Introdução
Este capítulo
representa um ponto de inflexão. Apresentada a cosmovisão nos três primeiros capítulos do livro, descritas as
peças básicas das quais ela se compõe, qual seja, holismo, realidade, racionalidade, materialismo e dialética, é chegado o momento de
passar à terapia.
Neste capítulo
examino principalmente o papel terapêutico do entendimento. Como já dissemos,
entender é juntar fatos, juntar as partes dispersas do ser, o ser e a
sociedade, sociedade e mundo. Esta união se contrapõe à cisão que, dentro da
visão delineada neste livro, é a fonte principal da dor e do sofrimento.
Entendimento,
portanto, é terapia, porque nada mais é do que inserção no todo. Por outro lado, entender significa sempre entender a realidade, e esta é matéria e
racionalidade, que, por sua vez, não podem ser compreendidos fora do contexto
da dialética. Entendimento, portanto, junta os conceitos principais vistos nos
três capítulos iniciais do livro e os liga à idéia de terapia. Ou seja, este
capítulo estabelece uma ponte entre terapia e cosmovisão.
Como
entendimento envolve conhecimento, achei que caberia aqui uma seção sobre
Piaget e a sua epistemologia genética. Esta
seção mostra as semelhanças entre diversas idéias aqui expostas, e idéias por
ele desenvolvidas.
Segue uma
seção em que se procura caracterizar melhor o papel terapêutico do
entendimento. Visando ilustrar estas idéias é discutida uma questão
aparentemente formal: a auto-análise escrita, que é a forma aqui assumida pelo
entendimento, deve ser feita na forma manuscrita ou digital?
Finalmente a
última seção deste capítulo visa justificar o papel da análise, em particular,
da auto-análise escrita, delimitando-a com a psicanálise freudiana.
Resumindo,
este capítulo faz uma espécie de ponte entre cosmovisão e terapia. Ele
começa recapitulando as idéias de entendimento e todo, já apresentadas na primeira parte do livro, mostrando como estas idéias podem ser
utilizadas para fins terapêuticos.
Jean Piaget
Como foi dito
na introdução, este livro não é um trabalho acadêmico. Pouco espaço é dedicado
às referências bibliográficas e pouco valor é dado à tentativa de respaldar as
idéias em literatura. Porque então dedicar uma seção à Piaget? Esta pergunta é
ainda mais importante se lembrarmos que nenhuma seção foi dedicada a Freud,
sendo este autor tão ou mais importante para a psicologia do que Piaget o é para
a educação ou o aprendizado. Cabe lembrar que psicologia e aprendizado são dois
dos pilares nos quais se apoia o presente livro.
A resposta à
pergunta formulada acima é simples. Piaget é um humanista e a visão dele tem
muita coisa em comum com a visão aqui apresentada. Em contrapartida, Freud é um
cético e sua visão do ser humano é extremamente negativa e apresenta poucos
pontos em comum com a presente cosmovisão. Não quero, de forma alguma, diminuir
a enorme contribuição de Freud para o entendimento da psique humana. Certamente
Freud foi muito mais revolucionário do que Piaget e a importância de fatores
como sexualidade, inconsciente, sonhos, repressão e sublimação nos distúrbios
psíquicos, deve muitíssimo a Freud. Acontece que o foco do presente livro não
são os distúrbios psíquicos, mas sim uma cosmovisão terapêutica, e aí a
contribuição de Piaget é maior. O foco em Freud é como curar doentes, ou seja,
o foco é no remediar. O foco em
Piaget é em prevenir a doença, ou
seja, em como criar homens sãos.
Nos parágrafos
a seguir, vamos descrever brevemente as idéias principais da epistemologia genética de Piaget, em
especial, as idéias que tem ligação com o material que está sendo aqui apresentado.
Cabe lembrar que Piaget trabalhou também com educação infantil e isto será
quase que inteiramente deixado de lado.
A teoria de
Piaget parte da idéia de que o desenvolvimento humano é um longo processo que surge
de uma interação entre o ser e o mundo. Ele contesta a suposição da psicanálise de que este desenvolvimento
é fruto de instintos (pulsões ou Triebe) bem como a suposição do behaviorismo
de que o ele é resultado do mecanismo estímulo-resposta [1].
Piaget
teve como tarefa principal examinar a gênese do conhecimento e por isto a sua
teoria é conhecida como epistemologia
genética. Ele verificou que o desenvolvimento do conhecimento ao longo da
vida de uma pessoa passa por mudanças qualitativas
além das quantitativas. Assim,
existe uma mudança do concreto para o abstrato, do simples para o diferenciado.
Ao longo do tempo, o conhecimento torna-se mais sistemático, flexível e adaptado
às circunstâncias, ou seja, à realidade.
É
o indivíduo que constrói o conhecimento e é a verificação da inadequabilidade
de certas concepções para explicar fatos e experiências do dia a dia, que nos leva
a corrigi-las. É por isto que a teoria de Piaget é denominada de construtivismo. A inteligência é a construção de estruturas que permitem uma cada vez
melhor adaptação às situações que se apresentam. Peças básicas destas estruturas são os esquemas segundo os quais objetos e experiências são ordenados e
relacionados.
O esquema (ou estrutura) fornece um padrão
ou um modelo segundo o qual conhecimentos e comportamentos são conectados. Por
exemplo, um destes esquemas permite fazer a conexão entre um biscoito e uma
mordida cautelosa, bem como entre uma maçã e uma mordida firme. Aqui existe uma
conexão entre um conhecimento (cognição) da natureza do alimento e um
comportamento (forma da mordida). Evidentemente existem esquemas que fazem
conexões puramente a nível de cognição (por exemplo, quando se escuta algumas
notas musicais e as associamos a determinado compositor, ou quando determinada
idéia nos leva a pensar em outra) ou puramente a nível de comportamento (por
exemplo, quando se leva um pisão no pé e se reage com um grito).
Uma situação que surge é adaptada a
um esquema através dos mecanismos de assimilação
e acomodação. A assimilação é a incorporação de uma nova experiência a um esquema
pré-existente. Neste caso a estrutura cognitiva (esquema) existente é
suficiente para lidar com a experiência e percebê-la de forma adequada.
Existem, no
entanto, situações em que é preciso modificar o esquema pré-existente. Por
exemplo, a criança desenvolve desde cedo um esquema para agarrar/pegar. Quando
ela se depara com um líquido, passa a ser necessária a criação de um novo
esquema que, no caso de uma bebida, pode ser o de sorver com a boca, ou, apanhar
com a concha das mãos. Aqui trata-se de acomodação,
ou seja, trata-se de criar um novo esquema ou modificar um esquema antigo. A acomodação
se dá sempre que um fato ou uma experiência não conseguem ser trabalhados / entendidos
através da assimilação. A acomodação implica em um certo estágio de
desenvolvimento, na medida em que um novo esquema não pode ser criado se não
existirem condições para tal. Por exemplo, o novo esquema de apanhar com a
concha das mãos só pode ser criado se a criança já tiver habilidade manual para
realizar este tipo de operação.
Nenhum
comportamento parte da estaca zero. Parte-se sempre de esquemas pré-existentes.
É isto que caracteriza o construtivismo,
ou seja, o saber é uma construção em que cada nova etapa leva em consideração as
etapas já existentes. As estruturas que compõe a construção podem ser congênitas
/ inatas, ou então, adquiridas.
Na
verdade, assimilação e acomodação ocorrem conjuntamente e, em maior ou menor
grau, estão presentes em toda percepção. Quando a assimilação prevalece sobre a
acomodação, ocorre um processo de centralização
em si mesmo (fechamento) porque o indivíduo rejeita novas experiências que não
se deixam enquadrar dentro de esquemas pré-existentes. O caso extremo é o do
autista. Mas também as fantasias deixam se explicar pelo prevalecimento da
assimilação. Quando se tecem fantasias, deixa-se de ver a realidade exterior e refugia-se
em uma realidade interior (fantasia). A realidade passa a ser representada pela fantasia. Este é o
processo utilizado por crianças muito novas que não tem condição de criar novos
esquemas para lidar com novas situações.
Quando a
acomodação prevalece sobre a assimilação, padrões comportamentais de outras
pessoas passam a ser copiados ou reproduzidos. No caso extremo, passa a não
existir um trabalho interior de associação da nova experiência a um esquema já
existente. A cada nova experiência é gerado um novo esquema e, frequentemente, esquemas
utilizados por outros, são copiados e reproduzidos. Ocorre um processo de descentralização ou de abertura.
Eu
acrescentaria a observação de que estas duas tendências não necessariamente são
excludentes. O sujeito pode se concentrar em esquemas pré-existentes e se
recusar a conhecer tudo aquilo que entra em choque frontal com eles. Quando, no
entanto, as circunstâncias o obrigam a lidar com uma nova situação, ele copia
esquemas adotados por outras pessoas.
Equilibração significa a busca por um
equilíbrio entre assimilação e acomodação. Segundo Piaget, somente com equilibração
há cognição. Somente neste caso existe transformação
da realidade, porque conhecimento é transformação.
O
raciocínio desenvolvido nos parágrafos anteriores pode ser formulado de uma
maneira mais geral e mais abstrata utilizando dialética e as categorias de
sujeito e objeto. A interação do eu com o mundo se dá através da relação
dialética entre assimilação e acomodação. A assimilação se dá quando um estímulo vindo do objeto é integrado em
uma estrutura já existente no sujeito. Mas um objeto só pode ser percebido na
medida em que existe uma estrutura capaz de percebê-lo. A acomodação significa a criação de uma nova estrutura ou a adaptação
de uma estrutura já existente, de forma que a integração seja possível. Através da
síntese dialética entre assimilação e
acomodação resolve-se a cisão
existente entre sujeito e objeto e gera-se conhecimento.
Não existe
assimilação sem acomodação pois toda integração do estímulo à estrutura, ao
mesmo tempo a modifica. Da mesma maneira não existe acomodação sem assimilação
pois toda modificação ou adaptação de uma estrutura visa assimilar o estímulo. A
acomodação é centrada no objeto enquanto que a assimilação é centrada no sujeito
[2].
A
equilibração, ou seja, a busca de um
balanço entre assimilação e acomodação se dá em níveis cada vez mais elevados e
as estruturas (ou esquemas) vão crescendo em complexidade, permitindo a
incorporação cada vez maior de estímulos provenientes do mundo externo [3]. As
estruturas do sujeito são acomodadas aos objetos, ao mesmo tempo que os objetos
são assimilados às estruturas existentes no sujeito.
Vimos no
capítulo anterior que conhecimento é movimento e este é resultado do embate de contrários.
De um lado, temos a assimilação como um processo centrado no sujeito. Do outro lado,
temos a acomodação como um processo centrado no objeto. Do embate destas duas tendências
opostas temos, como síntese, o equilíbrio do qual resulta o conhecimento. O
equilíbrio é provisório, pois logo surgem fatos novos tornando necessária nova
busca de equilíbrio.
Piaget
considera o ser humano como um sistema aberto. Ele deixa claro que o
conhecimento é ativo, ou seja, só conhecemos aquilo com o qual interagimos,
para o qual temos esquemas já desenvolvidos (assimilação) ou para o qual temos
condição de desenvolver novos esquemas (acomodação). Piaget se baseia em uma
visão biológica quando diz que o conhecimento é parecido com o sistema
digestivo pois só colocamos para dentro aquilo que nos interessa e que temos
condição de digerir.
À diferença de
Piaget eu não consigo ver o problema da existência
dissociado do conhecimento. Para mim,
dissociar existência de conhecimento é metafísica, ou seja, é
abandonar o domínio da realidade. Se o objeto existe é porque dele tive
conhecimento, o que, de forma alguma, implica na necessidade de um contato
físico ou sensorial com o objeto. A existência de uma galáxia distante, de uma
anã branca ou de um buraco negro não chega a ser uma experiência sensorial, embora
isto possa ser contestado, porque cálculos matemáticos e observações feitos
através de aparelhos e instrumentação, podem ser equiparados a experiências
sensoriais [4].
A
percepção é uma construção. Esta é a razão porque a epistemologia genética de
Piaget é classificada como construtivismo. Os olhos não são janelas por onde a
realidade entra, mas, pelo contrário, a percepção da realidade é uma construção
da qual os olhos fazem parte. A percepção que eu consigo ter de um certo objeto
através da visão é totalmente diferente da percepção que uma jararaca consegue
ter do mesmo objeto. Um exemplo mais realista é a percepção de um cego. Ele tem
um conhecimento da realidade diferente de uma pessoa que consegue enxergar e
este conhecimento do cego vai moldar a sua personalidade, os seus gostos e interesses.
É conhecido o fato de só se ver aquilo que se quer ver, que interessa ver e que
temos condição de ver. Este interesse e esta condição é fruto da nossa formação,
das experiências que tivemos e do desenvolvimento dos nossos órgãos sensoriais.
Se uso óculos de infravermelho eu tenho um conhecimento de uma floresta à noite,
muito diferente do conhecimento da mesma floresta sem este recurso. Se esta
experiência for repetida por um período prolongado, ela afetará a minha
percepção da floresta, podendo inclusive afetar a forma de lidar com ela. A percepção
da realidade é parte da nossa formação.
Para conhecer
o objeto, há que interagir com ele, há que transformá-lo
[5]. Conhecimento é ação. Ele depende do
desenvolvimento do sujeito, da sua inteligência e é ela que conduz à objetividade. A objetividade não é uma
propriedade restrita ao objeto, como consideram os empiristas, mas sim é o
resultado de uma construção que envolve sujeito e objeto.
Em Piaget’s Theory, ele explica o desenvolvimento da criança, utilizando
os conceitos de centralização e descentralização [6].
Durante os primeiros anos, a criança permanece centrada em si mesmo, no seu
corpo e nas suas ações. O gradual equilíbrio entre assimilação e acomodação leva
à descentralização, e a criança, progressivamente, aprende a conhecer outros
pontos de vista e a interagir com outras pessoas, favorecendo a objetividade [7].
A componente social implica em uma visão coletiva do objeto, das coisas e dos
acontecimentos. Reciprocidade e objetividade são sinônimos. Implicam em abandonar
a visão egocêntrica da subjetividade [8].
Piaget, na pg. 120
do trabalho acima citado, narra a história de um esquimó que, perguntado porque
sua tribo conservava determinados ritos, responde: conservamos os nossos velhos hábitos a fim de que o universo se mantenha.
A dialética nos ensina que tudo se passa nos dois sentidos, causa torna-se
efeito e vice-versa. O hábito não é tão somente uma adaptação ao meio em que
vivemos, mas, é também, ele próprio, formador deste meio. O mundo é também
constituído pelos nossos hábitos, e sem eles o mundo não seria do jeito que é.
Com respeito à
centralização/descentralização é
interessante comparar as diferentes perspectivas de Freud e Piaget em relação
ao antropocentrismo. No final da
palestra XVIII das Conferências
Introdutórias sobre Psicanálise, Freud qualifica as mudanças históricas das
posições antropocentristas, utilizando a palavra mágoa (Kränkung) [9]. O
fato da terra não mais ocupar o centro do universo (Copérnico), o fato do ser
humano não mais ocupar o centro da criação (Darwin) e o fato da psicanálise
mostrar que o ser humano não mais é guiado pelo consciente, representariam mágoas que acometem a humanidade. Já
Piaget mostra que, pelo contrário, estas são conquistas que representam
crescimento. O centrismo, seja egocentrismo, etnocentrismo ou antropocentrismo representariam
a infância e a imaturidade (veja pg. 122 da obra de Piaget citada acima).
Para Piaget, aprendizado e conhecimento são conceitos de significado semelhante. Trata-se da construção
do mundo através da percepção. Esta percepção se aproxima do objeto, ou seja, o
objeto é um limite. O aprendizado é uma adaptação do sujeito ao mundo que o
cerca, mas é também uma adaptação do mundo ao sujeito, já que o mundo inclui o
sujeito, a sua ação e percepção [10].
Na pg. 4 de Genetic Epistemology Piaget ressalta
que conhecimento não pode ser baseado em raciocínio especulativo. Tem que se
respaldar em fatos e em pesquisa psicológica [11]. Com
esta afirmação Piaget ressalta a base empírica do conhecimento. O conhecimento,
no entanto, não é tão somente resultado de estímulos externos como acreditam os
positivistas. É necessário que estes estímulos sejam assimilados e acomodados
pelo eu.
Epistemologia
genética é soma de empirismo inglês com racionalismo Kantiano. Temos experimentação
psicológica aliada à formalização. Nesta última, o ferramental
lógico-matemático desempenha papel fundamental. De um lado temos o objeto, o mundo externo, a experiência.
Do outro temos o esquema, a estrutura
ao qual o objeto tem que ser assimilado. Piaget ainda junta Hegel a Kant quando
ressalta a importância do movimento, da ação e da transformação da realidade.
Na pg. 6 ao
falar da Epistemologia Genética Piaget
faz uma bela síntese da sua teoria do conhecimento ao dizer que ali o leitor
encontrará a exposição de uma
epistemologia que é naturalista sem ser positivista, que coloca em evidência a
atividade do sujeito sem ser idealista, que se apóia igualmente no objeto ao
mesmo tempo que o considera um limite (portanto, existindo independentemente de
nós, mas sem ser completamente alcançado) e que, sobretudo, vê no conhecimento
uma construção contínua... [12]
Aqui vale a pensa ressaltar que embora Piaget se apóie em Kant no que tange à
formalização e à estruturação do conhecimento, dele se distancia no que tange ao
idealismo. A rejeição do puramente especulativo, o respaldo na experimentação e
a consideração de ação e interferência com a realidade, dão testemunho deste
distanciamento.
O papel terapêutico do entendimento
O papel do entendimento na cosmovisão aqui
desenvolvida foi explicado nos capítulos anteriores. Foi também mencionado o seu
papel terapêutico que consiste em buscar uma integração das diversas partes do
eu, bem como do eu com o mundo. Cisão é dor e, agindo no sentido da integração,
possibilitamos a superação da dor.
Conforme vimos
na seção precedente, conhecimento é a construção de estruturas e estas
representam conexão. É juntando as partes desconexas do eu e procurando fortalecer as ligações entre eu, sociedade e meio ambiente que é possível superar a dor.
Quanto mais
complexa a estrutura, mais abrangente ela é, e maior é o potencial dela tudo englobar.
Usando a terminologia de Piaget, dada uma situação ou acontecimento, entendê-los
ou conhecê-los é aprender a lidar com eles e isto significa integrá-los na
estrutura. No limite, esta tendência leva ao todo.
Inserir as
experiências e os acontecimentos em uma estrutura pode também ser chamado de dar um sentido para a vida. Na medida em
que a estrutura representa a nossa vida, a maneira como nela inserimos as
nossas experiências, implica em determinar o sentido da estrutura e, portanto,
o sentido da vida. Isto nos remete a Victor Frankl e à logoterapia.
Da mesma
maneira que Piaget, Frankl critica o peso excessivo dado por Freud à libido
como origem das neuroses [13].
Ambos divergem da psicanálise pela excessiva ênfase que ela dá a impulsos e
instintos. A logoterapia de Frankl considera que a preocupação principal do ser
humano é encontrar o sentido da vida. Com isto ela ressalta a importância da
questão existencial. Segundo Frankl um
dos princípios fundamentais da logoterapia está em que a principal preocupação
da pessoa não consiste em obter prazer ou evitar a dor, mas antes em ver um
sentido em sua vida [14].
Frankl critica
também o autocentrismo provocado pela
introspecção da psicanálise, bem como a excessiva ênfase que esta dá ao
princípio do prazer (Lustprinzip). Na pg. 146 do trabalho acima
mencionado, Frankl critica a hiper-reflexão
que, em minha opinião, é um parente próximo do autocentrismo. Trata-se de uma
atenção excessivamente centrada em si mesmo. A acusação de hiper-reflexão ou autocentrismo
feita por Frankl ao método analítico, tem o seu fundo de verdade, na medida em
que a preocupação excessiva consigo mesmo tende a aumentar a dimensão dos
problemas. Tudo, no entanto, tem dois lados. Se a problematização excessiva é
ruim, por outro lado, negar o problema, passar por cima dele ou varrê-lo para
baixo do tapete, é pior ainda. Nada desaparece simplesmente pelo fato da gente
não querer ver.
Aqui, neste
trabalho, a ótica é dialética. O objetivo é ocupar-se do problema para livrar-se
dele. A perspectiva aqui é a do músico que ao se ocupar com a técnica do
instrumento, o faz a ponto de com ela se identificar, de forma que não mais precisa
dela se ocupar. Ou seja, cabe se aprofundar no problema, examiná-lo
detalhadamente para assim dominá-lo e, dominando-o, livrar-se dele, esquecendo-o.
Eu não me preocupo com a minha língua na hora de mastigar ou deglutir o
alimento, mas houve uma fase da minha vida na qual a língua ocupou o centro das
minhas atenções. O mesmo se aplica à fala ou à escrita. Hoje eu simplesmente
escrevo. Os pensamentos ocorrem e fluem automaticamente para o papel. Mas houve
fase da minha vida de intenso aprendizado com a escrita. Hoje eu ando de
bicicleta e a obtenção do equilíbrio é automática. Houve, no entanto, uma época
de intensa preocupação com a obtenção do equilíbrio. Para viver a vida é
necessário se preocupar com ela. É esta preocupação que vai nos levar a
encontrar o caminho que permite livrar-se da preocupação.
A
logoterapia não se propõe a encontrar um sentido
da vida de um modo geral, mas antes o sentido específico da vida de uma pessoa
em dado momento [15].
Pouco é dito sobre a forma de preencher o vazio existencial, a menos das idéias
de Deus e sacrifício, traduzindo uma perspectiva judaico-cristã. Segundo Frankl
o verdadeiro sentido da vida deve ser descoberto no mundo, e não dentro da
pessoa. Isto implica na autotranscedência da existência humana. Quanto mais a
pessoa esquecer de si mesma, dedicando-se a alguma causa ou a alguma pessoa,
mais ela se realizará. E Frankl acena com a possibilidade de uma vida após a
morte que recompensaria os sacrifícios. Segundo ele, existiria um mundo em que a pergunta pelo sentido
último do sofrimento humano encontraria uma resposta.... Esse sentido último
necessariamente excede e ultrapassa a capacidade intelectual finita do ser
humano... O que se propõe é ... suportar a incapacidade de compreender, em
termos racionais, o fato de que a vida tem um sentido incondicional. O logos (razão) é mais profundo que que a lógica [16].
Devo dizer que
todas estas questões me são estranhas e eu não compartilho a visão de Frankl,
principalmente no que tange às questões de sacrifício e transcendência. Nos
capítulos anteriores deve ter ficado claro que a perspectiva aqui é dialética e
materialista e mesmo o todo nada mais
é do que a realidade toda, ou seja, matéria. A visão de Frankl está imbuída de
metafísica e aqui partimos do pressuposto de que tudo é físico. A razão para
citarmos Frankl é a ligação que ele faz entre entendimento e sentido da
vida. Dar um sentido para a vida, significa em primeiro lugar entendê-la,
entender o seu significado e, neste sentido, estamos juntos com Frankl.
Quem também
compartilha a visão teleológica em psicologia é Alfred Adler. Tanto Adler como
Frankl colocam o peso em cima de metas, objetivos, fins e projetos de futuro. Em
contraposição, Freud está mais vinculado a uma concepção causal em que o peso é
em cima do passado e das experiências vividas.
Da
mesma forma que Frankl, Adler tentou se contrapor ao excessivo peso da libido
em Freud [17]. Para
Adler o homem é um ser social e o sentimento de coletividade e a aspiração de
pertencer a um grupo são fundamentais. Paralelamente, existem também as
necessidades de afirmação e a busca pela superação, que são inerentes ao ser
humano. A comparação destes objetivos com o desejo de superioridade e a vontade de poder de Nietzsche acaba
sendo inevitável.
Ao
contrário da visão negativa de Freud, Adler acredita na capacidade de auto
realização do ser humano. No processo de cura, o peso é em cima do consciente, ao contrário de Freud que
enfatiza mais o inconsciente.
À semelhança
da visão apresentada neste livro, Adler defende uma perspectiva holística. O
ser humano tem necessidade de pertencer a um todo maior. Existe uma unidade entre
mente e corpo, razão e carga emocional, aprendizado, experiências passadas e
projetos de futuro.
Visando uma
apreciação crítica de Adler, devo dizer que a sua busca de superioridade, ou o desejo
de poder, mesmo que originalmente não tenham sido formulados como formas de
promover a concorrência e a competição entre os seres humanos, trazem implícita
esta componente, já que superioridade
e poder são conceitos relativos.
Alguém somente é superior quando o é em relação a uma outra pessoa ou coisa.
Também o poder é o poder sobre alguém ou sobre um objeto. É paradoxal que o
otimista Adler tenha colocado o potencialmente fragmentador desejo de poder
acima da libido unificadora do cético Freud. Como vemos, frequentemente as
coisas se compensam.
É
compreensível que na natureza a disputa por espaço, alimento, sexo e propagação
da espécie gere a competição como parte de busca pela sobrevivência (Selbsterhaltungstrieb).
A generalização destas tendências para o ser humano possivelmente é uma
decorrência do darwinismo social,
muito em voga nos EUA no início do século XX [18]. No
entanto, uma das características básicas do ser humano é justamente se contrapor
à natureza, ou seja, tentar seguir caminhos diferentes.
Voltando à
ligação entre terapia e entendimento, quero ressaltar, mais uma vez, que o
papel fundamental do entendimento é ligar,
unir e fazer conexões. Procuremos tornar estas idéias mais concretas tomando,
por exemplo, a cisão do ser em eu-criança
e o eu-adulto. Vimos no capítulo
2, que uma série de conflitos surge do embate entre estas duas partes do eu. O eu-criança é representativo de padrões de comportamento antigos,
formados principalmente na infância. O eu-adulto representa os nossos padrões mais
recentes. Consideremos, por exemplo, o medo. Medo, choro e fuga são os únicos recursos que a
criança dispõe para enfrentar o perigo. O medo, no entanto, pode ser um
entrave. Para um conferencista que deseja fazer uma palestra, ou um músico que
deseja fazer uma apresentação, o medo mais atrapalha que ajuda. Aqui vemos o
embate entre eu-criança e eu-adulto.
O que fazer? A
solução que o eu-adulto normalmente adota é a repressão. A repressão do medo, no entanto, tão somente o reforça. Mais
adiante daremos uma explicação mais detalhada, mas, de forma resumida, podemos
dizer que a repressão simplesmente nega a parte do eu que tem medo. Negar o
eu-criança significa ameaçá-lo, e, ante esta ameaça, o eu-criança reage da
forma que sabe reagir: ativando e reforçando o medo.
Aqui, ao invés
de repressão, preconizamos o entendimento.
O entendimento do eu-criança, dos seus anseios e dos seus medos, implica em mudar
radicalmente de perspectiva. Agora, ao invés de negar, estamos afirmando o
eu-criança, ao invés de fechar, estamos abrindo-lhe espaço. Não mais ameaçado
em sua existência, o eu-criança pode relaxar suas defesas e deixar de ter medo.
A existência equilibrada, lado a lado, do eu-criança e do eu-adulto, representa
integração e união das diversas partes do eu.
Ao escrever
estas idéias me ocorrem as cenas finais do filme 8 ½ de Fellini. Os diversos personagens, representando as diversas
fases da vida do diretor, vão descendo por uma rampa e formando uma roda. Existe
uma criança que ocupa o centro desta roda.
É preciso
fazer exatamente como faz Fellini. O mundo da criança, as suas experiências, sensualidade
e sexualidade, compõem o nosso eu, integram a nossa formação. Há que aceitar
estas experiências e incorporá-las à nossa vida. A vivência da criança continua
presente no adulto e é bom que assim o seja, pois é isto que permite coerência
e continuidade da existência. Há que dar a mão à criança, fazê-la entrar na
roda da vida e não tentar expulsá-la.
Algo semelhante
à cisão eu-criança / eu-adulto acontece com o dualismo cabeça / corpo. Frequentemente
a ênfase excessiva na cabeça significa a colocação do corpo em segundo plano. Esta
atitude representa um obstáculo à paz. Paz significa união e resulta do equilíbrio
e da integração das partes.
Uma outra
ilustração do papel do entendimento é
na desconstrução dos fantasmas. Chamo
de fantasmas um conjunto de medos que
povoam a nossa infância e que costumam ser chamados de irracionais. Eles são resultado de frustrações, traumas, experiências
dolorosas, desejos não realizados, etc.
Além dos fantasmas existem também as fantasias que podem nos perseguir por
toda a vida. A peça Morte do Caixeiro
Viajante, de Arthur Miller, é um magnífico exemplo desta situação. O
personagem principal, Willy Loman, é perseguido por sonhos e ilusões que não o
deixam enxergar a realidade. As fantasias não só destroem a vida de Willy, como
também destroem a sua relação com o filho, na medida em que ele projeta sobre este
último as suas expectativas não realizadas [19].
Novamente não
adianta repressão. Nem fantasmas, nem
fantasias desaparecem através de repressão.
Ao invés disto cabe o entendimento. Examinando origens, causas e circunstâncias
dos problemas, estamos trabalhando no sentido da sua desconstrução.
A forma aqui preconizada
para o entendimento é a análise, em particular, a auto-análise escrita. Nas
próximas seções daremos maiores detalhes e melhor fundamentação para estas
idéias. Por hora, quero somente ressaltar a importância da análise no
estabelecimento do foco do problema. A história que narro a seguir, ilustra bem
esta idéia [20]. Evidentemente,
análise e entendimento podem também ter diversos outros papeis que serão
mencionados mais adiante.
Para melhorar
a produtividade dos operários de uma fábrica, os engenheiros resolveram testar
diversas cores das lâmpadas usadas para iluminação do ambiente. Retiraram as
lâmpadas de cor branca e colocaram lâmpadas de cor amarela, verificando um
aumento de produtividade de x%. Aí colocaram lâmpadas de cor azul, mas o
aumento de produtividade continuou estacionado no mesmo nível. Fizeram diversas
outras tentativas com as cores verde, vermelho, laranja, etc., mas o resultado
permanecia o mesmo. Estabeleceram-se diversas teorias. As conclusões mais
importantes eram que o aumento de produtividade era decorrente do uso de luz
colorida, não importando qual fosse a cor. O aumento de produtividade era de x%,
não sendo possível ultrapassá-lo.
Foi aí que um
engenheiro teve a idéia de voltar a colocar as lâmpadas brancas originais. Qual
não foi a surpresa ao verificar que a produtividade continuava estabilizada no
mesmo nível. Ou seja, mesmo voltando a colocar as lâmpadas antigas, a
produtividade não decrescia, continuando estável no novo patamar. O artigo
concluía que o aumento de produtividade era decorrente do foco. Ou seja, o fato dos operários se sentirem valorizados por
participarem de um experimento era mais importante do que a cor das lâmpadas.
Algo
semelhante acontece com os problemas psíquicos, embora, não necessariamente, a
justificativa seja a mesma. Na medida em que o foco da nossa atenção é jogado
sobre os problemas, na medida em que a gente os examina, trabalha e deles se
ocupa, damos um passo na direção da sua solução.
Para finalizar
esta seção quero dedicar uma palavra para descrever a força motriz que nos
conduz ao longo de todo este processo de análise e entendimento. Existe uma
espécie de consenso na afirmação de que o que o ser humano busca é a felicidade. Só que felicidade é uma palavra coringa que pode servir para designar
qualquer coisa. Para Frankl, citado nesta seção, trata-se de encontrar o
sentido da vida. Para Freud é a satisfação da libido.
Aqui, neste
trabalho, a força motriz é a busca da paz. Vimos no capítulo 2 que tanto o
instinto ou impulso de vida (Eros) como
o de morte (Tânatos) podem ser
interpretados como manifestações da busca por paz. Sexo (Eros) é a busca da
paz, na medida em que a satisfação dos desejos resulta em paz. Mas também a
morte (Tânatos) nada mais é do que busca de paz, na medida em que morte é paz
eterna. Se, de um lado, morte é um movimento de cisão em relação à vida, do
outro lado, morte é o retorno para o ventre da mãe-terra e o ventre da mãe é
possivelmente a experiência mais concreta de união e paz.
É inevitável
que união venha frequentemente associada a um movimento complementar de cisão. Diversas
vezes aqui foi afirmado que união significa paz e que cisão gera sofrimento e
dor. Como é possível, então, que a busca de paz gere tanto movimentos de união como
de cisão? Não tratar-se-ia de contradição?
A resposta a
esta pergunta implica em reforçar que o caminho aqui trilhado é dialético, ou
seja, inclui a contradição. Caminhar é movimento e o movimento é gerado pelo
embate dos contrários. Assim, o caminhar em direção à união, não
necessariamente exclui cisão.
Consideremos,
por exemplo, o desenvolvimento da criança. Ele é composto de uma sucessão de
movimentos de união e cisão. Ao mesmo tempo que a criança tenta se integrar na
sociedade ela necessariamente tem que se libertar das amarras que a prendem aos
pais. A integração com a sociedade é um movimento de união que, a longo prazo,
visa a obtenção de paz. A separação dos pais é um movimento de cisão que
costuma gerar sofrimento e dor.
Se jogarmos o
foco em cima do primeiro dos movimentos, e se dermos um zoom, veremos que a própria integração na sociedade é constituída
por uma sucessão de movimentos de união e cisão. Basta, por exemplo, considerar,
que a tentativa de aproximação de uma pessoa pode, primeiramente, ser
respondida positivamente, mas, depois, vir acompanhada de rejeição.
Quero reforçar
estas idéias examinando um aparente paradoxo. Se a força motriz que nos
impulsiona é a busca da paz, como explicar que a história da humanidade tem
sido uma sucessão de guerras e conflitos? Como no desenvolvimento da criança, a
busca da paz dentro da sociedade é constituída por uma sucessão de movimentos
de união e cisão. Luta não necessariamente significa destruição. Luta pode ser
construção e é do embate de contrários que pode surgir a síntese que leva à paz.
Somos uma
coleção de partes, cada parte com sua forma de encontrar a paz. O resultado é
uma torre de Babel e os conflitos surgem justamente pela incapacidade de se entender e de se unir na busca de um caminho
comum.
Dentro da
sociedade, o processo de luta é um procedimento complexo e demorado [21].
Por causa disto, vou preferir concretizar as idéias acima tomando como base a
luta interna. Ou seja, ao invés de examinar o embate entre diversos indivíduos,
vou examinar o processo que se dá no interior de um indivíduo. Dentro da visão
aqui defendida, realidade externa e interna envolvem processos semelhantes [22]. Através
da análise da questão do medo, já examinada no início desta seção, veremos
como buscar a unidade através do entendimento [23].
Eu tenho a firme
convicção que o que nos move é a busca da paz, e, se nem sempre o conseguimos,
é porque existem bloqueios e entraves que representam o embate de formas
diversas de atingir este objetivo. As diferentes opções de diversas partes do
nosso eu, representam épocas e
experiências distintas. Fruto destas experiências, cada parte tem o seu caminho,
e é isto que leva ao conflito. Por exemplo, frente a um perigo ou ameaça, a
reação da criança costuma ser o medo. É o medo que deflagra o choro e a fuga, e
estes são os recursos que a criança tem para se defender. Para o adulto, no
entanto, o medo funciona como um bloqueio, impedindo a busca de outras soluções.
A reação usual
é a repressão. O eu-adulto passa a
reprimir o medo sentido pelo eu-criança. Pelos motivos já vistos no início
desta seção, tal solução meramente reforça o medo. O que aqui se defende é o entendimento. É ele que vai possibilitar
que do embate de soluções opostas, todas elas representando a busca de paz,
surja um caminho comum.
O primeiro
passo é entender quais as circunstâncias e porque a criança optou pelo medo
como solução para enfrentar o perigo. O segundo passo é entender que estas
circunstâncias pertencem ao passado e que o presente oferece outras
alternativas. É, no entanto, ilusão achar que somente isto vai conseguir reverter,
como num passe de mágica, o sentimento de medo, principalmente se este padrão de comportamento foi incutido por
muito tempo [24].
Se reverter um
padrão comportamental é um processo difícil e demorado, pode ser necessária uma
solução de compromisso. Trata-se do terceiro passo, consistindo em uma
tentativa de conciliação entre o padrão antigo e o padrão novo. Por exemplo, se
alguém tem medo de andar de avião, análise e entendimento possivelmente vão
ajudar. Mas é ilusão achar que eles vão resolver o problema de forma imediata e
definitiva. A solução pode consistir, por exemplo, em buscar uma outra
alternativa de transporte, ou então, diminuir a frequência do uso da via aérea.
Pode também levar ao uso de algum ansiolítico ou tranquilizante no caso de uma
viagem eventual. Muitas outras soluções de compromisso são possíveis, inclusive
uma mudança de estilo de vida que leve a evitar viagens aéreas. Pode se tentar
um aprendizado com viagens curtas que aumentam à medida que o medo seja
desconstruído, ou então, utilizar simulação. Importante, no presente caso, é
perceber que, paralelamente ao entendimento, deve ser procurada uma nova
alternativa. Isto nos leva ao quarto passo que é justamente o aprendizado e a
prática desta nova solução.
Quero dar um
último exemplo de como a cisão existente no interior de uma pessoa pode ser
colocada sob o denominador comum da busca
de paz. Suponhamos que alguém se encontra em crise existencial. Uma parte
do eu quer o suicídio. A outra parte quer viver. Aqui temos um clássico exemplo
do embate de Eros e Tânatos. Como já foi dito, também a
morte nada mais é do que a busca da paz.
O sujeito
acima encontra-se cindido entre Eros e Tânatos e não é difícil imaginar que
esta cisão lhe provoque profunda angústia. Somente o entendimento pode resolver este conflito. Isto pode fazer com que
ele chegue mais sereno à decisão que vai nortear a sua trajetória, mas nada
permite afirmar antecipadamente a natureza desta decisão. É possível que o
entendimento o leve a reconhecer que, de fato, o suicídio é a melhor
alternativa. Para alguém cuja perspectiva de vida é tão somente o sofrimento,
seja por motivos de saúde, seja por questões sociais ou políticas, a morte pode
ser a melhor saída [25]. Neste
caso, o entendimento meramente amenizou os últimos instantes que lhe restavam.
Nesta história
como é que fica o instinto de
sobrevivência ou instinto de
preservação (Selbsterhaltungstrieb)? Eu não nego a
sua existência, nem nego que se trate de um instinto natural. Acho, no entanto,
que também ele pode ser reduzido à
busca da paz, uma vez que, normalmente, a vida, mesmo não significando necessariamente
paz, significa momentos ou perspectivas de paz. Evidentemente existem partes do
nosso eu que são movidos pelo instinto de sobrevivência. Se a vida, no
entanto, estiver associada à uma dor intolerável, então pode haver uma outra
parte deste eu que deseje a morte. Novamente
é o entendimento que pode levar a uma convergência.
Na verdade,
não importa o nome que se dê para a força que nos impulsiona. Pode ser união,
busca de paz, mas pode também ser libido,
ou, encontrar um sentido para a vida. O que é libido senão união? E quando
Frankl diz que encontrar o sentido da vida é preencher o vazio existencial com
Deus e sacrifício, não se trata justamente de encontrar o todo que tudo junta? Se é a busca da paz que nos leva à tentativa
de união, ou, se é a união que nos leva à paz, é irrelevante.
Relevante é o
reconhecimento da existência de uma força, comum a todos os seres humanos, que nos
leva a buscar o caminho do entendimento. É isto que viabiliza a terapia aqui
delineada. A tese aqui defendida é que existe uma força poderosa nos impelindo
no sentido da união. Pode ser união consigo mesmo, pode ser união com o ser
amado, pode ser com o pai ou a mãe, com o povo, pode ser união com a mãe-terra,
com o pó de onde viemos, ou, melhor ainda, pode ser a soma de tudo isto.
Eu tenho a
mais firme convicção de que esta força, nos impelindo na direção da união,
existe. Eu sinto esta força atuar dentro de mim, eu a sinto nos outros e a
sinto nos relatos consolidados da literatura, cobrindo uma gama imensa de
exemplos. Eu a sinto até mesmo em um desesperado,
que, em um supremo ato de desespero, apela para aquilo que seria considerado um
típico ato de cisão: cisão com ele mesmo, cisão com o mundo e com a sociedade.
Mas, o que é a cisão de um cindido senão desejo de união? Quem odeia a todos,
no fundo se odeia e, possivelmente, se odeia, porque odeia a todos. Ele se odeia,
porque não aprendeu, ou, não conseguiu se reconciliar com os outros. Portanto,
neste sentimento de ódio há implícito um desejo de união.
Visando
resumir as idéias desenvolvidas nos últimos parágrafos, eu diria que a busca da paz é o objetivo último do ser
humano. Ele reúne todas as demais motivações: impulso de vida, impulso de
morte, instinto de preservação, etc. [26].
O que leva à paz é união. Cisão provoca sofrimento e dor. Acontece que, na
maioria das vezes, união vem acompanhada de cisão. Ao se aproximar de alguma
coisa a gente se afasta de outra. Isto significa que um sentimento de paz vem,
na prática, frequentemente acompanhado de sofrimento e dor. Dentro de uma visão
dialética contrários não necessariamente se excluem.
Junto com
Victor Hugo eu diria que il n’y a ni mauvaises herbes ni mauvais hommes. Il
n’y a que de mauvais cultivateurs [27].
Eu diria mais. Somos nós que cultivamos o nosso jardim, e, mesmo que as plantas
tenham sido plantadas no local ou da forma errada, existem formas de reverter
este processo.
Um exemplo para o entendimento: análise
manuscrita ou digital?
Tomando como
base uma questão formal, esta seção visa ilustrar e ressaltar mais algumas
características do papel terapêutico do entendimento. A forma terapêutica aqui
adotada para o entendimento é a da auto-análise escrita. Nada, mas
absolutamente nada obriga que assim o seja. A argumentação mais forte que eu
posso dar para defender a auto-análise escrita, é o fato de eu ter feito, e
continuar a fazer uso dela, ou seja, trata-se de razões de cunho estritamente
pessoal. Eu teria toda a compreensão do mundo para análise feita com um
psicanalista, um amigo, parente ou grupo, usando a forma oral, falando sozinho
ou com o espelho, celular ou gravador. Evidentemente análise e auto-análise,
forma escrita ou oral, têm vantagens e desvantagens e elas serão mencionadas
mais adiante.
No que diz
respeito à auto-análise escrita pretendo, nos parágrafos seguintes, jogar alguma
luz sobre uma questão aparentemente irrelevante: análise manuscrita ou digital?
Deve a análise ser escrita à mão com lápis e papel, ou deve ser digitada no computador?
À primeira
vista trata-se de algo inteiramente secundário. Veremos, no entanto, que a
discussão traz à tona diversos aspectos da análise que é preciso considerar. Por
exemplo, uma primeira observação, a meta-nível, é que na análise é preciso
atentar para os detalhes. As pequenas coisas, que nos parecem desprezíveis ou
sem importância, devem merecer tanta atenção quanto aspectos considerados
relevantes.
Um segundo ponto
importante, trazido pela observação acima, diz respeito aos diversos níveis em
que as coisas acontecem. É preciso considerá-los a todos. Aqui, por exemplo,
estamos fazendo uma observação a meta-meta-nível [28].
A meta-nível cabe a constatação feita no parágrafo anterior de que na análise é
preciso atentar para os detalhes. O nível, temos a comparação das formas
manuscrita e digital.
Voltando ao
cerne da discussão, cabe dizer que até 2007 as análises que eu fazia eram todas
manuscritas. A partir desta data, visando possibilitar análises mais elaboradas,
que permitissem correções e alterações, passei a utilizar o computador,
continuando, no entanto, a utilizar a forma manual para o descarrego. Chamo de descarrego
situações de crise ou de emergência, angústias surgidas no meio da noite, para
as quais a forma manuscrita parecia ser a mais apropriada.
Em função de
um envelhecimento que diminui a habilidade manual, a partir de um certo
momento, passei a apelar para a análise digital até mesmo em situações de descarrego. Se no meio da noite surgisse
uma situação de crise, eu fazia algumas anotações manuais e, no dia seguinte,
trabalhava em cima delas no computador. Foi numa destas situações que surgiu a
dúvida: a análise feita na forma digital tem o mesmo efeito que a análise manuscrita?
A primeira
resposta que nos vem a esta pergunta é o obviamente
sim. No entanto, nada é exatamente igual, e é no espaço das pequenas
diferenças que se move boa parte do mundo. A ponta que se esgueira pela pequena
brecha pode ser a de um iceberg [29].
Passei a refletir
em cima das diferenças entre a análise digital e a manuscrita e as idéias que
estou aqui trazendo são fruto deste trabalho. Em termos de efeito quais seriam as diferenças? Haveria diferença?
Aqui surge um terceiro
aspecto da análise a ser considerado: a importância do efeito. O efeito da
análise tem que ser claramente perceptível e tem que aliviar dor e sofrimento. O
que valida a análise é o alívio que ela dá. Este alívio é o supremo árbitro para
julgar se estamos no caminho certo, para definir o que funciona e o que não
funciona.
Voltando para
a comparação entre a forma manuscrita e digital devo dizer que eu, como a
maioria dos mortais, apesar da racionalidade, sou cheio de crenças aparentemente
irracionais. O que passou pela minha
cabeça é que uma análise feita no computador não poderia ter o mesmo efeito que uma análise manuscrita. De
fato, lembro-me da sensação de alívio ao
escrever de noite no papel [30].
Por alguma razão eu acordava intranqüilo, me dirigia à mesa da cozinha, mais
afastada e mais tranquila, papel e caneta na mão. Ficava escrevendo por algumas
horas até me acalmar. Este sentimento de libertação de uma carga, este sentimento
de alívio, não o tenho tido nas minhas longas análises digitadas no computador.
Seria uma mera coincidência ou seria pelo fato da análise digital ser feita de
dia, quando costumo estar mais aliviado de tensões e angústias? Existiria algum
fundamento nestes receios?
De fato,
sentado frente ao computador, o fluir da palavra é menos direto do que no
papel, a postura é diferente. No computador lê-se e relê-se o texto, fazem-se
correções e mudanças. Tudo isto distancia. Além disso, no computador existe a obsessão pelos resultados que também nos
afasta desta ligação íntima com o papel. Quando escrevo manualmente não tenho a
menor preocupação com aquilo que eu vou fazer com o texto. Normalmente não faço
absolutamente nada. Só não jogo fora o papel, porque acho que um dia posso
querer relê-lo. Já na forma digital, como trata-se de uma maneira mais
elaborada de escrever, como é uma forma mais fácil de ser modificada, aprimorada
e, portanto, aproveitada, a preocupação em torno da utilidade do trabalho torna-se
mais presente. Tudo isto são barreiras que se erguem entre a cabeça e o papel.
Existe ainda a
questão do sacrifício ou da penitência que costuma estar presente em
toda tarefa ou trabalho. A forma manuscrita é mais trabalhosa e demanda maior
esforço físico. Dentro da perspectiva judaico-cristã
em que prevalece o no pain, no gain, a análise digital
teria menos valor.
Na comparação
entre forma manuscrita e digital existe um último fato que tem que ser
mencionado. Se eu tivesse certeza de que a forma digital, de fato, introduz
distanciamento, e que este prejudica o efeito
da análise, então eu teria usado a forma manuscrita. Acontece que eu não
tenho esta certeza. Tudo pode ser produto de crença e superstição semelhante
àquela do torcedor de futebol que veste uma camisa vermelha no dia do jogo do
seu time, simplesmente porque no jogo anterior, no qual seu time venceu, ele
estava com uma camisa desta cor [31]. Pode ser que tudo
não passe de manifestações de medos infantis [32]. Como
utilizei por muito tempo a forma manuscrita, tenho medo de mudar [33].
Voltando à discussão
das formas assumidas pela análise escrita, verificamos um impasse. De um lado existem
as dificuldades associadas à forma manuscrita, desde desconforto físico até
incômodos associados à interrupção do sono. Do outro lado, a forma digital traz
à tona uma série de problemas, desde obsessão
por resultados, distanciamento entre cabeça e papel, até uma série de medos,
possivelmente crenças e superstições. Estas dificuldades acabam tornando
imperiosa a busca de uma solução de
compromisso.
Na raiz dos
problemas costumam atuar forças e interesses diversos. Alguns podem ser
desconstruídos através do entendimento, outros têm que ser aceitos. Nem sempre
é possível resolver a situação de uma
maneira fácil e direta e frequentemente é preciso buscar soluções
intermediárias.
No presente
caso, a solução de compromisso foi criar no computador a série Rascunhos. A idéia dos Rascunhos é possibilitar o descarrego, ou seja, escrever tudo
aquilo que me vem à cabeça. Trata-se de textos que, apesar de digitalizados,
não têm grande preocupação formal, nem grande elaboração, organização ou
profundidade.
Como nem
sempre a intenção prevalece, resolvi fazer um teste prático [34]. No
caso analisado, o sintoma principal da angústia eram as perturbações do sono e
os sonhos carregados de tensão e preocupação. Será que alguma coisa melhoraria
com a solução de compromisso adotada [35]?
De fato, algo
muito mágico aconteceu. Em uma certa madrugada acordei por volta das 4 ou 5
horas da manhã. Estava intranqüilo, um pouco angustiado e com leve taquicardia.
Fui ao banheiro evacuar (sentia um peso na barriga) e depois me vieram uma
série de idéias que anotei de forma apressada num papel. Adveio um alívio,
voltei à cama e dormi. No outro dia elaborei as idéias no computador e faço
abaixo um resumo dos principais pontos.
A
primeira e talvez mais importante idéia que me veio à mente foi a do insight. Eu antes não tinha conseguido
formular precisamente esta questão, mas, no fundo, a minha grande preocupação
era que a análise na forma digital não provocasse insight. O insight, ao
menos no meu entender, não é meramente uma luz na mente. O insight, para mim, associa-se a sentimentos e emoções e, na maioria
das vezes, produz uma sensação de alívio e indizível bem-estar. Sinto o nó se
afrouxar. É como se eu, de repente, me livrasse de uma carga pesada e neste
sentido o sentimento apresenta semelhanças com a evacuação [36].
Sinto-me leve, aliviado e uma paz serena invade o meu corpo. Frequentemente
sorrio, às vezes choro e agradeço a alguma força superior por ter me ajudado a
desatar o nó [37].
A
conclusão óbvia que eu tirei é que, apesar da forma digital que vinha sendo
utilizada na elaboração das idéias, tinha havido insight. Na verdade, o insight
era sobre a ocorrência de insight,
ou seja, tratava-se de um meta-insight
[38].
De qualquer forma tinha havido alívio dos sintomas de angústia, ou seja, a nova
forma de elaboração da análise estava produzindo resultados. As noites
seguintes foram mais tranquilas e o sono mais repousante.
Temos
aqui a resposta prática e direta às dúvidas surgidas. Constato, na prática, que
o insight acontece mesmo com a
análise feita na forma digital. Forma manuscrita e forma digital podem conviver
juntas, anotações feitas na forma manuscrita e desenvolvimento feito na forma
digital. Existe uma espiral virtuosa em
que o insight anotado na forma
manuscrita (o meta-insight) resolve questões levantadas pela forma
digital. Por sua vez este meta-insight
vai ser trabalhado na forma digital, ou seja, a forma digital vai trabalhar e
tentar resolver questões levantadas na forma manuscrita. Existe, portanto, um
fluir do digital para o manuscrito e vice-versa, representando a síntese das
duas formas.
De
forma prática e direta, temos aqui uma demonstração das forças que atuam na
busca da solução dos problemas. No embate entre forma manuscrita e forma
digital aparecem fatores como medos, distanciamento dos objetivos originais,
obsessão por resultados, cansaço físico, angústias, alívio, inércia, hábitos,
crenças, superstições, etc. A primeira reação foi a repressão, tentando negar a
importância do problema, classificando-o como irrelevante. Ela pode ser
entendida como tentativa de chegar à paz suprimindo dúvidas e questionamentos. Contrapondo-se
à repressão existe a análise e o entendimento. Eles permitem a conciliação das
diversas forças através da solução de compromisso. Mais tarde surgem os insights trazendo material do
inconsciente. Tudo isto contribui para a resolução do problema.
Para
finalizar esta seção vou mencionar um sonho que tive justamente quando eu
estava escrevendo o texto acima. Inicialmente pode parecer que o sonho não tem
relação nenhuma com o material examinado. Veremos, no entanto, que o cerne do
sonho é a busca por espaço e este é exatamente o papel da análise e do
entendimento: abrir espaço para que os problemas possam ser trabalhados.
O sonho foi
sobre uma mulher velha. A velha pertencia à família embora não ficasse claro
quais eram as relações de parentesco. Elas deviam, no entanto, ser fortes o suficiente
para justificar a velha se aproximar de mim e reivindicar espaço. O que
exatamente era este espaço eu não me lembro e acho que o sonho não o definia
direito. O que eu me lembro é que eu, para não me aborrecer, fazia a concessão,
mas depois não cumpria. Gerava-se um conflito entre a velha e eu em cima da promessa
feita.
Fiquei muito
tempo refletindo em cima do sonho e do seu significado. A primeira coisa que passou
pela minha cabeça foi que conflitos insolúveis podem surgir de incidentes
aparentemente bobos como este em que alguém faz uma promessa e não cumpre.
Quantas famílias ou quantos relacionamentos são destruídos por promessas não
cumpridas?
Existe, no
entanto, um outro ângulo pelo qual a questão pode ser olhada. No sonho, o
conflito com a velha surge inicialmente por busca
de espaço. Porque é que esta necessidade fica vaga e indefinida? É de sua natureza
ou será que é resultado de repressão? Este caráter difuso e desfocado da
demanda da velha, no entanto, repentinamente ganha foco através da promessa não
cumprida. A velha reivindicava espaço. Qual espaço? Não se sabe. Logo depois a
velha reivindica o cumprimento de uma promessa, e agora sim, trata-se de um
alvo claro e bem definido. O que houve foi o deslocamento de um objetivo amplo e difuso para um objetivo mais restrito,
mas mais bem definido. Não teria sido esta a finalidade de todo o sucedido? Nos
relacionamentos entre pessoas, os incidentes que ocorrem, frequentemente são
catalisadores de conflitos maiores que não aparecem, mas que existem potencialmente.
Visto sob este ângulo, a velha conseguiu, no sonho, dar contornos claros e
precisos a uma demanda difusa. Do outro lado, eu troquei um problema
possivelmente grande e complicado por um outro aparentemente menor que eu vou empurrando com a barriga. A solução encontrada, a da promessa não
cumprida, não teria significado uma melhoria para ambos os lados?
Existe um
terceiro ângulo pelo qual a questão pode ser vista. O que é que tudo isto tem a
ver comigo e com o momento atual? Eu não consegui estabelecer o grau de
parentesco com a velha, ou seja, não se tratava de alguém que eu conhecesse bem.
Mais: não costumo fazer promessas e muito menos deixar de cumpri-las. No que
diz respeito às necessidades insatisfeitas, sejam minhas, sejam de pessoas
próximas, embora nem sempre seja possível satisfazê-las, eu costumo preferir o diálogo
e a discussão a promessas vagas e indefinidas. Não costumo reprimir os
problemas, muito menos fingir que não existem ou varrê-los para baixo do
tapete. Finalmente, não me lembro de nenhum evento em que eu me deparasse com
uma situação nem remotamente parecida com a do sonho. Em particular, não me
lembro de ter sido cobrado por outras pessoas, por causa de promessas feitas.
Estava eu
imerso nestas dúvidas quando me veio o insight.
O próprio sonho oferecia a solução. Ele tinha me acordado durante a noite e
perturbado o meu sono e agora, estava lá, com as suas dúvidas e seus
questionamentos impedindo a minha necessidade de dormir. O sonho, ele próprio, estava
a requerer espaço para ser trabalhado.
De uma maneira
geral, e isto não é somente válido para o sonho em questão, os sonhos
representam problemas em aberto, dificuldades, frustrações ou questões que necessitam
ser trabalhadas. Frequentemente, assoberbados de serviços e tarefas, não lhes
dedicamos tempo e espaço suficiente.
Um problema
não resolvido não pode ser plenamente incorporado ao nosso conhecimento. Usando
a terminologia de Piaget, trata-se de algo que não faz parte da nossa
estrutura, não foi assimilado em toda a sua plenitude. Nesse sentido gera-se
cisão e esta provoca sofrimento e dor. Para dormir precisamos de paz. Ou seja,
precisamos trabalhar o problema, assimilá-lo, digeri-lo e integrá-lo, para
assim voltar a encontrar a paz.
A análise escrita
significa a elaboração e a estruturação das ideias. Ela também representa um download, na medida em que se coloca no
papel pensamentos que estavam na cabeça. Com isto, abre-se espaço para novos
pensamentos, dando continuidade ao trabalho de estruturação.
Dentro desta
interpretação, o sonho representava uma demanda dos problemas por espaço. Possivelmente
eram problemas velhos e daí o símbolo da velha. Eu não atendia a demanda e os ficava
enrolando. O sonho vinha me lembrar
dos compromissos assumidos.
Em particular,
existe uma questão que o sonho traz e que está relacionada ao dilema da redação manuscrita ou digital. Frequentemente os problemas aparecem
durante a noite porque é quando a censura é mais fraca. Por causa dos inúmeros
afazeres que nos ocupam de dia, os problemas são recalcados para o
inconsciente. Gera-se um dilema. De um lado, os problemas requerem tempo, e antigamente
eu lhes abria espaço à noite, através da auto-análise manuscrita. Atualmente, faço
tão somente algumas anotações para serem elaboradas no outro dia. Acontece que,
de dia, eu tenho muitas outras tarefas a fazer, de forma que, frequentemente, a
análise dos problemas acaba sendo adiada. Ou seja, a nova metodologia acirrou a
disputa por tempo e espaço.
Novamente é
preciso uma solução de compromisso. De um lado é preciso trabalhar os
problemas, digeri-los para incorporá-los. Somente desta forma podemos voltar a
encontrar a unidade e a paz. Do outro lado, à noite é preciso dormir, e durante
o dia é preciso desempenhar as tarefas e cumprir as obrigações. Ou seja, existe
a competição por um recurso escasso. Para complicar ainda mais a situação, há
que reconhecer que a quantidade de problemas que precisa ser trabalhada e
analisada não é algo fixo e constante, mas, depende dos acontecimentos e da
nossa sensibilidade. É esta última que define o que é um problema e o que não
é. Acontece que a sensibilidade é afetada pelo próprio trabalho de análise, ou
seja, a análise tem um papel retroalimentador. Quanto mais trabalhamos os problemas,
tanto mais problemas aparecem para serem trabalhados. Qual a solução para este
impasse? A solução pode ser, por exemplo, estabelecer uma hierarquia de
problemas, ou seja, uma fila na qual o problema entraria em função da sua
prioridade. Uma outra solução de compromisso pode ser, por exemplo, eu me
reeducar para que os problemas surjam em outra hora. Se os problemas surgem à
noite, eles perturbam o meu sono, e eu tenho que anotá-los de noite e
elaborá-los durante o dia, o que representa um duplo trabalho. Se eu ficar
consciente de que é a repressão que faz com que surjam à noite, talvez, eles
apareçam durante o dia o que facilitaria a sua análise. Existe também todo um
trabalho de dessensibilização a ser feito. Como eu disse acima, um problema não
é algo absoluto, mas sim, é aquilo que a sensibilidade detecta como sendo um
problema. Os problemas são filhos do medo. Quanto mais medo se têm, tanto mais
problemas surgem. Tudo isto são questões a serem trabalhadas.
Análise, auto-análise e Freud
No texto que se
segue procuro mencionar características adicionais da análise. Procuro também
justificar a auto-análise escrita
mencionando as suas vantagens e desvantagens. Termino a seção tentando
delimitar as diferenças entre o método aqui proposto e a psicanálise freudiana.
Dentro deste contexto é feita uma crítica a algumas idéias utilizadas por
Freud. Gostaria de deixar bem claro que esta crítica em nenhum momento visa
questionar a imensa contribuição dada por Freud à saúde mental.
Um primeiro
papel da análise a ser ressaltado é o distanciamento.
Colocar os problemas no papel, ou, de forma semelhante, expressá-los através da
fala, significa colocá-los para fora. O distanciamento em relação a um problema
é fundamental para que a gente possa trabalhá-lo. Crítica e avaliação são imprescindíveis,
e todo trabalho é o resultado de um embate dialético entre imersão / aproximação
e julgamento / distanciamento. Sem se afastar da obra somos incapazes de
julgá-la e sem julgamento não há mudança ou superação [39] [40].
O
distanciamento é um passo decisivo na direção do reconhecimento do problema,
mas as soluções e alternativas precisam ser procuradas e depois implementadas. Poucas
vezes o mero entendimento do problema leva à sua solução.
Hábitos e
costumes representam o nosso passado e definem aquilo que somos. Inércia é
fundamental. Se nada se opusesse às guinadas da nossa vontade, nada seríamos,
porque seríamos outra coisa a cada momento. Acontece que a inércia torna a
superação dos problemas longa e demorada.
Por exemplo, se
alguém tem um padrão sexual que não o satisfaz, então, primeiramente ele tem
que examinar as razões da sua insatisfação e os motivos que o levaram a esta
situação. Isto, no entanto, poucas vezes é suficiente. Há que introduzir
modificações no seu padrão e isto pode levar tempo.
Outra questão,
na análise, que requer a nossa atenção, é o perigo da excessiva imersão em si
mesmo. Já mencionamos neste capítulo a crítica que Frankl faz ao autocentrismo. O remédio que cura, também mata. Tudo depende da dosagem e da
intensidade de uso. Mas, como já foi dito, pior do que ocupar-se excessivamente
de um problema é negá-lo. O enfoque aqui é dialético e o objetivo é
preocupar-se para livrar-se da preocupação.
O preocupar-se para livrar-se da preocupação acaba trazendo à tona os dualismos fazer / deixar acontecer, dominar-se /
aceitar-se, cabeça / corpo, abertura / fechamento que já foram vistos na seção Terapia e dialética no Capítulo 3. De um lado, análise é abertura,
porque a racionalidade é a ponte que junta as partes do eu, junta o eu com o mundo. Do outro lado, é fechamento, na medida
que significa ensimesmamento, imersão em si mesmo. De um lado, análise é
cabeça, na medida em que implica em reflexão. Do outro lado, pode ajudar a
desconstruir a repressão e, neste sentido, remover barreiras à sensibilidade e à
entrega aos sentimentos. Análise é ego, é
vontade, é a tendência de tudo querer dominar e controlar. Mas, na medida em que,
através da análise, se sintoniza esta vontade com o todo, ultrapassa-se os limites do ego e se faz a conexão com o mundo. Se, de um lado, a análise é fazer, na medida em que nos leva a tentar
mudar características da nossa vida e da nossa personalidade, do outro lado,
nos leva a reconhecer que existem aspectos que têm que ser aceitos. A
perspectiva aqui é dialética e há que aprender a conviver com tendências
contrárias.
Gostaria ainda
de mencionar a variedade de ângulos e pontos de vista dentro das quais a
análise deve se dar [41]. A
título de ilustração, menciono uma questão na qual eu cheguei à conclusão que a
melhor solução era abandonar a análise, porque havia um número excessivo de aspectos
envolvidos e a minha ignorância sobre eles era grande. Eu não tinha condição nenhuma
de saber o que era certo e o que era errado e, sem este julgamento, eu não
tinha condição de escolher o rumo. Me encontrava perdido em mar revolto, sem
bússola e sem orientação. Depois de um certo tempo, e após um pouco de reflexão
cheguei, no entanto, à conclusão que este argumento era tão somente um pretexto
para eu me afastar de um assunto que me era penoso e desagradável.
No caso acima,
é importante ter em conta que as duas perspectivas, aparentemente opostas, estavam
corretas. A questão era de fato complicada, a análise era difícil e a incerteza
era grande. Este fato, no entanto, era usado como pretexto para evitar a análise.
Aqui temos um caso semelhante ao que ocorre quando se olha uma montanha. De
cada lado que se olha, o aspecto da montanha é diferente, a tal ponto que as
diversas vistas não parecem pertencer a um mesmo objeto. De um lado, a montanha
apresenta uma escarpa íngreme. Do outro lado a encosta sobe suavemente. De um
lado a montanha é coberta por densa vegetação. Do outro lado existem somente pedras
e rochedos. E, no entanto, trata-se de aspectos complementares do mesmo objeto.
Apesar de aparentemente contraditórios eles são parte de uma mesma realidade. A
mesma coisa pode acontecer na análise. Dependendo da perspectiva sob a qual se
vê o problema, a conclusão é diferente. No entanto, todas as perspectivas têm
que ser consideradas, todas as conclusões são válidas. Somente todas reunidas descrevem
o problema como ele de fato é, em toda sua totalidade.
Nos parágrafos
acima procurei caracterizar análise e entendimento e mostrar alguns cuidados
que têm que ser tomados. Nos parágrafos que se seguem quero dar algumas
justificativas para a escolha da auto-análise
escrita. Como já foi dito, trata-se da forma aqui adotada para o entendimento.
Evidentemente
a auto-análise escrita cai em mim como uma luva. Gosto de escrever e para mim a
escrita flui fácil. Adicionalmente, prezo a autonomia, a independência e a auto-suficiência.
Gosto de solidão, valorizo a reflexão e tendo a concentrar a minha atividade na
cabeça.
Dito isto,
quero passar para alguns aspectos mais gerais. Se partirmos da premissa que
problema e solução estão associados a uma visão de mundo, e que é impossível
dissociar uma terapia de uma cosmovisão, então, o fato de terapeuta e paciente
terem óticas distintas, compromete o sucesso do tratamento [42].
O raciocínio
exposto acima pode também ser formulado de outra maneira. Se partirmos do princípio
que análise é uma questão de se encontrar,
de encontrar o seu caminho, então, a introspecção da auto-análise é fundamental
[43].
É claro que isto não necessita excluir a participação de outras pessoas, mas o
trabalho feito dentro de si mesmo tem que existir.
Neutralidade
não existe. Assim como não existe neutralidade de uma forma geral, também não
existe neutralidade em ciência. A idéia de uma terapia universal, livre de valores (value-free), válida
para todo tipo de paciente, em toda situação, independente de visão de mundo, contexto
cultural, credo ou religião, nada mais é do que marketing. Mesmo na matemática, aparentemente a mais neutra das
ciências, teorias são desenvolvidas a partir de axiomas, e axiomas traduzem
princípios que podem ser aceitos ou não. Os princípios trazem implícita uma
visão de mundo e uma perspectiva histórica. A própria lógica que embasa toda a
matemática deixa bem clara esta questão. Somente a título de ilustração, cito o
princípio do terceiro excluído (tertium non datur). Trata-se de uma
premissa aceita por boa parte dos matemáticos, mas que não necessariamente o precisa
ser. A sua não aceitação leva a lógicas alternativas e a concepções também
alternativas do conhecimento [44].
Nos parágrafos
acima apresentei alguns argumentos a favor da auto-análise escrita. Cabe, no
entanto, relativizar as idéias expostas. Primeiramente a auto-análise, por
motivos óbvios, não se presta a tratar pacientes ou indivíduos que se encontram
em crise, ou seja, que se encontram
em uma fase aguda e grave dos distúrbios psicossomáticos. Em segundo lugar, a
auto-análise parte de certos pré-requisitos que nem todos atendem. Entre eles eu
mencionaria: disponibilidade de tempo, familiaridade com a reflexão, capacidade
de introspecção, disciplina, certa formação cultural, etc. Em terceiro lugar,
auto-análise é terapia da palavra, e,
evidentemente não pode ser usada por pessoas que não estão em condições ou não
tem o domínio do verbo.
Auto-análise traz,
de certa forma, embutida, a auto-suficiência e a imersão em si mesmo. Neste
sentido, a proposta da auto-análise não seria antes uma síndrome de um problema,
ao invés de uma solução? Não é necessário um olhar externo para fazer a
crítica, reconhecer erros, corrigir a perspectiva, enriquecer a análise e
propor modificações?
A resposta a
estas perguntas é ao mesmo tempo sim e não. É claro que nós não somos
auto-suficientes. É claro que somos um produto do meio e da nossa interação com
o mundo [45]. Mas a
nossa própria existência garante esta interação e a auto-análise não a impede. Pelo
contrário, uma das propostas da auto-análise é examinar a interação com o mundo
externo, e, neste sentido, a reforça. O que se está meramente dizendo é que a
auto-análise é um momento de introspecção que também tem que existir. A vida
moderna tem sido muito mais para fora do
que para dentro e, neste sentido, a
auto-análise tenta corrigir este viés.
Através
da introspecção da auto-análise nós nos tornamos conscientes dos problemas.
Lentamente, através de associações, interpretações de sonhos e símbolos, informações
imersas no inconsciente são trazidas à tona, isto é, tornam-se conscientes.
Esta metodologia guarda algumas semelhanças com a psicanálise freudiana, mas
quero aqui ressaltar algumas diferenças.
Em primeiro
lugar, as categorias de consciente e inconsciente no primeiro modelo de Freud
e ego, superego e id no segundo modelo, guardam uma
rigidez e uma estaticidade que eu só consigo explicar como herança do positivismo. Aqui, neste trabalho, parte-se
da fluidez e permeabilidade destas categorias [46]. As
coisas transitam constantemente entre estes estados, ou seja, algo que era
consciente pode não o ser algum tempo depois, e, algo que era inconsciente pode
se tornar consciente, não somente através de sonhos e atos falhos, mas
por uma lembrança, uma ocorrência ou associação com algum fato vivido ou
pensado. Esta fluidez e permeabilidade tornam a categorização de importância
secundária [47].
Por exemplo,
um medo pode ser resultado de uma experiência traumática que pode ter sido
mandada para o inconsciente. Neste caso é importante trazê-la à tona. Mas as
raízes do medo podem também ser conscientes, e, mesmo assim, constituírem-se em
problema. Se eu presenciei um naufrágio, este fato pode ser consciente, e,
mesmo assim, me levar a ter medo de andar de barco.
O ser humano é
cindido, e a cisão gera uma angústia que pode assumir proporções intoleráveis. As
diversas partes do eu são fruto de
experiências e aprendizados diferentes. Representam as influências que sofremos:
família, escola, amizades, amores, experiências vividas, expectativas, formação
cultural, pressões da sociedade, desejos, instintos, natureza, sensibilidade,
herança genética, etc. A angústia é fruto do conflito entre estas diversas
partes do eu e do embate delas com o mundo. O fato de algumas destas forças
serem inconscientes representa uma
dificuldade adicional, na medida em que, para trabalhá-las, é preciso torná-las
conscientes. O foco, no entanto, é no conflito e em como resolvê-lo, e não no
fato das forças serem ou não serem inconscientes.
Freud descobriu
forças poderosas, inclusive a sexualidade, no inconsciente. Isto fez provavelmente
que ele achasse que o inconsciente, ele próprio, constitui-se em cerne da
problemática. Mas o inconsciente é tão somente o refúgio, o esconderijo das
forças que causam o conflito. A raiz do conflito está nas forças que atuam
sobre a psique, e não na forma que elas assumem para atuarem.
Para
exemplificar, examinemos mais uma vez a questão do medo. Como vimos, quando
surge um problema grave, a criança costuma reagir com medo e choro. O medo
deflagra o choro e, através deste último, a criança normalmente consegue o que
quer: alimentação, abrigo, calor, carinho, proteção, etc. O medo pode também levar
à fuga e esta pode representar uma saída para o problema. Já para o adulto,
medo, choro e fuga costumam ser reações inadequadas. Cabe lembrar que o medo
imobiliza e que choro e fuga são discriminados na sociedade. Gera-se uma cisão entre eu-criança e eu-adulto [48]. Na
superação deste conflito o entendimento das raízes do medo tem um papel
fundamental. A idéia não é reprimir o eu-criança, mas juntar o eu-criança com o
eu-adulto.
Evidentemente
existem casos em que este conflito não é reconhecido. É preciso primeiramente
trazê-lo à tona, ou seja, torná-lo consciente. Não se trata, portanto, de negar
a importância do inconsciente. Mas a ênfase aqui é na união das partes cindidas
do eu, e não no embate consciente x inconsciente
[49] [50].
A minha
experiência mostra que frequentemente soluções
para as dificuldades são encontradas fora do âmbito do consciente. Tenho um
problema que não consigo resolver; vou dormir e, de manhã acordo com a solução [51]. Existem
inúmeros relatos na literatura e no dia a dia, que dão conta de situações como
esta. O próprio insight ocorre fora
do âmbito do consciente [52] [53].
Freud dá uma
ênfase excessiva ao conflito [54].
No primeiro modelo trata-se do conflito entre consciente e inconsciente,
o consciente tentando reprimir e resistir à tendência do inconsciente de trazer
o material à tona [55]. No
segundo modelo o conflito novamente ocupa o cerne da problemática. A disputa
entre ego, superego e id traduz o choque entre natureza e civilização.
Como
comentário ao primeiro modelo, eu diria que o inconsciente não é só o
repositório dos desejos reprimidos, mas também é uma instância em que as
questões são elaboradas, só que não de forma reflexiva. O que me parece haver é
uma colaboração entre consciente e
inconsciente, no sentido de minorar dor e sofrimento. Freud reconhece este fato
e localiza a colaboração não-consciente
no pré-consciente. De uma maneira um
tanto radical eu diria que nada é puramente inconsciente, uma vez que não
existe nada que não possa ser tornado consciente. E o inconsciente não é
meramente um depósito ou arquivo onde as coisas são guardadas, mas é também um
local onde as coisas são trabalhadas.
Com a
afirmação acima eu não estou negando a existência de conflitos entre consciente
e inconsciente. Muito menos, estou negando a existência de repressão (Verdrängung)
e resistência (Widerstand). Eu concordo plenamente com
Freud, que frequentemente o material é reprimido para o inconsciente tornando
necessário trabalhá-lo para torná-lo consciente. Mas eu não compartilho a visão
cética de Freud que coloca o conflito como inevitável e intrínseco. Da mesma
maneira que música nada mais é do que a criação de uma tensão entre as notas pedindo
a sua resolução, da mesma forma que o mundo nada mais é do que a alternância de
movimentos de cisão e união, atração e repulsão, expansão e contração, os
conflitos surgem para serem resolvidos.
Por exemplo, na
controvérsia entre análise manuscrita e digital, vista na seção precedente, a
partir de uma análise feita a nível de consciente, insights surgem do inconsciente, ajudando na superação do conflito.
Frequentemente a partir de uma vontade
consciente, forças a nível de inconsciente afloram trazendo uma solução
para o problema. Como já vimos, existe uma força poderosa atuando dentro de nós
no sentido da união e da superação dos conflitos.
Evidentemente
nem sempre tudo é tão simples assim. Por exemplo, se alguém tem um profundo
apego à sua mãe e se este apego é negado e reprimido, então existe aqui uma
disputa entre consciente e inconsciente. Esta disputa gera dor, e é esta dor
que faz surgir forças, algumas delas conscientes, outras inconscientes, atuando
no sentido da sua superação. Dor é cisão e superação da dor implica em um
movimento contrário de união, que pode inclusive levar ao afloramento de
informações do inconsciente. Ou seja, cisão e união, disputa e resolução, são
movimentos que se alternam, alguns a nível de consciente, outros a nível de
inconsciente. Se é verdade que por vezes o consciente tenta reprimir o material
para o inconsciente, também é verdade que por vezes o consciente faz o material
aflorar.
O ceticismo de
Freud é decorrente de sua visão conflituosa do mundo [56].
De um lado, ele considerava a sociedade como essencialmente repressora, do
outro lado, ele acreditava em um ser humano libertário movido por desejos,
impulsos e paixões. Cabe lembrar que Freud viveu em uma época em que a
repressão sexual era muito forte, sofrendo, ainda por cima, influências do judaísmo,
onde a moral ocupa posição central [57].
Eu não nego a
existência de conflitos, mas acho que eles podem ser superados. De um lado, é
possível construir uma sociedade menos repressora e, do outro lado, é possível
educar os desejos, impulsos e paixões. É possível trabalhar o conceito de
liberdade de forma que ele não mais represente um conflito inevitável entre
indivíduo e sociedade, natureza e civilização [58].
Resumindo, eu não
nego a existência do conflito, mas não compartilho a visão pessimista e
conformista de Freud sobre a sua inevitabilidade e permanência [59].
Pelo contrário, conflito é o que faz valer a pena viver, porque viver nada mais
é do que superar conflitos.
No segundo modelo,
através de ego, superego e id, Freud menciona os principais atores do conflito.
Eu diria que existem muitas outras forças atuando [60].
Por exemplo, um conflito pode acontecer porque existe dissonância dentro da
sociedade. O indivíduo pode espelhar internamente estas contradições e isto
pode gerar cisão.
Apesar do
modelo ter se alterado diversas vezes ao longo de sua longa vida, existe a
tendência em Freud de reduzir a neurose a um único modelo [61]. Aparentemente
esta tendência é uma consequência do monismo
que, por sua vez, mantém um vínculo estreito com o judaísmo. Adicionalmente
existe em Freud um determinismo causal que não o deixa ver que causas e efeitos
frequentemente trocam de posição. O determinismo em Freud é a base do seu
racionalismo cientificista.
Outra crítica
que pode ser feita a Freud é a passividade e a estaticidade das suas
categorias. Aqui, pelo contrário, defendemos uma visão dinâmica de um ser
humano ativo e capaz de modificar e atuar em cima das forças que o pressionam.
Cada parte do eu, mesmo aquela pertencente ao passado, perdida no mais profundo
recôndito do inconsciente, continua viva e ativa, faz parte do ser, atua sobre
ele no cotidiano e por ele pode ser trabalhada e modificada.
Na psicanálise
freudiana pode ser também questionada a importância dada à revelação. Chamo de revelação
o tornar consciente idéias ou fatos que jazem no inconsciente e a psicanálise
dá, em minha opinião, uma importância excessiva a este trabalho. Possivelmente
trata-se também de herança do judaísmo, já que o velho testamente está repleto
de revelações, visões ou mensagens divinas. O próprio Moisés é um símbolo da
revelação, ao trazer a palavra de Deus na forma das tábuas da lei. Pode também
ser uma consequência do ambiente de consultório
ao qual a psicanálise freudiana se restringe. Dentro do consultório, a palavra
do psicanalista ocupa um papel central e frequentemente é interpretada como revelação [62].
Evidentemente que
análise e entendimento, preconizados neste trabalho, também são terapia da
palavra, mas a ênfase aqui não é a revelação
da informação, mas a sua estruturação.
Esta nada mais é do que construção do
conhecimento no sentido Piagetiano.
Para encerrar
a crítica a Freud, quero mencionar algumas questões levantadas por Bettelheim
em seu livro sobre psicologia de massas [63]. Além
dos pontos já mencionados, Bettelheim critica a falta de proposta de Freud para
uma vida satisfatória. Baseando-se em uma passagem bíblica, ele diz que a
psicanálise parece ter mais alegria em um
pecador que se arrepende do que em dez justos. Ou seja, o acento é colocado
no trágico, ignorando-se os problemas do cotidiano. Como já foi dito, o foco da
psicanálise é a neurose. As angústias do dia a dia recebem pouca atenção.
Bettelheim
menciona que a psicanálise de Freud coloca o peso principal na esfera
individual. Libido, desejos, impulsos e instintos são sempre examinados da
perspectiva pessoal. Pouco espaço é dado a questões sociais e meio ambiente. Já
mencionamos também a ênfase que Freud dá no passado, implicando em uma
perspectiva causal dos problemas psíquicos. Pouco destaque recebem as
perspectivas e os planos de futuro.
Ligando os pontos (parágrafos)
Este capítulo
representa uma ponte entre cosmovisão e
terapia. Esta ponte é dada pelo entendimento. Entendimento é construção
de conhecimento, e, nesta construção, cabe colocar o eu, o mundo e os problemas. Ao longo desta tarefa
estabelecem-se vínculos e conexões que se contrapõe à ruptura e cisão, fonte principal
da dor e do sofrimento [64]. Entendimento, portanto, é terapia.
A construção
do conhecimento nos leva a Piaget com o qual compartilhamos algumas
perspectivas. Nos leva também à busca de um sentido para a vida, o que nos
conduz a Frankl e Adler.
Entendimento,
construção de conhecimento e sentido da vida são conceitos um tanto vagos,
cabendo melhor dentro do campo filosófico do que dentro de terapia. Este fato
nos leva a tentar formular uma proposta mais concreta. Trata-se da análise, em particular, da auto-análise escrita. Tenta-se
caracterizá-la, mencionando razões e cuidados na sua adoção.
A menção à análise torna quase obrigatória a delimitação
com a psicanálise e com Freud. Procuramos demarcar bem as diferenças que nos
separam.
Análise é o
pilar mais importante no qual se baseia a nossa proposta terapêutica. No
entanto, na maioria dos casos não basta entender o problema e estruturá-lo. É
necessário o aprendizado de novas perspectivas de vida e novos padrões de
comportamento. É o que veremos no próximo capítulo.
[1] A parte
inicial desta seção é baseada no trabalho de Kerstin Hecker, intitulado Jean
Piagets Theorie der geistigen Entwicklung, acessado em outubro de 2018 em
https://userpages.uni-koblenz.de.
[2] Veja
também texto de autoria de Dennis Hohmann intitulado Jean Piaget – die kognitive Entwicklung in der genetischen
Erkenntnistheorie, Escola Superior Vechta,
2006, consultado em janeiro e fevereiro de 2019 em www.dennishohmann.de.
[3] Aqui
temos em Piaget implícita a idéia do todo
uma vez que a incorporação cada vez maior de estímulos acaba resultando no todo, ou melhor, se aproximando dele.
[4] O que é
um telescópio mais do que a extensão da nossa visão? Qual a diferença
conceitual entre um telescópio e um simples óculos? Ambos se compõem de lentes.
O computador nada mais é do que a extensão e o empoderamento do nosso cérebro.
E o cérebro está ligado aos nossos sentidos. De uma maneira ampla podemos dizer
que visão e tato participam dos cálculos de um computador, porque os cálculos
nunca poderiam ser feitos sem que fossem vistos ou percebidos através dos
sentidos. A construção de um pensamento se dá através da escrita, da fala ou da
digitação. O cérebro pode pensar, mas este pensamento só consegue ser
exteriorizado através dos sentidos. E qual seria o significado de um pensamento
não exteriorizado? Mesmo em um caso hipotético futuro, em que eletrodos fossem
instalados no nosso cérebro, podemos entendê-los como extensão dos nossos
sentidos, da mesma forma que uma perna mecânica é uma extensão da perna normal.
[5] Aqui
entra a dialética, apesar de Piaget não mencionar explicitamente este conceito.
[6] Veja J. Piaget, Piaget’s Theory, em Piaget and his school, Editores: B. Inhelder, H.H. Chipman, C.
Zwingman, Springer Study Edition, 1976.
[7] A objetividade é uma tendência, um limite
para o qual se tende à medida que o conhecimento aumenta.
[8] Veja
Jean Piaget, Para onde vai a educação?
Editora José Olympio, 20. Edição, 2011, pgs. 118 e seguintes.
[10] Veja
entrevista de Jean-Cleaude Bringuier com J. Piaget em Jean Piaget – Ein Selbstportrait in Gesprächen, Weinheim, Beltz Verlag, 2004, pg.
169 citado em Hohmann pg. 8, obra já referenciada.
[11] Veja Jean Piaget, Genetic Epistemology, primeira de uma série de palestras
dada na Columbia
University e publicadas pela Columbia University Press, traduzidas por Eleanor Duckworth
e consultado por mim em www.marxists.org
em 08/2018.
[12] Jean
Piaget, Epistemologia Genética,
Editora WMF Martins Fontes Ltda. 4ª. Edição 2012.
[13] Veja
Viktor E. Frankl, Em Busca do Sentido,
Editora Vozes, 45ª. Edição, 2019.
[14] Veja
pg. 137 da obra acima citada.
[15] Veja
pg. 133 da obra acima citada.
[16] Veja
pg. 142 da obra acima citada.
[17] As
informações que se seguem são baseadas no texto Individualpsychologie Alfred
Adlers (Eine Einführung) de Dr. H. Khoshrouy-Sefat, consultado em www.adler-institut-mainz.de
em 17/12/2019.
[18] Adler
viveu nos EUA de 1934 até a sua morte em 1937.
[19] Arthur
Miller ao jogar a luz no mundo irreal das fantasias e ilusões, faz também uma
crítica ao sonho americano.
[20] A
história faz parte de um relato que li há bastante tempo atrás em alguma
revista científica da qual não mais me recordo o nome.
[21] O
objetivo do presente livro não é uma análise social e por isto esta questão não
será aqui examinada com maiores detalhes. De maneira sintética, eu, no entanto,
diria que para que numa sociedade se obtenha a paz, é fundamental que o
processo de entendimento leve à
prevalência da visão de longo prazo. Ou seja, é preciso estar convencido a
plantar uma árvore, mesmo sabendo que não mais se colherá os frutos. Somente
imbuído desta perspectiva, o indivíduo, ou, o grupo de indivíduos, reconhecerá
que a imposição da sua vontade sobre a dos demais esbarra na recíproca. Aqui
estamos fazendo forte uso do imperativo
categórico de Kant.
[22] Pode
ser argumentado que o fato de se possuir um único corpo torna a luta interna diferente da luta que diversos
indivíduos, ou grupos de indivíduos travam entre si. Esta diferença, no
entanto, tende a desaparecer se lembrarmos que os diversos indivíduos ou grupos
de indivíduos pertencem todos ao mesmo corpo
social. O mesmo raciocínio pode ser repetido para diversos povos, porque
pertencemos todos ao mesmo mundo, fazemos todos parte da mesma humanidade cujo
caminho é definido pela soma dos caminhos trilhados por cada um.
[23]
Gostaria de ressaltar que, mais adiante, dedicaremos mais espaço ao tema medo. Aqui, fazemos meramente uma
síntese das idéias principais que lá serão apresentadas, enfatizando o papel do
entendimento como promotor de um denominador comum entre as diversas partes do
eu.
[24] No
próximo capítulo a questão dos padrões de
comportamento será examinada com mais detalhe. Será mostrado como eles
surgem e como fazer para desconstruí-los. Neste processo, o aprendizado desempenha papel
fundamental.
[25] Dentro
da nossa sociedade reluta-se em admitir este fato. Isto tem diversos motivos
que são complexos demais para ser examinados em um espaço tão exíguo. Eu diria,
no entanto, que a dominação, tem o medo
da morte como um dos seus pilares básicos. Cabe lembrar que a dominação
visa obrigar o sujeito a se submeter, e é o medo da morte que, ao fazer o
sujeito lutar para preservar a sua vida, acaba fazendo com que ele se submeta.
A grande arma da dominação é o medo,
em particular o medo da morte, e alguém que não tem medo, dificilmente se deixa
dominar.
[26] Aqui
vale a navalha de Ockham. Para
justificar este princípio eu utilizaria a estética. O mundo é belo e, portanto,
simples. O simples é belo e o belo é simples. Mas não nos esqueçamos que quanto
mais simples, mais ampla e geral é a explicação, e, portanto, mais difícil de
entender.
[27] Não
existem plantas nem homens maus. Existem maus cultivadores.
[28] A
meta-meta-nível eu constato, através de uma observação feita a meta-nível, que
é importante considerar sempre os diversos níveis em que as coisas acontecem.
[29]
Gostaria de relembrar um ponto levantado acima, qual seja, a atenção que, na
análise, deve se dispensar aos detalhes.
[30] Talvez
por conta deste alívio eu tenha usado a palavra descarrego para caracterizar estas auto-análises noturnas.
[31] B.F.
Skinner, psicólogo, behaviorista, em seu artigo Superstition in the
Pigeon, Journal of
Experimental Psychology, no. 38, 1947 narra um experimento em que um
pombo recebe comida através de um mecanismo que independe do seu comportamento.
Este pombo, no entanto, passa a repetir certos padrões de comportamento que,
por coincidência, estavam associados ao fornecimento da comida.
[32] O medo
é um traço familiar meu, uma componente atávica. O meu pai era muito medroso,
mas também meus tios, por parte de pai, eram extremamente medrosos. O medo está
associado à minha origem judaica. Apesar de eu não ser descendente direto de
judeus de gueto, certamente haverá ascendentes pertencentes a esta categoria e,
entre eles, o medo era uma constante. Meu pai provém de uma família judia na
fronteira da Alemanha com a Polônia. Provavelmente lá os pogroms eram freqüentes o que explica os medos. Além disso, o meu
medo foi reforçado por diversas rejeições que sofri na infância e que serão
mencionadas com mais detalhe mais adiante.
[33] Aqui
surge uma nova questão, qual seja, a importância do hábito e da inércia. Isto
será analisado com detalhes mais adiante. Aqui quero tão somente notar que a
mudança, a ocorrência do novo e do inesperado, sempre traz à tona os medos e as
preocupações.
[34] Aqui
temos novamente a questão do efeito
que já foi abordada acima.
[35] Há que
atentar para o fato que a própria expectativa de sucesso às vezes o dificulta,
podendo até mesmo impedi-lo. Ou seja, ao mesmo tempo em que se constrói a
expectativa, há que desconstrui-la. Mais adiante, quando falarmos do querer, entraremos mais profundamente
nesta questão.
[36] Aliás,
não deve ter sido mera coincidência que, no meu caso, evacuação e insight, ambas, tivessem vindo juntas.
Ambas são manifestações do botar para
fora (as podridões, os problemas e as dificuldades). Como, no meu caso, o insight normalmente se dá colocando as
idéias no papel, temos, literalmente, os problemas sendo colocados para fora.
[37] Aqui há
um toque de aparente misticismo que eu consigo aceitar e explicar racionalmente
como sendo a existência de algo que ultrapassa as nossas limitações (mais
adiante vou dar mais detalhe para o fato, óbvio, de que muita coisa, não
necessariamente metafísica, se passa além dos limites do nosso conhecimento e
da nossa consciência).
[38] Aqui,
novamente, cabe atentar para uma questão já mencionada anteriormente, das
coisas passarem-se em diversos níveis. Se eu como um pedaço de pão eu tenho que
prestar atenção no pão. Mas eu tenho que prestar atenção também no ato de comer
o pão, o que ocorre quando eu como o pão. E eu tenho que prestar atenção também
na atenção que eu presto ao ato de comer o pão. Estes níveis se sucedem
indefinidamente, mas há um limite para a percepção e para o entendimento /
apreensão, ao menos no que tange o consciente. A existência deste limite, no
entanto, não significa que as coisas não possam se passar além deste limite.
Aqui temos claramente formulada a questão mencionada em nota anterior. Sempre
existem coisas passando-se além dos limites da nossa percepção, e que nem por
isto são metafísica. Aqui a presença do todo
transparece de forma clara e perceptível.
[39] A
sabedoria popular diz que, para resolver um problema é necessário esfriar a cabeça. E o que é esfriar a cabeça senão distanciamento?
[40] É
interessante lembrar do papel do humor na superação das dificuldades da vida.
Humor é distanciamento. Considere-se, por exemplo, a sabedoria popular que acha
que rir da sua desgraça é uma das
formas de superá-la. Veja Michael Titze, The significance of the Paradoxical
Effect in Adlerian Psychotherapy, Dialoghi Adleriani II, n. 4, 26-47, 2015; veja também Gelotologia.
[41] Neste
sentido vale a pena consultar a seção Racionalidade:
uma tentativa de definição do capítulo 2. Lá eu examino a questão da
violência e mostro os diversos ângulos em que esta questão pode ser vista.
[42] Este
fato é reconhecido pela psicanálise quando ela ressalta a importância da
empatia entre paciente e analista.
[43] Estas
ideias têm alguma semelhança com a Logoterapia de Viktor Frankl, já mencionada
anteriormente.
[44] Basta
lembrar que o princípio do terceiro
excluído guarda fortes relações com o positivismo
e que este representa um posicionamento não só em ciência, mas também em
política, sociologia e filosofia.
[45] Veja a
seção O real é racional e o racional é
real no Capítulo 2.
[46] Freud
deve ter reconhecido esta rigidez ao criar, no primeiro modelo, uma categoria
intermediária: o pré-consciente. No
livro Das Ich und das Es (O Eu e o Id) abole-se
as fronteiras rígidas entre ego e id.
[47]
Possivelmente Freud reconheceu este fato ao mudar do modelo consciente/inconsciente para o modelo ego/id/superego. Utilizaremos
frequentemente as categorias de consciente
e inconsciente para nos
referirmos a idéias que estão mais ou menos presentes na nossa formulação
verbal, mas as fronteiras entre estas categorias são permeáveis e os seus
limites difusos e imprecisos. A mesma coisa acontece com as categorias de cabeça / corpo, eu-adulto / eu-criança
que, de certa forma, guardam semelhança com as categorias freudianas de ego e id.
[48] Para
uma definição um pouco mais precisa dos conceitos de eu-criança e eu-adulto veja
seção Racionalidade, sentimento e
sensações do capítulo 2. De certa forma, o eu-criança guarda semelhanças com o id freudiano. Ele representa
as nossas origens, a natureza, os instintos e o corpo. Já cultura e civilização
fazem parte do eu-adulto.
[49] Ou
seja, a ênfase não é a repressão. Como veremos mais adiante, não se trata de
negar a existência de repressão, mas esta não ocupa o centro das nossas
atenções.
[50] Pode
inclusive haver cisão tão somente a nível de consciente, ou então, haver cisão
somente a nível de inconsciente. Nem por isto o problema é menor.
[51] Freud
reconhece este fato no segundo capítulo do livro O Eu e o Id (veja pg. 29 de Das Ich und das Es, Internationaler Psychoanalytischer Verlag,
1923). Ele menciona o pré-consciente como local onde as questões são
elaboradas.
[52] Na parte III das Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise, palestra XIX, Freud
constrói um modelo de duas salas em que a sala maior é o inconsciente e a sala
menor é o pré-consciente. Entre as duas salas existe um guarda que representa a
censura / resistência e que deixa passar somente algum material da sala maior
para a sala menor. Aparentemente o material do pré-consciente é, portanto,
originário do inconsciente. Mais tarde, no livro Das Ich und das Es (O Eu e o Id) Freud introduz algumas modificações neste
modelo.
[53] Veja nous em contraste com logos.
[54] Um
exemplo muito apropriado para esta idéia é dado no capítulo III do livro O Eu e o Id, referenciado acima, quando
ao falar do conflito entre superego e
ego, que dá continuidade ao conflito
entre o ego e o id no relacionamento libidinoso da criança com os pais (complexo de
Édipo), Freud menciona a pintura A
batalha dos Hunos de Wilhelm von Kaulbach. Nesta pintura, uma batalha travada na terra continua nos céus. O
conflito ocupa posição tão central em Freud que nem o céu é dele poupado.
[55] Veja
por exemplo palestras XXVI e XXVII das Conferências
Introdutórias sobre Psicanálise. Por exemplo, na pg. 468 da versão alemã do
livro, Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse, Gustav Kiepenheuer Verlag, 1935, Freud diz
que durante o sono o inconsciente consegue uma certa independência em relação
ao consciente pois o material reprimido do inconsciente se aproveita de uma
censura debilitada do consciente para burlar
(ênfase minha) o desejo de dormir, e utilizar os resíduos diurnos para a
construção dos sonhos. Na pg. 485 do mesmo livro ao comentar o conflito
patológico do neurótico, Freud menciona explicitamente o conflito entre
consciente e inconsciente. Veja também pg. 16 do livro Das Ich und das Es (O Eu e o Id), Internationaler
Psychoanalytischer Verlag, 1923, onde Freud fala da prática
psicanalítica de reduzir a neurose a um conflito entre o consciente e o
inconsciente. Mais tarde, Freud ameniza o conflito ao reconhecer que a resistência (Widerstand) faz parte do inconsciente. Ou
seja, neste caso o conflito surge dentro do próprio inconsciente. É bom lembrar
que a resistência faz parte do ego e se opõe a que o material do
inconsciente se torne consciente (veja pg. 16 do livro Das Ich und das Es referenciado acima).
[56] No
capítulo XXVII das Conferências
Introdutórias sobre Psicanálise Freud menciona os conflitos entre um
eu-libidinoso e um eu-ascético, um eu-sensual e um eu-repressor, deixando
implícito que este conflito é inevitável. Mais tarde ele vai chamar o
eu-libidinoso de id e o eu-ascético
de ego.
[57] O velho testamento transmite uma visão
conflituosa do mundo. De um lado temos um Deus severo e castigador e, do outro
lado, um ser humano tentando escapar do seu controle. A história de Adão e Eva
é um magnífico exemplo desta idéia. Mas existem outros casos: Caim matando
Abel; Deus mandando Abraão matar Isaac; Deus castigando todos os homens com o
dilúvio, Deus destruindo Sodoma e Gomorra, etc.
[58] De uma
maneira sintética eu diria que liberdade deve significar uma síntese entre o querer e o poder, onde poder significa
a possibilidade da realização dos desejos despertados pelo querer. Maiores detalhes sobre estas idéias podem ser encontrados
nas seções Paradoxos, Koans e Zen-Budismo
e Individualismo e massificação: um
exercício dialético, do capítulo 3.
[59] Na
palestra XXVII das Conferências
Introdutórias sobre Psicanálise (pg. 484 da versão alemã citada acima)
Freud menciona a necessidade de um poderoso (o imperador José, provavelmente
José II) para promover as reformas necessárias na sociedade. Fica mais cômodo
deixar a sociedade fabricar os neuróticos para depois tratá-los.
[60] Freud menciona
ainda o impulso/pulsão de vida ou a Libido (Lebenstrieb), o princípio do prazer (Lustprinzip),
o princípio de realidade (Realitätsprinzip), o instinto de morte
(Todestrieb), o instinto de preservação (Selbsterhaltungstrieb),
o complexo de Édipo, o complexo de castração, etc.
[61] Talvez
tenha sido esta a razão para ele ter alterado tantas vezes o modelo.
[62] Bruno
Bettelheim em seu livro Aufstand gegen die Masse (The informed Heart: Autonomy in a
Mass Age), Fischer
Taschenbuch Verlag, 1995, faz
uma crítica a Freud pelo fato deste ter restrito o seu trabalho ao ambiente do
consultório. As descobertas lá feitas precisam considerar este fato, ou seja,
precisam considerar o fato de que o mundo é mais do que o consultório.
Interessante é considerar que boa parte da metodologia de Freud se baseia na transferência, onde a libido do paciente
é transferida para o analista. A transferência,
apesar de restrita ao consultório, é uma lufada
de realidade dentro de um mundo de idéias, sonhos, símbolos, relatos e
recordações. Ou seja, trata-se do aqui e do agora, de acontecimentos reais e
físicos, dentro de um ambiente em que prevalece a recordação e o passado.
[63]
Trata-se do livro Aufstand gegen die Masse (The informed heart; autonomy in a mass age), Fischer Verlag, 1995. Para outros
comentários críticos sobre Freud recomendo ler os parágrafos deste capítulo
sobre Piaget, Adler e Frankl.
[64] Pontes
são estabelecidas nas duas dimensões básicas: espaço e tempo.
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