O afastamento da natureza
Originalmente o ser humano, ainda não humano, pertencia a um todo, a natureza. Na natureza existem regras e leis. Por exemplo, a andorinha procura refúgio entre as frestas das pedras e é lá que ela põe os ovos e cria os filhotes. O bem-te-vi constrói o seu ninho entre os galhos das árvores. Dificilmente vamos encontrar um bem-te-vi colocando os ovos entre as pedras e uma andorinha construindo o seu ninho nas árvores.
O surgimento da vontade no ser humano representa uma ruptura com leis, regras e natureza. Ruptura está sempre associada à tensão [1]. Não que o equilíbrio resultante da observação de leis e regras signifique necessariamente paz. Um bem-te-vi, para ficar no exemplo das aves, que serve de brinquedo para um gato, não está em paz simplesmente pelo fato de estar cumprindo um rito natural. Nem tampouco fome, frio, dor e submissão, freqüentes na natureza, devem ser idealizados. Pelo contrário, é justamente a melhoria de vida que leva o ser humano a tentar quebrar leis e regras.
Regras e padrões, no entanto, fornecem um abrigo, por mais desconfortáveis que sejam, e a liberdade resultante do rompimento de vínculos, encerra uma profunda angústia, por maiores que sejam as perspectivas abertas. O todo que se abandona precisa ser reposto por algo que preencha o vazio deixado. Se o rumo original provou ser insatisfatório é necessário redefini-lo. No entanto, uma nau sem rumo é um barco perdido e o seu destino certo é o naufrágio.
O objetivo deste capítulo é a definição deste novo rumo. Trata-se de definir um novo todo, maior e mais abrangente do que a natureza, que inclua o homem e seus caminhos, lhe dê abrigo e refúgio. Se o todo inclui o eu, então também o eu deve incluir o todo. Ambos os conceitos passam a ser equivalentes. Na medida em que o eu passa a não mais se limitar ao indivíduo, mas, num movimento crescente, passa a englobar a família, a comunidade, a nação, a humanidade, o universo, enfim, passa a se identificar com o todo, o bem estar e a felicidade do indivíduo passam a ser idênticos com o bem-estar e a felicidade deste todo. Daí resulta claramente um caminho, uma direção e uma perspectiva.
O afastamento de uma ordem é o que permite o surgimento de uma nova. O ser humano, ao se afastar da natureza, dá condições para a criação de uma nova estrutura que pode permitir um novo equilíbrio com o mundo à sua volta. Perdida a unidade com a natureza cabe ao ser humano desenvolver regras e leis que o reconduzam à unidade perdida num patamar mais elevado. Esta é a espiral dialética e é disto que trata este capítulo.
Tento primeiro mostrar como isto é possível focalizando o ser humano não como espécie, mas como indivíduo. De certa forma, o caminho evolutivo percorrido pelo individuo repete o caminho percorrido pela espécie. Por exemplo, o ser humano como embrião tem um comportamento ditado pela natureza. Mesmo na infância, a maioria das reações da criança segue procedimentos naturais. Na medida em que a criança cresce e se desenvolve, ela se afasta da natureza. Esta cisão é uma das causas principais de sofrimento e dor.
Para ilustrar estas idéias tomo como exemplo um clássico da psicologia. Uma criança entra no quarto dos pais que estão copulando. Os pais reagem assustados e brigam com a criança. Esta passa a associar sexo a algo negativo sofrendo, mais tarde, as consequências funestas deste fato.
Fica claro através deste exemplo que a criança não mais se encontra em um contexto natural em que dificilmente os pais teriam a mesma reação. Animais costumam encarar a sexualidade como algo normal e o sexo é praticado de forma aberta, sem recato, pudor ou discrição. Por outro lado, se ao invés da criança o mesmo incidente tivesse ocorrido com um adulto, também as consequências teriam sido outras. O adulto teria entendido a reação assustada dos pais e a teria aceito como algo perfeitamente normal dentro dos padrões vigentes. Provavelmente teria esquecido o incidente meia hora depois. Diferentemente da criança, o adulto teria entendido o incidente. Ou seja, é o entendimento que caracteriza a diferença do impacto do acontecimento sobre criança e adulto. O problema ocorre por causa do descompasso existente entre natureza e cultura. A criança, ainda um pouco natureza, se choca com o ambiente dominado por padrões culturais que ela ainda não entende.
Dou outro exemplo da inadequação entre padrões naturais e um ambiente, digamos, artificial, enfocando a questão do medo. No animal, o medo visa ativar os mecanismos de defesa, colocá-lo em estado de alerta frente ao perigo, estimulando secreções glandulares que preparam o corpo para a fuga ou para a luta, aumentando atenção, sensibilidade, força e resistência.
Para a criança, ainda natureza, o medo frequentemente é a única atitude viável. Ele provoca o choro que pode atrair a atenção de um adulto providenciando a ajuda necessária. Por exemplo, no caso de um grande barulho, a reação mais provável de uma criança é o medo e o choro.
Para o ser humano adulto, no entanto, o medo pode ser um fator imobilizador que bloqueia e paralisa as defesas. As duas reações básicas do animal, a luta física e a fuga, na maioria das situações do cotidiano humano, não fazem mais sentido. Se um chefe ou um colega nos ameaçam, se o desafio é a participação em uma reunião importante, ou, se um carro se aproxima na contramão, fuga e luta não adiantam, ao menos não no sentido estrito. O máximo que o medo pode fazer por nós é alertar os sentidos, deixando a pessoa ligada, atenta e desperta. No mais, o medo mais atrapalha que ajuda. Ele acelera o metabolismo, aumenta o pulso e a pressão sanguínea em um momento em que o fundamental é o sangue-frio, a presença de espírito e a capacidade de reflexão. Além disso, o medo pode ocupar a mente em excesso, pode roubar o sono, além de outras conseqüências psicológicas e fisiológicas, em situações em que a solução está justamente em manter a calma.
Retomando o exemplo do barulho, frente a um grande estrondo, a primeira reação de um adulto também é o medo. Este, no entanto, rapidamente tem que dar lugar ao entendimento. Primeiro é preciso investigar o que ocorreu, olhar pela janela, telefonar, enfim, colher informações. Se o incidente que originou o barulho se encontra longe, então, provavelmente a situação não apresenta risco. Se o barulho, no entanto, originou-se no próprio prédio, então é preciso avaliar até que ponto a estrutura foi afetada, se há risco de incêndio, desabamento, etc. Um medo excessivo pode ter consequências desastrosas [2].
Ao juntar e relacionar fatos, ao ordená-los em uma sequência lógica, o que o entendimento faz é contribuir para uma união de elementos dispersos, formando uma totalidade que é justamente o que vai ajudar a restabelecer a harmonia aparentemente perturbada pelo estrondo. Vemos, portanto, que o entendimento e a racionalidade fazem parte de um todo que é preciso aprender a construir.
Boa parte das experiências traumáticas do ser humano está localizada na infância. Apesar da criança ainda ser um pouco natureza, ela já começa dela se afastar. Apesar disto, ainda não existe na criança a capacidade de, através do entendimento, criar uma estrutura maior que forneça as bases para uma nova unidade com o mundo. Ela começa a abandonar um mundo, mas ainda não encontrou o outro. Esta situação transitória é fonte de sofrimento e dor. Como o adulto carrega as experiências da infância, esta dor pode continuar a acompanhá-lo. Além disso, existem adultos que jamais amadurecem.
No capítulo 2, Racionalidade, realidade e matéria, será examinado com mais detalhe o conceito de entendimento que, como se está vendo, é parte fundamental do todo que se pretende construir.
Entendendo o todo
Uma das razões centrais para a falta de crença das pessoas no mundo, na natureza, em Deus, ou qualquer outra entidade mais ampla (leia-se o todo) é o sofrimento. Tive uma vez em casa um pintor de paredes que me disse, em tom de queixa e desgosto: “Minha fé em Deus desapareceu no dia que eu vi pela televisão, de um lado um rebanho de bois bem nutridos, pastando grama farta e viçosa e, logo depois, um rebanho na seca, morrendo à míngua. Como é possível Deus permitir uma injustiça destas?” O pintor, na infinita sabedoria de homem do povo, usou o boi, ao invés do ser humano na sua fala. Boi a gente não pode acusar de pecador, para tentar justificar a injustiça.
A linha de pensamento seguida pelo pintor é mais ou menos a seguinte. Se Deus é o criador, o todo poderoso, ele também é responsável pelo que cria. Se ele é bom e justo, como é possível ele permitir o sofrimento, ainda por cima na natureza? Se ele é ruim e injusto, como é possível acreditar nele? Neste último caso também a sua obra, o mundo, necessariamente é ruim.
Dentro desta ótica não há resposta possível. O que é necessário é mudar de ótica. Em primeiro lugar, será que faz sentido considerar Deus como criador? E se o mundo não tiver tido começo [3]? E se o mundo for uma sucessão infinita de estágios? Acabando-se com a ideia de Deus como criador, acaba-se com a ideia de Deus como responsável. Não há mais responsáveis. Responsável pelo mundo é o mundo.
Ninguém em sã consciência vai negar que existe sofrimento. E daí? Isto prova o que? Dizer que o mundo é mau, ou a natureza é má, porque existe sofrimento, é restringir-se àquilo que é mau ou sofrido. Trata-se de uma visão parcial e fragmentada. A natureza simplesmente é. O mau e o bom, a beleza e a feiúra, o sofrimento e a felicidade coexistem. Bom, mau, justo e injusto são faces da mesma realidade. O boi gordo pode ir para o abate e o boi magro pode ser poupado. Assim, o que era bom passa a ser mau, e injustiça converte-se em justiça e vice-versa, ao menos na ótica do boi.
Na mesma linha de pensamento situa-se o raciocínio do homem comum que reclama da injustiça do mundo porque não existe a punição de alguém que ele acredita culpado. Novamente temos embutidas diversas premissas que cabe questionar. Em primeiro será que o sujeito realmente é culpado? Sob qual ótica ele é culpado? Em segundo lugar, o raciocínio pressupõe um agente da punição. Reclamar da injustiça é reclamar de alguém ou algo que é injusto. Se o mundo somos nós, responsáveis pela injustiça no mundo somos nós. Que tal tentar reverter este quadro, ao invés de reclamar? Na verdade, ao reclamar da injustiça do mundo, o que se está fazendo é entender por mundo alguma entidade externa, possivelmente metafísica. Trata-se da velha tática de isentar-se da responsabilidade, atribuindo a culpa a outro [4].
A suposição de um agente externo responsável pela injustiça traduz uma visão limitada. Se alguém errou, eu, de certa forma, também errei por deixá-lo errar. Querer que, em função do erro, seja punido tão somente aquele que errou, traduz uma visão simplista, cada ser, solitário e isolado, encerrado em seu mundo individual, cometendo erros e acertos segundo algum código mágico, pré-definido e recebendo por eles punição ou prêmio. Tal somatório de mundos individuais é resultado de uma visão infantil e míope, que não enxerga conexões e vê cada individuo encerrado em sua redoma. É o fato de eu ser responsável pelos erros dos outros, que vai possibilitar que eu me mobilize para impedi-los. Fosse cada um responsável exclusivamente pelos seus erros, além do elemento mágico e misterioso que teria que ser introduzido, estar-se-ia consolidando um individualismo em que cada um cuidaria exclusivamente daquilo que faz [5].
A classificação das coisas em certo e errado é resultado de miopia e simplificação. O erro hoje é justamente o que vai possibilitar o acerto amanhã. É com o erro que se aprende a fazer certo. Assim, erro e acerto estão de tal forma interligados que é impossível separá-los. Dito de outra maneira, erro e acerto fazem parte de um todo. É justamente o reconhecimento da existência deste todo que possibilita a interligação.
Se no mundo prevalece a felicidade ou se prevalece o sofrimento, esta é uma dúvida que carece de sentido. Em primeiro lugar pela dificuldade da sua medição. Separar todas as coisas e colocá-las nos pratos de uma balança é tarefa inviável. Depois, quem é que colocaria o boi gordo no prato da balança? É o boi que come o pasto, é o pasto que é comido pelo boi, é o homem que come o boi ou é o homem que não come boi [6]? Em segundo lugar, o que é felicidade em um determinado momento, pode ser sofrimento no momento seguinte e a felicidade de um pode ser a desgraça do outro. O mar parado, a ausência total de movimento do ar é tão somente prenúncio da tempestade que se aproxima, a tensão do sofrimento gera o movimento para a sua superação e é das cinzas de uma civilização que nasce outra, possivelmente melhor.
De tudo o que foi dito acima não se deve depreender a defesa de uma posição relativista. Não se trata de ficar em cima do muro, indiferente a justiça e injustiça, paz e sofrimento, bom e mau, acerto e erro. Tudo isto compõe o todo e, como veremos, o todo é paz. A proposta aqui não é ficar em cima do muro, muito menos o relativismo. A proposta aqui é trabalhar no sentido da consolidação deste todo, em particular, consolidar a sociedade, que é a parte que nos tange como humanos [7]. Para isto seja possível, há que consolidar também a ligação com o mundo e a natureza. Fazendo conexões, estabelecendo pontes e ligações entre os homens, entre o homem e o mundo, estamos trabalhando para a paz, para além do bem e do mal.
Todo e paz
A busca que se faz através do entendimento não teria nenhum sentido se por trás não houvesse algo positivo. Pois, que sentido haveria em fazer conexões, investigar, tentar entender tudo, aproximando-se, portanto, do todo, se este todo fosse meramente angústia e sofrimento?
O todo é paz. O todo é paz porque é ausência de movimento e é ausência de movimento porque ele reúne os movimentos todos. Esta é a síntese do raciocínio que será detalhado a seguir.
A ausência de movimento nos faz lembrar Parmênides e a escola eleática, mas enquanto eles negam o movimento, aqui, o que se faz é exatamente o contrário. Ao se reunir no todo, o movimento todo, a gente o dilui. Dito de maneira mais simples, ao se mostrar a transitoriedade de todo movimento, cada movimento perde em importância em prol do todo no qual ele está inserido.
Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe sintetiza muito bem a perspectiva do todo [8]. Não há vale sem montanha, nem montanha sem vale, seria outra forma de dizer a mesma coisa. Não que se pretenda acabar com as montanhas e os vales, mas procurando montanhas menos altas, vamos, provavelmente, encontrar também vales menos profundos. Ou melhor, lembrando que atrás do vale sempre existe uma montanha, vamos, talvez, perder o medo de atravessá-lo. Lembrando que depois da subida para a montanha vem a descida para o vale, vamos, talvez, ser mais cautelosos na sua conquista.
Mais importante que contrapor montanha e vale, bem e mal, é a sua síntese. Reunindo-se o movimento todo, resulta a paz. Ela resulta do sentir e do vivenciar do uno no múltiplo, da permanência na mutabilidade, da essência na aparência e da imobilidade na infinita mutabilidade. A soma de todos os movimentos é que é o todo. Por ser soma de tudo aquilo que é móvel, é, por causa disto, imóvel.
Procuremos primeiramente entender porque o todo não se modifica [9]. Se o todo se modificasse ele, em sendo o todo, teria também que incluir a sua modificação. Se ele incluísse toda modificação, ele não se modificaria. Ou seja, uma vez que o todo inclui a sua própria modificação, ele a exclui.
Outra maneira de dizer o mesmo, consiste em considerar a modificação da coisa como a atuação de algo externo à coisa. Se a coisa se modificasse exclusivamente em função de fatores internos, não se trataria de modificação, uma vez que a coisa continuaria sendo aquilo que ela é [10]. Ora, não pode haver algo externo ao todo, porque isto nega a sua concepção. Portanto, o todo não se modifica.
O ser só se modifica porque existe o não-ser e a modificação do ser é o resultado do embate entre o ser e a sua negação. Uma mesa só se modifica nos limites daquilo que ela é, ou seja, a modificação de uma mesa significa que ela ultrapassa os seus limites. Ora, o todo não tem limites nem fronteiras. O todo, em sendo tudo, inclui a sua própria negação. Não é, portanto, possível modificá-lo [11] [12] [13].
Mostrar que o todo, por ser ausência de movimento, é paz, é mais difícil. Paz costuma ser associado a algo bom. Os hedonistas, no entanto, costumam dizer que bom é o prazer. Acontece que não existe montanha sem vale e ao píncaro do prazer costuma suceder o vale de lágrimas. Se não existe montanha sem vale, também não existe vale sem montanha. A dor só existe porque existe o prazer. Assim, as únicas maneiras de excluir a dor consistem em excluir o prazer, ou então incluí-los a ambos. A convivência, lado a lado, de dor e prazer, permite diluir os dois. Ao ligar-se com o prazer, a dor perde o seu lado trágico e morte passa a significar vida. É como se a convivência de pólos opostos os anulasse. É como se a montanha e o vale se fundissem num planalto. Daí resulta paz.
Paz é uma sensação, um sentimento que requer ser vivido, vivenciado. O melhor argumento que eu posso dar em favor da paz é relatar experiências de paz. De forma geral e ampla, procurando algo consensual, eu diria que normalmente a paz está associada a experiências envolvendo a natureza: um por de sol, o mar, uma mata, uma vista, montanhas, um lago, etc. Vejamos o mar. O mar é a permanência na multiplicidade. A forma das ondas, das espumas, nunca se repete e, no entanto, a essência permanece. Dir-se-ia até que a essência se manifesta justamente através desta multiplicidade da aparência [14]. O mesmo pode ser dito do por de sol. O por do sol faz parte de uma rotina que se repete todo dia, faz parte de uma realidade única: o movimento da terra. E, no entanto, cada momento do por de sol é único e diferente dos demais. Esta permanência na multiplicidade, esta imutabilidade do eternamente mutável é que é a essência da paz. Também o todo fica enquanto tudo muda.
O último argumento que quero utilizar para mostrar que o todo é bom e paz consiste em utilizar a idéia da união. União está normalmente associada a alguma coisa boa. Basta pensar no amor. Ora, o todo nada mais é do que a idéia da união levada às suas últimas consequências. O todo nada mais é do que a união de tudo.
Aqui cabe um recado aos pragmáticos, aqueles que tendem a argumentar que a noção de todo, central para esta análise, é excessivamente abstrata para poder ser operacionalizada. Para estes eu diria que o todo representa uma tendência, representa o Norte de uma bússola. Ora, a utilidade da bússola não é permitir chegar ao Norte, mesmo porque este, a rigor, nem existe. Da mesma maneira, o todo marca uma tendência, um objetivo a ser perseguido, sinaliza uma direção. Mais importante que o todo é o movimento em direção a ele, ou seja, a união.
Gostaria de deixar bem claro que apesar do que foi dito no parágrafo anterior, o todo não é uma mera abstração, uma experiência mística fora da realidade. O todo é uma experiência concreta e real que consiste em reconhecer, sentir e vivenciar o uno no múltiplo, a permanência na mutabilidade, a essência na infinita variedade da aparência. Dei acima alguns exemplos de como buscar o todo na natureza. Quem não tem o mar ao alcance da vista, pode instalar um aquário dentro da sua casa porque o movimento dos peixes também permite a experiência da unidade na multiplicidade, que é central na concepção do todo [15]. Na verdade, qualquer concentração em qualquer objeto ou coisa permite esta experiência. O melhor exemplo é a concentração na respiração. A entrada e saída do ar, o inflar e desinflar dos pulmões permite esta vivência. Se nós somos parte de um todo, então nós o trazemos dentro de nós [16]. A questão é abrir-se a ele, permitir que ele nos preencha.
A vida é uma sucessão de momentos de prazer e de dor. A perspectiva do todo, consiste em reuni-los, prazer e dor, lado a lado, fazendo a sua conexão. É isto que vai permitir o surgimento da paz. Esta busca tem semelhança com a experiência, já relatada, da identificação do uno no múltiplo e da permanência na mutabilidade. Evidentemente não há que aceitar passivamente a alternância de dor e prazer. Pelo contrário, cabe a nós aplainar os desníveis, mesmo que a redução da profundidade de um abismo seja feita às custas da redução da altura de um pico.
União e cisão
Na seção anterior vimos que o todo funciona como o Norte de uma bússola, sinalizando uma direção: a união. No sentido oposto temos cisão e fracionamento. Como já disse na seção anterior, mais importante do que o Norte é a direção norte. Aqui nesta seção veremos o que isto significa.
Para ilustrar as idéias, narro alguns fatos que ocorreram na minha infância. Mal comecei a engatinhar, fui colocado em um cercadinho [17]. Certa vez sujei as grades com cocô. Não sei direito o que isto significa, mas acho que a psicologia freudiana explica o fato. Só sei que minha mãe relatava este acontecimento com certa freqüência e daí ele ter se fixado na minha memória. Se minha mãe insistia neste relato é certamente porque a incomodava. O cercadinho é um símbolo da criança como estorvo, e ser tomado como estorvo não deve ser um sentimento bom [18]. Se isto é verdade para o filho, também o é para a mãe, que acaba se sentindo culpada e censurada.
Símbolos de rejeição têm certa presença na minha e na infância da maioria das pessoas. Trata-se de um período em que se é essencialmente corpo e a inserção em uma sociedade que é essencialmente cabeça pode levar a um confronto do qual resulta rejeição. Uma explicação mais detalhada do que entendo por cabeça e corpo será dada mais adiante. Antes, no entanto, quero ilustrar estas ideias para o caso do cercadinho.
A criança quer a mãe, quer o calor e a proximidade da mãe, o seio materno e o colo ou o regaço. A mãe representa proteção, abrigo, carinho e amor. Mas a criança não quer só carinho e proteção. Faz parte do processo de crescimento e desenvolvimento, a busca da independência e, como resultado, surgem tentativas de explorar o ambiente, tocar as coisas, mover-se, engatinhar, ficar de pé e andar. Tudo isto são atividades eminentemente corporais.
A mãe, no entanto, tem os seus afazeres domésticos: cozinhar, preparar o jantar para o marido que chega com fome, limpar a casa, fazer compras, etc. Além disto existe a responsabilidade de zelar pela segurança da criança. Tudo isto faz parte da estrutura social que atribui papeis às pessoas, cobrando-lhes deveres e obrigações. Tudo isto é resultado do processo civilizatório, ou seja, de cabeça e racionalidade.
Temos, portanto, instaurado o conflito corpo / cabeça, natureza / civilização. De um lado a criança, essencialmente corpo, presa à natureza e sua evolução. Do outro lado, a mãe, que como resultado do processo civilizatório, tem suas responsabilidades e obrigações. Deste embate surge, como solução de compromisso, o cercadinho. Este, pode, como vimos, significar rejeição. A criança se sente rejeitada na medida em que a presença e a atenção da mãe lhe é negada através do cercadinho.
Outro exemplo de rejeição é dado pelo aleitamento [19]. A criança quer o leite materno que é nutrição, calor, carinho e conforto. Para a mãe, no entanto, a amamentação frequentemente é um estorvo, por significar perda de tempo e também por interferir no regime hormonal e, conseqüentemente, na relação sexual com o seu parceiro [20]. No meu caso particular, soma-se o fato de que minha mãe via no aleitamento uma relação meio promíscua com a criança, especialmente sendo do sexo masculino. O que se vê, novamente, é o embate, de um lado, de desejos corporais e, do outro lado, questões morais, religiosas, deveres e obrigações, hábitos e costumes estabelecidos pela sociedade.
Tentando fazer um paralelismo com conceitos freudianos, caberia associar o corpo ao id e a cabeça ao ego / superego. Este paralelismo, no entanto, mais atrapalha do que ajuda, pois aqui cabeça e corpo estão mais associados à evolução. Corpo representa natureza, tudo aquilo que é espontâneo, intuitivo, sensações e desejos comandados de forma instintiva e natural. Cabeça representa aquelas características que são marcadamente humanas e culturais, incluindo consciência, entendimento e racionalidade. Obviamente que estes conceitos não se deixam separar de forma rígida, existindo forte interconexão. A separação em cabeça / corpo visa principalmente facilitar a exposição de idéias.
Sintetizando, podemos, portanto, dizer que a infância é marcada por conflitos resultantes do embate de desejos eminentemente individuais e vinculados a uma ordem natural que eu chamei de corpo, com uma estrutura social eminentemente racional que eu chamei de cabeça. Trata-se do embate natureza x civilização ou natura x cultura, uma das principais fontes de cisão, sofrimento e dor.
Dentro da visão de todo que caracteriza o presente trabalho, o movimento de cisão externa ocorre também internamente. A rejeição que a criança sente por parte da mãe, pode se transformar em rejeição do seu próprio corpo. Afinal é o corpo que reclama pela presença da mãe, e se a mãe vê isto como algo negativo, talvez seja porque o corpo seja algo negativo [21].
O resultado pode ser fuga para a cabeça. Uma vez que seus anseios e desejos corporais são negados, a criança refugia-se em fantasias e imaginação. Este movimento é caracterizado aqui como fechamento. Rejeitada pelo mundo exterior, no caso, a sua mãe, a criança se fecha em si mesma.
Cisão e fracionamento dão origem a sofrimento e dor. Estes, no entanto, não devem ser vistos tão somente pela ótica negativa. Sofrimento e dor podem estimular uma reação no sentido da sua superação. Como vimos, no caso da criança, a dor da rejeição é superada com a fuga para a fantasia e a imaginação. Esta fuga representa uma nova cisão, na medida em que ela representa um fechamento para o mundo e a realidade. Surge nova dor a exigir nova superação e assim por diante.
No caso de um adulto, a dor da cisão pode levar a uma crise existencial que, no caso extremo, pode significar loucura e morte. A morte representa a volta ao pó restabelecendo, desta maneira, a conexão perdida com o mundo. A loucura é o extremo oposto. Ela cria uma conexão com um mundo individual e fictício, de forma a compensar a união perdida com o real. Morte significa, portanto, a negação do eu em prol do não-eu e loucura a negação do não-eu em prol do eu [22]. Ambos tentam resolver a cisão entre eu e não-eu através da negação de uma das partes [23].
Evidentemente cisão ou negação está quase sempre associado a um movimento contrário de união ou afirmação. A negação do eu nos leva a uma tentativa de conexão com o não-eu e o mesmo ocorre no sentido contrário. Assim, ilustrado para o caso da loucura e da morte, o movimento de cisão e fracionamento, acaba levando, na sua tentativa de superação a um movimento oposto de união e conexão. União e cisão frequentemente estão associados.
Crises existenciais podem, no entanto, levar a outros caminhos, menos radicais. No caso da criança, a quebra de vínculos com a mãe e a natureza, costuma levar a um movimento de união, através da busca de novos conhecimentos, amizades, participação em atividades sociais, construção de vínculos com a família, a escola, jogos e brincadeiras, etc.
Foi mencionado que a cabeça pode ser o centro de um movimento de cisão e isolamento, na medida em que a criação de fantasias, sonhos e ilusões, pode levar o indivíduo a se encerrar em um mundo particular [24]. Também o corpo pode ser a sede de um movimento de isolamento e fracionamento. A busca desenfreada e incessante de novos prazeres e sensações corta e destrói vínculos e ligações já estabelecidas.
O corpo pode, no entanto, também dar origem a um movimento de união. O amor é o exemplo mais óbvio, mas atividades físicas como esporte, jogos, passeios e caminhadas também são formas de estabelecer vínculos com as pessoas e com o mundo.
Da mesma forma, a cabeça pode estar associada a um movimento de abertura ou união. O processo de entendimento consiste justamente em ligar, fazer conexões, juntar fatos, estabelecer pontes, e desta forma ajudar a aglutinar partes dispersas de um todo [25]. No parágrafo seguinte procuro mostrar de forma concreta e real como isto é possível.
Suponhamos que a criança, pelos problemas já mencionados nos parágrafos anteriores, resolva encerrar-se em si mesma, fechar-se em fantasias e imaginação, e, suponhamos, que ela rejeite o seu corpo e se refugie na cabeça. Suponhamos que, uma vez adulto, isto represente um problema, dificulte o estabelecimento de vínculos sociais, levando ao isolamento e prejudicando a vida profissional. Na tentativa de superação da dor e do sofrimento daí resultantes, o agora adulto, resolve iniciar um processo de análise (pode ser psicanálise ou auto-análise, tanto faz), e, suponhamos, que no decorrer deste processo, seja feita a conexão entre as suas dificuldades atuais e situações ocorridas na infância. Pode ser que em decorrência desta descoberta, de imediato, nada se altere no comportamento deste adulto, isto é, que ele continue tão arredio e tão avesso a contatos sociais, como era antes do processo de análise. A tese que eu aqui defendo é que o mero processo de entendimento decorrente da análise, já representa um passo em um sentido da superação das suas dificuldades. Ao fazer a ligação dos seus problemas atuais com questões situadas na infância, o sujeito está fazendo conexões que representam um passo no sentido da união. Há diferença fundamental entre afirmações do tipo: eu sou infeliz; eu sou infeliz porque tive uma infância infeliz; e eu sou infeliz porque tive uma infância infeliz porque meus pais eram infelizes. A causalidade não só permite a identificação da raiz, como ela é o tronco que faz a conexão da raiz com as folhas. O entendimento, do qual a causalidade é uma das ferramentas, une, junta e faz conexões. No caso das três afirmações acima trata-se respectivamente de fazer a conexão entre o sujeito e a sua infelicidade; o sujeito, a sua infelicidade e a sua infância; o sujeito, a sua infelicidade, a sua infância e a infelicidade dos seus pais.
Pode ser que como resultado de tudo isto o sujeito, em um primeiro momento, odeie os seus pais, causa da sua desgraça. Talvez, depois de algum tempo, dentro do processo de análise, ele resolva investigar porque seus pais eram infelizes. Talvez ele descubra que o seu pai era um crápula e o rejeite definitivamente. Ou talvez não, ele descubra as causas da infelicidade dos seus pais e se reconcilie com eles. Tudo isto faz parte de um movimento de união com o mundo, que atua na contracorrente do processo de cisão e isolamento ao qual ele vinha sendo submetido. Talvez a solução para o sujeito seja aceitar-se, ou seja, aceitar a sua tendência de isolamento. Talvez, pelo contrário, a solução seja criar novos padrões de comportamento que permitam maior interação com o mundo. Qual é a solução obtida através do processo de entendimento não importa. O mundo como um todo, abre espaço para todo tipo de solução.
De uma maneira simplificada podemos dizer que o importante é a inserção no todo e isto sempre é possível justamente pelo fato de se tratar do todo, aquilo que tudo contém. Não importa aqui analisar como esta solução será obtida. Isto será objeto de capítulos posteriores. O que, sim, é importante aqui ressaltar, é que o processo de entendimento, ele próprio, por si só, representa um passo no sentido de uma união com o mundo, atuando, portanto, no sentido de aliviar dor e sofrimento resultantes do processo de cisão. No próximo capítulo Racionalidade, realidade e matéria será examinada a contribuição do entendimento para o conceito de todo.
Corpo e sexo na perspectiva do todo
No final da seção anterior mostrei como o entendimento, ou seja, a cabeça, podem contribuir para um movimento de união. Nos parágrafos abaixo dou alguns exemplos de movimentos de cisão e união no âmbito do corpo.
Em primeiro lugar, cabe mencionar que a cisão externa, homem/natureza, cultura/natura, mencionada na seção anterior, acontece também dentro do ser, através da cisão interna cabeça/corpo. A divisão entre a cabeça e corpo é uma das formas mais comuns de cisão e quem não supera a cisão interna, dificilmente superará a externa. Dito de outra maneira, a estima pelo mundo, pela sociedade, passa pela auto-estima e esta última passa pela integração corpo/mente. A vivência do corpo, a sua percepção, a ênfase no sentir, a respiração, a alimentação através da qual incorporamos elementos do mundo exterior, são formas de favorecer a integração.
Faz parte da civilização moderna a ênfase na cabeça. O corpo é colocado de lado, no máximo exibido como um troféu a serviço de valores como status, fama, dinheiro e poder. A modelo que tenta extrair do corpo todo e qualquer centímetro de gordura, tiraniza o corpo e o coloca a serviço da cabeça. Não é de se admirar que o corpo reaja à altura. Doenças, dores e desconforto são sinais claros de protesto.
Vivendo, vivenciando o corpo, abrindo espaço para ele, estamos agindo no sentido contrário. Aprendendo a senti-lo, aprendendo a entender a sua linguagem, estamos, além isso, aprendendo a nos conectar com a natureza e o mundo. Quem presta atenção na sua respiração, na entrada e na saída do ar, não tem como não prestar atenção na qualidade de ar à sua volta. Quem presta atenção na sua postura, na maneira de sentar, presta atenção também na cadeira em que senta. E quem presta atenção na cadeira em que senta, acaba prestando atenção na produção de cadeiras boas de sentar.
A alimentação pode dar dezenas de exemplos do mesmo tipo. Quem vive e vivencia o corpo, não tem como não prestar atenção na alimentação, na medida em que o corpo depende da alimentação. Por sua vez, alimentação está relacionada ao clima, à terra, ao meio ambiente, ao modo de produção, ao homem que planta, às formas de plantio, ao ferramental utilizado para plantar. Ou seja, através do corpo acaba-se fazendo vínculos com o mundo. Integrando-se com o mundo estamos também se integrando com o todo.
Finalmente, a talvez mais importante forma de integração com o mundo fornecida pelo corpo: o sexo. Este deve ser analisado dentro de uma perspectiva o mais ampla possível, pois é isto que caracteriza a visão de todo. Esta amplitude deve ser buscada nas duas dimensões básicas: espaço e tempo. A dimensão espaço implica em reconhecer que o indivíduo está conectado com o mundo e que a sua satisfação deve considerar também o mundo à sua volta. No caso do sexo há que considerar também os que não estão diretamente envolvidos. Se eu resolvo conquistar a mulher de um amigo, devo atentar para o fato de que possivelmente vou perder o amigo, vou magoá-lo, possivelmente haverá comentários nas rodas sociais, possivelmente surgirão hostilidades que podem ter consequências funestas. Todo ato repercute à nossa volta e retorna como um eco. O importante não é somente a repercussão que o nosso ato tem no mundo, mas também a repercussão que a repercussão no mundo tem em nós [26].
A dimensão tempo implica em rejeitar o caráter pontual da satisfação. Cabe procurar na satisfação não só o momento de prazer, mas algo que o ultrapasse. Na prática isto implica em rejeitar a visão hedonista da busca do prazer imediato. A visão temporal faz parte do aprendizado e da experiência. Pode ser que, em um primeiro momento, comer uma grande quantidade de doces ou chocolates me dê muito prazer. Rapidamente, no entanto, eu vou fazer o aprendizado de aquilo que agora me dá prazer, dentro de algumas horas pode provocar indisposição, dor de barriga e enjôo.
Vejamos como estas idéias se aplicam a sexo. Sexo é bom, sexo é paz, sexo é prazer, é integração e união com o parceiro. Sexo é continuidade, é juntar passado, presente e futuro, na medida em que a continuidade da espécie depende de sexo. Sexo é talvez a melhor maneira de sentir o outro, de vivenciar, juntos, sensações e sentimentos. Infelizmente, quantas vezes esta possibilidade é desperdiçada. O sexo que isola, o sexo que se reduz a vivenciar somente a si próprio, é um sexo ao qual falta a perspectiva do todo.
Vejamos, por exemplo, o caso da masturbação que fornece um ótimo exemplo para o sexo solitário, o sexo que isola. E, no entanto, a masturbação pode também ser colocada dentro de uma perspectiva mais ampla. Conta-se a experiência de monges que se masturbavam pela necessidade de aliviar tensões. Os monges treinavam um tipo de masturbação que prescindia de fantasias, ou seja, baseava-se em uma vivência do seu corpo. Evidentemente sentir única e exclusivamente o seu corpo é uma experiência inferior à de sentir o corpo de outra pessoa, ou melhor, sentir o seu próprio corpo fundido no corpo de outra pessoa. Mas certamente é melhor do que a alternativa oposta de desprezar e reprimir o corpo.
Talvez, no entanto, a experiência dos monges seja a de sentir o seu corpo fundido em um todo que o transcende. Existem experiências e sensações que transcendem a nossa individualidade, na medida em que elas são amplas o suficiente para caracterizar algo maior. Poucos haverá no mundo que não tenham em algum momento da vida experimentado o êxtase que ultrapassa os limites estritos do seu ego. Pode ser um belo pôr-do-sol, pode ser uma paisagem ou uma música. Repentinamente a gente se vê transplantado para os limites do universo, a cabeça alça vôo e o corpo levita.
O que foi dito para os monges, aplica-se a qualquer pessoa que, ou por dificuldade de relacionamento ou por quaisquer outras opções pessoais, opte por masturbação. Até mesmo a utilização de fantasias pode ser uma alternativa válida, embora deva ser levado em conta, que ela representa cisão. O corpo fica imerso em sensações e a mente divaga nas fantasias. A reunião de mente e corpo em uma só vivência certamente é uma experiência mais integradora.
Examinado o caso da masturbação, examinemos o caso oposto: o adultério. O adultério não consentido tem diversos problemas. Em primeiro lugar, temos a mágoa causada no parceiro ao ficar sabendo da situação. Deve-se levar em conta, que, muitas vezes, o parceiro simplesmente finge que não vê. Atrás deste fingimento escondem-se problemas cuja análise mais detalhada, infelizmente, demanda mais espaço do que aquele aqui disponível. Por exemplo, o casamento pode estar mal, mas o parceiro, por insegurança ou medo, prefere mantê-lo mesmo sob estas condições. Aqui temos a cisão de um eu que se nega, isto é, nega o seu direito à satisfação. O próprio fingimento denota cisão entre uma parte do eu que nega o conhecimento e outra parte do eu que tem conhecimento da situação. Evidentemente tudo isto tem consequências.
É claro que existem casos onde o parceiro realmente não tem conhecimento. Aqui o recurso mais frequente de quem pratica a infidelidade é a mentira, principalmente em não se tratando de uma experiência isolada. A mentira novamente é uma cisão entre aquilo que se diz e aquilo que se pensa. Esta cisão acaba por propagar-se também para a relação, na medida em que ela normalmente traduz a existência de uma parte do eu que quer ficar com o parceiro (e por isto mente) e outra parte do eu que não quer (e por isto foge para os braços de outra pessoa) [27]. Mesmo que a justificativa seja nobre como, por exemplo, necessidade de liberdade, necessidade de ampliar o leque de experiências e conhecimentos, enriquecer o mundo de sentimentos e sensações, este fato não elimina a cisão, porque o fato de se esconder estas idéias do companheiro, significa negar a ele o acesso a uma parte da sua realidade. Neste último caso, cinde-se a realidade entre uma parte que se compartilha (com o companheiro) e outra parte que não se compartilha. Como já dissemos diversas vezes, cisão necessariamente resulta em dor e sofrimento.
O adultério também costuma ser reflexo de consumismo. Troca-se o velho pelo novo tão somente pelo fato dele ser novo. Neste caso nada garante que o rompimento de uma relação deteriorada por uma nova relação, não acabe resultando na repetição do mesmo padrão. Ou seja, a relação nova acaba se deteriorando, tornando necessária nova troca. Daí resulta uma troca incessante de parceiros que caracteriza cisão e fracionamento. A incapacidade de estabelecer relações permanentes e duradouras significa a rejeição do outro de uma forma ampla e geral. O novo, neste caso, representa mera fantasia, porque o novo nada mais é do que o velho outro em uma nova roupagem.
Sendo a fantasia um produto do mundo interior isto significa um fechamento em si mesmo. Troca-se de outro porque só se é capaz de se relacionar consigo mesmo. Na verdade, como a gente é um reflexo do mundo exterior, a longo prazo, a constante rejeição do outro acaba resultando na rejeição de si mesmo.
O adultério consentido pode ser uma experiência válida, mas conta-se nos dedos as experiências bem sucedidas de relacionamentos abertos, dentro do contexto de uma sociedade ocidental regida por uma cultura predominantemente monogâmica. Por quê? Porque neste tipo de sociedade o conceito de família segue um padrão bastante rígido, e tentar abalar este pilar implica em uma série de choques que evidentemente deixam suas seqüelas. Além disso, na maioria dos casos, a sociedade não está estruturada para viabilizar este tipo de relacionamento. Por exemplo, em uma comunidade em que todos vivem juntos, quem assumiria a educação de uma determinada criança? Todos? Teria que haver uma infinita tolerância e homogeneidade de concepções de vida para isto funcionar [28]. Aqui vemos claramente a necessidade da perspectiva do todo, isto é, de se considerar não somente as pessoas diretamente envolvidas na relação, mas considerar também toda a intrincada rede de relacionamentos bem como as repercussões causadas na sociedade e no meio cultural no qual se está. Ou seja, a relação a dois não prescinde de todo o entorno no qual se está inserido.
Todos estes fatos não significam que não seja possível fazer uma sociedade que rejeite a célula unifamiliar, o matrimonio ou a monogamia. Inúmeras sociedades na África e no mundo islâmico baseiam-se na poligamia. Denominar tais sociedades de retrógradas e caracterizar poligamia como opressão, é, para dizer o mínimo, uma visão simplista. Mais do que simplista, é uma visão eurocêntrica, na medida em que a monogamia é característica da tradição judaico-cristã.
Outras visões são possíveis. Por exemplo, é possível defender o ponto de vista de que defender a monogamia na África é submeter os povos africanos a uma cultura européia. Dentro desta visão, aceitar a poligamia seria respeitar a cultura africana. Respeitando a cultura africana estaríamos reforçando a posição da África o que poderia ajudá-la a melhor se integrar no mundo. A integração da África no mundo poderia, por sua vez, levar a um enfraquecimento da poligamia. Aqui temos um claro exemplo da visão dialética: a aceitação da poligamia acaba levando ao seu enfraquecimento [29].
Na sociedade ocidental pode não ser admitida a poligamia, mas tolera-se o adultério, o pulo da cerca (compare-se, por exemplo, a nobreza francesa do século XIX onde a cortesã era tolerada e freqüentava os salões da sociedade). Enquanto a poligamia implica em claras obrigações do homem em relação à mulher, o adultério pode não significar obrigação alguma. Enquanto a poligamia é algo assumido, o adultério costuma vir imerso em hipocrisia. Como então caracterizar a poligamia como barbárie e o adultério como civilização?
Inúmeras experiências, algumas mais, outras menos bem sucedidas, aboliram a célula unifamiliar. Nos anos sessenta o movimento hippie tentou colocar a vida comunitária como paradigma. O mesmo tipo de paradigma vale para os índios ou outras sociedades ditas primitivas. Caracterizá-las como tal é sinal de prepotência e arrogância, pois em muitos sentidos tais sociedades são superiores às sociedades ditas civilizadas [30].
A ideia aqui foi mostrar, para o caso do adultério e da poligamia, a importância da consideração do seu contexto cultural. Isto faz parte da visão do todo. O objetivo aqui foi mostrar, através de alguns exemplos centrados em vivência corporais, que o todo não se reduz a uma idéia, a uma experiência mística, não se reduz à metafísica. O todo é concreto e real. Ele fornece uma visão integradora onde se busca a interligação de fatos, culturas e pessoas e onde o objetivo é a interconexão a mais ampla possível dentro das dimensões espaço e tempo.
Ligando os pontos (parágrafos)
Procurando fazer uma síntese deste capítulo eu diria que tudo começa com a vontade. É ela que leva o ser humano a romper o seu vínculo com o todo no qual ele estava imerso: a natureza. Paga-se, no entanto, um preço alto pela liberdade. Torna-se necessário substituir os laços originais por algo maior e mais complexo.
Uma das maneiras de se refazer os vínculos com o todo é o entendimento. Entender é compreender que estamos juntos no mesmo barco e que, ao menos a longo prazo, é remando juntos que poderemos sobreviver. Se cada um rema em uma direção é até possível que, em determinado instante, um dos remadores consiga impor o seu rumo. Mas, mais cedo ou mais tarde, resulta o naufrágio.
A paz ou a perspectiva do todo não nega o sofrimento. Não existe montanha sem vale, nem vale sem montanha. Paz resulta da paisagem que nasce desta sucessão de altos e baixos e da sua integração dentro de um todo.
Corpo e sexo fornecem excelentes exemplos dos movimentos de união e cisão. Por exemplo, é possível negar o corpo, ou então, abrir-lhe espaço, aprender a senti-lo e a entender a sua linguagem. A perspectiva do todo consiste em satisfazer os desejos procurando a maior amplitude possível dentro das dimensões espaço e tempo.
Como foi dito na primeira seção deste capítulo, o todo é a ampliação do conceito de eu. Trata-se do único caminho possível se desejamos fazer prevalecer a civilização humana ainda por algum tempo [31]. Se o caminho não é fazer prevalecer a civilização humana, se o objetivo é única e exclusivamente fazer prevalecer o eu, se o objetivo se restringe ao individual, em viver da melhor forma possível, não importando o que virá depois, o que se deixa para os filhos, o que acontece com os homens, o mundo e o meio ambiente, então, evidentemente, o conceito de todo é totalmente irrelevante. A bem da verdade, neste último caso, toda e qualquer atividade filosófica passa a ser irrelevante, toda e qualquer teoria deixa de fazer sentido, na medida em que teoria é sempre sair do particular para o geral. Se o objetivo é o eu e que se dane o resto, então, com esta última frase encerra-se a teoria necessária para viver. Fica, no entanto, um grave problema em aberto: a morte. Pois se o meu horizonte inclui tão somente a mim mesmo, então, com o meu fim, encerra-se o horizonte. Se o fim certo e seguro é o nada, se o sentido da vida aponta para o fim, então com ele finda o sentido da vida.
A ampliação do conceito de eu faz parte do processo civilizatório. Crescer, no sentido do desenvolvimento humano, significa reconhecer que o mundo é mais do que o eu. Amadurecer significa transcender os limites do seu ego. Realmente em quase todas as religiões, desde a antiguidade, encontramos a ética da reciprocidade cuja idéia fundamental é considerar o outro nas nossas ações [32]. Confúcio, por exemplo, diz, não façais aos outros o que não quereis que vos façam e com maiores ou menores variações encontramos afirmações semelhantes no budismo, hinduísmo, islamismo, zoroastrismo, etc. [33]. Implícito neste preceito está a visão de longo prazo, em que o outro é o eu amanhã ou em outra situação. Ou seja, eu não quero que façam ao outro alguma coisa negativa, porque amanhã eu poderei estar na mesma situação. O fato de o outro ser o eu amanhã ou em outra situação, indica uma extensão do eu em direção ao outro, isto é, trata-se de uma ampliação do conceito de eu. Esta extensão do conceito de eu, é o que, no limite, leva ao conceito de todo.
Interessante é notar que, nesta fase, a formulação da ética da reciprocidade ainda é restritiva, ou seja, o foco é no não fazer e não no fazer. Outra observação importante é que apesar de se incluir o outro, a referência ainda é o eu, ou seja, não se deve fazer ao outro aquilo que não se quer que seja feito ao eu. Leva-se em consideração o outro, mas a perspectiva ainda é a do eu. Isto é perfeitamente compreensível porque a ampliação de horizontes é um processo lento e gradual. Na natureza a perspectiva é eminentemente individual, cada planta cuida exclusivamente de si mesma. São as leis e as regras que fazem a conexão entre as diversas individualidades inserindo-as em um todo [34]. Numa fase relativamente primitiva do desenvolvimento humano, em que ainda se conserva a proximidade da natureza, é perfeitamente compreensível, que a perspectiva com a qual se olhe o mundo, seja a perspectiva individual.
Uma nítida evolução da ética da reciprocidade é dada no Judaísmo quando Deus diz a Moisés não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo com a ti mesmo (Levítico 19; 18) [35]. Este preceito ganha ainda mais importância no cristianismo quando Jesus reduz todos os mandamentos a dois (veja Mateus 22: 37, 38, 39 e 40). É interessante ressaltar a síntese que o cristianismo faz da intrincada e complexa moral judaica ao reduzir todos os mandamentos a: Amarás a Deus e Amarás a teu próximo como a ti mesmo. Ambos os mandamentos falam de amor, ou seja, de união. O primeiro fala do amor a uma entidade metafísica (Deus) e o segundo fala do amor a uma entidade física (o homem). Na medida em que o metafísico passa a ser a soma de todo o físico, ou seja, que em vez de Deus, usamos um todo que a tudo engloba, uma maior simplificação é possível, reduzindo-se os dois mandamentos a um só [36].
Dentro da moral judaico-cristão a norma amarás o próximo como a ti mesmo não tem mais um caráter restritivo (negativo), mas sim, passa a ser propositiva (afirmativa), ganhando maior amplitude. Ou seja, ao invés de restringir-se ao não fazer, o foco agora é no fazer. A referência, no entanto, continua sendo o eu, isto é, o eu continua fornecendo a perspectiva do que deve ser feito.
A referência ao eu vai desaparecer com o imperativo categórico de Kant que estabelece que um comportamento válido para um indivíduo é aquele que pode ser estendido para os demais. Ou seja, a idéia é escolher para norma de orientação de vida somente aqueles princípios que podem ser estendidos para toda a sociedade, passiveis, portanto, de generalização.
Ao trocar a referência do eu por uma referência mais ampla como a comunidade, a sociedade ou, até mesmo, a humanidade, troca-se o concreto, o real, por algo abstrato e vago. O que é a comunidade? O que é que ela quer? Por exemplo, se vivo em uma comunidade de ladrões na qual roubar é algo esperado e normal, se todos roubam de todos, todo o tempo, então, provavelmente, ser honesto é algo inaceitável. Vejamos um exemplo mais realista. Suponhamos uma sociedade em que a mentira e a hipocrisia façam parte do cotidiano. Neste caso, o preceito de mentir funciona perfeitamente dentro da ótica do imperativo categórico. Vale, portanto, a crítica de Hegel de que o imperativo categórico só produz tautologias, ou seja, é circular. Para uma sociedade de ladrões, vale o roubo, para uma sociedade hipócrita, vale a hipocrisia. Em uma sociedade de lobos, há que ser lobo e em uma sociedade de carneiros, há que ser carneiro. Se há dúvida sobre a sociedade que se quer, então, o imperativo categórico é de pouca serventia. Vemos aqui que o puro racionalismo, do qual Kant certamente é um dos expoentes, não consegue produzir conteúdos. Ou seja, o racionalismo, enquanto formalismo, é vazio. A consistência, pura e simples, que está por trás do imperativo categórico, não é suficiente para produzir conteúdo.
É aqui que entra a idéia do todo. Permanece a idéia da generalização implícita no imperativo categórico de Kant só que a ela se acrescenta um conteúdo. Este conteúdo, na verdade, está implícito na idéia da generalização, pois se o particular deve-se submeter ao geral então é porque o geral precede ao particular. O todo surge como extensão da idéia do geral, ou seja, o todo é aquilo que tudo engloba e tudo contém. E é no sentido da consolidação deste todo que há que trabalhar. Isto nada mais é do que a ideia da união levada às suas últimas consequências.
Evidentemente pode ser questionado o que significa concretamente trabalhar no sentido da consolidação do todo. Se, de fato, é complicado responder a esta pergunta, parece bem mais fácil substituí-la pela afirmação trabalhar no sentido da consolidação da sociedade humana, isto é, da civilização . Cabe lembrar que, dentro da dimensão espaço/tempo, consolidando a sociedade estamos também trabalhando para consolidar o mundo e, consequentemente, o todo [37].
Evidentemente que é possível argumentar que também a cisão pode trazer embutida a idéia do todo, ou seja, pode ser argumentado que o todo também pode ser formado jogando todos contra todo mundo [38]. De certa forma é isto que está implícito na generalização da idéia do darwinismo social de que é da competição que nasce o aperfeiçoamento da espécie. Este, no seu limite, na sua tendência última, representaria o todo [39]. No entanto, para uma sociedade onde o embate se dá fora de regras e padrões criados pela natureza, é extremamente duvidoso que daí resulte algum todo além da destruição total. E aí qual seria a utilidade de um todo que nos excluiria? Além disso, cabe ressaltar que, dentro da perspectiva aqui adotada, à cisão externa soma-se cisão interna. E é difícil imaginar que daí resulte algo construtivo. Mas, evidentemente, também Tânatos, a morte ou destruição, é um caminho para o todo [40].
Para encerrar este capítulo gostaria de ressaltar que com o conceito de todo acaba a dualidade fins/meios que tanto problema tem causado à filosofia. Agora fins e meios são idênticos. Ao mesmo tempo em que a união se configura como meio para chegar ao todo, ela própria, a união forma a trama da qual o todo é composto. Cabe lembrar que o todo nada mais é do que a união de tudo. Um bom exemplo para esta idéia é a perspectiva histórica. Juntando tudo, desde Zoroastro, o judaísmo, cristianismo, budismo, islamismo, até Kant e Hegel, surge alguma coisa que se identifica com o caminho trilhado.
[1] Na verdade, na natureza também existe a quebra de padrões. Só que a velocidade costuma ser muito mais lenta, mormente entre os animais superiores.
[2] Tanto isto é verdade que uma das recomendações gerais e universais para situações de emergência consiste em manter a calma e evitar o pânico.
[3] O big bang pode não ter significado o começo de tudo, pois pode ter havido alguma coisa antes. O mundo pode ser uma sucessão interminável de movimentos de expansão e retração.
[4] De preferência alguém muito distante, cuja culpa seja difícil de verificar.
[5] Ao dizer que eu sou responsável pelo erro dos outros eu estou dizendo que estes erros são resultados de condições que a sociedade e o meio criam. Se eu sou parte desta sociedade, eu também sou responsável pelas condições e, portanto, sou responsável pelos resultados. Junto com as condições vem também um conjunto de regras que guiam o nosso comportamento. A negação desta perspectiva implica na criação do mágico ou misterioso, pois, neste caso, quem seria responsável pelas condições e pelo código de ética por elas criado?
[6] Um boi faminto pode significar uma grama feliz por não estar sendo comida.
[7] Se eu sou parte do todo, se eu estou imerso no todo e o todo está imerso em mim, o sofrimento à minha volta também me faz sofrer. Não se trata de acabar com o sofrimento, porque isto, como vimos, é impossível. Dentro de uma visão totalizante, e levando em conta as dimensões espaço/tempo, trata-se de diminuir o sofrimento. Conforme veremos, sofrimento é cisão. Trabalhando no sentido da união, estamos diminuindo o sofrimento.
[8] Ditado semelhante visando ressaltar a transitoriedade do bom e do mau é não há nada como um dia após o outro. Ditados visando a transitoriedade do mau são, evidentemente, mais frequentes, como, por exemplo, há luz no final do túnel, ou então, depois da tempestade vem a bonança, mas, a moral judaico-cristã alerta também contra a excessiva euforia que cerca o bom. Entre outros temos, por exemplo, não há rosas sem espinhos, ou então, não há carne sem osso, nem farinha sem caroço.
[9] Cabe lembrar que movimento implica em modificação.
[10] Quando uma máquina se modifica devido a uma programação interna do seu mecanismo, não se costuma falar de modificação da máquina. Um motor que gira está constantemente em situação diferente, mas nem por isto está se modificando, porque a sua essência é girar. Tomemos, por exemplo, um robô programado para mudar a sua aparência. Não podemos dizer que o robô não é mais o mesmo, meramente pelo fato dele mudar de cor ou seus cabelos crescerem. Na nossa linguagem corrente a modificação está sempre associada a fatores externos.
[11] Como já foi dito na introdução, é difícil se chegar à compreensão de um conceito amplo como o todo através de uma ferramenta limitada como a lógica. A lógica é um modelo para o pensamento, mas, o pensamento é muito mais do que a lógica. O pensamento não se limita à lógica, mas, grande parte das vezes, dela se aproxima, e é por isto que ela foi aqui utilizada. Lembremo-nos que o método utilizado neste livro é o das aproximações sucessivas, ou seja, o objetivo não é chegar ao âmago da verdade, mas sim, aproximar-se dela. E é como aproximação que a lógica costuma funcionar.
[12] Uma questão interessante que se coloca é se o conceito de todo é equivalente ao conceito de universo. Eu diria que o universo é um conceito físico enquanto o todo é um conceito filosófico. Por exemplo, faz sentido do ponto de vista da física dizer que algo inclui a sua própria modificação? Cabe dentro da física a idéia de que a modificação do universo estaria contida dentro do universo e que este conteria tanto o ser como o não-ser? Outra diferença diz respeito ao tempo. Os físicos costumam mencionar a idade do universo. Já o todo, como não se modifica, é atemporal.
[13] Como observação à observação anterior devo dizer que como qualquer evento, inclusive a sua modificação, é carregada pela luz, e como a luz caminha no universo, tanto o evento como a sua modificação estão em algum lugar do universo. A pergunta feita anteriormente, se o universo inclui a sua modificação teria, portanto, que ser respondida afirmativamente.
[14] Aqui novamente cabe contrapor esta visão à perspectiva da escola eleática. Não se trata de confrontar essência com aparência. Pelo contrário, a essência revela-se justamente através da multiplicidade da aparência.
[15] No aquário existe uma permanência, uma constância na infinita quantidade de movimentos. Existe um momento em que a soma das trajetórias, o novelo das linhas traçadas pelos peixes, reduz-se a um ponto (se, por exemplo, as trajetórias ficarem registradas em uma tela de computador, rapidamente o aquário se transformará em um grande borrão, ou seja, uma espécie de ponto ampliado). Se os peixes podem estar em qualquer lugar, então eles estão em lugar nenhum.
[16] Lembremo-nos do poema de Gregório de Matos que a parte só existe porque existe o todo do qual ela é parte.
[17] O cercadinho tinha aproximadamente um metro quadrado, era forrado com um colchonete e delimitado pelos quatro lados por uma espécie de cerca de aproximadamente um metro de altura. Era, na verdade, uma espécie de jaula. Talvez, por isto, tenha caído em desuso, preferindo-se hoje a babá eletrônica, a televisão. A babá de carne e osso não fazia parte do arsenal dos meus pais, que desconfiavam de tudo que estivesse ao sul da Baviera.
[18] Estorvo é algo que a gente quer colocar para fora, como o cocô. Estorvo é algo que a gente quer afastar de nós e, por isto, a gente o põe na jaula ou, melhor, no cercadinho. Apesar destas ideias cabe dizer que a criança costuma ver o cocô produzido por ela como algo bom e positivo. Ou seja, para a criança cocô não necessariamente é algo negativo.
[19] Talvez a mais importante instância de cisão com a natureza seja o parto (veja introdução). O parto é a expulsão do feto de seu habitat natural, é a quebra física de um vínculo com a natureza.
[20] A questão da perda de tempo é da maior importância e permite uma crítica de uma sociedade que considera perdido o tempo que se dedica àquele que representa a sua continuidade.
[21] Esta idéia talvez seja mais facilmente compreensível se considerarmos o conceito freudiano de libido. Aqui propositalmente evitei estes conceitos, porque, como veremos mais adiante, dentro da nossa visão, corpo é muito mais do que libido.
[22] Esta afirmação pode ser melhor entendida se tomarmos eu e não-eu como mundo interior e exterior respectivamente
[23] Aqui a solução talvez fosse a afirmação ao invés da negação. Ou seja, integrando o eu e o não-eu, mundo interior e mundo exterior, estamos possibilitando uma solução melhor do que aquela obtida através da negação.
[24] Evidentemente a cabeça pode também dar origem a um movimento de união na medida em que fatos isolados da realidade podem ser unidos através do pensamento. Uma visão de futuro, portanto, uma fantasia, que se transforma em realidade é outro exemplo de como fantasias podem ajudar a integrar presente com futuro.
[25] Dor é cisão, é partição e fracionamento, é a parte negando o todo. Em um sentido contrário temos a união com o todo, gerando paz e bem-estar. De uma forma um pouco esquemática e usando idéias freudianas poder-se ia dizer que dois conjuntos de forças básicas regem o mundo: Eros e Tânatos. Eros significa união e paz. Tânatos é cisão, fragmentação e, portanto, morte, dor e sofrimento.
[26] Esta ideia tem alguma semelhança com o Imperativo Categórico de Kant. De uma forma sintética Kant dizia que um comportamento é válido para um indivíduo quando ele pode ser estendido para os demais. Aqui vemos claramente a dimensão espaço mencionada neste parágrafo. Existe também alguma semelhança com o conceito de sustentabilidade, tão em moda hoje em dia. Todos estes pensamentos implicam em estender o ato ou o comportamento nas dimensões espaço/tempo para verificar se eles continuam sendo viáveis. Ou seja, a extensão/difusão de uma ideia na dimensão espaço/tempo ajuda a validá-la.
[27] Cabe lembrar que aqui partimos do princípio de que tudo está interligado. Uma mentira traduz falta de confiança em fazer a outra pessoa conhecer a realidade do jeito que nós a conhecemos. Esta falta de confiança necessariamente vai se refletir no tipo de relação que nós vamos manter com esta pessoa.
[28] Nos kibutzim foram feitas algumas experiências neste sentido, ou seja, as crianças passavam o dia inteiro em creches/escolas comunitárias. Mas, à noite as crianças voltavam para o seio da sua família. Deve ser dito que o kibutz não aboliu a célula familiar, nem tampouco a monogamia. Além disso, a experiência dos kibutzim, no seu sentido mais radical de um compartilhamento da propriedade, produção, lazer, vida familiar e cultural não funcionou e existe hoje em dia tão somente sob a forma mais suavizada de cooperativa de produção agrícola.
[29] Na educação infantil existem experiências de teor semelhante. O uso da força para proibir uma criança de ter determinado comportamento, frequentemente só reforça o comportamento que se quer evitar. Em contrapartida, educar através do exemplo, explicar e justificar, aceitar e deixar a criança viver as consequências do seu ato, podem funcionar melhor.
[30] Dizer que os indígenas são inferiores porque foram subjugados pelos povos ditos civilizados é resultado de um darwinismo social míope, pois nada garante que no futuro não se volte a uma vida mais comunitária.
[31] Evidentemente nada é eterno e certamente a civilização humana também não o é. O sol lentamente esfria, e com o esfriamento do sol vai-se a vida do nosso planeta, ao menos assim como a conhecemos.
[32] A ética da reciprocidade é também conhecida como regra de ouro.
[33] Veja, por exemplo, http://www.gotquestions.org/Portugues/Regra-de-Ouro.html.
[34] Aqui eu distingo dois tipos de procedimento. O primeiro é aquele que rege a espécie e eu chamo este procedimento de obediência a leis e regras. O segundo procedimento é o que rege a individualidade. Evidentemente os limites entre estes dois procedimentos são difusos.
[35] Veja www.bibliaonline.com.br. Veja também pg. 132 Bíblia Sagrada, Sociedade Bíblica do Brasil, 1995.
[36] No próximo capítulo Racionalidade e Realidade mostraremos que o todo é a soma de tudo o que existe, ou seja, de toda a realidade. Trata-se, portanto, da soma de tudo o que é físico.
[37] Dentro do pensamento ecológico existe uma expressão que traduz esta ideia: pensar globalmente, agir localmente.
[38] Não é esta a idéia que está por trás da concepção de que é a livre concorrência que fornece a base da sociedade, ao menos, da sua vida econômica?
[39] Tratar-se-ia aqui de um Darwinismo levado às suas últimas consequências em que, em um estágio final, as espécies estariam de tal forma adaptadas ao meio que já não haveria mais aperfeiçoamento. Neste caso cessaria a evolução, ou seja, o movimento. Vemos, mais uma vez, como o todo está associado à idéia de imobilidade. Realmente, verifica-se que espécies bem adaptadas ao meio, quase sem predadores ou inimigos naturais, mantém as suas características básicas quase inalteradas ao longo do tempo.
[40] A alternância de movimentos de união e cisão, Eros e Tânatos, será mencionada várias vezes neste livro. Veja por exemplo, Capítulo 4, seção O papel terapêutico do entendimento.
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