desconstruí-lo.

 

 

Contraponto

 

            Nas seções anteriores foram ressaltados aspectos negativos do medo. Aqui tenta-se compensar este fato chamando a atenção para aquilo que existe de positivo: preparar o corpo para o perigo, deixar a mente alerta, concentrar a atenção, despertar as defesas e mobilizar as preocupações [68].

            É interessante como as coisas acontecem. Eu estava preocupado com o fechamento deste capítulo quando surgiu um novo caso que, na verdade, se contrapõe à maior parte do que foi dito. Dentro da visão dialética, esta é uma excelente oportunidade para o seu encerramento. Na medida em que existe uma contradição, mantém-se aberta a questão, sinalizando a sua dinâmica. Nunca é possível esgotar um assunto, principalmente um assunto complicado como o medo. É isto que este caso parece querer dizer.

            De certa forma, tudo o que foi dito sobre o medo aponta para o eu-criança e o passado. O que foi dito, é que este lastro tem que ser superado através do presente e do eu-adulto. Ou seja, uma racionalidade passada é superada mostrando justamente que ela pertence ao passado, e que existe uma racionalidade presente que resolve melhor a situação. O caso apresentado nesta seção mostra que, pelo contrário, esta racionalidade passada pode continuar presente, ou seja, pode continuar desempenhando uma função importante no presente [69]. Com isto restabelece-se o equilíbrio, ou seja, a alocação temporal do medo entre passado e presente sofre um ajuste.

            Passo à menção do caso que ocorreu. No final de 2021, início de 2022, tive uma crise de rinite alérgica que roubou o meu sono. Principalmente de madrugada, o nariz ficava obstruído, obrigando-me a respirar pela boca. A consequência era boca e garganta ressecada dificultando o sono.

            Nas noites insones um pensamento frequente era que eu não mais conseguiria respirar. Tal como a asma, eu ia sofrer de falta de ar e dificuldade de respiração.

            Da mesma maneira que no caso descrito na seção anterior, em que a insônia surgia devido aos desconfortos da cama e do colchão, eu tentei responder ao medo de duas formas. De um lado, eu procurei desconstruir o medo e combater a repressão através do entendimento. Do outro lado, eu tentei induzir o sentimento de paz através de auto-sugestão e relaxamento.

            Através de análise e entendimento eu tentava enquadrar o medo de não mais conseguir respirar dentro dos medos infantis. Eu argumentava comigo mesmo que eu jamais tinha tido asma ou falta de ar, de modo que o nariz entupido da rinite não seria capaz de suscitar estes sintomas. Tratava-se de uma mera fantasia, produto da imaginação, melhor dito, tratava-se de um produto do medo infantil, das inseguranças oriundas da infância, do mesmo quilate do medo de ficar louco, medo de infarto ou AVC (veja seção anterior). A linha de raciocínio que eu seguia era admitir os medos como sendo realidade, mas tratava-se de uma realidade imersa no passado.

            Realidade passada é realidade? Empurrar alguma coisa para o passado não é negar-lhe realidade [70]? As respostas a estas perguntas encontram-se a meta-nível, porque nada pertence exclusivamente ao passado (nem tampouco ao futuro); toda e qualquer vivência se estende até o presente, deixando ali as suas marcas.

            O que, na verdade, pode acontecer, é o medo estar mais ou menos associado a eventos da infância, ter menos ou mais vínculos com situações do presente. Quando é o primeiro caso que se verifica, os medos costumam desaparecer na medida em que isto é esclarecido, isto é, quando se reconhece que eles pertencem ao passado os medos vão embora. No segundo caso, eles não desaparecem, sinalizando que existe alguma coisa errada com a nossa interpretação [71].

            De fato, no caso narrado na seção anterior, os medos que surgiam em função dos desconfortos da cama e do colchão puderam rapidamente ser superados. No presente caso, no entanto, os medos relativos às dificuldades de respiração, talvez pelo fato de estarem mais ancorados na realidade, não cederam às minhas tentativas de varrê-los para debaixo do tapete do passado. Eles não desapareceram, deixando claro que a elaboração mental não tinha acertado o cerne da questão. A prática colocava em dúvida a teoria.

            Ao querer encerrar a questão com a afirmativa de que os medos pertencem ao passado e são um produto do eu-criança, eu estava, na verdade, querendo esquecer que este eu-criança continua vivo no presente. Eu tentava sufocar o eu-criança e isto, de certa maneira, equivale a uma repressão. Como vimos, a repressão não funciona.

            O que tem que ficar bem claro é que o mundo está imbuído de uma racionalidade que nos impele no sentido da paz e da felicidade. Se algum medo teima em não querer ir embora, existe alguma razão para tal. O medo não faz parte do cerne do nosso ser, nem faz parte do cerne do mundo. Se ele aparece, é justamente para nos ajudar a superar o problema. Nós ansiamos pela paz e pela felicidade e a nossa natureza e constituição faz de tudo para possibilitá-las.

Se algo impede a paz e a felicidade é porque ocorreram erros que cabe reconhecer. Normalmente é porque existe um confronto entre diversas partes do eu, ou seja, existe uma disputa entre diversos projetos contraditórios de se atingir a felicidade. Ou então o confronto se dá entre o eu e a sociedade, diversas partes da sociedade, a sociedade e o mundo ou meio ambiente. A raiz do sofrimento e da dor é o conflito e a cisão. Uma vez removidas as causas deste conflito, existe uma tendência natural de se voltar à paz.

            Os medos associados à falta de ar teimavam em voltar, não para me atormentar, para infernizar a minha vida, mas para me avisar, para o meu próprio bem, que ao querer empurrá-los para o passado, ao querer limitar o seu papel ao eu-criança e à infância, eu estava querendo esquecer que os medos e o eu-criança desempenham também um importante papel no presente.

            Foi em uma noite de insônia que me veio este insight. Eu tinha acordado, nariz obstruído pela rinite, dificuldade de voltar a adormecer, quando me veio a idéia de que os medos não eram só fantasmas do passado.

            Tinha sido por causa dos medos que eu tinha esperado dois meses por uma consulta com um médico antroposófico famoso e que eu tinha me mostrado disposto a participar de um tratamento caro e complicado para tentar curar, ou melhor, remediar os efeitos da rinite. Era por medo que eu iria até o inferno procurar outro tipo de tratamento, caso este não surtisse o efeito esperado. O que me movia nesta busca de solução, o motor de tudo isto, era o medo.

 

 

Ligando os pontos (parágrafos)

 

            Entre os problemas que nos assolam no dia a dia, o medo é sem dúvida um dos mais comuns. O medo rouba a nossa energia e pode até mesmo paralisar toda e qualquer ação. O medo, no entanto, desempenha também uma função positiva, na medida em que nos torna mais cautelosos e previdentes, estimula as nossas defesas, desperta a nossa atenção e reforça os nossos reflexos.

            Aqui neste capítulo ressaltamos o lado negativo do medo. Este fica por conta da ruptura com o passado tanto sob a ótica filogenética como ontogenética. Trata-se da ruptura natureza / civilização, e esta se dá tanto a nível de espécie como a nível de indivíduo. Tanto na evolução da espécie como na evolução do indivíduo o medo está primordialmente voltado para o corpo, ou seja, na natureza a finalidade do medo é preparar o corpo para o perigo. Acontece que na civilização o corpo não mais ocupa o centro. Assim, as reações associadas ao medo frequentemente mais atrapalham do que ajudam. Foram dados diversos exemplos destes fatos.

            Associado ao medo está a repressão. A repressão compõe o círculo vicioso do medo que transforma medo em pânico. Como, pelos motivos apontados acima, o medo representa uma ameaça, ele passa a ser reprimido. A repressão, no entanto, só reforça o medo. O medo representa o eu-criança, e reprimindo o medo se está reprimindo o eu-criança. Este reage com mais medo.

            Ao invés de repressão cabe análise e entendimento. Estes, no entanto, raramente são suficientes para mudar o padrão comportamental gerado pelo medo. É preciso aprendizado. O aprendizado não somente pode ajudar a criar uma alternativa para o padrão criado pelo medo, como ele pode ajudar a desconstruir o padrão antigo. Na criação de alternativas é importante a solução de compromisso, ou seja, tentar promover uma transição suave entre o padrão antigo e o padrão novo. A auto-sugestão fornece ferramenta importante para o processo de aprendizado e em capítulo específico ela será examinada com mais detalhe.

            A finalidade principal da racionalidade é mostrar que o medo não é uma resposta adequada ao perigo. Existem outras alternativas. Examinei com detalhe os contratempos que ocorreram em um projeto de elaboração de um livro, e mostrei como entendimento e análise podem ajudar a desconstruir o medo e a construir uma saída mais adequada para os problemas.

            Associado aos medos estão as preocupações. Medos e preocupações andam juntos. A preocupação denota uma centralização na cabeça, ou seja, a reação despertada pelo medo acaba mobilizando principalmente a cabeça. Trata-se de colocar a cabeça no lugar do corpo.

            Dois casos, vinculando o medo com a insônia, foram apresentados. No primeiro caso o medo é predominantemente irracional, isto é, está voltado para uma racionalidade imersa no passado. No segundo caso o medo tem conexões mais fortes com o presente.

            Para finalizar este capítulo gostaria de fazer dois comentários. Em primeiro lugar, falta neste capítulo uma melhor ligação entre medos e fantasias. Não só o medo provoca a fuga da realidade e o refúgio nas fantasias, como as próprias fantasias levam ao medo, em particular, o medo de se perder o pé na realidade. Gera-se um círculo vicioso: medo → fantasias → medo. Na verdade, não importa muito onde este círculo vicioso começa, porque ele poderia perfeitamente ser representado por fantasias → medo → fantasias. Pode, por um motivo qualquer, surgir uma fantasia que, por perturbar a realidade, dá origem ao medo. Este, pode ser medo da realidade, o que acaba reforçando a fuga para as fantasias [72].

A ligação entre medos e fantasias será feita no capitulo oito através do sexo. As fantasias receberão capítulo à parte (capítulo nove). Ou seja, o capítulo 8, através do sexo, faz uma ligação entre medos (capítulo 7) e fantasias (capítulo 9).

Uma segunda observação diz respeito à tendência em atribuir aos medos a característica de consequência, ou seja, os medos são consequência de questões psicológicas não ou mal resolvidas. Aqui, neste trabalho, causa e consequência trocam frequentemente de posição, ou seja, dialeticamente é totalmente irrelevante classificar alguma coisa como causa ou consequência. O que era causa ontem pode passar a ser consequência hoje e vice-versa. O medo pode ser a causa do sofrimento, na medida em que determinada situação, que, em princípio, não deveria justificar o medo, no entanto, o desperta, por associação com eventos do passado [73]. Ou seja, a situação atual não é a causa do problema. A causa do problema é o medo, evidentemente por associação com eventos do passado. Estes, frequentemente estão excessivamente difusos, afastados demais do nosso dia a dia, estão por demais enraizados e incutidos dentro do nosso padrão comportamental, para que seja possível atuar. Torna-se mais fácil atuar sobre o padrão comportamental criado pelo medo, do que sobre os problemas originais que o causaram. Esta é a razão fundamental porque resolvemos criar um capítulo inteiro dedicado ao medo.



[1] Veja música Se a tristeza chegar de Geraldo Vandré: todos os tristes, querendo juntos, toda tristeza vai se acabar.

[2] Evidentemente aqui eu estou simplificando a questão para ressaltar a importância do medo. Ao reduzir a ignorância ao medo eu estou simplificando a complicada relação dialética causa / efeito que existe entre ignorância e medo. Na verdade, também é possível se apresentar a questão no sentido inverso, ou seja, o medo pode surgir a partir da ignorância. Alguém pode ter medo porque não tem consciência da sua força. Os dois sentidos são possíveis: medo → ignorância e ignorância → medo.

[3] Cabe lembrar que a ignorância fornece importante álibi para justificar a falta de ação ou reação perante determinadas situações. A desculpa do não sabia é usual na justificação da passividade.

[4] Das Siebte Kreuz, Anna Seghers, Aufbau Taschenbuch Verlag, 11ª edição, 1999, ISBN 3-7466-5151-4.

[5] Aqui com a expressão visão conflituosa do mundo eu me refiro à visão do mundo como sendo um centro de conflitos. Há uma certa correlação entre esta visão e a visão de que o homem é o lobo do homem (veja nota a seguir).

[6] Na natureza, a competição ente a espécie faz com que o outro seja uma ameaça. Daí surge o medo. Na civilização, em princípio, não teria que haver competição, mas esta pode ser forjada artificialmente.

[7] A expressão foi popularizada por Thomas Hobbes, um empirista inglês. Ela fornece um dos esteios do capitalismo (veja o artigo Inclusive Capitalism na Wikipedia.en, consultado em 30/06/2021).

[8] Evidentemente pode ser dito que a competição é algo natural, ou seja, vem da natureza. Já comentamos que este argumento é fraco, porque o homem é homem justamente para poder fazer as coisas de forma diferente da natureza.

[9] Aqui, portanto, estamos optando pelo caminho civilizatório.

[10] No animal o medo visa despertar os sentidos, colocá-los em estado de alerta, estimulando secreções glandulares que preparam o corpo para a fuga ou para a luta, aumentando atenção, sensibilidade, força e resistência.

[11] Uma das razões deste fato já foi mencionada na seção anterior: o medo é uma arma de dominação. Outras razões existem a nível psicológico. A via civilizatória está associada a grandes inseguranças e é óbvio que isto gera medo.

[12] Aqui a palavra irracionalidade é usada no sentido de uma racionalidade incorreta ou equivocada.

[13] Já mencionamos anteriormente o fato de uma grande maioria, que podia facilmente dominar, optar por ser dominada.

[14] No capitalismo nada é o que parece ser e nada parece ser aquilo que de fato é.

[15] Veja escola de Frankfurt.

[16] Na verdade, aqui temos o círculo vicioso do medo, em que o medo de mudança impede que o padrão de medo seja mudado. Ou seja, vale a irracionalidade a meta-nível, isto é, vale a irracionalidade que impede que a irracionalidade seja reconhecida e se transforme em racionalidade. Novamente, o medo explica este comportamento. Medo está sempre associado à irracionalidade (evidentemente aqui uso o termo irracionalidade no sentido de uma racionalidade deficiente).

[17] Aqui novamente temos um círculo vicioso. O medo faz com que se evite olhar ao longe e, com isto contribuí para que se continue no caminho errado. O medo nos impede de levantar a vista para enxergar a irracionalidade do medo. Temos aqui um círculo vicioso em que medo provoca mais medo.

[18] A solução é abrir-se para a luz e não se fechar para as trevas.

[19] Usando o argumento de Hegel segundo o qual o real é racional, temos então, por dupla negação, que o irracional é irreal. Ou seja, provando a irracionalidade do medo, estamos ajudando a desconstruí-lo. Eu reluto em utilizar este argumento porque ele se baseia na irracionalidade dos medos. Ora, como já foi visto por diversas vezes, os medos não são irracionais. Na verdade, nada é irracional. Os medos se baseiam em uma racionalidade passada ou remota, uma racionalidade que jaz na infância ou na ancestralidade. É justamente isto que é necessário mostrar.

[20] Segundo Freud trata-se de abrir espaço para o ego e a racionalidade.

[21] A imagem do centauro ilustra bem esta ideia.

[22] Veja capítulos 5 e 6, bem como referências a Otto Rank.

[23] Veja seção União e cisão do capítulo 1.

[24] Não é à toa que a primeira instrução universalmente aceita para lidar com situações de perigo é sempre manter a calma.

[25] Gostaria de deixar bem claro que, apesar da terminologia utilizada,  medos não são irracionais. A racionalidade do medo jaz no passado, na ancestralidade e o que tem que ser mostrado é que, no presente, ele não mais tem razão de existir.

[26] Vemos que a etapa de entendimento aqui é muito simples. Casos mais complexos, ou seja, casos onde a etapa de entendimento envolve um trabalho mais elaborado serão apresentados mais adiante.

[27] A auto-sugestão não abre mão do entendimento. Esta é a principal diferença com relação à repressão. Ou seja, o problema tem que ser constantemente retrabalhado, os medos têm que ser analisados e suas raízes examinadas com detalhe.

[28] Veja capítulos 4 e 6.

[29] Esta é uma pequena brincadeira lógica em que se usa dupla negação em cima da afirmação de Hegel (veja capítulo 2).

[30] Ampliamos o espaço da racionalidade. É nisto que consiste crescer e se desenvolver (veja também Piaget e a acomodação, ou seja, a criação de estruturas mais completas e mais complexas).

[31] A ideia de ampliação de espaço é fundamental neste livro. É a integração das partes que conduz ao todo.

[32] Veja capítulo 4.

[33] Trama lembra estrutura e esta lembra Piaget.

[34] Veja iluminismo, enlightenment e idade da razão.

[35] Isto, no entanto, também é válido para a análise feita na forma oral. Contando as coisas para alguém a gente as entrega a este alguém, distanciando-se delas. O próprio fato de algo ser objeto de discussão já lhe dá identidade própria. Esta identidade, significa uma certa independência que, por sua, vez significa separação em relação ao sujeito que lhe deu origem. Ou seja, a discussão é uma espécie de parto no qual a gente coloca a coisa para fora.

[36] Para entender melhor estes movimentos, é conveniente considerá-los como extensões dos movimentos revolucionários do século XIX na Europa. Existe também uma clara ligação com Rousseau e o seu homem natural. Mais detalhes no meu blog Fühlgedanken em http://www.ctbornstd.blogspot.com.br em uma postagem feita em 04 de junho de 2012.

[37] Eu disse em nota anterior que a Jugendbewegung pode ser vista como consequência dos movimentos revolucionários burgueses da Europa no século XIX. Ela, no entanto, difere, na medida em que reage contra o racionalismo do iluminismo, realçando a importância dos sentimentos, do corpo e da natureza. Como veremos, isto tem a sua importância no movimento comunitário.

[38] Atualmente usa-se a palavra parceria para designar tal tipo de relação. Parceria não chega a ser amizade. Nem mesmo chega a ser coleguismo. Na parceria a relação é um mero instrumento para se atingir determinado fim. Interessante é também considerar que eu teimava em ter com o meu amigo inglês aquele laço instrumental, que seria objeto de crítica na obra que a gente ia escrever.

[39] Para maiores detalhes veja seção União e cisão do capítulo 1, bem como seção Origem dos medos, medo do medo e repressão do capítulo 7.

[40] Estas ideias têm forte conexão com a sugestão ou auto-sugestão que serão tratadas em capítulo à parte.

[41] Aqui ficavam claramente expostas as diferenças. Enquanto eu queria ousar algumas coisa nova, o sociólogo queria enquadrar o trabalho em alguma corrente dominante da sociologia norte-americana.

[42] No que a gente os separa a gente evita o conflito e a cisão. Assim separados, eles, juntos, compõem uma nova unidade, cada coisa no seu lugar, passado no lugar de passado, presente no lugar de presente. Presente e passado fazem parte do mesmo eu, só que é preciso separar as coisas. O conflito acontece quando a gente não os separa. É da confusão que resulta em misturar passado com presente que nasce o conflito. Em termos Piagetianos o que se está fazendo é criar uma estrutura mais complexa em que ambos, passado e presente, têm lugar.

[43] Há que fazer como Atahualpa Yupanqui (veja CD Buenas noches, compatriotas..., Coplas de baguala): Nuestro poetas hacen muy bien en firmar (assinar) sus poemas originales. Pero las coplas (versos) debieran escribirlas y dejarlas en la mesa de un bar, en el banco de una plaza o de un parque, pegadita y colgadita (pendurada) de la rama de un árbol, bajo la piedra de un camino. No ha de faltar jamás quien encuentre la copla, y la mire, la aprende, la lea, la goce, la rece, la llore y la haga suya, y la devuelva a todos, al aire.

[44] Veja também a seção União e cisão no capítulo 1.

[45] A rejeição do presente e da realidade (corpo), leva ao refúgio nas fantasias (cabeça).

[46] Aqui me refiro à análise escrita, mas o mesmo pode ser dito para a análise feita na forma oral. Falar também significa colocar as coisas para fora. No caso da análise estar sendo feita com outra pessoa, significa compartilhar as coisas com esta pessoa.

[47] Evidentemente isto pode ser difícil. Aqui o , visa meramente ressaltar a dificuldade de controlar padrões mentais em contraste com padrões mais centrados no corpo (que evidentemente também têm a sua contraparte mental).

[48] Importante é também considerar que a auto-sugestão deve ser propositiva, ou seja, ao invés de tentar impedir um padrão antigo, ela deve propor um padrão novo. O ideal é fazer a auto-sugestão antes das preocupações ocorrerem. Mais sobre isto será dito em capítulo exclusivo.

[49] O trauma do nascimento e a rejeição sofrida na infância já foram mencionados como causas desta dificuldade de entrega ao corpo.

[50]  Cabe considerar também que medo, mãe e cultura judaica, tudo isto são fatores ligados ao meu passado, ou seja, trata-se de uma volta ao passado.

[51] Por medo de tentar mudar as coisas, prefere-se atribuir a elas o predicado de difícil. É mais cômodo dizer que uma coisa é difícil e não fazer nada para mudá-la do que tentar atuar no sentido de uma mudança. Não se muda porque se tem medo de mudar.

[52] Minha mãe era dona de casa, tinha empregada, ou seja, a participação ativa dela limitava-se ao âmbito doméstico.

[53] A comprovação deste fato está na colônia de férias antroposófica, mencionada na seção precedente, na qual eu fui bastante feliz.

[54] Aqui temos um comportamento infantil da minha mãe que vai ser incorporado mais tarde por mim. Ao invés da minha mãe resolver o problema, por exemplo, através da troca de escola, ela se preocupava. Como já vimos preocupação está associado a medo. Ela tinha medo de tomar uma decisão.

[55] A crítica vem sempre acompanhada de recriminação e censura. Esta última induz à autocensura que frequentemente leva à perda de auto-estima.

[56] Veja também capítulo 2, seção Racionalidade, sentimentos e sensações e capítulo 5, seções Hábitos e inércia; Surgimento, significado e importância dos padrões de comportamento; Aprendizado de novos padrões de comportamento.

[57] Cabe uma observação da maior relevância. Conforme veremos, a questão menor é de natureza física. Ao dizer que o desconforto físico é algo menor e que, por isto, os medos infantis têm que ser responsabilizados, eu estou novamente colocando a cabeça na frente do corpo.

[58] Por exemplo, eu me acostumei a dormir no sinal de trânsito, enquanto o sinal está vermelho. Claro que minha mulher está ao meu lado e me acorda quando o sinal fica verde. Depois de uns dois ou três cochilos deste tipo, o sono vai embora.

[59] Durmo bastante bem debruçado sobre uma mesa e as vezes durmo deitado de costas no chão duro, sem nenhum conforto.

[60] O capítulo 6 foi dedicado ao querer e lá dissemos que ao invés de querer há que deixar acontecer.

[61] Possivelmente estas meditações longas estão intercaladas com cochilos o que explica o fato delas serem tão repousantes. Cabe notar que eu, na maioria das vezes, faço a meditação deitado no chão, o que facilita o adormecimento.

[62] Inclusive como o relaxamento é feito deitado no chão, ele independe da cama.

[63] Evidentemente não se pode esquecer o desconforto da cama estreita, do colchão deformado e do travesseiro gigante. Mais adiante, algumas soluções serão dadas para tentar resolver estes problemas.

[64] Este texto foi escrito em fevereiro de 2020 e algumas das informações contidas neste parágrafo são meras conjeturas. Em outubro de 2021, eu, no entanto, tive oportunidade de verificar concretamente que elas se verificam. Nesta oportunidade, tendo ido a Teresópolis, passei uma noite terrível em função de uma sinusite que não me deixou dormir. Fui dormir às 10,00 horas e me levantei às 6,00 horas, mas das oito horas devo ter dormido no máximo quatro. O resto do tempo fiquei fazendo exercícios de relaxamento, Ioga e meditação. Após os exercícios, voltava para a cama, dormia um pouco, acordava e voltava a fazer exercícios. Na manhã que se sucedeu, tive que empreender a viagem de volta. Dirigi o carro normalmente, mas no meio da viagem, senti cansaço. Parei num posto de abastecimento, tirei meia hora de cochilo, voltei para a estrada e dirigi normalmente até em casa. Constata-se, portanto, na prática, que os medos são meros fantasmas.

[65] Devo acrescentar que o fato de ter feito o relaxamento no chão (possivelmente associado a alguns cochilos) parcialmente compensou os desconfortos da cama e do colchão. Eu durmo bem de costas, de forma que esta foi uma solução encontrada para o desconforto de dormir de bruços na cama.

[66] O fato do corpo ser único, deixa claro a importância da materialidade. A matéria também desempenha um papel semelhante em outros casos em que se deseja valorizar a idéia da união: habitamos um mesmo mundo, pertencemos a uma mesma sociedade, dividimos os recursos naturais conjuntamente.

[67] Eu poderia também explicar este mesmo fato dizendo que a realidade tende a prevalecer e que, na medida em que se mostra que os medos são fantasmas, eles tendem a desaparecer. Mas, lembremo-nos que os medos são realidade, só que se trata de uma realidade passada, e que hoje já não funciona mais tão bem, ou seja, não mais nos proporciona paz. Neste sentido as duas explicações convergem.

[68] Na verdade, alguma coisa já foi dita anteriormente. Veja, por exemplo, último parágrafo da seção anterior.

[69] A bem da verdade devo dizer que isto já foi mencionado anteriormente. Quando eu dizia que o medo apesar de irracional, desempenha uma função, eu estava dizendo que ele desempenha uma função no presente, ou seja, está imbuído de uma racionalidade presente (veja, por exemplo, a seção Um estudo de caso: o projeto de um livro e os seus contratempos).

[70] O mesmo pode ser dito para o futuro. Ou seja, empurrar alguma coisa para o futuro é frequentemente negar-lhe a realidade, já que o futuro a Deus pertence.

[71] Aqui verificamos mais uma vez, um certo caráter objetivo (e, portanto, material) da realidade, ou seja, verificamos que a realidade não se deixa manipular a nosso bel prazer. A realidade existe e mantém uma certa independência em relação à nossa “subjetividade”.

[72] Se eu me imagino Napoleão, entro em choque com a realidade, o que desperta o medo. O medo da realidade reforça a fuga para a fantasia.

[73] O medo, no entanto, pode também ser consequência, na medida em que a situação representa um perigo tal que o medo se justifica.

 

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