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Capítulo 5 –Padrões de comportamento

 

Capítulo 5 –Padrões de comportamento

 

Entendimento sozinho não é suficiente

 

O entendimento, apesar de necessário, não costuma ser suficiente para resolver os problemas com os quais somos confrontados no nosso dia a dia. Frequentemente criam-se padrões de comportamento que não conseguem ser superados tão somente pelo entendimento.

Vimos que entendimento é integrar a parte no todo. O papel do entendimento é propiciar a união. No que diz respeito à cisão interna, trata-se de integrar as diversas partes do eu. No que diz respeito à cisão externa, trata-se de integrar o eu no mundo, em particular, na sociedade. Cabe lembrar que fracionamento é dor e sofrimento e a união é paz.

            Apesar de o entendimento envolver sentimentos e sensação, apesar dele estar baseado em experiências concretas e reais, vividas e vivenciadas, ele é, em sua essência, elaboração mental. Esta elaboração mental nós podemos, com certo nível de imprecisão, chamar de teoria para distingui-la da prática do dia a dia.

Para evitar a abstração excessiva, ilustro as idéias através de alguns exemplos. Começo com um caso bem simples. Por ser simples, também a etapa de análise e entendimento é simples, tornando mais fácil o reconhecimento das suas limitações. Suponhamos que ao comer, meu corpo esteja entregue à mastigação e à digestão, mas minha cabeça esteja imersa em pensamentos que nada tem a ver com a refeição. Este padrão representa uma cisão cabeça/corpo que pode inclusive dificultar a digestão. O entendimento do processo de cisão e de suas causas, possivelmente decorrentes de um medo infantil de entrega a sensações corporais, pode ajudar a superar o problema, mas dificilmente vai, por si só, fazer com que se abandone o hábito de remoer e ruminar problemas e preocupações durante as refeições. A entrega ao ato de comer é um aprendizado que tem que ser feito.

Como segundo exemplo tomo o caso fictício de alguém que não consegue um relacionamento sexual estável com outra pessoa, necessitando de uma constante troca de parceiros. Seja A este alguém e suponhamos que esta situação o deixa angustiado. Suponhamos que ele faça uma análise aprofundada (sozinho ou assistido, os detalhes não importam) que corresponde ao processo de entendimento e vamos supor que, de fato, ele consiga chegar ao fundo do poço. Suponhamos que através do entendimento A chegue à conclusão que a constante busca de novas aventuras amorosas é fruto de imaturidade e que medos e inseguranças têm um papel decisivo na sua dificuldade de entrega. O refúgio em um mundo de fantasias e ilusões nada mais é do que fuga da realidade. Cada nova aventura amorosa é uma bolha de sabão que logo arrebenta em desilusão.

A conclui que a busca incessante de novas aventuras sexuais é movida pelo medo de entrega e que a alternativa consiste em buscar uma relação mais duradoura e de maior envolvimento. Apesar deste entendimento os problemas continuam. Ao mesmo tempo em que A sente o vazio das suas relações, ele tem medo da entrega. Ele até justifica o medo com argumentos que vão desde a impossibilidade de um amor duradouro, até o desgaste causado pela rotina e pela repetição. A perspectiva de novas conquistas o excita sobremaneira e ele não consegue evitar a tentação de construir novas fantasias. E, de fato, novos relacionamentos, no início lhe proporcionam grande prazer, o que o leva, constantemente, a sair em busca de novas aventuras.

Aqui cabe abrir um parêntesis para fazer algumas associações. O medo de entrega sexual tem uma certa semelhança com o medo de entrega ao ato de comer, mencionado anteriormente. Ambos significam entrega corporal, à qual se contrapõe o ato mais cerebral dos pensamentos, sonhos e fantasias. De uma forma muito geral, e salvo situações específicas, o medo da entrega pode ser atribuído ao trauma do nascimento [1].

No início tudo era bom, tudo era paz. No ventre materno, todas as necessidades eram satisfeitas, não havia calor nem frio em excesso, não havia inimigo nem perigo. Tudo era conforto e segurança. Prevalecia a entrega ao corpo e a imersão em sensações.

À medida que o tempo passa e o feto cresce, o espaço disponível diminui. A partir de um certo momento o que prevalece é o desconforto e a exiguidade de espaço. A necessidade de crescimento acaba levando ao trabalho de parto. Este é sem dúvida o ápice do trauma, tanto para a mãe, como para o bebê. A passagem pelo canal vaginal, a constrição de cabeça, ombros e quadris, o confronto com a luz e o mundo dos ruídos, o corte do cordão umbilical, a falta de oxigênio e a busca da respiração, tudo isto é traumático.

A primeira experiência da vida é, portanto, a associação da paz ao trauma. Tudo que é bom, acaba, e a paz nada mais é do que um breve lapso de tempo que termina em dor e sofrimento. Associado à esta primeira experiência, talvez a mais importante de toda a nossa vida, a que mais profundamente fica marcada na nossa memória, existe o medo. O fato da paz poder terminar, o fato da bonança poder chegar ao fim associada a dor e sofrimento, passa a pesar daí por diante, como espada de Dâmocles, sobre a nossa cabeça.

O trauma do nascimento não é, portanto, somente a dor e o sofrimento associado ao parto, mas, principalmente, é o medo de que uma situação de paz e bonança, de entrega aos prazeres do corpo, possa terminar em sofrimento e dor. É compreensível que novas tentativas de entrega ao corpo despertem este medo primitivo. Tem-se medo de que a situação se repita, e que a calmaria termine em tempestade.

Esta experiência é reforçada por outras de mesmo teor. O aleitamento materno, o conforto do regaço da mãe também são episódios passageiros. Logo surgem afazeres, deveres e obrigações, interesses e necessidades conflitantes que expulsam a criança do colo da mãe. Mesmo mais tarde, a tendência é a situação se repetir. Tempos de paz e bonança nunca duram muito tempo. Gera-se um círculo vicioso que está na raiz de todo o sofrimento. Sem entrega não há paz, mas a paz é passageira e este fato gera o medo da entrega.

Medo está sempre associado à fuga e a fuga mais comum costuma ser para o mundo fictício das ilusões. Ao invés da realidade, buscamos refúgio em um mundo de sonhos e fantasias. Saímos do mundo onde a paz é passageira e vamos procurar abrigo em um mundo onde, aparentemente, conforto e segurança estão sob nosso controle. A fuga da realidade, no entanto, reforça o medo que se sente por ela, na medida em que só se foge de algo que é ruim ou que representa uma ameaça. Gera-se um círculo vicioso em que o medo de entrega gera fuga e fuga reforça o medo de entrega.

Voltando ao caso de A, vimos que a fuga para um mundo de fantasias e ilusões não consegue ser resolvida tão somente através do entendimento. Existe o lastro do passado, existe uma prática arraigada reforçando um padrão de comportamento que, apesar de não mais o satisfazer, continua a imperar, por uma questão de inércia. Adicionalmente, existe o medo da mudança. Mesmo infeliz, A sabe lidar com a questão da inconstância das relações, enquanto a mera perspectiva de uma relação duradoura o apavora. A solidão a dois, o massacre do tédio, a avalanche das pequenas rixas e provocações que escondem os grandes desencontros, o afasta de uma tentativa mais séria de relação estável.

Aqui eu quero abrir um novo parêntesis para comentar o juízo de valor por trás do caso narrado. Existe um julgamento moral do que é certo ou errado, bom ou mal por trás da questão, e eu queria deixar bem claro que, em nenhum momento, eu estou julgando o que é mais acertado para A. De nenhuma maneira eu estou condenando A pelo caráter volúvel das suas relações, e de nenhuma forma eu estou afirmando que a solução dos seus problemas vai ser conseguida através de uma relação mais estável e duradoura. Pelo contrário, talvez a melhor solução para A fosse aceitar o seu lado volúvel e instável, aprendendo a conviver com ele. O caso narrado tem como ponto de partida a insatisfação de A com a sua vida atual e sua vontade de mudar, ou seja, não sou eu que julgo o que é mais acertado para A, mas foi ele próprio que decidiu dar um passo no sentido de uma modificação do seu estilo de relacionamentos.

O foco aqui não é o julgamento do que é certo ou errado, o que é melhor ou pior para A. O foco aqui é a dificuldade que A tem para concretizar a sua vontade de mudar. O problema é o peso e a inércia de certos padrões, que não permitem que A realize a sua vontade. Embora o entendimento o permita reconhecer as razões do seu comportamento, bem como as necessidades de mudança, existe todo um peso de experiências passadas trabalhando no sentido de reforçar o padrão adotado.

É inclusive possível que a etapa de entendimento, constituída por longas análises e reflexões, funcione como uma espécie de confessionário. A tem as suas aventuras, para depois expiar a culpa na análise. É algo semelhante ao sujeito que erra e depois pede desculpas, onde o pedir desculpas frequentemente facilita o erro. Exagerando um pouco, poder-se-ia até dizer que é a expiação da culpa, que possibilita a continuidade da busca por novas aventuras [2]. Neste caso, o entendimento ao invés de ajudar a desconstruir, está consolidando um padrão de comportamento que se deseja superar. Aqui vemos os caminhos intrincados da psique. O entendimento que era uma forma de superar a cisão, acaba sendo por ela instrumentalizado e a reforça [3].

Temos aqui um eu cindido. Uma parte do eu tem intenso prazer na aventura. A outra parte do eu, provavelmente dominada pela moral judaico-cristã, sente culpa com a frivolidade e a superficialidade dos relacionamentos. Esta última parte compensa a angústia da culpa com o prazer de um autoflagelamento feito de longas análises e confissões [4] [5] [6]. No pain, no gain; tudo tem o seu preço; da vida nada se leva. A moral judaico-cristã não admite o prazer sem que haja contrapartida, normalmente associada a sacrifício, penitência e sofrimento [7]. A idéia do sacrifício, presente na maioria das culturas e dos ritos religiosos ancestrais, possivelmente desempenha o papel de balancear este prazer [8] [9]. Momentos de extrema satisfação e de realização dos desejos, precisam, para que se restabeleça o equilíbrio perturbado pelo júbilo e pelo gozo, ser contrabalançados por introspecção e penitência. A abertura para fora, propiciada por um relacionamento, precisa ser compensada com um fechamento para dentro.

Procuremos entender melhor o processo de cisão pelo qual passa A. De um lado existem as fantasias, permitindo a fuga para um mundo onde A é dono e senhor. Neste mundo ele não somente é rei, como também é o único súdito. Trata-se de solipsismo e volta à infância. Contrapondo-se ao isolamento do mundo das fantasias, existe a realidade, o mundo dos relacionamentos reais. Aqui existem reais dificuldades: a solidão a dois, o massacre do tédio, a avalanche das pequenas rixas, as pequenas provocações e os grandes desencontros. Gera-se uma cisão. De uma maneira extremamente simplificada, esquemática e inexata, poder-se-ia categorizar como tendo, de um lado, o instintivo, impulsivo, infantil e irracional e, do outro lado, o sensato, ponderado, equilibrado e racional [10] [11]. A se encontra cindido entre a prática e a teoria, corpo e cabeça, inércia e vontade, poder e querer, fazer e pensar, instintos e ponderação, natura e cultura, padrões de comportamento e entendimento.

Voltando ao papel exercido pelo entendimento vemos que ele ora está a serviço da união, ora está a serviço da cisão. Começamos com o entendimento como um movimento de união, reconhecendo que as fantasias e ilusões de A são, na verdade, um entrave para uma vida mais harmônica e mais satisfatória. O entendimento, no entanto, acaba sendo utilizado para propiciar cisão, na medida em que se separa teoria de prática, cabeça de corpo; a cabeça envolvida em elucubrações e o corpo entregue aos prazeres da aventura. O reconhecimento desta idéia faz parte de um novo entendimento, chamemo-lo meta-entendimento, caracterizando novo movimento de união. A ele certamente se segue novo movimento de cisão, e assim por diante [12]. Estes sucessivos movimentos de união e cisão compõe a espiral dialética, na medida em que ora se vai em uma direção, ora se vai na direção oposta, mas sempre subindo ou descendo de nível.

O meta-entendimento certamente é um refinamento do movimento de união, mas nada, absolutamente nada, permite a gente concluir, de antemão, quem sairá vencedor neste embate de sucessivos movimentos de união e cisão.

Ninguém deixa de fumar somente em cima de argumentos sobre os danos causados pelo cigarro. Para deixar de fumar é preciso não mais colocar o cigarro na boca. Mas então, qual é a contribuição que a teoria pode dar, se o padrão é mudado pela prática?

Apelo mais uma vez para a dialética. As coisas sempre acontecem nos dois sentidos, ou, ao menos, podem acontecer. Teoria pode nos afastar da prática, mas teoria pode também nos ajudar a encontrar a prática mais adequada. Afinal, não existe a teoria da prática e a prática da teoria?

Este capítulo e os capítulos que se seguem jogam o foco justamente em cima de uma tentativa de mudança de padrões de comportamento. É claro que a mudança de um hábito é algo essencialmente prático e que requer, acima de tudo, ser praticado. Acontece que existem uma série de conhecimentos envolvidos que vão desde o entendimento da prática mais adequada, até o conhecimento das origens e finalidades dos padrões de comportamento.

Quanto mais conhecimentos se têm sobre um campo de atuação, mas fácil é atuar. Não necessariamente eu preciso conhecer as forças que atuam sobre um barco a vela para conseguir velejar, mas que ajuda, ajuda. Como eu já disse acima, a teoria pode andar de mãos dadas com a prática. Claro que é necessário fazer o aprendizado, mas entender o aprendizado é parte do processo. Afinal o objetivo último aqui é promover a união do fazer e do entender, cabeça e corpo, teoria e prática.

 

 

Hábitos e inércia

 

            O entendimento, isto é, a racionalidade pode criar condições, dar estímulos e motivar a mudança de um padrão de comportamento, mas dificilmente é suficiente para realizá-la. O entender pode ser uma condição necessária para o fazer, ele, no entanto, raramente é uma condição suficiente [13]. Por exemplo, se alguém sofre de insônia crônica e se este padrão comportamental foi incutido durante muito tempo, dificilmente ele voltará a dormir, mesmo que consiga elaborar e trabalhar as causas do distúrbio. Para isto, é fundamental que ele reaprenda a dormir, ou seja, que ele crie um novo padrão de entrega ao sono. Entre outras coisas, é importante que ele se desligue do querer dormir, que, em vez de entrega ao corpo, representa o foco na cabeça e na vontade.

É frequente uma pessoa entender a necessidade de uma dieta rigorosa e até entender as razões que a levam à gula e, no entanto, continuar fazendo, ou melhor, praticando, o contrário daquilo que o entendimento recomenda. O entender é um nível em que as coisas se passam e o fazer é outro nível. Estes dois níveis estão intimamente relacionados e, no entanto, não são idênticos. Para a mudança de um padrão de comportamento é necessário atuar em ambos os níveis, tanto no nível do entender como no nível do fazer.

            O hábito é um poderoso formador da personalidade [14]. A gente é aquilo que a gente faz [15]. Somos o que praticamos. A forma como a gente fala, os amigos com os quais nos relacionamos, o que e como pensamos, como agimos, tudo isto define a nossa personalidade. Foi dito anteriormente que o hábito desempenha uma importante função que é a de propiciar estabilidade [16]. Somos aquilo que o passado (genética e experiências) nos ensinou a ser.

Foi para contrabalançar a volatilidade e volubilidade da vontade, que a natureza, sabiamente, criou a inércia. A inércia representa o passado e o que seríamos sem passado? Na verdade, é a inércia, tantas vezes maldita e condenada, que garante que não sejamos, a cada momento, algo diferente. É uma certa constância da nossa personalidade que permite que a personalidade exista, porque se a cada momento fossemos coisa diferente, não seríamos coisa nenhuma.

            De um lado, temos o papel estabilizador do passado. Do outro lado, temos a perspectiva de novos caminhos, possibilitada pelo futuro. Reflexão, intenção, entendimento e vontade desempenham importante papel nas escolhas que fazemos. Da mesma forma como Piaget estabelece a necessidade da equilibração entre a assimilação e a acomodação, é preciso um balanço entre a inércia dos hábitos e a necessidade da sua transformação, entre manter o rumo e mudá-lo. Aqui, neste capítulo, o foco é em cima da mudança. Cabe, no entanto, reconhecer a importância da força que resiste.

O hábito faz o monge. Originalmente este dito popular era o hábito não faz o monge, significando que não se deve julgar as pessoas pela sua aparência. A gente não se torna monge simplesmente pelo fato de vestir um hábito de monge. A palavra hábito, neste caso, significa veste ou traje.

Acontece que os hábitos, e aqui uso o termo em um sentido mais amplo, incluindo não só a vestimenta, mas também os usos e costumes, acabam se incorporando de tal maneira, que terminam por moldar a personalidade de quem os usa. Ou seja, ao invés do preceito moral o hábito não faz o monge, vemos que, na realidade, o hábito faz o monge . O que seria do padre sem a batina, o que sobraria da autoridade de um juiz sem a toga, o que seria do médico sem o estetoscópio, isto para não falar de almirantes, brigadeiros e generais. Se eu visto cores alegres é provável que eu o faça por uma questão de temperamento. Mas também é provável que este fato contribua para moldar ou consolidar a minha alegria. Causas e efeitos costumam trocar dialeticamente de posição e o que é causa vira efeito e vice-versa. Se alguém porta uma arma pode ser que o faça por dever do ofício, mas, não há a menor sombra de dúvida, que o trabuco há de deixar marcas nas suas atitudes e no seu comportamento. No filme de Chaplin, O grande ditador, Hynkel (Hitler), dirigente de Tomainia (Alemanha) senta em uma cadeira mais alta na sua negociação com o ditador de Bactéria (Itália), não só para compensar a diferença de altura dos dois, como também para realçar a sua importância. Afinal, a altura da qual se fala, influencia a autoridade da fala.

Hábitos, usos e costumes compõe aquilo que neste livro chamamos de padrões de comportamento. Vamos utilizar este termo em um sentido amplo o suficiente para incluir também atitudes, formas de agir e pensar, expressões faciais, postura, maneira de vestir e de gesticular, expressões de linguagem utilizadas, sentimento e afeições. A psique se expressa através dos padrões comportamentais, e estes influenciam a psique.

Como vimos, hábitos, usos e costumes incorporam-se à nossa personalidade compondo a nossa essência. Mas, eles são a nossa forma, a nossa aparência. Aqui temos mais uma vez a equivalência entre essência e aparência. Ao mesmo tempo que a essência se reflete na aparência, a aparência define a essência.

Padrões de comportamento arraigados ou consolidados por um certo tempo não são apagados automaticamente pela vontade. Embora tenhamos ressaltado o papel positivo da inércia, é importante garantir a possibilidade de mudança. O padrão comportamental faz parte do ser, é a forma sob a qual o ser se apresenta e mudar a forma é mudar o ser [17]. Mudar significa deixar de ser e a possibilidade de toda e qualquer mudança, a qualquer momento e de qualquer maneira, representaria morte e fim. Mas o ser traz imanente o não-ser, e é isto que possibilita mudança, movimento e transformação. A vida resulta desta riquíssima contraposição dialética entre mudança e permanência, entre ser e não-ser. Nas seções que se seguem, será dedicado amplo espaço a esta questão.

 

 

Surgimento, significado e importância dos padrões de comportamento

 

Na seção anterior examinamos rapidamente o problema da insônia. Feita a análise, se ela atinge o cerne da questão, é de se esperar que a pessoa reencontre a paz e volte a dormir. Isto, no entanto, somente se aplica a uma insônia leve e ocasional. Se a insônia é crônica, acumulada durante dezenas de anos, o processo é muito mais complicado. Temos, neste caso, um padrão de comportamento incutido através do uso e do tempo.

Quanto mais noites o sujeito passa sem dormir, mais a insônia é reforçada e mais difícil se torna reverter o processo. Identificado um problema, é preciso, portanto, analisá-lo sem delongas. Se alguém pisa errado, ou então, tem uma postura errada, é preciso corrigir logo este vício postural, porque senão ele introduz alterações constitucionais que dificultam a superação do problema. Quanto mais tempo os padrões são utilizados mais eles se enraízam, tornando mais difícil a sua superação.

Neste contexto vale a pena examinar a maneira como as formigas selecionam as trilhas que utilizam. Quanto mais formigas passam pela trilha, mais feromônio é deixado e mais a trilha é utilizada. Tal procedimento baseia-se provavelmente na idéia de que a melhor trilha é aquela que é a mais utilizada. Por outro lado, a trilha mais utilizada possivelmente é a melhor. Este é o círculo, vicioso ou virtuoso, dependendo do caso, que está na base da fixação dos padrões de comportamento.

Um músico que repete dezenas de vezes uma passagem difícil, o faz para que aquela forma de movimentar os dedos ou de soprar a embocadura, aquele padrão de execução, se associe a uma determinada passagem musical. Aqui a repetição é física porque o padrão também o é. No entanto, padrões mentais como medo, preocupação, prazer e regozijo também são objetos de aprendizado e o uso e a repetição ajudam a fixá-los na mente. Incutimos um padrão através do seu uso repetido, de forma semelhante ao método utilizado pelo músico para superar a passagem difícil ou das formigas para fazer a escolha da melhor trilha.

Aqui abro um parêntesis para falar de algumas questões imanentes ao arrazoado acima. Faço algumas perguntas e as respondo com base em conjecturas. Um maior aprofundamento seria desejável.

Por que a natureza escolhe a repetição como forma de aprendizado? De uma forma extremamente simplificada podemos dizer que se o ato é repetido então ele é bom; se é bom nos faz bem; se nos faz bem nos ajuda a sobreviver; se nos ajuda a sobreviver fortalece a espécie; se fortalece a espécie, fortalece o todo e o universo [18].

Por que este princípio é universal, ou seja, por que ele se aplica a tudo e a todos: animais, vegetais e até mesmo minerais [19]? Sem querer entrar em maiores detalhes, mesmo porque se trata de um mero parêntesis, eu diria que temos aqui um forte argumento a favor do Holismo [20].

Dentro da caracterização dos padrões de comportamento há ainda que ressaltar a rapidez com que um hábito novo é criado [21]. Para ilustrá-la, tomo o exemplo do erro em contas. Todo mundo já passou por esta situação em que, em uma adição feita às pressas, se introduz um erro. Se, ao conferir a conta, seguirmos os mesmos passos que utilizamos da primeira vez, ou seja, se voltarmos a somar as parcelas exatamente da mesma maneira, na mesma ordem, é provável que voltemos a cometer o mesmo erro. Se, no entanto, utilizarmos uma outra metodologia para fazer a soma, por exemplo, se somarmos na ordem inversa ou em uma ordem diferente, provavelmente descobriremos o engano. Aqui um padrão foi incutido através de uma única utilização.

Qual a conclusão a que se chega a partir do exemplo acima? Aparentemente não há razão nenhuma para o erro, a não ser cansaço ou distração. Este cansaço ou distração, em uma segunda tentativa, não deveriam conduzir ao mesmo tipo de erro, mesmo a operação sendo feita da mesma maneira . No entanto, no cérebro, gerou-se um caminho em que os neurônios são ativados, e a tendência é seguir exatamente o mesmo caminho, de forma semelhante ao da escolha das trilhas pelas formigas [22]. Somente quando outro caminho diferente é forçado, o erro aparece.

Dou outro exemplo. É frequente eu me engasgar comendo laranja, especialmente quando a laranja vem junto com outros alimentos mais doces. O contraste com a acidez provoca uma reação que faz com que a laranja siga pelo trato respiratório e o resultado é um forte acesso de tosse. Meu pai já tinha um comportamento semelhante.

Eu notei que esta situação se agrava com a tensão e quando tento comer e falar ao mesmo tempo. Hoje em dia consigo dominar o problema através de concentração, relaxamento e respiração adequada.

Aqui temos a associação entre a acidez da laranja e alguma contração de músculos do trato digestivo que leva o alimento a seguir pelo caminho errado. Temos também o aprendizado feito na infância. A associação é reforçada através do uso e da repetição. Cada engasgo reforça a probabilidade de se engasgar, até que se crie um movimento em sentido contrário: a concentração, o relaxamento, o cuidado e a reflexão.

Idiossincrasias, alergias são de natureza semelhante. O organismo aprende a fazer associações que, em determinado momento, foram adequadas e tinham a sua justificativa, mas que não o são mais [23]. Persistem porque o uso e o hábito criaram um padrão de associação.

De uma maneira esquemática podemos dizer que a racionalidade por trás destes fatos tende a considerar que um caminho que foi adequado em um determinado momento e em determinada circunstância, continua adequado mesmo que o momento ou as circunstâncias sejam outras. Ou seja, existe uma extrapolação na qual o futuro é equiparado ao passado. Isto pode até ser válido para a natureza, dada sua constância e permanência. Seria, no entanto, válido para o ser humano com a sua dinâmica e inquietude?

A inércia tem a sua justificativa na natureza, porque esta tende a ser conservadora e mudanças são feitas em um ritmo lento e gradual. A dinâmica do ser humano, no entanto, é completamente diferente, e razões e motivações válidas em um certo momento, em certa circunstância, não mais são válidas em outro momento ou outra circunstância.

Por trás da maioria das nossas atitudes e comportamentos existem causas. Raras vezes as coisas são pura obra do acaso, mas as causas podem ser fortuitas e ocasionais. Uma vez removidas, o hábito permanece por uma questão de inércia.

Recentemente vi o filme alemão Triunfo da Vontade de Leni Riefenstahl. O filme, de 1935, é um marco da propaganda política. Nos comentários, ressalta-se a importância da repetição das idéias. Idéias simples e de fácil compreensão são repetidas até a exaustão visando a sua fixação.

A propaganda desempenha um papel determinante na nossa sociedade. Frequentemente ela lança idéias que se realimentam através do uso. A valorização da segurança como um critério positivo é uma destas noções introduzidas através da repetição maciça e exaustiva. Os próprios medos gerados pela preocupação com a segurança, bem como histórias contadas ou lidas sobre assaltos ou outras agressões, realimentam a necessidade por segurança.

A valorização de corpos jovens e musculosos e a ênfase na esbelteza geram um padrão estético que passa a orientar sentimentos de afeição e desejo. Imagens associando prazer com o doce influenciam o paladar. A propaganda introduz a idéia. O uso e a repetição fazem o resto.

Neste sentido cabe um alerta sobre a responsabilidade da mídia e da publicidade. O fato deste importante campo formador de hábitos, padrões estéticos e critérios de valor, estar sendo deixado aos cuidados do mercado e da sua volatilidade, fala bem mal da nossa auto-estima.

Para terminar esta seção quero dar um exemplo da criação de um hábito, onde, por trás, existe claramente uma causa ou razão a qual, no entanto, é suficientemente fraca, para ressaltar o papel do uso e da repetição. Eu não sou chocólatra, mas eu tenho uma atração por doces e, em particular, por chocolate. Açúcar é energia e é natural que o corpo peça por ela. O sedentarismo, no entanto, torna açúcar em excesso, prejudicial. Em função disto resolvi colocar um limite: dois quadradinhos após o almoço e mais dois após o jantar. Após as dificuldades iniciais, presentes em qualquer mudança, acabei consolidando o hábito novo, aceitei a restrição como algo normal e o sentimento de privação desapareceu. Verifiquei, no entanto, que se, por uma razão qualquer, uma circunstância ocasional, uma visita, uma festa ou um presente, eu, em um certo dia, infrinjo a regra estabelecida, e como uma quantidade maior, nos dias que se seguem, tenho dificuldade em voltar à dose estabelecida.

Acho que algo semelhante deve acontecer com todo vício, em particular com o álcool. No alcoólatra o corpo clama por álcool e o indivíduo bebe até a embriaguez. Se, por uma questão de entendimento, o sujeito chega à conclusão que não deve mais beber, um novo hábito de abstinência pode ser criado. É difícil, tem que ser praticado no dia a dia, mas é possível. Basta, no entanto, um copo de bebida, ou, até mesmo um gole, para o velho hábito voltar [24].

Tentei, nesta seção, mostrar as origens do hábito e os mecanismos que ele utiliza para se impor. Destes, o mais importante é a repetição. Quanto mais se usa um padrão de comportamento, mais ele pede para ser usado. Na raiz deste círculo normalmente existe uma causa externa que pode ser uma necessidade fisiológica, um desejo ou impulso, uma propaganda ou regra estabelecida pela sociedade. Mas, deflagrado o procedimento, a retroalimentação faz o resto.

O estudo dos mecanismos de criação, fixação e modificação de hábitos e costumes é da maior relevância. Receio que a pesquisa feita nesta área seja insuficiente e imagino que a razão principal seja a falta de interesse e consequente falta de aporte financeiro. Há que lembrar que a pesquisa na maioria dos países desenvolvidos é financiada por laboratórios e indústrias e que hábito não se vende [25]. Seja como for, existam ou não resultados de pesquisa, eu não os consultei, porque não tive tempo e porque não é área de minha competência. Concordo, no entanto, que o campo da criação e fixação de novos hábitos é de natureza essencialmente experimental e que o material aqui apresentado é de natureza mais especulativa. Estes fatos podem ter gerado deficiências.

 

 

Natureza e Civilização

 

Na primeira seção deste capítulo foi apresentado um eu cindido entre entendimento e padrões de comportamento, cabeça e corpo, teoria e prática. Nas seções subsequentes vimos que estes padrões tendem a ser reforçados através do seu uso e que isto aumenta ainda mais a cisão. Aqui, nesta seção, vamos nos aprofundar um pouco na natureza desta cisão.

Certos procedimentos aprendidos no passado não mais são adequados no presente. O que veremos nesta seção é que existe uma clara racionalidade por trás deste fato: o embate natureza versus civilização. Claro que isto não se aplica a todos os exemplos vistos anteriormente, mas é provavelmente aquilo que torna a inadequabilidade dos hábitos mais dolorosa e mais difícil de superar.

O problema principal é que o ser humano é mal adaptado ao meio que o cerca. A evolução foi rápida demais, não permitindo as necessárias acomodações. Assim, as formas de aprendizado no homem nem sempre estão adaptadas às suas reais necessidades. O aprendizado feito na infância, fase em que o homem está mais próximo da natureza, nem sempre se adéqua às necessidades do homem adulto. Consideremos, por exemplo, o medo. Esta reação é perfeitamente normal quando se é criança. Possibilita a fuga para o regaço da mãe, ou outro abrigo qualquer, deflagra o choro ou os gritos que são fundamentais para chamar a atenção dos adultos ou algum outro tipo de socorro. No mundo animal, esta reação também é a mais comum entre os filhotes. Acontece que entre muitos animais este tipo de reação continua válida na fase adulta. Ante o perigo, o melhor que um pato adulto faz é ter medo e fugir para a água que, neste caso, é o seu refúgio. Claro que isto não é bem verdade para leões, se bem que existem situações (uma manada de elefantes ou búfalos, por exemplo) em que a melhor coisa que o leão faz é fugir.

Medo, fuga, choro e gritos, no entanto, dificilmente são reações adequadas para um homem ou mulher adulta, inclusive porque a maioria das situações de perigo não permite a fuga, muito menos choro e gritos. A inadequação destes últimos é tão flagrante que eles foram quase que inteiramente banidos da sociedade, persistindo tão somente em situações extremas, mais de dor e tristeza do que de perigo. Sob a mira de um revólver, de nada adianta a fuga, nem tampouco choro ou gritos. Dentre as poucas perspectivas que se tem nesta situação, está a preservação de sangue frio para se aperceber de brechas, bem como a tentativa de negociação com o inimigo. Melhor exemplo talvez forneça a escalada de um pico ou a travessia de um rio caudaloso. Neste caso, o medo mais atrapalha do que ajuda, se bem que certo nível de tensão ajuda na concentração e na atenção. Medo demais, no entanto, enfraquece a vontade de superar os obstáculos.

A maioria das situações de perigo e risco encontrada na nossa sociedade é muito mais mental e psicológica do que física. Um sujeito que tem que fazer um discurso em público, alguém que vai ser entrevistado em um emprego, um interrogatório em um julgamento importante, a defesa de um ponto de vista polêmico em uma reunião, o fechamento de um negócio de alto risco, uma decisão a ser tomada em um momento crucial da vida, tudo isto são situações em que fuga, choro e gritos têm pouca serventia. Certa dose de medo pode aguçar a mente, tornando o raciocínio mais rápido, mas adrenalina demais tende a confundir ao invés de ajudar. Medo em excesso imobiliza e nas situações acima isto pode ser fatal.

Medo, na natureza, está sempre associado a perigo e situações de risco. Risco e perigo ocorrem quando o animal se encontra em uma situação de real ou aparente inferioridade e precisa ativar as defesas que podem ser a fuga ou algum outro recurso específico. O medo deflagra reações fisiológicas que tem a função de preparar o animal para a situação de risco. Por exemplo, o medo pode reduzir o calibre dos vasos periféricos e assim diminuir o perigo de uma hemorragia em um combate ou em um acidente durante a fuga.

Fruto da sua herança animal, o homem conserva boa parte destes mecanismos e eles podem ser adequados na infância. Para a criança, uma situação de risco, uma dor, um desconforto ou uma mudança brusca das condições ambientais, podem tornar, o medo e o choro, reações apropriadas. Ante um estrondo, a fuga para debaixo da cama pode ser um recurso válido.

            No entanto, na fase adulta, a maioria das situações de perigo não requer estes recursos. Muito embora um membro da diretoria de uma empresa, questionado em uma assembléia de acionistas, possa sentir vontade de fugir para baixo da mesa, dificilmente esta reação poderá ser considerada adequada. Tampouco o choro vai contribuir para que ele consiga defender os seus pontos de vista. Muito menos ele precisa da redução do calibre dos vasos periféricos e o risco de um acidente provocando hemorragia externa é certamente remoto, a menos que os acionistas estejam armados. O aumento dos batimentos cardíacos e da pressão arterial mais atrapalha que ajuda o seu raciocínio e o seu poder de argumentação, estes sim, fundamentais na defesa dos seus interesses. O que ele precisa, sim, é de sangue frio, acuidade mental, concentração, rapidez de raciocínio e domínio de linguagem. Boa parte destas aptidões se contrapõe frontalmente à sua herança animal. O frio, necessário no presente, se contrapõe ao quente do seu passado. É, portanto, necessário fazer um novo aprendizado, substituir os padrões herdados do passado animal por padrões mais condizentes com a civilização moderna.

            Vejamos outro exemplo para ilustrar o rompimento necessário do adulto com padrões aprendidos na infância. Comer tudo o que está no prato, pode ser uma reação adequada para uma criança que, desta maneira, aprende a não entrar em conflito com os seus progenitores. Em fase de crescimento e atividade física intensa é importante a criança repor a energia perdida, o que pode justificar a atitude dos pais ao cobrar que o filho limpe o prato. Esta reação, no entanto, dificilmente é uma reação adequada para um adulto frequentador de restaurantes e zeloso na minimização de suas calorias.

            Um mesmo tipo de exemplo pode ser dado pela obediência. Para a criança a obediência significa regalias e privilégios, ausências de castigos e punições e é, portanto, uma reação adequada. Dificilmente, no entanto, a obediência possibilitará o pleno desenvolvimento do adulto. Enquanto no animal o aprendizado feito pelo filhote sofre poucas alterações na fase adulta, uma vez que os padrões são ditados pela sobrevivência da espécie, no ser humano a sobrevivência do adulto requer frequentemente uma mudança radical dos padrões aprendidos na infância.

Como vimos em seção anterior o aprendizado tem inércia. Aprendizado sem inércia não é aprendizado, na medida em que o padrão aprendido é imediatamente esquecido e substituído por outro. Acontece que no ser humano a dinâmica é rápida demais e a inércia frequentemente mais atrapalha que ajuda. O animal é muito mais estável na sua relação com o meio ambiente. Nos vegetais isto se aplica de forma ainda mais radical.

Se na natureza o que prevalece é continuidade, no ser humano o que prevalece é ruptura. Esta ruptura, que inclui o distanciamento da natureza, faz parte da própria essência do ser humano. O homem é homem porque apresenta características que o diferenciam da natureza. Dentro de um sentido mais amplo e mais filosófico, pode-se dizer que a cisão é imanente ao processo civilizatório [26].

Cisão e fracionamento geram dor. Assim, na essência do ser humano está a dor da cisão [27]. Para que se restabeleça a paz e a situação fique suportável, tem que haver um movimento em sentido contrário. Este movimento surge com ajuda da união promovida por racionalidade e entendimento.

Assim, a ruptura com a natureza engendrada por razão e entendimento, é compensada por um movimento contrário de união também promovido por razão e entendimento. Dentro da espiral dialética, o processo racional, responsável pela cisão com a natureza, cria, em um nível mais alto, um movimento de união que se contrapõe à esta cisão.

Cabem alguns esclarecimentos. Em primeiro lugar, não se está aqui dizendo que na natureza não exista dor nem fracionamento. Existe o leão e a gazela e ninguém há de contestar que existe dor quando esta última vira presa do leão. O que se está meramente dizendo é que no ser humano surge um novo tipo de dor, fruto do seu rompimento com a natureza.

            Este rompimento se dá em diversos níveis. Poderia ser mencionado o descompasso que existe entre o nosso corpo, em particular a estrutura da nossa coluna vertebral, e as posturas que tomamos, que são fruto da civilização (por exemplo, a posição sentada), ou então a inadaptabilidade do nosso sistema digestivo em processar convenientemente um tipo de comida que se afasta muito da que foi consumida por nossos antepassados. Quero, no entanto, ressaltar um nível deste rompimento que é de particular interesse na análise que se pretende fazer nesta seção: a ruptura entre cabeça e corpo, infância e fase adulta. Elas espelham internamente a ruptura externa do ser humano com a natureza.

            O ser humano tem a sua raiz na natureza e com ela aprende os primeiros passos. Verifica, no entanto, que, para crescer, dela tem que se afastar. Esta situação traumática equipara-se, simbolicamente, ao corte do cordão umbilical, pois para crescer e se desenvolver, torna-se necessário romper com quem nos sustenta e nos suporta: nossa mãe e, em um sentido mais amplo, a mãe-natureza [28].

            Isto também se verifica para os padrões de comportamento. Um padrão aprendido e válido na infância não mais é adequado na idade adulta. Existem três fatores que agravam esta cisão. Em primeiro lugar, mesmo quando adultos, trazemos a criança dentro de nós. Ou seja, os padrões aprendidos na infância permanecem, e em situações especiais podem determinar o nosso comportamento.

Em segundo lugar, o aprendizado feito na infância fixa-se de maneira particularmente forte. A natureza estabelece que o início da vida é a época de aprendizado por excelência. Um cachorro ou um gato que tenham tido uma experiência traumática quando filhotes, jamais se recuperam completamente deste acontecimento. Este princípio pode até ter a sua justificativa para a natureza, pois o animal tem contato com a mãe somente durante a primeira fase da sua vida e a mãe é a principal fonte do seu aprendizado. Seria, no entanto, válido para o ser humano, que jamais cessa de aprender [29] [30]?

Em terceiro lugar temos a questão, já mencionada anteriormente, da continuidade e da dinâmica mais lenta da natureza. No ser humano, os padrões aprendidos na infância nem sempre permanecem válidos na idade adulta.

Existe, pois, uma cisão que é preciso aprender a superar. Em particular, é a questão mencionada em primeiro lugar que apresenta maior dificuldade. Como é possível superar-se a si mesmo? Contando tão somente com as suas próprias forças, como é possível superar as suas limitações [31]? Se o eu-criança é parte do meu eu, se para superar a cisão é preciso modificar algumas reações desta parte do meu eu, se modificar é negar e se negar é reforçar a cisão, como é possível superar a cisão, reforçando-a [32]? Sabendo que toda modificação é negação, como é possível desconstruir padrões de comportamento do eu-criança, sem acentuar a cisão, e consequentemente, provocar sofrimento e dor?

A resposta para este aparente paradoxo é a resposta de todo paradoxo. Eles se resolvem porque se resolvem. O pensamento lógico, que é onde o paradoxo aparece, é tão somente um dos níveis em que as coisas se passam. Existem outros níveis. O círculo vicioso aparentemente não tem solução porque ele tão somente se retroalimenta. Uma coisa não pode superar-se a si mesma porque neste caso não está se superando. E, no entanto, os círculos viciosos tem solução e as coisas podem se superar.

Felizmente não somos só natureza. Felizmente surge algo novo com cultura e civilização: entendimento e racionalidade. A proposta de usar entendimento e racionalidade para fazer a ponte entre o eu-criança e o eu-adulto, entre natureza e civilização esbarra, no entanto, em um problema sério. Que ponte é esta que aparentemente pertence tão somente a um dos lados? Entendimento e racionalidade parecem ser claramente um produto do processo civilizatório e, portanto, associados ao eu-adulto. Como usá-los para fazer a ponte com algo completamente diferente [33] ?

Ponte não significa que os dois lados necessariamente têm que estar no mesmo nível. É claro que entendimento e racionalidade estão associados ao homem, ao eu-adulto e ao processo civilizatório. Quando eu digo que o mundo e a realidade são regidos pela racionalidade, é claro que esta é a ótica humana. O pensamento é feito de palavras, é expresso através de linguagem e esta é característica humana. Mas a racionalidade pode incluir a natureza e, neste sentido, reforçar a conexão com ela. Quando se diz que a natureza segue leis e regras e tem estrutura, esta é a ótica humana. A ótica da natureza eu desconheço e a ela eu não tenho acesso. Leis, regras e estrutura são estabelecidos pelo ser humano mas concernem à natureza. Ao explicar a natureza nós a trazemos para mais perto, reforçando a nossa conexão.

A ponte é possível, mesmo quando construída a partir de um lado. A ponte é do homem para a natureza, do eu-adulto para o eu-criança, e não o contrário. A ponte é o entendimento e este é resultado do processo civilizatório e do eu-adulto. No entanto, mesmo assim, ele junta e une. Evidentemente neste processo há a modificação e, portanto, a negação de parte do eu-criança. Mas, também, parte do eu-adulto é modificada. A partir da modificação de ambas as partes surge uma nova unidade [34].

 

 

Aprendizado de novos padrões de comportamento

 

            Tendo utilizado a maior parte do espaço deste capítulo para falar dos hábitos antigos, suas causas, efeitos e problemas, é chegada a hora de falar do aprendizado de hábitos novos. O que eu vou falar aqui, no entanto, é tão vago e tão geral e se aproxima tão pouco de alguma técnica específica de aprendizado, que temo decepcionar o leitor.

            Que fique bem claro, este livro chama Terapia e Cosmovisão porque a cosmovisão que ele pretende apresentar é terapêutica. Nenhuma terapia, no sentido tradicional do termo, é apresentada, nenhuma técnica para tratar de problemas específicos é mencionada. Assim, também não tenho nenhuma proposta a oferecer para o aprendizado de novos padrões de comportamento.

            A única “técnica” de aprendizado que tenho a oferecer é o entendimento [35]. Acontece que um novo padrão de comportamento surge no bojo de um problema e o seu aprendizado surge do entendimento deste problema. Como este é específico, não existe nada geral a ser oferecido. A única coisa geral a ser oferecida é a cosmovisão.

            Para ilustrar estas idéias voltemos para o caso de A e suas desventuras amorosas. Conforme vimos, A vive assolado por relacionamentos breves e transitórios e estes não o satisfazem mais. Ele acredita poder encontrar a saída para suas desventuras em um relacionamento mais estável. Nada, mas absolutamente nada garante, no entanto, que este padrão vai prevalecer. Pode perfeitamente acontecer que A desista do seu intuito e volte para o padrão antigo. Pode ser que A encontre uma mulher que o satisfaça e com a qual consiga uma relação mais duradoura. Ou então, podem existir soluções de compromisso: casamento aberto, amantes, etc.

            Vemos que não faz o menor sentido tentar encontrar alguma técnica de aprendizado de um padrão novo, se este nem ao menos está definido. O padrão novo surge de uma busca, e esta é resultado do processo de entendimento.

No caso examinado acima, o entendimento é antes de mais nada o entendimento de si mesmo. A tem que se conhecer, tem que saber o que ele quer, quais os seus limites, qual o seu potencial de mudança, quanto quer mudar e o quanto está disposto a se aceitar. Ele tem que entender porque está insatisfeito e o que o fez levar a vida que está levando. Ele não vai conseguir a resposta para estas perguntas meramente através de reflexão. Ele tem que fazer experiências novas e, principalmente, avaliar estas experiências. Como consequência das experiências, dos pensamentos e das reflexões, ele vai se modificar e como consequência desta modificação vai surgir, naturalmente, um novo padrão de comportamento.

            A característica fundamental do processo de entendimento é a dinâmica. Como decorrência do fato de A querer se conhecer, ele vai se modificar. Ou seja, ele não mais vai conhecer aquilo que ele era, porque aquilo ele já não é mais. Talvez até os problemas mudem, talvez nem mais existam problemas. Neste último caso, o aprendizado de um padrão novo nem mesmo foi necessário.

Entendimento não é algo passivo. Junto com o entendimento surgem mudanças e junto com as mudanças surgem alterações dos objetivos. Podem até mesmo surgir soluções. O próprio processo de entendimento tem que ser entendido. Inicialmente, o objetivo de A era entender-se a si mesmo. Mas, se, como fruto deste processo, A se modifica, e se A se modifica como resultado do entendimento, é preciso incluir este último no processo de entendimento.

            Este fato nós já tínhamos visto ao verificar que o entendimento era usado por A para consolidar o seu padrão antigo. A o utilizava como confessionário para poder ter as suas aventuras amorosas. A compreensão deste fato dava origem a um meta-entendimento, que é justamente o entendimento do papel do entendimento. Mas junto com o meta-entendimento surge também um meta-A e junto com ele vem um novo padrão de comportamento. Vemos, portanto, que entendimento, A e padrão de comportamento estão inter-relacionados.

            Vemos, portanto, que não faz o menor sentido querer fazer o aprendizado de um padrão novo, mesmo porque não existe padrão novo para se aprender. Não existe um estado ao qual se quer chegar. O que existe é um processo ao qual se chega através do entendimento, ou melhor, não se chega a lugar nenhum porque a chegança é um eterno processo de chegar.

            Com o parágrafo acima eu poderia encerrar esta seção. O aprendizado de um padrão novo vem junto com o entendimento, e este último faz parte da cosmovisão da qual trata o presente livro.

No entanto, existe mais alguma coisa a ser dita. Em primeiro lugar, cabe explicar melhor porque o entendimento contribui para o aprendizado. Nos parágrafos acima eu disse que entendimento, aprendizado e padrões de comportamento formam um conjunto. Mas isto é muito amplo e geral e é possível fornecer argumentos mais específicos.

            Em segundo lugar, como já foi dito, uma série de conhecimentos está associado ao processo de aprendizado. Além de fazer o aprendizado é preciso entender o aprendizado. Por exemplo, existe o querer ou a vontade que participam de todo processo de mudança. A gente só muda se quer mudar. E, no entanto, o querer pode também atrapalhar. Ele introduz uma tensão que pode bloquear o processo de mudança. O próximo capítulo será dedicado a este assunto.

            A introdução de um padrão novo vem sempre associada à mudança de um padrão antigo. As alterações decorrentes costumam vir acompanhadas de medos, fantasias e idealizações. Adicionalmente, há que decidir o quanto se está disposto a se aceitar e o quanto é possível se modificar, ou seja, o dilema aceitar-se / modificar-se faz parte do processo de mudança. Estes e outros aspectos vinculados ao aprendizado de um padrão novo serão objeto de capítulos adicionais.

            Finalmente, associado ao aprendizado existe a auto-sugestão. Como vimos, o processo de aprendizado se dá através da repetição. Esta é fundamental para que um novo hábito se enraíze. A repetição implica em uma prática que, no entanto, nem sempre se deixa concretizar. Para o caso de um músico que tem que repetir uma passagem musical, isto é fácil. Como, no entanto, proceder se o objetivo é fazer um discurso em público? Como superar medos e fobias muitas vezes vagas e indefinidas? Como livrar-se das fantasias se elas frequentemente são um processo mental?

Para estes casos, a auto-sugestão fornece um recurso valioso. Da mesma maneira que a imaginação pode complementar e às vezes até substituir a realidade, também a prática virtual da auto-sugestão pode complementar / substituir a prática real. Neste livro um capítulo inteiro será dedicado à auto-sugestão, mas quero aqui dar um exemplo bem simples de como ela pode ser usada para reforçar um padrão novo.

Todo mundo conhece pessoas que não gostam de praticar atividade física. Ela, no entanto, é fundamental para a saúde. A caminhada, por exemplo, é um exercício excelente. Para praticá-la, em primeiro lugar é preciso caminhar. Se o caminhar, no entanto, é tão somente obrigação, é provável que, após algum tempo, surja um pretexto para abandoná-lo. Para que o caminhar se torne um hábito arraigado é preciso associar um sentimento de prazer e alegria. É claro que o prazer ou a alegria podem ser encontrados apreciando a paisagem, sentindo o ar fresco entrando pelas narinas, sentindo os músculos, as passadas, o vento na pele ou o calor do sol. Mas pode também se dar através da repetição de idéias como, por exemplo, eu gosto de caminhar, caminhar faz bem ou então, eu me sinto bem ao caminhar. A repetição destas idéias exerce papel semelhante à repetição do padrão em si, fazendo com que ele se enraíze, se associe a um sentimento de prazer, tornando-se um hábito.

            Mencionei acima algumas questões associadas ao processo de aprendizado que serão tratadas em capítulos subsequentes. A seguir, quero dar mais algumas explicações porque o entendimento pode contribuir para o aprendizado de padrões de comportamento novos. Aproveito para dar mais alguns exemplos [36].

            A necessidade de aprendizado de novos padrões de comportamento surge em função da inadequabilidade dos padrões antigos. Padrões ditados pela natureza, pela genética ou aprendidos na infância não mais conseguem lidar com os problemas do dia a dia e novos padrões têm que ser aprendidos. Como já vimos, na base desta problemática costuma estar a cisão cabeça/corpo, eu-adulto/eu-criança, civilização/natureza [37]. A única maneira de superar esta cisão é através de um movimento oposto de união. Nele, razão e entendimento têm papel fundamental. Entendimento é unir, estruturar e estabelecer conexões.

Cabe lembrar mais uma vez que razão e entendimento não se restringem ao pensar, ao encadear idéias e construir sistemas mentais. Parte fundamental da razão e do entendimento é o sentir, o viver e o vivenciar. São estes últimos que vão permitir o contato com a realidade e é deste contato que surge a racionalidade.

            Como exemplo eu examino mais uma vez o caso da insônia. A tensão do querer dormir costuma ser um dos motivos que impede o sono [38]. Além do medo de não conseguir dormir surge o medo do medo de não conseguir dormir. Como é o medo de não conseguir dormir que rouba a tranquilidade necessária para o sono, passa-se a ter medo deste medo. Todos estes medos podem ser enquadrados no rol dos medos infantis. Como já vimos, a infância é pródiga em medos, porque é a época em que somos confrontados com problemas que ainda não temos condições de compreender e, portanto, de elaborar.

            Medos aparentemente sem razão passam a justificar-se no momento em que são reprimidos. Cabe lembrar que atrás do medo está o eu-criança, e à medida em que se reprime o medo, se reprime o eu-criança. Este reage, reforçando o medo.

            Cabe ao entendimento reconhecer estes fatos bem como reconhecer que a repressão cria cisão. É preciso um movimento em sentido contrário em que se desconstrua o medo através da sua compreensão e não através da repressão. Se a gente verificar que os medos não mais têm razão de existir, que eles pertencem a um passado remoto, e se estes argumentos forem trabalhados e repetidos, é de se esperar que, após algum tempo, os medos desapareçam. Além disto, o entendimento cria uma ponte entre eu-criança e eu-adulto e esta desconstrói a cisão e as tensões, contribuindo para a paz e a harmonia, fundamentais para possibilitar o sono.

            Existe também todo um trabalho corporal a ser feito. Os medos vêm sempre associados à tensão e esta se reflete em um enrijecimento e encurtamento muscular. Através de relaxamento, alongamento e técnicas posturais, podemos ajudar a desconstruir estas tensões. Cabe lembrar que corpo e mente andam sempre juntos. Tensões na mente se refletem em tensões corporais e, atuando no sentido inverso, isto é, relaxando as tensões corporais, estamos relaxando a mente.

            Entendimento não se restringe à cabeça. Entendimento consiste em sondar o corpo à busca de causas do problema. Procurando atuar sobre a cabeça através do corpo estamos contribuindo para a construção da ponte entre cabeça e corpo. Como resultado é de se esperar que o sono e a paz sejam restabelecidos.

            Quero dar mais um exemplo de como o entendimento pode ajudar a construir um novo padrão de comportamento. Reações instintivas e espontâneas (reflexos) costumam ter a sua origem na natureza como, por exemplo, o encolher-se ante a ameaça de um perigo. Esta reação implica na diminuição da área exposta e é encontrada em animais e até mesmo em plantas. Outras reações, também espontâneas são, no entanto, fruto do entendimento. Por exemplo, um homem num carro que pisa no freio quando repentinamente uma criança atravessa a rua, tem uma reação impulsiva que é fruto de um longo aprendizado. Implica na compreensão do significado da força do carro, da responsabilidade que se tem ao dirigir e das conseqüências do choque do carro contra o corpo da criança.

            Há algum tempo atrás, ao dirigir o carro numa curva em velocidade excessiva, sentindo que haveria colisão com um veículo que vinha em sentido contrário, tive uma reação errada, pisando fundo no freio. O resultado foi derrapagem e colisão, felizmente sem maiores conseqüências. Refeito dos traumas, procurei fazer uma análise do ocorrido, tentando entender os erros. Procurei também aprender qual teria sido a reação correta. Anos depois, uma outra situação semelhante se me apresentou e, para minha grata surpresa, desta vez não cometi o erro. Pisei no freio suavemente, soltei-o assim que o carro começou a derrapar e girei o volante de forma a me contrapor à derrapagem.

O que aconteceu entre estas duas situações? A resposta é aprendizado. Como se deu o aprendizado? Em primeiro lugar houve o entendimento do sucedido e das suas causas. Houve o reconhecimento do erro e o planejamento de uma reação diferente. Não houve treinamento, nem tampouco repetição física da experiência porque isto não teria sido possível. Houve, no entanto, repetição mental na qual eu por diversas vezes imaginei a situação, ensaiando a reação correta [39].

            O que se verifica é que o entendimento permite até mesmo a mudança de padrões de comportamento que refletem ação impulsiva (reflexos). De uma maneira um pouco simplificada poder-se-ia dizer que o corpo aceita mudar um padrão de comportamento quando entende a necessidade da mudança. Cabe à cabeça, convencer o corpo desta necessidade. E este convencer inclui entendimento [40].

            Os exemplos acima mostram que o entendimento é capaz de promover a união cabeça / corpo. Para perceber a importância desta união basta examinar os regimes alimentares [41]. Boa parte das dietas fracassa por não entender que é preciso juntar e não separar cabeça de corpo. Se o corpo quer comer, não adianta a cabeça impor a sua vontade baseada em algum critério abstrato e pouco tangível [42]. A imposição é sempre violência e repressão. No caso da dieta a imposição significa a submissão do corpo à cabeça. Se o objetivo da dieta é cuidar do corpo é pouco provável que se consiga este intento através da sua submissão. O entendimento destes fatos e idéias, apesar de um processo mental, visa, na verdade, abrir espaço para o corpo, promovendo a sua integração.

            Somos o resultado da confluência de cabeça e corpo, eu-criança e eu-adulto, natureza e civilização e é fundamental integrar as partes em uma convivência harmônica para que resulte paz. Imposição, submissão, negação ou repressão são atos de violência que não contribuem em nada para esta integração.

Qualquer pessoa que tenha tido experiência no mar, seja através de natação, surf, velejando ou remando, sabe que o mar jamais se afronta porque este é o caminho certo para o naufrágio / afogamento. Quando se está no mar, o mar torna-se parte de nós e isto tem que estar presente ao lidar com ele. A gente tem que respeitar o mar para que ele nos respeite. Isto não significa que não possamos definir objetivos, rotas ou destinos, mas significa que objetivos, rotas e destinos têm que levar em consideração as condições que o mar impõe.

Algo semelhante, mas em menor grau, ocorre quando se anda a cavalo. Evidentemente o cavalo não é parte de nós, nem temos com ele a relação de dependência que temos com o mar, mas se estamos montados no cavalo dependemos dele para nos locomover e temos que levar isto em consideração [43]. É claro que impomos ao cavalo a nossa vontade, mas existem limites e é preciso constantemente sondar estes limites e respeitá-los.

Dou um último exemplo de como o entendimento é capaz de gerar um padrão de comportamento novo que se caracteriza por uma melhor integração cabeça/corpo. Recentemente, ao ficar na postura de lótus por mais de cinco minutos, senti câimbras no pé direito. Desfiz a posição, massageei o pé e segui adiante nos exercícios. No outro dia, aconteceu exatamente a mesma coisa. Pensei: “Eis um padrão começando a se formar. Se eu não tomar providência, este padrão vai se impor e vai atrapalhar a minha prática.” Diga-se, de passagem, que a posição de lótus é uma postura fundamental. Ela relaxa e concentra e, ao mesmo tempo, atua na base da coluna vertebral, o que é fundamental para o equilíbrio postural. Eu, de maneira nenhuma, quero perder este recurso.

            No terceiro dia, eu antes de fazer a postura, massageei o pé procurando relaxá-lo e me concentrei na idéia de paz. Fiz também uma auto-sugestão associando a idéia de paz ao pé. O resultado é que eu fiz a minha prática sem qualquer problema.

            O exemplo apresentado é banal. Mas justamente por ser banal ele possibilita uma análise aprofundada da questão. Fosse um caso complicado e isto seria mais difícil.

            O exemplo mostra um embate das forças da natureza e da civilização e a ponte que o entendimento é capaz de fazer entre elas. A natureza está mais preocupada com a proteção de músculos, ligamentos e articulações. É por causa disto que ela gera a dor, quando algum movimento mais ousado ou alguma postura mais radical é tentada. A natureza não está muito preocupada com a postura de lótus. Esta é uma conquista da civilização.

            Eu, no entanto, sou essencialmente civilização e, como tal, valorizo esta postura. Mas também sou corpo e natureza. Eu não somente tenho que viver com meu corpo, como quero viver com ele. Afinal, a postura de lótus só faz sentido porque eu sou corpo também. A base da coluna que eu estimulo com esta posição faz parte do meu corpo.

            A compreensão de todos estes fatos se dá pelo entendimento. É ele que me diz que se, de um lado, eu tenho que respeitar o corpo e os seus limites e tenho que entender porque a dor é gerada, por outro lado, não devo abdicar de alguma coisa que me faz bem. Devo tentar uma solução de compromisso que, neste caso, foi muito fácil [44]. Bastou concentrar-se no sentimento de paz. Lembremo-nos que paz é união e esta reúne corpo e cabeça, natureza e civilização.

            O importante neste caso não é a solução de compromisso à qual eu cheguei, porque ela poderia ter sido outra. O importante é o método que eu utilizei para chegar lá. O método consistiu em entender o problema, entender quais as forças em jogo e como fazer para juntá-las.

 

 

Padrões de comportamento e Behaviorismo

 

Se o entendimento lembra Freud e a psicanálise, padrões de comportamento lembram behaviorismo. A esta altura acredito estar bem claro o quanto eu, neste trabalho, me distancio de Freud e da sua psicanálise. Uma distância ainda maior me separa do behaviorismo [45].

Em primeiro lugar o enfoque aqui é dialético e não positivista. Nada, absolutamente nada nos liga ao cientificismo mecanicista que está por trás do behaviorismo.

Tampouco o modelo E-R (estímulo-resposta) ou o modelo mais atenuado E-O-R (estímulo-organismo-resposta), tão apregoado pelo behaviorismo, nos parece adequado para entender a psique humana. A ênfase aqui é no aprendizado e não no condicionamento. Este último traduz bem a visão simplista do mecanicismo [46].

A ênfase que o behaviorismo dá à experimentação, em detrimento da estruturação do conhecimento, está de acordo com o empirismo que é um de seus pilares. Em contraposição, aqui a ênfase é no conhecimento e na sua estruturação. Desta estruturação faz parte o aprendizado de padrões de comportamento, mas estes não resultam de mero condicionamento, mas sim de um entendimento da realidade.

Evidentemente a adaptação ao meio, tão defendida pelo behaviorismo, é importante, mas aqui, meio é considerado em um sentido muito mais amplo. Através da consideração das dimensões espaço e tempo, adaptar-se ao meio, não necessariamente significa adaptar-se à sociedade dentro da qual se está inserido, nem tampouco ao tempo em que se vive. Adaptar-se ao meio pode perfeitamente significar viver para uma utopia que tem condição de se tornar realidade em um futuro remoto ou em algum outro lugar.

Nos distanciamos também do determinismo do behaviorismo radical [47]. O enfoque dialético aqui adotado não vê no aprendizado/condicionamento, bem como, na influência exercida pela genética, pela sociedade e o meio, um impedimento para a liberdade. Tudo é e não é ao mesmo tempo. A contradição faz parte da vida e constitui a sua riqueza, pois é ela que nos leva ao movimento e à transformação. Assim, é perfeitamente possível ser livre e, ao mesmo tempo, ser influenciado pelo meio e pela sociedade. Ser livre significa justamente mover-se dentro da falta de liberdade. Dito de uma maneira mais simples, o fato de sermos influenciados pelo nosso passado, pelos nossos ancestrais, por educação e fatores culturais não é suficiente para sufocar em nós o gérmen da vontade e do desejo, nem extinguir a chama da liberdade.

Evidentemente nem tudo no behaviorismo merece ser condenado. A ligação com a natureza, ou seja, a ponte entre o homem e o animal, resultado da influência de Darwin, é algo que valorizamos.

A ênfase no físico e no fisiológico dada pelo behaviorismo em detrimento de elementos como, por exemplo, a consciência, entram em choque com o enfoque materialista aqui adotado. Consideramos que tudo é matéria, inclusive a consciência. Neste sentido não fazemos distinção entre procedimentos mentais e corporais, o que torna a separação feita pelo behaviorismo, sem sentido.

 

 

Ligando os pontos ( parágrafos)

 

            Comecei este capítulo dizendo que o entendimento não era suficiente e o termino dizendo que tudo, ou quase tudo, se resume ao entendimento. Comecei este capítulo mostrando que entendimento pode resultar em cisão e o termino dizendo que o entendimento promove união.

            A contradição não só é o grande motor da história, mas a contradição é o grande motor do pensamento. História e pensamento se movem e o que produz o movimento é justamente a contradição. Dito isto, quero dar uma explicação mais detalhada para os fatos acima.

            Como tudo na vida, também o entendimento tem as suas limitações. Foi este o fato apontado na primeira seção. Mas, como tudo na vida, é possível tentar a superação. É possível superar a limitação do entendimento através do entendimento. Afinal, o que nos caracteriza como seres humanos é justamente o entendimento.

            Algo semelhante acontece em relação à cisão. Se um certo entendimento pode fazer com que o eu-adulto entre em colisão com o eu-criança, porque entende que a única maneira de lidar com os medos é reprimi-los, também é o entendimento que vai verificar que a repressão não resolve.

            Se é o entendimento que acaba deslocando o peso do corpo para a cabeça, também é o entendimento que vai poder avaliar as consequências desta atitude estabelecendo mecanismos que compensem esta tendência.

            Se é o entendimento e a racionalidade, ou melhor, os produtos desta, como, cultura e civilização, que degradam a natureza, aprofundando o fosso que dela nos separa, somente entendimento e racionalidade, cultura e civilização, vão permitir o reconhecimento deste fato e a busca de caminhos que se contrapõe a esta orientação.

            Nós somos eu-adulto e eu-criança, cabeça e corpo, civilização e natureza e se, por vezes, existe cisão, está em nós a capacidade de reverter este processo. É o entendimento que permite superar a cisão que ele próprio cria.

            Limitação e superação, cisão e união, ir em uma direção e voltar na outra, tudo isto compõe o embate de contrários do qual a vida é composta. Compõe também a espiral dialética, que é espiral porque no movimento de ir e vir existe ascensão. É de se esperar que, como resultado, as diferenças se diluam. Cabe, no entanto, lembrar, que se é possível subir, também é possível descer a espiral dialética.

            Examinamos os padrões de comportamento. Eles refletem nossa maneira de nos apresentarmos perante o mundo, ou seja, refletem a nossa aparência. Mas, como vimos, essência e aparência são uma coisa só. A gente é como se apresenta e a maneira de se apresentar acaba definindo nossa maneira de ser. Forma e conteúdo são a mesma coisa. O conteúdo se apresenta em uma forma, e conteúdo sem forma é impossível de se pensar e, portanto, de existir. Por outro lado, a forma nada mais faz do que refletir o conteúdo.

            Dissemos que os padrões de comportamento refletem a nossa aparência. E qual é a nossa essência? Nós, seres humanos, temos como essência, o pensamento e a racionalidade, ou seja, o entendimento. Juntando essência com aparência temos confirmadas as conclusões a que chegamos neste capítulo. Entendimento e padrões de comportamento são uma coisa só. Chegamos aos padrões de comportamento pela via do entendimento e os padrões de comportamento nada mais fazem do que refletir nossa maneira de entender o mundo.



[1] Veja Das Trauma der Geburt (O trauma do nascimento), de Otto Rank, Psychosozial-Verlag, 2005

[2] Este é um comportamento frequente. O sujeito erra, reconhece o erro, o explica e o justifica até os mínimos detalhes, mas continua errando; ele lamenta, mas se conforma e aceita o erro como algo inerente à sua personalidade.

[3] Aqui ao falar de cisão estou falando da separação entre realidade e fantasia, teoria e prática, entre o entender e o fazer, entre a compreensão de A das razões do seu comportamento e a tendência de continuar se comportando exatamente da mesma maneira.

[4] Cabe lembrar que culpa e castigo andam juntos e que o castigo, ao provocar alívio da culpa, provoca o prazer do alívio.

[5] Pode ser argumentado que, na verdade, a etapa de entendimento só foi completada até um certo ponto. Apesar de A ter entendido as razões da sua volubilidade, ele aparentemente não entendeu as razões da sua angústia com este fato, ou seja, ele não conseguiu entender o porquê da sua insatisfação com esta situação. Examinaremos esta questão mais tarde.

[6] Aqui vemos claramente como movimentos de união e cisão, Eros e Tânatos se sucedem dialeticamente. No momento em que o entendimento cria condições para a união de partes cindidas do eu, surge, a meta-nível, uma nova cisão entre teoria e prática, entre cabeça e corpo, entre o pensar e o fazer, entre entendimento e padrões de comportamento.

[7] Id x superego?

[8] Em Freud esta idéia costuma estar associada a Édipo (veja Totem e Tabu), ou seja, o prazer está associado ao incesto ao qual se segue o sentimento de culpa. Tenho minhas dúvidas se este é o único caminho possível para uma explicação.

[9] Veja também a polaridade entre apolíneo e dionisíaco.

[10] Id e ego?

[11] Gostaria de reforçar mais uma vez que esta subdivisão é extremamente inexata e deficiente e visa tão somente demarcar as diferenças. Mais adiante eu farei uma análise mais precisa e correta destes dois mundos que cabe ao entendimento unir.

[12] Por exemplo, seria imaginável, que, em função do meta-entendimento, A escondesse mais as suas aventuras, ou seja, que ele as tivesse de maneira mais encoberta e camuflada (virtual?).

[13] Por trás desta questão podem estar diferenças entre os conceitos de entendimento (Verstand) e razão (Vernunft), na medida em que esta última pode transcender o entendimento. Eu propositalmente tenho evitado usar este último termo porque ele traz à tona questões filosóficas que não são o foco deste livro.

[14] Aqui é interessante a associação das palavras formador e forma reforçando assim a identidade entre o ser (essência) e a sua forma (aparência).

[15] Segundo Aristóteles nós somos aquilo que fazemos repetidamente.

[16] Veja referências ao papel estabilizador do hábito na Introdução e no capítulo 4 deste livro.

[17] Aqui cabe lembrar que forma e conteúdo estão sempre indissoluvelmente ligados.

[18] Na verdade, apesar da aparente simplicidade dos caminhos seguidos pela natureza (veja nota abaixo referente à navalha de Ockham), com referência ao processo de aprendizado, eles escondem uma complexidade bem maior. Alguma coisa que se repete porque é bom e nos faz bem a curto prazo, pode, a longo prazo, nos fazer mal. A repetição de um padrão pode reforçar características, que podem levar à destruição. Ou seja, o procedimento apontado é uma simplificação que pode funcionar em alguns casos, mas que nem sempre funciona.

[19] Pode haver dúvida sobre a inclusão dos minerais em algo tão dinâmico como a repetição, mas, por exemplo, porque a estrutura cristalina encontra-se presente em muitos minerais?

[20] Certamente um mesmo princípio válido para vários fenômenos é mais simples do que vários princípios válidos para vários fenômenos. A navalha de Ockham por trás desta constatação é mais um argumento a favor do Monismo e do Holismo.

[21] É interessante que em contraste com a rapidez com que um hábito novo é formado, temos a extrema dificuldade de modificação de um hábito arraigado. Ou seja, quando o território é virgem e intocado, a primeira trilha é facilmente estabelecida, mas, uma vez que isto acontece, a alteração ou a substituição de uma trilha por outra, é tarefa difícil.

[22] Aqui cabe novamente a observação sobre a semelhança dos procedimentos na natureza. Um princípio ou um mecanismo que é válido em um determinado nível, para uma certa instância, também é valido para outros níveis e outras instâncias. Vale mais uma vez a navalha de Ockham e reforça-se a idéia do Monismo. Monismo / Holismo / Panteísmo guardam certa semelhança com a idéia do todo e o universo como unidade. A simplificação resultante de um mesmo princípio ser válido para diversas circunstâncias reforça a idéia de unidade.

[23] Esta idéia, da maior importância, será retomada e aprofundada na próxima seção.

[24] Aqui existem muitas outras razões atuando, complexas demais para serem analisadas em um espaço tão pequeno. Entre outras coisas, o copo que o alcoólatra bebe simboliza a derrota de uma vontade que se opõe ao hábito de beber. Uma vez derrotada a vontade, nada mais se opõe à retomada do vício. Seja como for, o copo simboliza um caminho. O outro caminho é o da abstinência. O importante é constatar que é o hábito e o uso que dele se faz, que vão determinar qual dos caminhos vai se impor.

[25] Possivelmente publicidade e marketing estudam a formação de hábitos, mas receio que a preocupação esteja muito mais em cima da sua manipulação, ou seja, de aspectos utilitários.

[26] Lembremo-nos de Adão e Eva e a expulsão do paraíso.

[27]Veja Das Trauma der Geburt (O trauma do nascimento), de Otto Rank, Psychosozial-Verlag, 2005.

[28] Veja Das Trauma der Geburt (O trauma do nascimento), de Otto Rank, Psychosozial-Verlag, 2005.

[29] Jamais é tarde para se aprender é um dito popular que reflete esta ideia.

[30] Aqui teríamos o princípio sendo aplicado a meta-nível para a espécie humana. Se a natureza estabelece que a infância é o período de aprendizado por excelência e se a natureza é a infância (o berço) da humanidade, então o aprendizado feito com a natureza bem como os seus princípios têm que continuar válidos para o ser humano.

[31] Aqui, como imagem, vale a história do Barão de Münchhausen que consegue se salvar de um pântano, no qual ia afundando junto com o seu cavalo, puxando-se pelos cabelos. Só que o dito barão era um mentiroso contumaz, enquanto nós aqui estamos tentando fazer realidade.

[32] Cabe lembrar que modificar é deixar de ser, ou seja, é a negação do ser.

[33] Uma possível solução para este dilema seria separar os conceitos de racionalidade e entendimento, onde o primeiro seria justamente a ponte que tudo une e tudo pode unir e o segundo seria um atributo do homem e do processo civilizatório. Eu, no entanto, vou abdicar do uso deste artifício, e acho que ele não me conduziria muito longe porque seria necessário construir uma ponte entre entendimento e racionalidade.

[34] A nova unidade permanece até que surja nova cisão. Do embate entre tese e antítese surge a síntese que permanece até que surja nova antítese.

[35] Conforme veremos mais adiante isto não é bem verdade. Existem, sim, conhecimentos associados ao aprendizado que vale a pena apresentar, embora, eles não sejam “técnicas” no sentido mais restrito do termo.

[36] Cabe lembrar que os últimos capítulos deste livro serão dedicados aos temas postura, hipertensão e morte. Como se trata de temas amplos também a análise será ampla. Neste contexto, o desenvolvimento de padrões de comportamento novos também serão examinados.

[37] Poderíamos acrescentar a cisão superego/id, na medida em que o superego representa civilização e o id representa natureza.

[38] Evidentemente podem existir muitos outros motivos. Aqui, por uma questão de espaço, eu me restrinjo a este motivo.  

[39] Aqui temos um trabalho bem semelhante à auto-sugestão. Maiores informações serão dadas no capítulo correspondente.

[40] Para uma melhor explicação dos conceitos de cabeça e corpo, veja capítulo 2, seção Racionalidade, sentimentos e sensações.

[41] Um capítulo inteiro será dedicado a este assunto.

[42] O critério mais comum é o estético que, além de ser questionável (existem culturas que valorizam a gordura), é de realização de médio/longo prazo, ou seja, para um corpo que quer comer aqui e agora, trata-se de um objetivo pouco tangível.

[43] A história do centauro provavelmente parte destas considerações, só que, neste caso, se vai um passo além e o cavalo passa a fazer parte do humano.

[44] Outros casos existiram no passado em que a solução de compromisso foi mais difícil. Tive que usar algum recurso adicional, um travesseiro, um banco ou apoio. Teve casos onde eu tive que desistir da postura porque ela forçava demais uma parte do meu corpo e tive que substituí-la por outra.

[45] Para uma visão geral sobre o behaviorismo veja Sistemas e Teorias em Psicologia de M.H. Marx e W.A. Hillix, Editora Cultrix Ltda.

[46] Também Descartes considerava o homem uma máquina complexa.

[47] Veja, por exemplo O mito da liberdade de B.F. Skinner, Summus Editorial.

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