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Capítulo 4 – Terapia: entendimento, análise e auto-análise.




Introdução

Este capítulo representa um ponto de inflexão. Apresentada a cosmovisão nos três primeiros capítulos do livro, descritas as peças básicas das quais ela se compõe, qual seja, holismo, realidade, racionalidade, materialismo e dialética, é chegado o momento de passar à terapia.
Neste capítulo examino principalmente o papel terapêutico do entendimento. Como já dissemos, entender é juntar fatos, juntar as partes dispersas do ser, o ser e a sociedade, sociedade e mundo. Esta união se contrapõe à cisão que, dentro da visão delineada neste livro, é a fonte principal da dor e do sofrimento.
Entendimento, portanto, é terapia, porque nada mais é do que inserção no todo. Por outro lado, entender significa sempre entender a realidade, e esta é matéria e racionalidade, que, por sua vez, não podem ser compreendidos fora do contexto da dialética. Entendimento, portanto, junta os conceitos principais vistos nos três capítulos iniciais do livro e os liga à idéia de terapia. Ou seja, este capítulo estabelece uma ponte entre terapia e cosmovisão.
Como entendimento envolve conhecimento, achei que caberia aqui uma seção sobre Piaget e a sua epistemologia genética. Esta seção mostra as semelhanças entre diversas idéias aqui expostas, e idéias por ele desenvolvidas.
Segue uma seção em que se procura caracterizar melhor o papel terapêutico do entendimento. Visando ilustrar estas idéias é discutida uma questão aparentemente formal: a auto-análise escrita, que é a forma aqui assumida pelo entendimento, deve ser feita na forma manuscrita ou digital?
Finalmente a última seção deste capítulo visa justificar o papel da análise, em particular, da auto-análise escrita, delimitando-a com a psicanálise freudiana.
Resumindo, este capítulo faz uma espécie de ponte entre cosmovisão e terapia. Ele começa recapitulando as idéias de entendimento e todo, já apresentadas na primeira parte do livro, mostrando como estas idéias podem ser utilizadas para fins terapêuticos.


Jean Piaget

Como foi dito na introdução, este livro não é um trabalho acadêmico. Pouco espaço é dedicado às referências bibliográficas e pouco valor é dado à tentativa de respaldar as idéias em literatura. Porque então dedicar uma seção à Piaget? Esta pergunta é ainda mais importante se lembrarmos que nenhuma seção foi dedicada a Freud, sendo este autor tão ou mais importante para a psicologia do que Piaget o é para a educação ou o aprendizado. Cabe lembrar que psicologia e aprendizado são dois dos pilares nos quais se apoia o presente livro.
A resposta à pergunta formulada acima é simples. Piaget é um humanista e a visão dele tem muita coisa em comum com a visão aqui apresentada. Em contrapartida, Freud é um cético e sua visão do ser humano é extremamente negativa e apresenta poucos pontos em comum com a presente cosmovisão. Não quero, de forma alguma, diminuir a enorme contribuição de Freud para o entendimento da psique humana. Certamente Freud foi muito mais revolucionário do que Piaget e a importância de fatores como sexualidade, inconsciente, sonhos, repressão e sublimação nos distúrbios psíquicos, deve muitíssimo a Freud. Acontece que o foco do presente livro não são os distúrbios psíquicos, mas sim uma cosmovisão terapêutica, e aí a contribuição de Piaget é maior. O foco em Freud é como curar doentes, ou seja, o foco é no remediar. O foco em Piaget é em prevenir a doença, ou seja, em como criar homens sãos.
Nos parágrafos a seguir, vamos descrever brevemente as idéias principais da epistemologia genética de Piaget, em especial, as idéias que tem ligação com o material que está sendo aqui apresentado. Cabe lembrar que Piaget trabalhou também com educação infantil e isto será quase que inteiramente deixado de lado.
A teoria de Piaget parte da idéia de que o desenvolvimento humano é um longo processo que surge de uma interação entre o ser e o mundo. Ele contesta a suposição da psicanálise de que este desenvolvimento é fruto de instintos (pulsões ou Triebe) bem como a suposição do behaviorismo de que o ele é resultado do mecanismo estímulo-resposta [1].
            Piaget teve como tarefa principal examinar a gênese do conhecimento e por isto a sua teoria é conhecida como epistemologia genética. Ele verificou que o desenvolvimento do conhecimento ao longo da vida de uma pessoa passa por mudanças qualitativas além das quantitativas. Assim, existe uma mudança do concreto para o abstrato, do simples para o diferenciado. Ao longo do tempo, o conhecimento torna-se mais sistemático, flexível e adaptado às circunstâncias, ou seja, à realidade.
            É o indivíduo que constrói o conhecimento e é a verificação da inadequabilidade de certas concepções para explicar fatos e experiências do dia a dia, que nos leva a corrigi-las. É por isto que a teoria de Piaget é denominada de construtivismo. A inteligência é a construção de estruturas que permitem uma cada vez melhor adaptação às situações que se apresentam. Peças básicas destas estruturas são os esquemas segundo os quais objetos e experiências são ordenados e relacionados.
O esquema (ou estrutura) fornece um padrão ou um modelo segundo o qual conhecimentos e comportamentos são conectados. Por exemplo, um destes esquemas permite fazer a conexão entre um biscoito e uma mordida cautelosa, bem como entre uma maçã e uma mordida firme. Aqui existe uma conexão entre um conhecimento (cognição) da natureza do alimento e um comportamento (forma da mordida). Evidentemente existem esquemas que fazem conexões puramente a nível de cognição (por exemplo, quando se escuta algumas notas musicais e as associamos a determinado compositor, ou quando determinada idéia nos leva a pensar em outra) ou puramente a nível de comportamento (por exemplo, quando se leva um pisão no pé e se reage com um grito).
            Uma situação que surge é adaptada a um esquema através dos mecanismos de assimilação e acomodação. A assimilação é a incorporação de uma nova experiência a um esquema pré-existente. Neste caso a estrutura cognitiva (esquema) existente é suficiente para lidar com a experiência e percebê-la de forma adequada.
Existem, no entanto, situações em que é preciso modificar o esquema pré-existente. Por exemplo, a criança desenvolve desde cedo um esquema para agarrar/pegar. Quando ela se depara com um líquido, passa a ser necessária a criação de um novo esquema que, no caso de uma bebida, pode ser o de sorver com a boca, ou, apanhar com a concha das mãos. Aqui trata-se de acomodação, ou seja, trata-se de criar um novo esquema ou modificar um esquema antigo. A acomodação se dá sempre que um fato ou uma experiência não conseguem ser trabalhados / entendidos através da assimilação. A acomodação implica em um certo estágio de desenvolvimento, na medida em que um novo esquema não pode ser criado se não existirem condições para tal. Por exemplo, o novo esquema de apanhar com a concha das mãos só pode ser criado se a criança já tiver habilidade manual para realizar este tipo de operação.
            Nenhum comportamento parte da estaca zero. Parte-se sempre de esquemas pré-existentes. É isto que caracteriza o construtivismo, ou seja, o saber é uma construção em que cada nova etapa leva em consideração as etapas já existentes. As estruturas que compõe a construção podem ser congênitas / inatas, ou então, adquiridas.
            Na verdade, assimilação e acomodação ocorrem conjuntamente e, em maior ou menor grau, estão presentes em toda percepção. Quando a assimilação prevalece sobre a acomodação, ocorre um processo de centralização em si mesmo (fechamento) porque o indivíduo rejeita novas experiências que não se deixam enquadrar dentro de esquemas pré-existentes. O caso extremo é o do autista. Mas também as fantasias deixam se explicar pelo prevalecimento da assimilação. Quando se tecem fantasias, deixa-se de ver a realidade exterior e refugia-se em uma realidade interior (fantasia). A realidade passa a ser representada pela fantasia. Este é o processo utilizado por crianças muito novas que não tem condição de criar novos esquemas para lidar com novas situações.
Quando a acomodação prevalece sobre a assimilação, padrões comportamentais de outras pessoas passam a ser copiados ou reproduzidos. No caso extremo, passa a não existir um trabalho interior de associação da nova experiência a um esquema já existente. A cada nova experiência é gerado um novo esquema e, frequentemente, esquemas utilizados por outros, são copiados e reproduzidos. Ocorre um processo de descentralização ou de abertura.
Eu acrescentaria a observação de que estas duas tendências não necessariamente são excludentes. O sujeito pode se concentrar em esquemas pré-existentes e se recusar a conhecer tudo aquilo que entra em choque frontal com eles. Quando, no entanto, as circunstâncias o obrigam a lidar com uma nova situação, ele copia esquemas adotados por outras pessoas.
            Equilibração significa a busca por um equilíbrio entre assimilação e acomodação. Segundo Piaget, somente com equilibração há cognição. Somente neste caso existe transformação da realidade, porque conhecimento é transformação.
            O raciocínio desenvolvido nos parágrafos anteriores pode ser formulado de uma maneira mais geral e mais abstrata utilizando dialética e as categorias de sujeito e objeto. A interação do eu com o mundo se dá através da relação dialética entre assimilação e acomodação. A assimilação se dá quando um estímulo vindo do objeto é integrado em uma estrutura já existente no sujeito. Mas um objeto só pode ser percebido na medida em que existe uma estrutura capaz de percebê-lo. A acomodação significa a criação de uma nova estrutura ou a adaptação de uma estrutura já existente, de forma  que a integração seja possível. Através da síntese dialética entre assimilação e acomodação resolve-se a cisão existente entre sujeito e objeto e gera-se conhecimento.
Não existe assimilação sem acomodação pois toda integração do estímulo à estrutura, ao mesmo tempo a modifica. Da mesma maneira não existe acomodação sem assimilação pois toda modificação ou adaptação de uma estrutura visa assimilar o estímulo. A acomodação é centrada no objeto enquanto que a assimilação é centrada no sujeito [2].
            A equilibração, ou seja, a busca de um balanço entre assimilação e acomodação se dá em níveis cada vez mais elevados e as estruturas (ou esquemas) vão crescendo em complexidade, permitindo a incorporação cada vez maior de estímulos provenientes do mundo externo [3]. As estruturas do sujeito são acomodadas aos objetos, ao mesmo tempo que os objetos são assimilados às estruturas existentes no sujeito.
Vimos no capítulo anterior que conhecimento é movimento e este é resultado do embate de contrários. De um lado, temos a assimilação como um processo centrado no sujeito. Do outro lado, temos a acomodação como um processo centrado no objeto. Do embate destas duas tendências opostas temos, como síntese, o equilíbrio do qual resulta o conhecimento. O equilíbrio é provisório, pois logo surgem fatos novos tornando necessária nova busca de equilíbrio.
Piaget considera o ser humano como um sistema aberto. Ele deixa claro que o conhecimento é ativo, ou seja, só conhecemos aquilo com o qual interagimos, para o qual temos esquemas já desenvolvidos (assimilação) ou para o qual temos condição de desenvolver novos esquemas (acomodação). Piaget se baseia em uma visão biológica quando diz que o conhecimento é parecido com o sistema digestivo pois só colocamos para dentro aquilo que nos interessa e que temos condição de digerir.
À diferença de Piaget eu não consigo ver o problema da existência dissociado do conhecimento. Para mim, dissociar existência de conhecimento é metafísica, ou seja, é abandonar o domínio da realidade. Se o objeto existe é porque dele tive conhecimento, o que, de forma alguma, implica na necessidade de um contato físico ou sensorial com o objeto. A existência de uma galáxia distante, de uma anã branca ou de um buraco negro não chega a ser uma experiência sensorial, embora isto possa ser contestado, porque cálculos matemáticos e observações feitos através de aparelhos e instrumentação, podem ser equiparados a experiências sensoriais [4].
            A percepção é uma construção. Esta é a razão porque a epistemologia genética de Piaget é classificada como construtivismo. Os olhos não são janelas por onde a realidade entra, mas, pelo contrário, a percepção da realidade é uma construção da qual os olhos fazem parte. A percepção que eu consigo ter de um certo objeto através da visão é totalmente diferente da percepção que uma jararaca consegue ter do mesmo objeto. Um exemplo mais realista é a percepção de um cego. Ele tem um conhecimento da realidade diferente de uma pessoa que consegue enxergar e este conhecimento do cego vai moldar a sua personalidade, os seus gostos e interesses. É conhecido o fato de só se ver aquilo que se quer ver, que interessa ver e que temos condição de ver. Este interesse e esta condição é fruto da nossa formação, das experiências que tivemos e do desenvolvimento dos nossos órgãos sensoriais. Se uso óculos de infravermelho eu tenho um conhecimento de uma floresta à noite, muito diferente do conhecimento da mesma floresta sem este recurso. Se esta experiência for repetida por um período prolongado, ela afetará a minha percepção da floresta, podendo inclusive afetar a forma de lidar com ela. A percepção da realidade é parte da nossa formação.
Para conhecer o objeto, há que interagir com ele, há que transformá-lo [5]. Conhecimento é ação. Ele depende do desenvolvimento do sujeito, da sua inteligência e é ela que conduz à objetividade. A objetividade não é uma propriedade restrita ao objeto, como consideram os empiristas, mas sim é o resultado de uma construção que envolve sujeito e objeto.
Em Piaget’s Theory, ele explica o desenvolvimento da criança, utilizando os conceitos de centralização e descentralização [6]. Durante os primeiros anos, a criança permanece centrada em si mesmo, no seu corpo e nas suas ações. O gradual equilíbrio entre assimilação e acomodação leva à descentralização, e a criança, progressivamente, aprende a conhecer outros pontos de vista e a interagir com outras pessoas, favorecendo a objetividade [7]. A componente social implica em uma visão coletiva do objeto, das coisas e dos acontecimentos. Reciprocidade e objetividade são sinônimos. Implicam em abandonar a visão egocêntrica da subjetividade [8].
            Piaget, na pg. 120 do trabalho acima citado, narra a história de um esquimó que, perguntado porque sua tribo conservava determinados ritos, responde: conservamos os nossos velhos hábitos a fim de que o universo se mantenha. A dialética nos ensina que tudo se passa nos dois sentidos, causa torna-se efeito e vice-versa. O hábito não é tão somente uma adaptação ao meio em que vivemos, mas, é também, ele próprio, formador deste meio. O mundo é também constituído pelos nossos hábitos, e sem eles o mundo não seria do jeito que é.
Com respeito à centralização/descentralização é interessante comparar as diferentes perspectivas de Freud e Piaget em relação ao antropocentrismo. No final da palestra XVIII das Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, Freud qualifica as mudanças históricas das posições antropocentristas, utilizando a palavra mágoa (Kränkung) [9]. O fato da terra não mais ocupar o centro do universo (Copérnico), o fato do ser humano não mais ocupar o centro da criação (Darwin) e o fato da psicanálise mostrar que o ser humano não mais é guiado pelo consciente, representariam mágoas que acometem a humanidade. Já Piaget mostra que, pelo contrário, estas são conquistas que representam crescimento. O centrismo, seja egocentrismo, etnocentrismo ou antropocentrismo representariam a infância e a imaturidade (veja pg. 122 da obra de Piaget citada acima).
Para Piaget, aprendizado e conhecimento são conceitos de significado semelhante. Trata-se da construção do mundo através da percepção. Esta percepção se aproxima do objeto, ou seja, o objeto é um limite. O aprendizado é uma adaptação do sujeito ao mundo que o cerca, mas é também uma adaptação do mundo ao sujeito, já que o mundo inclui o sujeito, a sua ação e percepção [10].
Na pg. 4 de Genetic Epistemology Piaget ressalta que conhecimento não pode ser baseado em raciocínio especulativo. Tem que se respaldar em fatos e em pesquisa psicológica [11]. Com esta afirmação Piaget ressalta a base empírica do conhecimento. O conhecimento, no entanto, não é tão somente resultado de estímulos externos como acreditam os positivistas. É necessário que estes estímulos sejam assimilados e acomodados pelo eu.
Epistemologia genética é soma de empirismo inglês com racionalismo Kantiano. Temos experimentação psicológica aliada à formalização. Nesta última, o ferramental lógico-matemático desempenha papel fundamental. De um lado temos o objeto, o mundo externo, a experiência. Do outro temos o esquema, a estrutura ao qual o objeto tem que ser assimilado. Piaget ainda junta Hegel a Kant quando ressalta a importância do movimento, da ação e da transformação da realidade.
Na pg. 6 ao falar da Epistemologia Genética Piaget faz uma bela síntese da sua teoria do conhecimento ao dizer que ali o leitor encontrará a exposição de uma epistemologia que é naturalista sem ser positivista, que coloca em evidência a atividade do sujeito sem ser idealista, que se apóia igualmente no objeto ao mesmo tempo que o considera um limite (portanto, existindo independentemente de nós, mas sem ser completamente alcançado) e que, sobretudo, vê no conhecimento uma construção contínua... [12] Aqui vale a pensa ressaltar que embora Piaget se apóie em Kant no que tange à formalização e à estruturação do conhecimento, dele se distancia no que tange ao idealismo. A rejeição do puramente especulativo, o respaldo na experimentação e a consideração de ação e interferência com a realidade, dão testemunho deste distanciamento.


O papel terapêutico do entendimento

O papel do entendimento na cosmovisão aqui desenvolvida foi explicado nos capítulos anteriores. Foi também mencionado o seu papel terapêutico que consiste em buscar uma integração das diversas partes do eu, bem como do eu com o mundo. Cisão é dor e, agindo no sentido da integração, possibilitamos a superação da dor.
Conforme vimos na seção precedente, conhecimento é a construção de estruturas e estas representam conexão. É juntando as partes desconexas do eu e procurando fortalecer as ligações entre eu, sociedade e meio ambiente que é possível superar a dor.
Quanto mais complexa a estrutura, mais abrangente ela é, e maior é o potencial dela tudo englobar. Usando a terminologia de Piaget, dada uma situação ou acontecimento, entendê-los ou conhecê-los é aprender a lidar com eles e isto significa integrá-los na estrutura. No limite, esta tendência leva ao todo.
Inserir as experiências e os acontecimentos em uma estrutura pode também ser chamado de dar um sentido para a vida. Na medida em que a estrutura representa a nossa vida, a maneira como nela inserimos as nossas experiências, implica em determinar o sentido da estrutura e, portanto, o sentido da vida. Isto nos remete a Victor Frankl e à logoterapia.
Da mesma maneira que Piaget, Frankl critica o peso excessivo dado por Freud à libido como origem das neuroses [13]. Ambos divergem da psicanálise pela excessiva ênfase que ela dá a impulsos e instintos. A logoterapia de Frankl considera que a preocupação principal do ser humano é encontrar o sentido da vida. Com isto ela ressalta a importância da questão existencial. Segundo Frankl um dos princípios fundamentais da logoterapia está em que a principal preocupação da pessoa não consiste em obter prazer ou evitar a dor, mas antes em ver um sentido em sua vida [14].
Frankl critica também o autocentrismo provocado pela introspecção da psicanálise, bem como a excessiva ênfase que esta dá ao princípio do prazer (Lustprinzip). Na pg. 146 do trabalho acima mencionado, Frankl critica a hiper-reflexão que, em minha opinião, é um parente próximo do autocentrismo. Trata-se de uma atenção excessivamente centrada em si mesmo. A acusação de hiper-reflexão ou autocentrismo feita por Frankl ao método analítico, tem o seu fundo de verdade, na medida em que a preocupação excessiva consigo mesmo tende a aumentar a dimensão dos problemas. Tudo, no entanto, tem dois lados. Se a problematização excessiva é ruim, por outro lado, negar o problema, passar por cima dele ou varrê-lo para baixo do tapete, é pior ainda. Nada desaparece simplesmente pelo fato da gente não querer ver.
Aqui, neste trabalho, a ótica é dialética. O objetivo é ocupar-se do problema para livrar-se dele. A perspectiva aqui é a do músico que ao se ocupar com a técnica do instrumento, o faz a ponto de com ela se identificar, de forma que não mais precisa dela se ocupar. Ou seja, cabe se aprofundar no problema, examiná-lo detalhadamente para assim dominá-lo e, dominando-o, livrar-se dele, esquecendo-o. Eu não me preocupo com a minha língua na hora de mastigar ou deglutir o alimento, mas houve uma fase da minha vida na qual a língua ocupou o centro das minhas atenções. O mesmo se aplica à fala ou à escrita. Hoje eu simplesmente escrevo. Os pensamentos ocorrem e fluem automaticamente para o papel. Mas houve fase da minha vida de intenso aprendizado com a escrita. Hoje eu ando de bicicleta e a obtenção do equilíbrio é automática. Houve, no entanto, uma época de intensa preocupação com a obtenção do equilíbrio. Para viver a vida é necessário se preocupar com ela. É esta preocupação que vai nos levar a encontrar o caminho que permite livrar-se da preocupação.
            A logoterapia não se propõe a encontrar um sentido da vida de um modo geral, mas antes o sentido específico da vida de uma pessoa em dado momento [15]. Pouco é dito sobre a forma de preencher o vazio existencial, a menos das idéias de Deus e sacrifício, traduzindo uma perspectiva judaico-cristã. Segundo Frankl o verdadeiro sentido da vida deve ser descoberto no mundo, e não dentro da pessoa. Isto implica na autotranscedência da existência humana. Quanto mais a pessoa esquecer de si mesma, dedicando-se a alguma causa ou a alguma pessoa, mais ela se realizará. E Frankl acena com a possibilidade de uma vida após a morte que recompensaria os sacrifícios. Segundo ele, existiria um mundo em que a pergunta pelo sentido último do sofrimento humano encontraria uma resposta.... Esse sentido último necessariamente excede e ultrapassa a capacidade intelectual finita do ser humano... O que se propõe é ... suportar a incapacidade de compreender, em termos racionais, o fato de que a vida tem um sentido incondicional. O logos (razão) é mais profundo que que a lógica [16].
Devo dizer que todas estas questões me são estranhas e eu não compartilho a visão de Frankl, principalmente no que tange às questões de sacrifício e transcendência. Nos capítulos anteriores deve ter ficado claro que a perspectiva aqui é dialética e materialista e mesmo o todo nada mais é do que a realidade toda, ou seja, matéria. A visão de Frankl está imbuída de metafísica e aqui partimos do pressuposto de que tudo é físico. A razão para citarmos Frankl é a ligação que ele faz entre entendimento e sentido da vida. Dar um sentido para a vida, significa em primeiro lugar entendê-la, entender o seu significado e, neste sentido, estamos juntos com Frankl.
Quem também compartilha a visão teleológica em psicologia é Alfred Adler. Tanto Adler como Frankl colocam o peso em cima de metas, objetivos, fins e projetos de futuro. Em contraposição, Freud está mais vinculado a uma concepção causal em que o peso é em cima do passado e das experiências vividas.
            Da mesma forma que Frankl, Adler tentou se contrapor ao excessivo peso da libido em Freud [17]. Para Adler o homem é um ser social e o sentimento de coletividade e a aspiração de pertencer a um grupo são fundamentais. Paralelamente, existem também as necessidades de afirmação e a busca pela superação, que são inerentes ao ser humano. A comparação destes objetivos com o desejo de superioridade e a vontade de poder de Nietzsche acaba sendo inevitável.
            Ao contrário da visão negativa de Freud, Adler acredita na capacidade de auto realização do ser humano. No processo de cura, o peso é em cima do consciente, ao contrário de Freud que enfatiza mais o inconsciente.
À semelhança da visão apresentada neste livro, Adler defende uma perspectiva holística. O ser humano tem necessidade de pertencer a um todo maior. Existe uma unidade entre mente e corpo, razão e carga emocional, aprendizado, experiências passadas e projetos de futuro.
Visando uma apreciação crítica de Adler, devo dizer que a sua busca de superioridade, ou o desejo de poder, mesmo que originalmente não tenham sido formulados como formas de promover a concorrência e a competição entre os seres humanos, trazem implícita esta componente, já que superioridade e poder são conceitos relativos. Alguém somente é superior quando o é em relação a uma outra pessoa ou coisa. Também o poder é o poder sobre alguém ou sobre um objeto. É paradoxal que o otimista Adler tenha colocado o potencialmente fragmentador desejo de poder acima da libido unificadora do cético Freud. Como vemos, frequentemente as coisas se compensam.
É compreensível que na natureza a disputa por espaço, alimento, sexo e propagação da espécie gere a competição como parte de busca pela sobrevivência (Selbsterhaltungstrieb). A generalização destas tendências para o ser humano possivelmente é uma decorrência do darwinismo social, muito em voga nos EUA no início do século XX [18]. No entanto, uma das características básicas do ser humano é justamente se contrapor à natureza, ou seja, tentar seguir caminhos diferentes.
Voltando à ligação entre terapia e entendimento, quero ressaltar, mais uma vez, que o papel fundamental do entendimento é ligar, unir e fazer conexões. Procuremos tornar estas idéias mais concretas tomando, por exemplo, a cisão do ser em eu-criança e o eu-adulto. Vimos no capítulo 2, que uma série de conflitos surge do embate entre estas duas partes do eu. O eu-criança é representativo de padrões de comportamento antigos, formados principalmente na infância. O eu-adulto representa os nossos padrões mais recentes. Consideremos, por exemplo, o medo. Medo, choro e fuga são os únicos recursos que a criança dispõe para enfrentar o perigo. O medo, no entanto, pode ser um entrave. Para um conferencista que deseja fazer uma palestra, ou um músico que deseja fazer uma apresentação, o medo mais atrapalha que ajuda. Aqui vemos o embate entre eu-criança e eu-adulto.
O que fazer? A solução que o eu-adulto normalmente adota é a repressão. A repressão do medo, no entanto, tão somente o reforça. Mais adiante daremos uma explicação mais detalhada, mas, de forma resumida, podemos dizer que a repressão simplesmente nega a parte do eu que tem medo. Negar o eu-criança significa ameaçá-lo, e, ante esta ameaça, o eu-criança reage da forma que sabe reagir: ativando e reforçando o medo.
Aqui, ao invés de repressão, preconizamos o entendimento. O entendimento do eu-criança, dos seus anseios e dos seus medos, implica em mudar radicalmente de perspectiva. Agora, ao invés de negar, estamos afirmando o eu-criança, ao invés de fechar, estamos abrindo-lhe espaço. Não mais ameaçado em sua existência, o eu-criança pode relaxar suas defesas e deixar de ter medo. A existência equilibrada, lado a lado, do eu-criança e do eu-adulto, representa integração e união das diversas partes do eu.
Ao escrever estas idéias me ocorrem as cenas finais do filme 8 ½ de Fellini. Os diversos personagens, representando as diversas fases da vida do diretor, vão descendo por uma rampa e formando uma roda. Existe uma criança que ocupa o centro desta roda.
É preciso fazer exatamente como faz Fellini. O mundo da criança, as suas experiências, sensualidade e sexualidade, compõem o nosso eu, integram a nossa formação. Há que aceitar estas experiências e incorporá-las à nossa vida. A vivência da criança continua presente no adulto e é bom que assim o seja, pois é isto que permite coerência e continuidade da existência. Há que dar a mão à criança, fazê-la entrar na roda da vida e não tentar expulsá-la.
Algo semelhante à cisão eu-criança / eu-adulto acontece com o dualismo cabeça / corpo. Frequentemente a ênfase excessiva na cabeça significa a colocação do corpo em segundo plano. Esta atitude representa um obstáculo à paz. Paz significa união e resulta do equilíbrio e da integração das partes.
Uma outra ilustração do papel do entendimento é na desconstrução dos fantasmas. Chamo de fantasmas um conjunto de medos que povoam a nossa infância e que costumam ser chamados de irracionais. Eles são resultado de frustrações, traumas, experiências dolorosas, desejos não realizados, etc.
Além dos fantasmas existem também as fantasias que podem nos perseguir por toda a vida. A peça Morte do Caixeiro Viajante, de Arthur Miller, é um magnífico exemplo desta situação. O personagem principal, Willy Loman, é perseguido por sonhos e ilusões que não o deixam enxergar a realidade. As fantasias não só destroem a vida de Willy, como também destroem a sua relação com o filho, na medida em que ele projeta sobre este último as suas expectativas não realizadas [19].
Novamente não adianta repressão. Nem fantasmas, nem fantasias desaparecem através de repressão. Ao invés disto cabe o entendimento. Examinando origens, causas e circunstâncias dos problemas, estamos trabalhando no sentido da sua desconstrução.
A forma aqui preconizada para o entendimento é a análise, em particular, a auto-análise escrita. Nas próximas seções daremos maiores detalhes e melhor fundamentação para estas idéias. Por hora, quero somente ressaltar a importância da análise no estabelecimento do foco do problema. A história que narro a seguir, ilustra bem esta idéia [20]. Evidentemente, análise e entendimento podem também ter diversos outros papeis que serão mencionados mais adiante.
Para melhorar a produtividade dos operários de uma fábrica, os engenheiros resolveram testar diversas cores das lâmpadas usadas para iluminação do ambiente. Retiraram as lâmpadas de cor branca e colocaram lâmpadas de cor amarela, verificando um aumento de produtividade de x%. Aí colocaram lâmpadas de cor azul, mas o aumento de produtividade continuou estacionado no mesmo nível. Fizeram diversas outras tentativas com as cores verde, vermelho, laranja, etc., mas o resultado permanecia o mesmo. Estabeleceram-se diversas teorias. As conclusões mais importantes eram que o aumento de produtividade era decorrente do uso de luz colorida, não importando qual fosse a cor. O aumento de produtividade era de x%, não sendo possível ultrapassá-lo.
Foi aí que um engenheiro teve a idéia de voltar a colocar as lâmpadas brancas originais. Qual não foi a surpresa ao verificar que a produtividade continuava estabilizada no mesmo nível. Ou seja, mesmo voltando a colocar as lâmpadas antigas, a produtividade não decrescia, continuando estável no novo patamar. O artigo concluía que o aumento de produtividade era decorrente do foco. Ou seja, o fato dos operários se sentirem valorizados por participarem de um experimento era mais importante do que a cor das lâmpadas.
Algo semelhante acontece com os problemas psíquicos, embora, não necessariamente, a justificativa seja a mesma. Na medida em que o foco da nossa atenção é jogado sobre os problemas, na medida em que a gente os examina, trabalha e deles se ocupa, damos um passo na direção da sua solução.
Para finalizar esta seção quero dedicar uma palavra para descrever a força motriz que nos conduz ao longo de todo este processo de análise e entendimento. Existe uma espécie de consenso na afirmação de que o que o ser humano busca é a felicidade. Só que felicidade é uma palavra coringa que pode servir para designar qualquer coisa. Para Frankl, citado nesta seção, trata-se de encontrar o sentido da vida. Para Freud é a satisfação da libido.
Aqui, neste trabalho, a força motriz é a busca da paz. Vimos no capítulo 2 que tanto o instinto ou impulso de vida (Eros) como o de morte (Tânatos) podem ser interpretados como manifestações da busca por paz. Sexo (Eros) é a busca da paz, na medida em que a satisfação dos desejos resulta em paz. Mas também a morte (Tânatos) nada mais é do que busca de paz, na medida em que morte é paz eterna. Se, de um lado, morte é um movimento de cisão em relação à vida, do outro lado, morte é o retorno para o ventre da mãe-terra e o ventre da mãe é possivelmente a experiência mais concreta de união e paz.
É inevitável que união venha frequentemente associada a um movimento complementar de cisão. Diversas vezes aqui foi afirmado que união significa paz e que cisão gera sofrimento e dor. Como é possível, então, que a busca de paz gere tanto movimentos de união como de cisão? Não tratar-se-ia de contradição?
A resposta a esta pergunta implica em reforçar que o caminho aqui trilhado é dialético, ou seja, inclui a contradição. Caminhar é movimento e o movimento é gerado pelo embate dos contrários. Assim, o caminhar em direção à união, não necessariamente exclui cisão.
Consideremos, por exemplo, o desenvolvimento da criança. Ele é composto de uma sucessão de movimentos de união e cisão. Ao mesmo tempo que a criança tenta se integrar na sociedade ela necessariamente tem que se libertar das amarras que a prendem aos pais. A integração com a sociedade é um movimento de união que, a longo prazo, visa a obtenção de paz. A separação dos pais é um movimento de cisão que costuma gerar sofrimento e dor.
Se jogarmos o foco em cima do primeiro dos movimentos, e se dermos um zoom, veremos que a própria integração na sociedade é constituída por uma sucessão de movimentos de união e cisão. Basta, por exemplo, considerar, que a tentativa de aproximação de uma pessoa pode, primeiramente, ser respondida positivamente, mas, depois, vir acompanhada de rejeição.
Quero reforçar estas idéias examinando um aparente paradoxo. Se a força motriz que nos impulsiona é a busca da paz, como explicar que a história da humanidade tem sido uma sucessão de guerras e conflitos? Como no desenvolvimento da criança, a busca da paz dentro da sociedade é constituída por uma sucessão de movimentos de união e cisão. Luta não necessariamente significa destruição. Luta pode ser construção e é do embate de contrários que pode surgir a síntese que leva à paz.
Somos uma coleção de partes, cada parte com sua forma de encontrar a paz. O resultado é uma torre de Babel e os conflitos surgem justamente pela incapacidade de se entender e de se unir na busca de um caminho comum.
Dentro da sociedade, o processo de luta é um procedimento complexo e demorado [21]. Por causa disto, vou preferir concretizar as idéias acima tomando como base a luta interna. Ou seja, ao invés de examinar o embate entre diversos indivíduos, vou examinar o processo que se dá no interior de um indivíduo. Dentro da visão aqui defendida, realidade externa e interna envolvem processos semelhantes [22]. Através da análise da questão do medo, já examinada no início desta seção, veremos como buscar a unidade através do entendimento [23].
Eu tenho a firme convicção que o que nos move é a busca da paz, e, se nem sempre o conseguimos, é porque existem bloqueios e entraves que representam o embate de formas diversas de atingir este objetivo. As diferentes opções de diversas partes do nosso eu, representam épocas e experiências distintas. Fruto destas experiências, cada parte tem o seu caminho, e é isto que leva ao conflito. Por exemplo, frente a um perigo ou ameaça, a reação da criança costuma ser o medo. É o medo que deflagra o choro e a fuga, e estes são os recursos que a criança tem para se defender. Para o adulto, no entanto, o medo funciona como um bloqueio, impedindo a busca de outras soluções.
A reação usual é a repressão. O eu-adulto passa a reprimir o medo sentido pelo eu-criança. Pelos motivos já vistos no início desta seção, tal solução meramente reforça o medo. O que aqui se defende é o entendimento. É ele que vai possibilitar que do embate de soluções opostas, todas elas representando a busca de paz, surja um caminho comum.
O primeiro passo é entender quais as circunstâncias e porque a criança optou pelo medo como solução para enfrentar o perigo. O segundo passo é entender que estas circunstâncias pertencem ao passado e que o presente oferece outras alternativas. É, no entanto, ilusão achar que somente isto vai conseguir reverter, como num passe de mágica, o sentimento de medo, principalmente se este padrão de comportamento foi incutido por muito tempo [24].
Se reverter um padrão comportamental é um processo difícil e demorado, pode ser necessária uma solução de compromisso. Trata-se do terceiro passo, consistindo em uma tentativa de conciliação entre o padrão antigo e o padrão novo. Por exemplo, se alguém tem medo de andar de avião, análise e entendimento possivelmente vão ajudar. Mas é ilusão achar que eles vão resolver o problema de forma imediata e definitiva. A solução pode consistir, por exemplo, em buscar uma outra alternativa de transporte, ou então, diminuir a frequência do uso da via aérea. Pode também levar ao uso de algum ansiolítico ou tranquilizante no caso de uma viagem eventual. Muitas outras soluções de compromisso são possíveis, inclusive uma mudança de estilo de vida que leve a evitar viagens aéreas. Pode se tentar um aprendizado com viagens curtas que aumentam à medida que o medo seja desconstruído, ou então, utilizar simulação. Importante, no presente caso, é perceber que, paralelamente ao entendimento, deve ser procurada uma nova alternativa. Isto nos leva ao quarto passo que é justamente o aprendizado e a prática desta nova solução.
Quero dar um último exemplo de como a cisão existente no interior de uma pessoa pode ser colocada sob o denominador comum da busca de paz. Suponhamos que alguém se encontra em crise existencial. Uma parte do eu quer o suicídio. A outra parte quer viver. Aqui temos um clássico exemplo do embate de Eros e Tânatos. Como já foi dito, também a morte nada mais é do que a busca da paz.
O sujeito acima encontra-se cindido entre Eros e Tânatos e não é difícil imaginar que esta cisão lhe provoque profunda angústia. Somente o entendimento pode resolver este conflito. Isto pode fazer com que ele chegue mais sereno à decisão que vai nortear a sua trajetória, mas nada permite afirmar antecipadamente a natureza desta decisão. É possível que o entendimento o leve a reconhecer que, de fato, o suicídio é a melhor alternativa. Para alguém cuja perspectiva de vida é tão somente o sofrimento, seja por motivos de saúde, seja por questões sociais ou políticas, a morte pode ser a melhor saída [25]. Neste caso, o entendimento meramente amenizou os últimos instantes que lhe restavam.
Nesta história como é que fica o instinto de sobrevivência ou instinto de preservação (Selbsterhaltungstrieb)? Eu não nego a sua existência, nem nego que se trate de um instinto natural. Acho, no entanto, que também ele pode ser reduzido à busca da paz, uma vez que, normalmente, a vida, mesmo não significando necessariamente paz, significa momentos ou perspectivas de paz. Evidentemente existem partes do nosso eu que são movidos pelo instinto de sobrevivência. Se a vida, no entanto, estiver associada à uma dor intolerável, então pode haver uma outra parte deste eu que deseje a morte. Novamente é o entendimento que pode levar a uma convergência.
Na verdade, não importa o nome que se dê para a força que nos impulsiona. Pode ser união, busca de paz, mas pode também ser libido, ou, encontrar um sentido para a vida. O que é libido senão união? E quando Frankl diz que encontrar o sentido da vida é preencher o vazio existencial com Deus e sacrifício, não se trata justamente de encontrar o todo que tudo junta? Se é a busca da paz que nos leva à tentativa de união, ou, se é a união que nos leva à paz, é irrelevante.
Relevante é o reconhecimento da existência de uma força, comum a todos os seres humanos, que nos leva a buscar o caminho do entendimento. É isto que viabiliza a terapia aqui delineada. A tese aqui defendida é que existe uma força poderosa nos impelindo no sentido da união. Pode ser união consigo mesmo, pode ser união com o ser amado, pode ser com o pai ou a mãe, com o povo, pode ser união com a mãe-terra, com o pó de onde viemos, ou, melhor ainda, pode ser a soma de tudo isto.
Eu tenho a mais firme convicção de que esta força, nos impelindo na direção da união, existe. Eu sinto esta força atuar dentro de mim, eu a sinto nos outros e a sinto nos relatos consolidados da literatura, cobrindo uma gama imensa de exemplos. Eu a sinto até mesmo em um desesperado, que, em um supremo ato de desespero, apela para aquilo que seria considerado um típico ato de cisão: cisão com ele mesmo, cisão com o mundo e com a sociedade. Mas, o que é a cisão de um cindido senão desejo de união? Quem odeia a todos, no fundo se odeia e, possivelmente, se odeia, porque odeia a todos. Ele se odeia, porque não aprendeu, ou, não conseguiu se reconciliar com os outros. Portanto, neste sentimento de ódio há implícito um desejo de união.
Visando resumir as idéias desenvolvidas nos últimos parágrafos, eu diria que a busca da paz é o objetivo último do ser humano. Ele reúne todas as demais motivações: impulso de vida, impulso de morte, instinto de preservação, etc. [26]. O que leva à paz é união. Cisão provoca sofrimento e dor. Acontece que, na maioria das vezes, união vem acompanhada de cisão. Ao se aproximar de alguma coisa a gente se afasta de outra. Isto significa que um sentimento de paz vem, na prática, frequentemente acompanhado de sofrimento e dor. Dentro de uma visão dialética contrários não necessariamente se excluem.
Junto com Victor Hugo eu diria que il n’y a ni mauvaises herbes ni mauvais hommes. Il n’y a que de mauvais cultivateurs [27]. Eu diria mais. Somos nós que cultivamos o nosso jardim, e, mesmo que as plantas tenham sido plantadas no local ou da forma errada, existem formas de reverter este processo.


Um exemplo para o entendimento: análise manuscrita ou digital?

Tomando como base uma questão formal, esta seção visa ilustrar e ressaltar mais algumas características do papel terapêutico do entendimento. A forma terapêutica aqui adotada para o entendimento é a da auto-análise escrita. Nada, mas absolutamente nada obriga que assim o seja. A argumentação mais forte que eu posso dar para defender a auto-análise escrita, é o fato de eu ter feito, e continuar a fazer uso dela, ou seja, trata-se de razões de cunho estritamente pessoal. Eu teria toda a compreensão do mundo para análise feita com um psicanalista, um amigo, parente ou grupo, usando a forma oral, falando sozinho ou com o espelho, celular ou gravador. Evidentemente análise e auto-análise, forma escrita ou oral, têm vantagens e desvantagens e elas serão mencionadas mais adiante.
No que diz respeito à auto-análise escrita pretendo, nos parágrafos seguintes, jogar alguma luz sobre uma questão aparentemente irrelevante: análise manuscrita ou digital? Deve a análise ser escrita à mão com lápis e papel, ou deve ser digitada no computador?
À primeira vista trata-se de algo inteiramente secundário. Veremos, no entanto, que a discussão traz à tona diversos aspectos da análise que é preciso considerar. Por exemplo, uma primeira observação, a meta-nível, é que na análise é preciso atentar para os detalhes. As pequenas coisas, que nos parecem desprezíveis ou sem importância, devem merecer tanta atenção quanto aspectos considerados relevantes.
Um segundo ponto importante, trazido pela observação acima, diz respeito aos diversos níveis em que as coisas acontecem. É preciso considerá-los a todos. Aqui, por exemplo, estamos fazendo uma observação a meta-meta-nível [28]. A meta-nível cabe a constatação feita no parágrafo anterior de que na análise é preciso atentar para os detalhes. O nível, temos a comparação das formas manuscrita e digital.
Voltando ao cerne da discussão, cabe dizer que até 2007 as análises que eu fazia eram todas manuscritas. A partir desta data, visando possibilitar análises mais elaboradas, que permitissem correções e alterações, passei a utilizar o computador, continuando, no entanto, a utilizar a forma manual para o descarrego. Chamo de descarrego situações de crise ou de emergência, angústias surgidas no meio da noite, para as quais a forma manuscrita parecia ser a mais apropriada.
Em função de um envelhecimento que diminui a habilidade manual, a partir de um certo momento, passei a apelar para a análise digital até mesmo em situações de descarrego. Se no meio da noite surgisse uma situação de crise, eu fazia algumas anotações manuais e, no dia seguinte, trabalhava em cima delas no computador. Foi numa destas situações que surgiu a dúvida: a análise feita na forma digital tem o mesmo efeito que a análise manuscrita?
A primeira resposta que nos vem a esta pergunta é o obviamente sim. No entanto, nada é exatamente igual, e é no espaço das pequenas diferenças que se move boa parte do mundo. A ponta que se esgueira pela pequena brecha pode ser a de um iceberg [29].
Passei a refletir em cima das diferenças entre a análise digital e a manuscrita e as idéias que estou aqui trazendo são fruto deste trabalho. Em termos de efeito quais seriam as diferenças? Haveria diferença?
Aqui surge um terceiro aspecto da análise a ser considerado: a importância do efeito. O efeito da análise tem que ser claramente perceptível e tem que aliviar dor e sofrimento. O que valida a análise é o alívio que ela dá. Este alívio é o supremo árbitro para julgar se estamos no caminho certo, para definir o que funciona e o que não funciona.
Voltando para a comparação entre a forma manuscrita e digital devo dizer que eu, como a maioria dos mortais, apesar da racionalidade, sou cheio de crenças aparentemente irracionais. O que passou pela minha cabeça é que uma análise feita no computador não poderia ter o mesmo efeito que uma análise manuscrita. De fato, lembro-me da sensação de alívio ao escrever de noite no papel [30]. Por alguma razão eu acordava intranqüilo, me dirigia à mesa da cozinha, mais afastada e mais tranquila, papel e caneta na mão. Ficava escrevendo por algumas horas até me acalmar. Este sentimento de libertação de uma carga, este sentimento de alívio, não o tenho tido nas minhas longas análises digitadas no computador. Seria uma mera coincidência ou seria pelo fato da análise digital ser feita de dia, quando costumo estar mais aliviado de tensões e angústias? Existiria algum fundamento nestes receios?
De fato, sentado frente ao computador, o fluir da palavra é menos direto do que no papel, a postura é diferente. No computador lê-se e relê-se o texto, fazem-se correções e mudanças. Tudo isto distancia. Além disso, no computador existe a obsessão pelos resultados que também nos afasta desta ligação íntima com o papel. Quando escrevo manualmente não tenho a menor preocupação com aquilo que eu vou fazer com o texto. Normalmente não faço absolutamente nada. Só não jogo fora o papel, porque acho que um dia posso querer relê-lo. Já na forma digital, como trata-se de uma maneira mais elaborada de escrever, como é uma forma mais fácil de ser modificada, aprimorada e, portanto, aproveitada, a preocupação em torno da utilidade do trabalho torna-se mais presente. Tudo isto são barreiras que se erguem entre a cabeça e o papel.
Existe ainda a questão do sacrifício ou da penitência que costuma estar presente em toda tarefa ou trabalho. A forma manuscrita é mais trabalhosa e demanda maior esforço físico. Dentro da perspectiva judaico-cristã em que prevalece o no pain, no gain, a análise digital teria menos valor.
Na comparação entre forma manuscrita e digital existe um último fato que tem que ser mencionado. Se eu tivesse certeza de que a forma digital, de fato, introduz distanciamento, e que este prejudica o efeito da análise, então eu teria usado a forma manuscrita. Acontece que eu não tenho esta certeza. Tudo pode ser produto de crença e superstição semelhante àquela do torcedor de futebol que veste uma camisa vermelha no dia do jogo do seu time, simplesmente porque no jogo anterior, no qual seu time venceu, ele estava com uma camisa desta cor [31]. Pode ser que tudo não passe de manifestações de medos infantis [32]. Como utilizei por muito tempo a forma manuscrita, tenho medo de mudar [33].
Voltando à discussão das formas assumidas pela análise escrita, verificamos um impasse. De um lado existem as dificuldades associadas à forma manuscrita, desde desconforto físico até incômodos associados à interrupção do sono. Do outro lado, a forma digital traz à tona uma série de problemas, desde obsessão por resultados, distanciamento entre cabeça e papel, até uma série de medos, possivelmente crenças e superstições. Estas dificuldades acabam tornando imperiosa a busca de uma solução de compromisso.
Na raiz dos problemas costumam atuar forças e interesses diversos. Alguns podem ser desconstruídos através do entendimento, outros têm que ser aceitos. Nem sempre é possível resolver a situação de uma maneira fácil e direta e frequentemente é preciso buscar soluções intermediárias.
No presente caso, a solução de compromisso foi criar no computador a série Rascunhos. A idéia dos Rascunhos é possibilitar o descarrego, ou seja, escrever tudo aquilo que me vem à cabeça. Trata-se de textos que, apesar de digitalizados, não têm grande preocupação formal, nem grande elaboração, organização ou profundidade.
Como nem sempre a intenção prevalece, resolvi fazer um teste prático [34]. No caso analisado, o sintoma principal da angústia eram as perturbações do sono e os sonhos carregados de tensão e preocupação. Será que alguma coisa melhoraria com a solução de compromisso adotada [35]?
De fato, algo muito mágico aconteceu. Em uma certa madrugada acordei por volta das 4 ou 5 horas da manhã. Estava intranqüilo, um pouco angustiado e com leve taquicardia. Fui ao banheiro evacuar (sentia um peso na barriga) e depois me vieram uma série de idéias que anotei de forma apressada num papel. Adveio um alívio, voltei à cama e dormi. No outro dia elaborei as idéias no computador e faço abaixo um resumo dos principais pontos.
            A primeira e talvez mais importante idéia que me veio à mente foi a do insight. Eu antes não tinha conseguido formular precisamente esta questão, mas, no fundo, a minha grande preocupação era que a análise na forma digital não provocasse insight. O insight, ao menos no meu entender, não é meramente uma luz na mente. O insight, para mim, associa-se a sentimentos e emoções e, na maioria das vezes, produz uma sensação de alívio e indizível bem-estar. Sinto o nó se afrouxar. É como se eu, de repente, me livrasse de uma carga pesada e neste sentido o sentimento apresenta semelhanças com a evacuação [36]. Sinto-me leve, aliviado e uma paz serena invade o meu corpo. Frequentemente sorrio, às vezes choro e agradeço a alguma força superior por ter me ajudado a desatar o nó [37].
            A conclusão óbvia que eu tirei é que, apesar da forma digital que vinha sendo utilizada na elaboração das idéias, tinha havido insight. Na verdade, o insight era sobre a ocorrência de insight, ou seja, tratava-se de um meta-insight [38]. De qualquer forma tinha havido alívio dos sintomas de angústia, ou seja, a nova forma de elaboração da análise estava produzindo resultados. As noites seguintes foram mais tranquilas e o sono mais repousante.
            Temos aqui a resposta prática e direta às dúvidas surgidas. Constato, na prática, que o insight acontece mesmo com a análise feita na forma digital. Forma manuscrita e forma digital podem conviver juntas, anotações feitas na forma manuscrita e desenvolvimento feito na forma digital. Existe uma espiral virtuosa em que o insight anotado na forma manuscrita (o meta-insight) resolve questões levantadas pela forma digital. Por sua vez este meta-insight vai ser trabalhado na forma digital, ou seja, a forma digital vai trabalhar e tentar resolver questões levantadas na forma manuscrita. Existe, portanto, um fluir do digital para o manuscrito e vice-versa, representando a síntese das duas formas.
            De forma prática e direta, temos aqui uma demonstração das forças que atuam na busca da solução dos problemas. No embate entre forma manuscrita e forma digital aparecem fatores como medos, distanciamento dos objetivos originais, obsessão por resultados, cansaço físico, angústias, alívio, inércia, hábitos, crenças, superstições, etc. A primeira reação foi a repressão, tentando negar a importância do problema, classificando-o como irrelevante. Ela pode ser entendida como tentativa de chegar à paz suprimindo dúvidas e questionamentos. Contrapondo-se à repressão existe a análise e o entendimento. Eles permitem a conciliação das diversas forças através da solução de compromisso. Mais tarde surgem os insights trazendo material do inconsciente. Tudo isto contribui para a resolução do problema.
            Para finalizar esta seção vou mencionar um sonho que tive justamente quando eu estava escrevendo o texto acima. Inicialmente pode parecer que o sonho não tem relação nenhuma com o material examinado. Veremos, no entanto, que o cerne do sonho é a busca por espaço e este é exatamente o papel da análise e do entendimento: abrir espaço para que os problemas possam ser trabalhados.
O sonho foi sobre uma mulher velha. A velha pertencia à família embora não ficasse claro quais eram as relações de parentesco. Elas deviam, no entanto, ser fortes o suficiente para justificar a velha se aproximar de mim e reivindicar espaço. O que exatamente era este espaço eu não me lembro e acho que o sonho não o definia direito. O que eu me lembro é que eu, para não me aborrecer, fazia a concessão, mas depois não cumpria. Gerava-se um conflito entre a velha e eu em cima da promessa feita.
Fiquei muito tempo refletindo em cima do sonho e do seu significado. A primeira coisa que passou pela minha cabeça foi que conflitos insolúveis podem surgir de incidentes aparentemente bobos como este em que alguém faz uma promessa e não cumpre. Quantas famílias ou quantos relacionamentos são destruídos por promessas não cumpridas?
Existe, no entanto, um outro ângulo pelo qual a questão pode ser olhada. No sonho, o conflito com a velha surge inicialmente por busca de espaço. Porque é que esta necessidade fica vaga e indefinida? É de sua natureza ou será que é resultado de repressão? Este caráter difuso e desfocado da demanda da velha, no entanto, repentinamente ganha foco através da promessa não cumprida. A velha reivindicava espaço. Qual espaço? Não se sabe. Logo depois a velha reivindica o cumprimento de uma promessa, e agora sim, trata-se de um alvo claro e bem definido. O que houve foi o deslocamento de um objetivo amplo e difuso para um objetivo mais restrito, mas mais bem definido. Não teria sido esta a finalidade de todo o sucedido? Nos relacionamentos entre pessoas, os incidentes que ocorrem, frequentemente são catalisadores de conflitos maiores que não aparecem, mas que existem potencialmente. Visto sob este ângulo, a velha conseguiu, no sonho, dar contornos claros e precisos a uma demanda difusa. Do outro lado, eu troquei um problema possivelmente grande e complicado por um outro aparentemente menor que eu vou empurrando com a barriga. A solução encontrada, a da promessa não cumprida, não teria significado uma melhoria para ambos os lados?
Existe um terceiro ângulo pelo qual a questão pode ser vista. O que é que tudo isto tem a ver comigo e com o momento atual? Eu não consegui estabelecer o grau de parentesco com a velha, ou seja, não se tratava de alguém que eu conhecesse bem. Mais: não costumo fazer promessas e muito menos deixar de cumpri-las. No que diz respeito às necessidades insatisfeitas, sejam minhas, sejam de pessoas próximas, embora nem sempre seja possível satisfazê-las, eu costumo preferir o diálogo e a discussão a promessas vagas e indefinidas. Não costumo reprimir os problemas, muito menos fingir que não existem ou varrê-los para baixo do tapete. Finalmente, não me lembro de nenhum evento em que eu me deparasse com uma situação nem remotamente parecida com a do sonho. Em particular, não me lembro de ter sido cobrado por outras pessoas, por causa de promessas feitas.
Estava eu imerso nestas dúvidas quando me veio o insight. O próprio sonho oferecia a solução. Ele tinha me acordado durante a noite e perturbado o meu sono e agora, estava lá, com as suas dúvidas e seus questionamentos impedindo a minha necessidade de dormir. O sonho, ele próprio, estava a requerer espaço para ser trabalhado.
De uma maneira geral, e isto não é somente válido para o sonho em questão, os sonhos representam problemas em aberto, dificuldades, frustrações ou questões que necessitam ser trabalhadas. Frequentemente, assoberbados de serviços e tarefas, não lhes dedicamos tempo e espaço suficiente.
Um problema não resolvido não pode ser plenamente incorporado ao nosso conhecimento. Usando a terminologia de Piaget, trata-se de algo que não faz parte da nossa estrutura, não foi assimilado em toda a sua plenitude. Nesse sentido gera-se cisão e esta provoca sofrimento e dor. Para dormir precisamos de paz. Ou seja, precisamos trabalhar o problema, assimilá-lo, digeri-lo e integrá-lo, para assim voltar a encontrar a paz.
A análise escrita significa a elaboração e a estruturação das ideias. Ela também representa um download, na medida em que se coloca no papel pensamentos que estavam na cabeça. Com isto, abre-se espaço para novos pensamentos, dando continuidade ao trabalho de estruturação.
Dentro desta interpretação, o sonho representava uma demanda dos problemas por espaço. Possivelmente eram problemas velhos e daí o símbolo da velha. Eu não atendia a demanda e os ficava enrolando. O sonho vinha me lembrar dos compromissos assumidos.
Em particular, existe uma questão que o sonho traz e que está relacionada ao dilema da redação manuscrita ou digital. Frequentemente os problemas aparecem durante a noite porque é quando a censura é mais fraca. Por causa dos inúmeros afazeres que nos ocupam de dia, os problemas são recalcados para o inconsciente. Gera-se um dilema. De um lado, os problemas requerem tempo, e antigamente eu lhes abria espaço à noite, através da auto-análise manuscrita. Atualmente, faço tão somente algumas anotações para serem elaboradas no outro dia. Acontece que, de dia, eu tenho muitas outras tarefas a fazer, de forma que, frequentemente, a análise dos problemas acaba sendo adiada. Ou seja, a nova metodologia acirrou a disputa por tempo e espaço.
Novamente é preciso uma solução de compromisso. De um lado é preciso trabalhar os problemas, digeri-los para incorporá-los. Somente desta forma podemos voltar a encontrar a unidade e a paz. Do outro lado, à noite é preciso dormir, e durante o dia é preciso desempenhar as tarefas e cumprir as obrigações. Ou seja, existe a competição por um recurso escasso. Para complicar ainda mais a situação, há que reconhecer que a quantidade de problemas que precisa ser trabalhada e analisada não é algo fixo e constante, mas, depende dos acontecimentos e da nossa sensibilidade. É esta última que define o que é um problema e o que não é. Acontece que a sensibilidade é afetada pelo próprio trabalho de análise, ou seja, a análise tem um papel retroalimentador. Quanto mais trabalhamos os problemas, tanto mais problemas aparecem para serem trabalhados. Qual a solução para este impasse? A solução pode ser, por exemplo, estabelecer uma hierarquia de problemas, ou seja, uma fila na qual o problema entraria em função da sua prioridade. Uma outra solução de compromisso pode ser, por exemplo, eu me reeducar para que os problemas surjam em outra hora. Se os problemas surgem à noite, eles perturbam o meu sono, e eu tenho que anotá-los de noite e elaborá-los durante o dia, o que representa um duplo trabalho. Se eu ficar consciente de que é a repressão que faz com que surjam à noite, talvez, eles apareçam durante o dia o que facilitaria a sua análise. Existe também todo um trabalho de dessensibilização a ser feito. Como eu disse acima, um problema não é algo absoluto, mas sim, é aquilo que a sensibilidade detecta como sendo um problema. Os problemas são filhos do medo. Quanto mais medo se têm, tanto mais problemas surgem. Tudo isto são questões a serem trabalhadas.


Análise, auto-análise e Freud

No texto que se segue procuro mencionar características adicionais da análise. Procuro também justificar a auto-análise escrita mencionando as suas vantagens e desvantagens. Termino a seção tentando delimitar as diferenças entre o método aqui proposto e a psicanálise freudiana. Dentro deste contexto é feita uma crítica a algumas idéias utilizadas por Freud. Gostaria de deixar bem claro que esta crítica em nenhum momento visa questionar a imensa contribuição dada por Freud à saúde mental.
Um primeiro papel da análise a ser ressaltado é o distanciamento. Colocar os problemas no papel, ou, de forma semelhante, expressá-los através da fala, significa colocá-los para fora. O distanciamento em relação a um problema é fundamental para que a gente possa trabalhá-lo. Crítica e avaliação são imprescindíveis, e todo trabalho é o resultado de um embate dialético entre imersão / aproximação e julgamento / distanciamento. Sem se afastar da obra somos incapazes de julgá-la e sem julgamento não há mudança ou superação [39] [40].
O distanciamento é um passo decisivo na direção do reconhecimento do problema, mas as soluções e alternativas precisam ser procuradas e depois implementadas. Poucas vezes o mero entendimento do problema leva à sua solução.
Hábitos e costumes representam o nosso passado e definem aquilo que somos. Inércia é fundamental. Se nada se opusesse às guinadas da nossa vontade, nada seríamos, porque seríamos outra coisa a cada momento. Acontece que a inércia torna a superação dos problemas longa e demorada.
Por exemplo, se alguém tem um padrão sexual que não o satisfaz, então, primeiramente ele tem que examinar as razões da sua insatisfação e os motivos que o levaram a esta situação. Isto, no entanto, poucas vezes é suficiente. Há que introduzir modificações no seu padrão e isto pode levar tempo.
Outra questão, na análise, que requer a nossa atenção, é o perigo da excessiva imersão em si mesmo. Já mencionamos neste capítulo a crítica que Frankl faz ao autocentrismo. O remédio que cura, também mata. Tudo depende da dosagem e da intensidade de uso. Mas, como já foi dito, pior do que ocupar-se excessivamente de um problema é negá-lo. O enfoque aqui é dialético e o objetivo é preocupar-se para livrar-se da preocupação.
O preocupar-se para livrar-se da preocupação acaba trazendo à tona os dualismos fazer / deixar acontecer, dominar-se / aceitar-se, cabeça / corpo, abertura / fechamento que já foram vistos na seção Terapia e dialética no Capítulo 3. De um lado, análise é abertura, porque a racionalidade é a ponte que junta as partes do eu, junta o eu com o mundo. Do outro lado, é fechamento, na medida que significa ensimesmamento, imersão em si mesmo. De um lado, análise é cabeça, na medida em que implica em reflexão. Do outro lado, pode ajudar a desconstruir a repressão e, neste sentido, remover barreiras à sensibilidade e à entrega aos sentimentos. Análise é ego, é vontade, é a tendência de tudo querer dominar e controlar. Mas, na medida em que, através da análise, se sintoniza esta vontade com o todo, ultrapassa-se os limites do ego e se faz a conexão com o mundo. Se, de um lado, a análise é fazer, na medida em que nos leva a tentar mudar características da nossa vida e da nossa personalidade, do outro lado, nos leva a reconhecer que existem aspectos que têm que ser aceitos. A perspectiva aqui é dialética e há que aprender a conviver com tendências contrárias.
Gostaria ainda de mencionar a variedade de ângulos e pontos de vista dentro das quais a análise deve se dar [41]. A título de ilustração, menciono uma questão na qual eu cheguei à conclusão que a melhor solução era abandonar a análise, porque havia um número excessivo de aspectos envolvidos e a minha ignorância sobre eles era grande. Eu não tinha condição nenhuma de saber o que era certo e o que era errado e, sem este julgamento, eu não tinha condição de escolher o rumo. Me encontrava perdido em mar revolto, sem bússola e sem orientação. Depois de um certo tempo, e após um pouco de reflexão cheguei, no entanto, à conclusão que este argumento era tão somente um pretexto para eu me afastar de um assunto que me era penoso e desagradável.
No caso acima, é importante ter em conta que as duas perspectivas, aparentemente opostas, estavam corretas. A questão era de fato complicada, a análise era difícil e a incerteza era grande. Este fato, no entanto, era usado como pretexto para evitar a análise. Aqui temos um caso semelhante ao que ocorre quando se olha uma montanha. De cada lado que se olha, o aspecto da montanha é diferente, a tal ponto que as diversas vistas não parecem pertencer a um mesmo objeto. De um lado, a montanha apresenta uma escarpa íngreme. Do outro lado a encosta sobe suavemente. De um lado a montanha é coberta por densa vegetação. Do outro lado existem somente pedras e rochedos. E, no entanto, trata-se de aspectos complementares do mesmo objeto. Apesar de aparentemente contraditórios eles são parte de uma mesma realidade. A mesma coisa pode acontecer na análise. Dependendo da perspectiva sob a qual se vê o problema, a conclusão é diferente. No entanto, todas as perspectivas têm que ser consideradas, todas as conclusões são válidas. Somente todas reunidas descrevem o problema como ele de fato é, em toda sua totalidade.
Nos parágrafos acima procurei caracterizar análise e entendimento e mostrar alguns cuidados que têm que ser tomados. Nos parágrafos que se seguem quero dar algumas justificativas para a escolha da auto-análise escrita. Como já foi dito, trata-se da forma aqui adotada para o entendimento.
Evidentemente a auto-análise escrita cai em mim como uma luva. Gosto de escrever e para mim a escrita flui fácil. Adicionalmente, prezo a autonomia, a independência e a auto-suficiência. Gosto de solidão, valorizo a reflexão e tendo a concentrar a minha atividade na cabeça.
Dito isto, quero passar para alguns aspectos mais gerais. Se partirmos da premissa que problema e solução estão associados a uma visão de mundo, e que é impossível dissociar uma terapia de uma cosmovisão, então, o fato de terapeuta e paciente terem óticas distintas, compromete o sucesso do tratamento [42].
O raciocínio exposto acima pode também ser formulado de outra maneira. Se partirmos do princípio que análise é uma questão de se encontrar, de encontrar o seu caminho, então, a introspecção da auto-análise é fundamental [43]. É claro que isto não necessita excluir a participação de outras pessoas, mas o trabalho feito dentro de si mesmo tem que existir.
Neutralidade não existe. Assim como não existe neutralidade de uma forma geral, também não existe neutralidade em ciência. A idéia de uma terapia universal, livre de valores (value-free), válida para todo tipo de paciente, em toda situação, independente de visão de mundo, contexto cultural, credo ou religião, nada mais é do que marketing. Mesmo na matemática, aparentemente a mais neutra das ciências, teorias são desenvolvidas a partir de axiomas, e axiomas traduzem princípios que podem ser aceitos ou não. Os princípios trazem implícita uma visão de mundo e uma perspectiva histórica. A própria lógica que embasa toda a matemática deixa bem clara esta questão. Somente a título de ilustração, cito o princípio do terceiro excluído (tertium non datur). Trata-se de uma premissa aceita por boa parte dos matemáticos, mas que não necessariamente o precisa ser. A sua não aceitação leva a lógicas alternativas e a concepções também alternativas do conhecimento [44].
Nos parágrafos acima apresentei alguns argumentos a favor da auto-análise escrita. Cabe, no entanto, relativizar as idéias expostas. Primeiramente a auto-análise, por motivos óbvios, não se presta a tratar pacientes ou indivíduos que se encontram em crise, ou seja, que se encontram em uma fase aguda e grave dos distúrbios psicossomáticos. Em segundo lugar, a auto-análise parte de certos pré-requisitos que nem todos atendem. Entre eles eu mencionaria: disponibilidade de tempo, familiaridade com a reflexão, capacidade de introspecção, disciplina, certa formação cultural, etc. Em terceiro lugar, auto-análise é terapia da palavra, e, evidentemente não pode ser usada por pessoas que não estão em condições ou não tem o domínio do verbo.
Auto-análise traz, de certa forma, embutida, a auto-suficiência e a imersão em si mesmo. Neste sentido, a proposta da auto-análise não seria antes uma síndrome de um problema, ao invés de uma solução? Não é necessário um olhar externo para fazer a crítica, reconhecer erros, corrigir a perspectiva, enriquecer a análise e propor modificações?
A resposta a estas perguntas é ao mesmo tempo sim e não. É claro que nós não somos auto-suficientes. É claro que somos um produto do meio e da nossa interação com o mundo [45]. Mas a nossa própria existência garante esta interação e a auto-análise não a impede. Pelo contrário, uma das propostas da auto-análise é examinar a interação com o mundo externo, e, neste sentido, a reforça. O que se está meramente dizendo é que a auto-análise é um momento de introspecção que também tem que existir. A vida moderna tem sido muito mais para fora do que para dentro e, neste sentido, a auto-análise tenta corrigir este viés.
            Através da introspecção da auto-análise nós nos tornamos conscientes dos problemas. Lentamente, através de associações, interpretações de sonhos e símbolos, informações imersas no inconsciente são trazidas à tona, isto é, tornam-se conscientes. Esta metodologia guarda algumas semelhanças com a psicanálise freudiana, mas quero aqui ressaltar algumas diferenças.
Em primeiro lugar, as categorias de consciente e inconsciente no primeiro modelo de Freud e ego, superego e id no segundo modelo, guardam uma rigidez e uma estaticidade que eu só consigo explicar como herança do positivismo. Aqui, neste trabalho, parte-se da fluidez e permeabilidade destas categorias [46]. As coisas transitam constantemente entre estes estados, ou seja, algo que era consciente pode não o ser algum tempo depois, e, algo que era inconsciente pode se tornar consciente, não somente através de sonhos e atos falhos, mas por uma lembrança, uma ocorrência ou associação com algum fato vivido ou pensado. Esta fluidez e permeabilidade tornam a categorização de importância secundária [47].
Por exemplo, um medo pode ser resultado de uma experiência traumática que pode ter sido mandada para o inconsciente. Neste caso é importante trazê-la à tona. Mas as raízes do medo podem também ser conscientes, e, mesmo assim, constituírem-se em problema. Se eu presenciei um naufrágio, este fato pode ser consciente, e, mesmo assim, me levar a ter medo de andar de barco.
O ser humano é cindido, e a cisão gera uma angústia que pode assumir proporções intoleráveis. As diversas partes do eu são fruto de experiências e aprendizados diferentes. Representam as influências que sofremos: família, escola, amizades, amores, experiências vividas, expectativas, formação cultural, pressões da sociedade, desejos, instintos, natureza, sensibilidade, herança genética, etc. A angústia é fruto do conflito entre estas diversas partes do eu e do embate delas com o mundo. O fato de algumas destas forças serem inconscientes representa uma dificuldade adicional, na medida em que, para trabalhá-las, é preciso torná-las conscientes. O foco, no entanto, é no conflito e em como resolvê-lo, e não no fato das forças serem ou não serem inconscientes.
Freud descobriu forças poderosas, inclusive a sexualidade, no inconsciente. Isto fez provavelmente que ele achasse que o inconsciente, ele próprio, constitui-se em cerne da problemática. Mas o inconsciente é tão somente o refúgio, o esconderijo das forças que causam o conflito. A raiz do conflito está nas forças que atuam sobre a psique, e não na forma que elas assumem para atuarem.
Para exemplificar, examinemos mais uma vez a questão do medo. Como vimos, quando surge um problema grave, a criança costuma reagir com medo e choro. O medo deflagra o choro e, através deste último, a criança normalmente consegue o que quer: alimentação, abrigo, calor, carinho, proteção, etc. O medo pode também levar à fuga e esta pode representar uma saída para o problema. Já para o adulto, medo, choro e fuga costumam ser reações inadequadas. Cabe lembrar que o medo imobiliza e que choro e fuga são discriminados na sociedade. Gera-se uma cisão entre eu-criança e eu-adulto [48]. Na superação deste conflito o entendimento das raízes do medo tem um papel fundamental. A idéia não é reprimir o eu-criança, mas juntar o eu-criança com o eu-adulto.
Evidentemente existem casos em que este conflito não é reconhecido. É preciso primeiramente trazê-lo à tona, ou seja, torná-lo consciente. Não se trata, portanto, de negar a importância do inconsciente. Mas a ênfase aqui é na união das partes cindidas do eu, e não no embate consciente x inconsciente [49] [50].
A minha experiência mostra que frequentemente soluções para as dificuldades são encontradas fora do âmbito do consciente. Tenho um problema que não consigo resolver; vou dormir e, de manhã acordo com a solução [51]. Existem inúmeros relatos na literatura e no dia a dia, que dão conta de situações como esta. O próprio insight ocorre fora do âmbito do consciente [52] [53].
Freud dá uma ênfase excessiva ao conflito [54]. No primeiro modelo trata-se do conflito entre consciente e inconsciente, o consciente tentando reprimir e resistir à tendência do inconsciente de trazer o material à tona [55]. No segundo modelo o conflito novamente ocupa o cerne da problemática. A disputa entre ego, superego e id traduz o choque entre natureza e civilização.
Como comentário ao primeiro modelo, eu diria que o inconsciente não é só o repositório dos desejos reprimidos, mas também é uma instância em que as questões são elaboradas, só que não de forma reflexiva. O que me parece haver é uma colaboração entre consciente e inconsciente, no sentido de minorar dor e sofrimento. Freud reconhece este fato e localiza a colaboração não-consciente no pré-consciente. De uma maneira um tanto radical eu diria que nada é puramente inconsciente, uma vez que não existe nada que não possa ser tornado consciente. E o inconsciente não é meramente um depósito ou arquivo onde as coisas são guardadas, mas é também um local onde as coisas são trabalhadas.
Com a afirmação acima eu não estou negando a existência de conflitos entre consciente e inconsciente. Muito menos, estou negando a existência de repressão (Verdrängung) e resistência (Widerstand). Eu concordo plenamente com Freud, que frequentemente o material é reprimido para o inconsciente tornando necessário trabalhá-lo para torná-lo consciente. Mas eu não compartilho a visão cética de Freud que coloca o conflito como inevitável e intrínseco. Da mesma maneira que música nada mais é do que a criação de uma tensão entre as notas pedindo a sua resolução, da mesma forma que o mundo nada mais é do que a alternância de movimentos de cisão e união, atração e repulsão, expansão e contração, os conflitos surgem para serem resolvidos.
Por exemplo, na controvérsia entre análise manuscrita e digital, vista na seção precedente, a partir de uma análise feita a nível de consciente, insights surgem do inconsciente, ajudando na superação do conflito. Frequentemente a partir de uma vontade consciente, forças a nível de inconsciente afloram trazendo uma solução para o problema. Como já vimos, existe uma força poderosa atuando dentro de nós no sentido da união e da superação dos conflitos.
Evidentemente nem sempre tudo é tão simples assim. Por exemplo, se alguém tem um profundo apego à sua mãe e se este apego é negado e reprimido, então existe aqui uma disputa entre consciente e inconsciente. Esta disputa gera dor, e é esta dor que faz surgir forças, algumas delas conscientes, outras inconscientes, atuando no sentido da sua superação. Dor é cisão e superação da dor implica em um movimento contrário de união, que pode inclusive levar ao afloramento de informações do inconsciente. Ou seja, cisão e união, disputa e resolução, são movimentos que se alternam, alguns a nível de consciente, outros a nível de inconsciente. Se é verdade que por vezes o consciente tenta reprimir o material para o inconsciente, também é verdade que por vezes o consciente faz o material aflorar.
O ceticismo de Freud é decorrente de sua visão conflituosa do mundo [56]. De um lado, ele considerava a sociedade como essencialmente repressora, do outro lado, ele acreditava em um ser humano libertário movido por desejos, impulsos e paixões. Cabe lembrar que Freud viveu em uma época em que a repressão sexual era muito forte, sofrendo, ainda por cima, influências do judaísmo, onde a moral ocupa posição central [57].
Eu não nego a existência de conflitos, mas acho que eles podem ser superados. De um lado, é possível construir uma sociedade menos repressora e, do outro lado, é possível educar os desejos, impulsos e paixões. É possível trabalhar o conceito de liberdade de forma que ele não mais represente um conflito inevitável entre indivíduo e sociedade, natureza e civilização [58].
Resumindo, eu não nego a existência do conflito, mas não compartilho a visão pessimista e conformista de Freud sobre a sua inevitabilidade e permanência [59]. Pelo contrário, conflito é o que faz valer a pena viver, porque viver nada mais é do que superar conflitos.
No segundo modelo, através de ego, superego e id, Freud menciona os principais atores do conflito. Eu diria que existem muitas outras forças atuando [60]. Por exemplo, um conflito pode acontecer porque existe dissonância dentro da sociedade. O indivíduo pode espelhar internamente estas contradições e isto pode gerar cisão.
Apesar do modelo ter se alterado diversas vezes ao longo de sua longa vida, existe a tendência em Freud de reduzir a neurose a um único modelo [61]. Aparentemente esta tendência é uma consequência do monismo que, por sua vez, mantém um vínculo estreito com o judaísmo. Adicionalmente existe em Freud um determinismo causal que não o deixa ver que causas e efeitos frequentemente trocam de posição. O determinismo em Freud é a base do seu racionalismo cientificista.
Outra crítica que pode ser feita a Freud é a passividade e a estaticidade das suas categorias. Aqui, pelo contrário, defendemos uma visão dinâmica de um ser humano ativo e capaz de modificar e atuar em cima das forças que o pressionam. Cada parte do eu, mesmo aquela pertencente ao passado, perdida no mais profundo recôndito do inconsciente, continua viva e ativa, faz parte do ser, atua sobre ele no cotidiano e por ele pode ser trabalhada e modificada.
Na psicanálise freudiana pode ser também questionada a importância dada à revelação. Chamo de revelação o tornar consciente idéias ou fatos que jazem no inconsciente e a psicanálise dá, em minha opinião, uma importância excessiva a este trabalho. Possivelmente trata-se também de herança do judaísmo, já que o velho testamente está repleto de revelações, visões ou mensagens divinas. O próprio Moisés é um símbolo da revelação, ao trazer a palavra de Deus na forma das tábuas da lei. Pode também ser uma consequência do ambiente de consultório ao qual a psicanálise freudiana se restringe. Dentro do consultório, a palavra do psicanalista ocupa um papel central e frequentemente é interpretada como revelação [62].
Evidentemente que análise e entendimento, preconizados neste trabalho, também são terapia da palavra, mas a ênfase aqui não é a revelação da informação, mas a sua estruturação. Esta nada mais é do que construção do conhecimento no sentido Piagetiano.
Para encerrar a crítica a Freud, quero mencionar algumas questões levantadas por Bettelheim em seu livro sobre psicologia de massas [63]. Além dos pontos já mencionados, Bettelheim critica a falta de proposta de Freud para uma vida satisfatória. Baseando-se em uma passagem bíblica, ele diz que a psicanálise parece ter mais alegria em um pecador que se arrepende do que em dez justos. Ou seja, o acento é colocado no trágico, ignorando-se os problemas do cotidiano. Como já foi dito, o foco da psicanálise é a neurose. As angústias do dia a dia recebem pouca atenção.
Bettelheim menciona que a psicanálise de Freud coloca o peso principal na esfera individual. Libido, desejos, impulsos e instintos são sempre examinados da perspectiva pessoal. Pouco espaço é dado a questões sociais e meio ambiente. Já mencionamos também a ênfase que Freud dá no passado, implicando em uma perspectiva causal dos problemas psíquicos. Pouco destaque recebem as perspectivas e os planos de futuro.


Ligando os pontos (parágrafos)

Este capítulo representa uma ponte entre cosmovisão e terapia. Esta ponte é dada pelo entendimento. Entendimento é construção de conhecimento, e, nesta construção, cabe colocar o eu, o mundo e os problemas. Ao longo desta tarefa estabelecem-se vínculos e conexões que se contrapõe à ruptura e cisão, fonte principal da dor e do sofrimento [64]. Entendimento, portanto, é terapia.
A construção do conhecimento nos leva a Piaget com o qual compartilhamos algumas perspectivas. Nos leva também à busca de um sentido para a vida, o que nos conduz a Frankl e Adler.
Entendimento, construção de conhecimento e sentido da vida são conceitos um tanto vagos, cabendo melhor dentro do campo filosófico do que dentro de terapia. Este fato nos leva a tentar formular uma proposta mais concreta. Trata-se da análise, em particular, da auto-análise escrita. Tenta-se caracterizá-la, mencionando razões e cuidados na sua adoção.
A menção à análise torna quase obrigatória a delimitação com a psicanálise e com Freud. Procuramos demarcar bem as diferenças que nos separam.
Análise é o pilar mais importante no qual se baseia a nossa proposta terapêutica. No entanto, na maioria dos casos não basta entender o problema e estruturá-lo. É necessário o aprendizado de novas perspectivas de vida e novos padrões de comportamento. É o que veremos no próximo capítulo.



[1] A parte inicial desta seção é baseada no trabalho de Kerstin Hecker, intitulado Jean Piagets Theorie der geistigen Entwicklung, acessado em outubro de 2018 em https://userpages.uni-koblenz.de.
[2] Veja também texto de autoria de Dennis Hohmann intitulado Jean Piaget – die kognitive Entwicklung in der genetischen Erkenntnistheorie, Escola Superior Vechta, 2006, consultado em janeiro e fevereiro de 2019 em www.dennishohmann.de.
[3] Aqui temos em Piaget implícita a idéia do todo uma vez que a incorporação cada vez maior de estímulos acaba resultando no todo, ou melhor, se aproximando dele.
[4] O que é um telescópio mais do que a extensão da nossa visão? Qual a diferença conceitual entre um telescópio e um simples óculos? Ambos se compõem de lentes. O computador nada mais é do que a extensão e o empoderamento do nosso cérebro. E o cérebro está ligado aos nossos sentidos. De uma maneira ampla podemos dizer que visão e tato participam dos cálculos de um computador, porque os cálculos nunca poderiam ser feitos sem que fossem vistos ou percebidos através dos sentidos. A construção de um pensamento se dá através da escrita, da fala ou da digitação. O cérebro pode pensar, mas este pensamento só consegue ser exteriorizado através dos sentidos. E qual seria o significado de um pensamento não exteriorizado? Mesmo em um caso hipotético futuro, em que eletrodos fossem instalados no nosso cérebro, podemos entendê-los como extensão dos nossos sentidos, da mesma forma que uma perna mecânica é uma extensão da perna normal.
[5] Aqui entra a dialética, apesar de Piaget não mencionar explicitamente este conceito.
[6] Veja J. Piaget, Piaget’s Theory, em Piaget and his school, Editores: B. Inhelder, H.H. Chipman, C. Zwingman, Springer Study Edition, 1976.
[7] A objetividade é uma tendência, um limite para o qual se tende à medida que o conhecimento aumenta.
[8] Veja Jean Piaget, Para onde vai a educação? Editora José Olympio, 20. Edição, 2011, pgs. 118 e seguintes.
[9] S. Freud, Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse, Gustav Kiepenheuer Verlag, 1935.
[10] Veja entrevista de Jean-Cleaude Bringuier com J. Piaget em Jean Piaget – Ein Selbstportrait in Gesprächen, Weinheim, Beltz Verlag, 2004, pg. 169 citado em Hohmann pg. 8, obra já referenciada.
[11] Veja Jean Piaget, Genetic Epistemology, primeira de uma série de palestras dada na Columbia University e publicadas pela Columbia University Press, traduzidas por Eleanor Duckworth e consultado por mim em www.marxists.org em 08/2018.
[12] Jean Piaget, Epistemologia Genética, Editora WMF Martins Fontes Ltda. 4ª. Edição 2012.
[13] Veja Viktor E. Frankl, Em Busca do Sentido, Editora Vozes, 45ª. Edição, 2019.
[14] Veja pg. 137 da obra acima citada.
[15] Veja pg. 133 da obra acima citada.
[16] Veja pg. 142 da obra acima citada.
[17] As informações que se seguem são baseadas no texto Individualpsychologie Alfred Adlers (Eine Einführung) de Dr. H. Khoshrouy-Sefat, consultado em www.adler-institut-mainz.de em 17/12/2019.
[18] Adler viveu nos EUA de 1934 até a sua morte em 1937.
[19] Arthur Miller ao jogar a luz no mundo irreal das fantasias e ilusões, faz também uma crítica ao sonho americano.
[20] A história faz parte de um relato que li há bastante tempo atrás em alguma revista científica da qual não mais me recordo o nome.
[21] O objetivo do presente livro não é uma análise social e por isto esta questão não será aqui examinada com maiores detalhes. De maneira sintética, eu, no entanto, diria que para que numa sociedade se obtenha a paz, é fundamental que o processo de entendimento leve à prevalência da visão de longo prazo. Ou seja, é preciso estar convencido a plantar uma árvore, mesmo sabendo que não mais se colherá os frutos. Somente imbuído desta perspectiva, o indivíduo, ou, o grupo de indivíduos, reconhecerá que a imposição da sua vontade sobre a dos demais esbarra na recíproca. Aqui estamos fazendo forte uso do imperativo categórico de Kant.
[22] Pode ser argumentado que o fato de se possuir um único corpo torna a luta interna diferente da luta que diversos indivíduos, ou grupos de indivíduos travam entre si. Esta diferença, no entanto, tende a desaparecer se lembrarmos que os diversos indivíduos ou grupos de indivíduos pertencem todos ao mesmo corpo social. O mesmo raciocínio pode ser repetido para diversos povos, porque pertencemos todos ao mesmo mundo, fazemos todos parte da mesma humanidade cujo caminho é definido pela soma dos caminhos trilhados por cada um.
[23] Gostaria de ressaltar que, mais adiante, dedicaremos mais espaço ao tema medo. Aqui, fazemos meramente uma síntese das idéias principais que lá serão apresentadas, enfatizando o papel do entendimento como promotor de um denominador comum entre as diversas partes do eu.
[24] No próximo capítulo a questão dos padrões de comportamento será examinada com mais detalhe. Será mostrado como eles surgem e como fazer para desconstruí-los. Neste processo, o aprendizado desempenha papel fundamental.
[25] Dentro da nossa sociedade reluta-se em admitir este fato. Isto tem diversos motivos que são complexos demais para ser examinados em um espaço tão exíguo. Eu diria, no entanto, que a dominação, tem o medo da morte como um dos seus pilares básicos. Cabe lembrar que a dominação visa obrigar o sujeito a se submeter, e é o medo da morte que, ao fazer o sujeito lutar para preservar a sua vida, acaba fazendo com que ele se submeta. A grande arma da dominação é o medo, em particular o medo da morte, e alguém que não tem medo, dificilmente se deixa dominar.
[26] Aqui vale a navalha de Ockham. Para justificar este princípio eu utilizaria a estética. O mundo é belo e, portanto, simples. O simples é belo e o belo é simples. Mas não nos esqueçamos que quanto mais simples, mais ampla e geral é a explicação, e, portanto, mais difícil de entender.
[27] Não existem plantas nem homens maus. Existem maus cultivadores.
[28] A meta-meta-nível eu constato, através de uma observação feita a meta-nível, que é importante considerar sempre os diversos níveis em que as coisas acontecem.
[29] Gostaria de relembrar um ponto levantado acima, qual seja, a atenção que, na análise, deve se dispensar aos detalhes.
[30] Talvez por conta deste alívio eu tenha usado a palavra descarrego para caracterizar estas auto-análises noturnas.
[31] B.F. Skinner, psicólogo, behaviorista, em seu artigo Superstition in the Pigeon, Journal of Experimental Psychology, no. 38, 1947 narra um experimento em que um pombo recebe comida através de um mecanismo que independe do seu comportamento. Este pombo, no entanto, passa a repetir certos padrões de comportamento que, por coincidência, estavam associados ao fornecimento da comida.
[32] O medo é um traço familiar meu, uma componente atávica. O meu pai era muito medroso, mas também meus tios, por parte de pai, eram extremamente medrosos. O medo está associado à minha origem judaica. Apesar de eu não ser descendente direto de judeus de gueto, certamente haverá ascendentes pertencentes a esta categoria e, entre eles, o medo era uma constante. Meu pai provém de uma família judia na fronteira da Alemanha com a Polônia. Provavelmente lá os pogroms eram freqüentes o que explica os medos. Além disso, o meu medo foi reforçado por diversas rejeições que sofri na infância e que serão mencionadas com mais detalhe mais adiante.
[33] Aqui surge uma nova questão, qual seja, a importância do hábito e da inércia. Isto será analisado com detalhes mais adiante. Aqui quero tão somente notar que a mudança, a ocorrência do novo e do inesperado, sempre traz à tona os medos e as preocupações.
[34] Aqui temos novamente a questão do efeito que já foi abordada acima.
[35] Há que atentar para o fato que a própria expectativa de sucesso às vezes o dificulta, podendo até mesmo impedi-lo. Ou seja, ao mesmo tempo em que se constrói a expectativa, há que desconstrui-la. Mais adiante, quando falarmos do querer, entraremos mais profundamente nesta questão.
[36] Aliás, não deve ter sido mera coincidência que, no meu caso, evacuação e insight, ambas, tivessem vindo juntas. Ambas são manifestações do botar para fora (as podridões, os problemas e as dificuldades). Como, no meu caso, o insight normalmente se dá colocando as idéias no papel, temos, literalmente, os problemas sendo colocados para fora.
[37] Aqui há um toque de aparente misticismo que eu consigo aceitar e explicar racionalmente como sendo a existência de algo que ultrapassa as nossas limitações (mais adiante vou dar mais detalhe para o fato, óbvio, de que muita coisa, não necessariamente metafísica, se passa além dos limites do nosso conhecimento e da nossa consciência).
[38] Aqui, novamente, cabe atentar para uma questão já mencionada anteriormente, das coisas passarem-se em diversos níveis. Se eu como um pedaço de pão eu tenho que prestar atenção no pão. Mas eu tenho que prestar atenção também no ato de comer o pão, o que ocorre quando eu como o pão. E eu tenho que prestar atenção também na atenção que eu presto ao ato de comer o pão. Estes níveis se sucedem indefinidamente, mas há um limite para a percepção e para o entendimento / apreensão, ao menos no que tange o consciente. A existência deste limite, no entanto, não significa que as coisas não possam se passar além deste limite. Aqui temos claramente formulada a questão mencionada em nota anterior. Sempre existem coisas passando-se além dos limites da nossa percepção, e que nem por isto são metafísica. Aqui a presença do todo transparece de forma clara e perceptível.
[39] A sabedoria popular diz que, para resolver um problema é necessário esfriar a cabeça. E o que é esfriar a cabeça senão distanciamento?
[40] É interessante lembrar do papel do humor na superação das dificuldades da vida. Humor é distanciamento. Considere-se, por exemplo, a sabedoria popular que acha que rir da sua desgraça é uma das formas de superá-la. Veja Michael Titze, The significance of the Paradoxical Effect in Adlerian Psychotherapy, Dialoghi Adleriani II, n. 4, 26-47, 2015; veja também Gelotologia.
[41] Neste sentido vale a pena consultar a seção Racionalidade: uma tentativa de definição do capítulo 2. Lá eu examino a questão da violência e mostro os diversos ângulos em que esta questão pode ser vista.
[42] Este fato é reconhecido pela psicanálise quando ela ressalta a importância da empatia entre paciente e analista.
[43] Estas ideias têm alguma semelhança com a Logoterapia de Viktor Frankl, já mencionada anteriormente.
[44] Basta lembrar que o princípio do terceiro excluído guarda fortes relações com o positivismo e que este representa um posicionamento não só em ciência, mas também em política, sociologia e filosofia.
[45] Veja a seção O real é racional e o racional é real no Capítulo 2.
[46] Freud deve ter reconhecido esta rigidez ao criar, no primeiro modelo, uma categoria intermediária: o pré-consciente. No livro Das Ich und das Es (O Eu e o Id) abole-se as fronteiras rígidas entre ego e id.
[47] Possivelmente Freud reconheceu este fato ao mudar do modelo consciente/inconsciente para o modelo ego/id/superego. Utilizaremos frequentemente as categorias de consciente e inconsciente para nos referirmos a idéias que estão mais ou menos presentes na nossa formulação verbal, mas as fronteiras entre estas categorias são permeáveis e os seus limites difusos e imprecisos. A mesma coisa acontece com as categorias de cabeça / corpo, eu-adulto / eu-criança que, de certa forma, guardam semelhança com as categorias freudianas de ego e id.
[48] Para uma definição um pouco mais precisa dos conceitos de eu-criança e eu-adulto veja seção Racionalidade, sentimento e sensações do capítulo 2. De certa forma, o eu-criança guarda semelhanças com o id freudiano. Ele representa as nossas origens, a natureza, os instintos e o corpo. Já cultura e civilização fazem parte do eu-adulto.
[49] Ou seja, a ênfase não é a repressão. Como veremos mais adiante, não se trata de negar a existência de repressão, mas esta não ocupa o centro das nossas atenções.
[50] Pode inclusive haver cisão tão somente a nível de consciente, ou então, haver cisão somente a nível de inconsciente. Nem por isto o problema é menor.
[51] Freud reconhece este fato no segundo capítulo do livro O Eu e o Id (veja pg. 29 de Das Ich und das Es, Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 1923). Ele menciona o pré-consciente como local onde as questões são elaboradas.
[52] Na parte III das Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise, palestra XIX, Freud constrói um modelo de duas salas em que a sala maior é o inconsciente e a sala menor é o pré-consciente. Entre as duas salas existe um guarda que representa a censura / resistência e que deixa passar somente algum material da sala maior para a sala menor. Aparentemente o material do pré-consciente é, portanto, originário do inconsciente. Mais tarde, no livro Das Ich und das Es (O Eu e o Id) Freud introduz algumas modificações neste modelo.
[53] Veja nous em contraste com logos.
[54] Um exemplo muito apropriado para esta idéia é dado no capítulo III do livro O Eu e o Id, referenciado acima, quando ao falar do conflito entre superego e ego, que dá continuidade ao conflito entre o ego e o id no relacionamento libidinoso da criança com os pais (complexo de Édipo), Freud menciona a pintura A batalha dos Hunos de Wilhelm von Kaulbach. Nesta pintura, uma batalha travada na terra continua nos céus. O conflito ocupa posição tão central em Freud que nem o céu é dele poupado.
[55] Veja por exemplo palestras XXVI e XXVII das Conferências Introdutórias sobre Psicanálise. Por exemplo, na pg. 468 da versão alemã do livro, Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse, Gustav Kiepenheuer Verlag, 1935, Freud diz que durante o sono o inconsciente consegue uma certa independência em relação ao consciente pois o material reprimido do inconsciente se aproveita de uma censura debilitada do consciente para burlar (ênfase minha) o desejo de dormir, e utilizar os resíduos diurnos para a construção dos sonhos. Na pg. 485 do mesmo livro ao comentar o conflito patológico do neurótico, Freud menciona explicitamente o conflito entre consciente e inconsciente. Veja também pg. 16 do livro Das Ich und das Es (O Eu e o Id), Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 1923, onde Freud fala da prática psicanalítica de reduzir a neurose a um conflito entre o consciente e o inconsciente. Mais tarde, Freud ameniza o conflito ao reconhecer que a resistência (Widerstand) faz parte do inconsciente. Ou seja, neste caso o conflito surge dentro do próprio inconsciente. É bom lembrar que a resistência faz parte do ego e se opõe a que o material do inconsciente se torne consciente (veja pg. 16 do livro Das Ich und das Es referenciado acima).
[56] No capítulo XXVII das Conferências Introdutórias sobre Psicanálise Freud menciona os conflitos entre um eu-libidinoso e um eu-ascético, um eu-sensual e um eu-repressor, deixando implícito que este conflito é inevitável. Mais tarde ele vai chamar o eu-libidinoso de id e o eu-ascético de ego.
[57] O velho testamento transmite uma visão conflituosa do mundo. De um lado temos um Deus severo e castigador e, do outro lado, um ser humano tentando escapar do seu controle. A história de Adão e Eva é um magnífico exemplo desta idéia. Mas existem outros casos: Caim matando Abel; Deus mandando Abraão matar Isaac; Deus castigando todos os homens com o dilúvio, Deus destruindo Sodoma e Gomorra, etc.
[58] De uma maneira sintética eu diria que liberdade deve significar uma síntese entre o querer e o poder, onde poder significa a possibilidade da realização dos desejos despertados pelo querer. Maiores detalhes sobre estas idéias podem ser encontrados nas seções Paradoxos, Koans e Zen-Budismo e Individualismo e massificação: um exercício dialético, do capítulo 3.
[59] Na palestra XXVII das Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (pg. 484 da versão alemã citada acima) Freud menciona a necessidade de um poderoso (o imperador José, provavelmente José II) para promover as reformas necessárias na sociedade. Fica mais cômodo deixar a sociedade fabricar os neuróticos para depois tratá-los.
[60] Freud menciona ainda o impulso/pulsão de vida ou a Libido (Lebenstrieb), o princípio do prazer (Lustprinzip), o princípio de realidade (Realitätsprinzip), o instinto de morte (Todestrieb), o instinto de preservação (Selbsterhaltungstrieb), o complexo de Édipo, o complexo de castração, etc.
[61] Talvez tenha sido esta a razão para ele ter alterado tantas vezes o modelo.
[62] Bruno Bettelheim em seu livro Aufstand gegen die Masse (The informed Heart: Autonomy in a Mass Age), Fischer Taschenbuch Verlag, 1995, faz uma crítica a Freud pelo fato deste ter restrito o seu trabalho ao ambiente do consultório. As descobertas lá feitas precisam considerar este fato, ou seja, precisam considerar o fato de que o mundo é mais do que o consultório. Interessante é considerar que boa parte da metodologia de Freud se baseia na transferência, onde a libido do paciente é transferida para o analista. A transferência, apesar de restrita ao consultório, é uma lufada de realidade dentro de um mundo de idéias, sonhos, símbolos, relatos e recordações. Ou seja, trata-se do aqui e do agora, de acontecimentos reais e físicos, dentro de um ambiente em que prevalece a recordação e o passado.
[63] Trata-se do livro Aufstand gegen die Masse (The informed heart; autonomy in a mass age), Fischer Verlag, 1995. Para outros comentários críticos sobre Freud recomendo ler os parágrafos deste capítulo sobre Piaget, Adler e Frankl.
[64] Pontes são estabelecidas nas duas dimensões básicas: espaço e tempo.

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